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Patrícia Reis (Quest. Proust)

Proust disse que uma necessidade de ser amado e cuidado era a sua característica mais marcante. Mais do que ser admirado. Qual é a sua?

 

O mais marcante e que molda os dias é o facto de ser mãe de dois rapazes. Existe uma Patrícia antes da maternidade e uma outra depois. Há dias em que tenho saudades da primeira, mas acredito que a segunda é melhor.

 

Qual é a qualidade que mais aprecia num homem? Proust falou de “charme feminino”...

 

O humor aliado à inteligência é um cocktail irresistível.

 

E numa mulher? Ele mencionou “franqueza na amizade” – golpe baixo para as mulheres ou sagaz comentário?

 

Na amizade não há golpes baixos e as mulheres, como os homens, não são todas iguais. A resistência é uma qualidade feminina que aprecio cada vez mais.

 

Ternura, desde que acompanhada de um charme físico..., era o valor mais precioso nas amizades de Proust. E nas suas?

 

Na amizade, como no humor, o exercício da verdade é o que mais conta. O resto vem por acréscimo. A beleza não sendo fundamental, ajuda muito.

 

Vontade fraca e incapacidade para entender, foi a resposta que deu quando lhe perguntaram qual era o seu principal defeito. Partilha destes defeitos? E que outros pode apontar?

 

Não partilho dos defeitos de Proust, talvez por falta de ego. Sou dramaticamente impulsiva e, tantas vezes, cometo erros por falta de tranquilidade.

 

Qual é a sua ocupação favorita? Amar, disse ele...

 

Estar com o meu marido, escrever, rir e ralhar com os meus filhos.

 

Qual é o seu sonho de felicidade? A resposta de Proust é esquiva: não fala de molhar madalenas no chá e diz que não tem coragem de o revelar... Mas que não é grandioso e que se estraga se for posto em palavras. O que é que compõe o seu quadro de felicidade?

 

A família faz de moldura e no quadro podemos ver um dia de sol, livros para ler, um sítio confortável, um bom vinho tinto, figos com presunto, o mar e um computador paciente.

 

O que é que na sua cabeça seria a maior das desgraças? Proust respondeu, aos 20 anos: “Nunca ter conhecido a minha mãe e a minha avó”. Mas aos 13 respondeu apenas quando lhe perguntaram pela maior dor: “Ser separado da mamã”.

 

A pior desgraça seria sobreviver aos meus filhos.

 

Quando lhe perguntaram o que é que gostaria de ser, respondeu: “Eu mesmo”, aos 20, e Plínio, o Novo, aos 13. As suas respostas seria diferentes? Quem gostaria de ter sido aos 13 anos? E agora?

 

Aos 13 anos gostaria de ter sido uma personagem sedutora de Jorge Amado. Hoje quero apenas tentar ser eu.

 

Proust gostaria de viver num país onde a ternura e os sentimentos fossem sempre correspondidos. O país onde gostaria de viver existe deveras? Onde fica?

 

O país para viver é vizinho de Espanha, não é muito grande, mas tem uma bela História. Quem cá vive parece não querer perceber como é um sítio maravilhoso.

 

Quais são os seus escritores preferidos? No momento em que respondeu, Proust lia com especial prazer Anatole France e Pierre Loti.

 

Agustina Bessa-Luís, Inês Pedrosa, Lídia Jorge, José Eduardo Agualusa, Mia Couto... e mais umas centenas que não cabem em duas linhas. Para falar só dos preferidos.

 

E os poetas? Ele mencionou dois, e um deles faz parte das listas eternas: Baudelaire.

 

Ruy Duarte Carvalho, José Agostinho Baptista, José Tolentino, Nuno Júdice, Fernando Pinto do Amaral. É infame passar ao lado destes poetas.

 

Qual é o seu herói de ficção preferido? Aos 13 anos, Proust falou de Sócrates e Maomé como figuras históricas de eleição... E aos 20, referindo-se às mulheres, elegeu Cleópatra.

 

Corto Maltese. Tem tudo: mistério, sabedoria, cultura, errância, sedução, incompreensão...

 

Quem é o seu compositor preferido? Aos 13 anos, escreveu Mozart, aos 20 Beethoven, Wagner, Schumann. Mas Proust não podia conhecer Tom Jobim ou Cole Porter...

 

Bach, o pai de todos.

 

Proust não foi contemporâneo de Rothko. E escolheu Da Vinci e Rembrandt como pintores favoritos.

 

Graça Morais pela força, pela procura do universo das mulheres e ligação à terra.

 

Quem são os seus heróis da vida real? Ele apontou dois professores.

 

Os meus filhos. Aprendo com eles todos os dias.

 

“Das minhas piores qualidades”, respondeu o escritor da “Recherche” quando lhe perguntaram do que gostava menos. E no seu caso?

 

De me recordar de momentos maus.

 

Que talento natural gostaria de ter? As respostas de Proust são óptimas: “Força de vontade e charme irresistível”!

 

Gostaria de ter a vocação para a tranquilidade.

 

Como gostaria de morrer? “Um homem melhor do que sou, e mais amado”.

 

Com a consciência tranquila.

 

Qual é o seu actual estado de espírito? “Aborrecido. Por ter que pensar acerca de mim mesmo para responder a este questionário”. Pensar em quem é traz-lhe aborrecimento?

 

Às vezes canso-me de mim. Outras vezes reconheço algum valor. Na maioria das vezes, ando à procura, a ver se não me perco.

 

Proust era condescendente em relação às faltas que conseguia compreender. Quais são aquelas que irreleva?

 

Por princípio: todas. Excepção: traições e sucedâneos.

 

Por fim, preferiu não responder qual era o seu lema, temendo que isso lhe trouxesse má sorte... É supersticioso como Proust? O que é que o faz correr?

 

Sou supersticiosa. O meu lema é: não faças aos outros o que não queres que te façam a ti. Corro atrás das coisas boas e das minhas gatas quando elas não querem ser apanhadas.




Publicado originalmente no Jornal de Negócios no Verão de 2010

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