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Rentes de Carvalho (sobre Portugal)

Rentes de Carvalho nasceu em 1930. Exilou-se por motivos políticos. Viveu no Rio de Janeiro, S. Paulo, Nova Iorque e Paris. Vive em Amesterdão deste 1956. O seu reconhecimento como escritor aconteceu primeiro na Holanda (foi um político holandês que falou dele a Durão Barroso...). Em Portugal é cada vez mais lido e reputado. Ernestina, La Coca ou Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia são alguns dos seus títulos mais famosos. O mais recente é O Rebate.

 

 

Os portugueses “são excessivamente sentimentais, com horror à disciplina, individualistas, talvez sem dar por isso, falhos de espírito de continuidade e de tenacidade na acção”. Salazar, 1938. Continuamos a ser assim?

Continuamos. Salazar tinha um tão bom conhecimento de quem somos e como somos que, não fosse a cadeira ter quebrado, tivesse ele chegado a centenário, ainda estava no mando. E nós contentes com o paizinho, pois, como disse Pessoa, somos dos que “quem acorda com pouca vontade de trabalhar”. Gostamos de ter paizinhos que de nós cuidem e nos dêem uns trocos.

 

A democracia é de equilíbrio periclitante em tempo de crise?

No tempo em que vivemos creio que não. Mas acontece que a democracia permite  formas mais subtis, eficazes e perigosas para a manipulação e coerção dos indivíduos. Os grupos sem rosto que detêm o poder gozam de quase todas as vantagens da ditadura, sem o empecilho de tiranetes.

 

Os números não nos deixam ficar bem quando olhados de fora. O que é que diria a nosso favor?

Como eu próprio, levado pelas circunstâncias, há uns sessenta anos que “olho de fora”, mas “sou de dentro”, custa-me a ver com clareza. A nosso favor talvez possa dizer que permanecemos adolescentes, recusamos a realidade, somos os alegres descendentes dos tripulantes das caravelas e dos bacalhoeiros que achavam que não valia a pena aprender a nadar.

 

Tem ideias miraculosas para salvar a Pátria?

Creio que sim. Em 1995 entrevistei a Mãe Maria, mais conhecida por Santa da Ladeira, que me afirmou – possuo a gravação – que ia muitas vezes ao Céu e, ao fim da estrada do Céu, viu Deus! "O Pai Eterno, sentado num grande trono, apresentava-se com barbas muito crescidas, tendo à sua direita Jesus Cristo e à esquerda a Virgem e São José. Junto de Deus Pai há uma caneta e uma espécie de olho que se transforma em espelho, tendo em frente uma pomba com a cabeça pequenina, que irradia uma luz que ilumina o Céu inteiro. Os anjos tocam trombetas, entoam cânticos e têm umas letras nas asas, cujo significado não estou autorizada a desvendar."

Temos Fátima, temos a Santa da Ladeira, se ainda não aconteceu o milagre da salvação é  porque, em vez de pedir logo, primeiro queremos ver o Benfica-Sporting.

 

O Zé Povinho continua a ser uma boa imagem do que somos?

Não. O Zé Povinho é um tosco, com o 25 de Abril perdeu a validade. Já somos europeus em demasia, e se nos falta o dinheiro, temos o visual. Na minha opinião, mais que o velho Zé,  um qualquer cantor pimba seria representativo da imagem que oferecemos.

 

Como o Zé Povinho, faria um manguito à Moody’s? Faria manguitos a quem?

Não o faria à Moody's nem a ninguém, porque o manguito demonstra impotência. É, aliás, um gesto pesado e obsoleto, pouco corrente fora de Portugal. O dedo médio tem mais ligeireza, e demonstra certo modernismo quando acompanhado de um "Fuck!"

 

Somos um povo que não se sabe governar? Qual é o enguiço? Parece ser assim há séculos...

Para saber governar é necessário saber obedecer, não recear a autoridade de quem merece tê-la, dar importância igual aos direitos e aos deveres, levar a sério a união, a solidariedade,

o respeito do bem comum. E assim por diante.

 

“Em Portugal a aventura termina na pastelaria”, frase famosa de Alexandre O’Neill. É forçosamente assim? Quando é que a sua aventura acaba na pastelaria? Quando é que foi além da pastelaria?

Fui além da pastelaria por volta dos quinze anos e ainda não parei de correr. Fujo dela como o diabo da cruz.

 

Como é que o ser português aparece no que faz?

O que mais faço é a escrita, por isso fácil se me torna afirmar e provar que sou português dos pés à cabeça, e português me reconheço no bom, no mau, no cómico, no tonto e no infeliz que à nossa gente se aponta. Com uma agradável excepção: a de me saber isento de inveja.

 

Portugal é o país do desenrasca. Você é adepto do desenrasca?

Detesto. Há no espírito do desenrasca o desprezo pela coisa bem feita, pela pontualidade, a obrigação, o cumprimento do prometido. O desenrasca é pueril no comportamento e na esperança de que o enrascado não se vai zangar, talvez até seja capaz de achar graça. O desenrasca é um garoto, no sentido pejorativo da palavra.

 

Temos uma veia sebastiânica inflamada? Continuamos à espera de alguém (que venha das brumas ou de outro lugar qualquer) para nos resolver a vida?

Existe essa veia sebastiânica no imaginário colectivo, mas o português está-se muito nas tintas para a salvação do país e a resolução das crises. O que ele de facto ambiciona é ganhar o Euromilhões e que Portugal fique como está, pois só assim haverá contraste que valha a pena.

 

No discurso Causas da decadência dos Povos Peninsulares Antero de Quental fala de um “conservadorismo religioso que sufocou o pensamento inventivo”. Fala de submissão e resignação. Diz que a abundância dos Descobrimentos não nos ensinou a lidar com o dinheiro que resulta do trabalho honesto. Mutatis mutandis, estas são ainda razões do nosso declínio?

Lidar com o dinheiro que resulta do trabalho honesto? Que dinheiro? Que paga recebia o trabalhador? O filósofo delira. A abundância dos Descobrimentos e o ouro do Brasil foram para as bolsas da Coroa e da nobreza, o povo não viu um tostão. A cornucópia da União Europeia coube aos senhores políticos e aos seus sequazes. O Manel e a Maria têm o cartão de crédito e o desemprego.

 

Aristides Sousa Mendes quase foi eleito maior português de sempre”. O vencedor foi Salazar. Votaria em quem?

Não saberia votar, pois estou pouco ao corrente. Tempos atrás censuraram-me por não reconhecer uma viúva célebre, agora tenho de confessar que ignoro quem seja o senhor Aristides. O meu voto seria nulo.  

 

Precisamos de ser mais organizados, mais empreendedores, mais produtivos. É possível?

É possível, mas não acontece do dia para a noite. É necessário grande esforço, muita escola, mudanças drásticas de hábitos e mentalidade, entrar no servicinho às oito – às nove já é tarde – abolir os almoços de duas horas, tirar das lojas aquele cartaz do "Volto já"…

 

A culpa é dos políticos?, a culpa é das elites?, a culpa é de quem se endivida e trabalha pouco? A culpa é da Europa?, a culpa é da desregulação do sistema financeiro? A culpa não é de ninguém e vai morrer solteira?

Com variações de grau a culpa é de todos nós.

 

 

Publicado no Jornal de Negócios no Verão de 2012 

                                                                                                         

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