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Henrique Raposo (s/ Portugal)

Henrique Raposo nasceu em 1979. É licenciado em História, mestre em Ciência Política. Colabora regularmente com a imprensa. No livro Portugal do Avesso reúne algumas das crónicas que escreveu para o Expresso, desde 2008. 

  

Os portugueses “são excessivamente sentimentais, com horror à disciplina, individualistas, talvez sem dar por isso, falhos de espírito de continuidade e de tenacidade na acção”. Salazar, 1938. Continuamos a ser assim?

Não aceito a tese do “falhos de espírito de continuidade e de tenacidade na acção”. Se não tivessem tenacidade na acção, os portugueses não teriam transformado Portugal numa das histórias de sucesso da segunda metade do século XX. Entre 1950 e 2000, Portugal foi um dos países do mundo que mais evoluíram, que mais cresceram, sobretudo entre 1950 e 1973 e entre 1986 e 1992. Isto não é uma opinião. É um facto. A outro nível, julgo que a parte do “excessivamente sentimentais” continua de pé.

 

Em que sentido?

Ainda hoje, o debate público é excessivamente sentimental. Os factos e a apresentação de argumentos perdem sempre para a gritaria emotiva e para a presunção de superioridade moral. Há demasiada gente que se julga acima dos adversários e, por isso, nem sequer se digna a entrar num debate racional – essa coisa que implica a apresentação de argumentos, provas, números, etc. (exemplo: a discussão em redor da Maternidade Alfredo da Costa; a sustentabilidade da Segurança Social).

 

Cresceu em democracia. Tem uma boa definição de democracia?

A democracia assente no constitucionalismo liberal (a única concepção de democracia que não acabou numa orgia de sangue) deve ser a gestão civilizada das diferenças. A riqueza inerente ao pluralismo tem uma consequência inevitável: o pluralismo gera conflito entre as diferentes concepções de “bem”, entre as diferentes sensibilidades. Até prova em contrário, a democracia constitucional é o melhor instrumento político para a gestão desse conflito normativo. Permite a alternância no poder e, acima de tudo, impõe regras de conduta institucional aos detentores do poder. Em Portugal, julgo que se criou uma concepção de democracia que não respeita o pluralismo.

 

Porquê?

Criou-se um ambiente que procura, de forma doentia, um consenso absoluto, uma verdade absoluta imposta a todas as forças. Em vez de gerir as diferenças, a III República especializou-se em abolir as diferenças. Não por acaso, o nosso regime tem uma qualidade institucional fraquíssima – um dado visível, por exemplo, na recente polémica sobre o Tribunal Constitucional, nas constantes retaliações ilegítimas de políticos sobre o jornalismo, na incapacidade institucional do Tribunal de Contas para parar negócios obviamente prejudiciais ao tesouro público, na incapacidade do Banco de Portugal para bloquear – a tempo – os BPN desta vida, etc.

 

Provavelmente é muito novo para se lembrar do FMI em Portugal no começo dos anos 80. O que lhe contaram da crise tem alguma semelhança com a crise que estamos a viver?

A crise que os meus pais viveram nos anos 80 foi pior do que esta. O país era mais pobre. Mesmo com a década perdida 2000-2010, nós, neste momento, temos mais dinheiro do que os portugueses dos anos 80. Eu tenho memória de 85 e anos seguintes, e posso dizer que a vida era mais dura do que é hoje. Nestas coisas, convém meter as nossas dores em perspectiva. Após 1985, ou seja, após o programa “troikiano” daquele tempo, Portugal teve uma fase dourada de crescimento que durou até – grosso modo – 1999.

 

Os números não nos deixam ficar bem quando olhados de fora. O que é que diria a nosso favor?

Depende dos números. Há números que falam muito bem sobre Portugal: os números sobre a nossa capacidade para integrar emigrantes, os números que demonstram a evolução de Portugal no campo da saúde. Portugal foi uma das histórias de sucesso da segunda metade do século XX; demos um pulo económico e um pulo político (em 1960, éramos um pária internacional; em 2012, fazemos parte dos clubes democráticos). Problema? A hegemónica influência da narrativa queirosiana impede que os portugueses vejam o seu passado recente através desta perspectiva. Um facto positivo sobre Portugal é, muitas vezes, um facto incómodo para o português. A narrativa queirosiana apenas permite a percepção de factos negativos sobre Portugal.

 

Dizer mal do país é para muitos uma espécie de desporto preferido...

Quando um estrangeiro diz algo de positivo sobre Portugal, a reação tipicamente queirosiana é esta: “Ah?! Estás bem? Tens certeza do que estás a dizer? Mas porque é que estás a escolher Portugal?”.

 

Precisamos de ser mais organizados, mais empreendedores e produtivos. É possível?

Claro que é possível. Aliás, isto já está suceder neste momento. As nossas exportações estão a subir em flecha. Isto quer dizer que milhares e milhares de empresas portuguesas estão mais produtivas, mais empreendedoras e mais organizadas. Problema? Se uma fábrica fechar, as TVs aparecem. Se uma fábrica tiver um enorme sucesso, as TVs não aparecem.

 

O Zé Povinho continua a ser uma boa imagem do que somos?

O Zé Povinho nunca foi uma boa imagem do que somos. Eça e a restante Geração de 70 criaram uma “identidade” portuguesa marcada pela decadência, pela miséria, pela constante corrupção, por gente mole e decadente. No fundo, a choldra que nunca muda e que foi sempre assim: uma choldra de gente branda e cobarde. O Zé Povinho é a representação popular desta identidade. Ora, a história portuguesa entre 1807 e 1933 foi tudo menos branda e mole. Entre 1807 e 1851, Portugal foi palco de invasões, de levantamentos populares contra essas invasões, de uma guerra entre Inglaterra e França, de uma guerra civil entre miguelistas e liberais, de várias guerras civis entre a direita liberal e a esquerda liberal. Durante este período (e até depois), a lei e ordem só existiam em Lisboa e no Porto. O resto do país era controlado por bandos de guerrilheiros transformados em bandidos (é rever “Alentejo sem Lei”, de João Canijo). Entre 1851 e 1890, tivemos um período de calma, mas a agitação voltou após o Ultimatum e nunca mais deixou o país, atingindo novamente o zénite com a violência da I República. Em suma, a metáfora do Zé Povinho anula quase século e meio de anarquia, violência e guerra. O Zé Povinho anula o Portugal retratado por Camilo Castelo Branco.

 

Aristides Sousa Mendes quase foi eleito o maior português de sempre. O vencedor foi Salazar. Votaria em quem?

Aristides era uma boa escolha, mas repare como não é o herói nacional que devia ser. Onde estão as séries de TV sobre ele? Onde estão as biografias e os romances? Os miúdos na escola sabem quem é Aristides? Mais uma vez, aparece aqui a nossa incapacidade para aceitarmos algo de positivo sobre Portugal. Somos tão cínicos que rotulamos de “totó” a ideia de um “herói português”.

Mas existem outras hipóteses. No século XIX, talvez escolhesse Camilo Castelo Branco ou Fontes Pereira de Melo. O primeiro retratou Portugal como ninguém através da sua prosa. O segundo deu finalmente alguma paz constitucional e algum progresso ao país através da sua governação. No século XX, talvez escolhesse Paula Rego. Quando se olha para aqueles quadros, ficamos com aquele medo esquisito, o medo de quem está perante uma coisa grandiosa. E, depois, quando começamos a pensar nos quadros, vemos ali muitos dos nossos recalcamentos colectivos.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios no Verão de 2012

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