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Miguel Amado (sobre Portugal)

Miguel Amado é comissário e crítico de arte contemporânea. Foi comissário da representação portuguesa na Bienal de Veneza do próximo ano (a artista é Joana Vasconcelos). Começou nos Encontros de Fotografia de Coimbra, transformou a Fundação PLMJ, de Lisboa, numa instituição de referência, frequentou o Royal College of Art, foi contratado para um dos museus da primeira liga mundial: a Tate (fixando-se num dos pólos regionais, a Tate St Ives).

 

 

Quem é que tem poder em Portugal? Os banqueiros, os políticos, os artistas, a construção civil, as pessoas que aparecem na televisão?

 

Os artistas? Até será lisonjeiro pensar-se que os artistas têm poder, por pouco que seja, mas o poder que têm, efectivamente, é nenhum. Ao longo da história, quem teve dinheiro teve poder, e os artistas nunca tiveram dinheiro. Por isso, se há quem tenha poder em Portugal, são os banqueiros e figuras sucedâneas, empresários e administradores de empresas. A questão está, primeiro, na não tomada de consciência que são tais personagens que têm poder e, depois, no modo como elas o exercem. O problema é que, por razões históricas, o individual preside sobre o colectivo e, assim, os interesses particulares sobrepõem-se aos da comunidade.

 

Sem falsas modéstias, e partindo do princípio que, pelo menos no nosso quintal, todos temos poder: considera que é uma pessoa poderosa? Em que é que se baseia o seu poder?

 

Nunca busquei o poder. Por sistema, digo o que penso, não frequento os meios dos poderosos através dos quais poderia ser reconhecido como tal e estou do lado dos desprivilegiados. Duvido das minhas opiniões e não tenho certezas, ao contrário de muitos... Mas não fico à espera que as coisas aconteçam como se tivesse um direito natural a elas, pelo que procuro ser melhor e fazer mais. É daí que advém o mínimo poder que tenho na área em que trabalho (fora dela, aliás, ninguém me conhece e, por isso, se associarmos reconhecimento a poder, não tenho qualquer poder). A minha função é de mediação. Seleccionar é um dos modos de a executar, e é aí, na possibilidade de escolher A em vez de B, de oferecer algo a C em vez de a D, de falar de E em vez de F e por aí fora, que assenta o discricionarismo que eventualmente representa um pouco de poder. Importa, todavia, chamar a atenção para o seguinte: nunca exerço o poder como se exercem os “pequenos poderes” em Portugal.

 

Refere-se a quê?

 

Aqueles instantes do quotidiano em que outrem nos sujeita a si só porque sim. Ao invés, de mim pode esperar-se sempre diálogo ou debate. E nunca deixo alguém sem resposta a qualquer pergunta que me seja colocada.

 

O desejo de poder é indissociável de úlceras, cabelos brancos, rugas na testa? Ser ambicioso ainda é pecado? Porque é que se aposta “naturalmente” a palavra “desmesurada” a ambição?

 

Poder e ambição não são sinónimos nem sequer têm que andar lado a lado. Talvez o corpo pague pela falta de juízo, como dizia o António Variações, e o desejo de poder se reflicta em maleitas físicas várias, mas a ambição parece-me que escapa a tal provação. O que é a ambição senão a vontade de ser melhor – não o melhor, apenas melhor – no que se faz e no que se pensa? Por razões históricas, o espírito de iniciativa nunca vingou em Portugal, preferindo-se o miserabilismo ao sucesso. O atavismo do país faz com que não só se desdenhe dos empreendedores como também se lhes dificulte a existência, e que ninguém se mobilize para aplaudir mas todos se coloquem na linha da frente para denegrir. O rectângulo à beira-mar plantado é pequeno e passar Vilar Formoso custa muito. Por isso, mais vale ser pequeno e dizer mal dos outros do que arriscar abrir a cabeça ao mundo e perceber a tacanhez da existência que se protagoniza.

 

Ter poder é poder escolher não ter patrão?

 

Ou ser patrão de si mesmo... Não sei se é um poder porque, aqui, a palavra insinua privilégio e não creio que quem não tem patrão seja um privilegiado no sentido comum do termo. O facto é que, no meu caso, não depender de alguém, não funcionar de acordo com lógicas corporativas ou não criar rotinas, gera uma sensação de liberdade da qual dificilmente prescindiria. O reverso da medalha é a conversão da lógica do “trabalho das nove às cinco” numa dinâmica de “24 sobre 24”. A um projecto sucede-se outro e outro, há que constantemente encontrá-los e os prazos para cumprir cada um emergem como uma espada de Dâmocles.

 

A sua percepção do que é o poder alterou-se desde que vive fora de Portugal?

 

Vivi em cidades como Londres e Nova Iorque durante vários anos e aí é que se percebe o que é poder. Em Nova Iorque, nunca o cliché se terá aplicado tão bem: a cidade, efectivamente, nunca dorme. O adjectivo que melhor a descreve é “excesso”, mas não se pense que tal é fascinante, pois acaba por se soçobrar perante tão esfusiante realidade (mais própria da ficção científica).

Em Londres, não se quer saber de nada a não ser de si mesmo, mas dá-se a ideia do contrário. Nunca senti o “complexo do império” tão impiedosamente como ali. A metáfora a que recorro frequentemente é que, se for um náufrago, me dão a mão para não me afogar, mas jamais me puxarão para dentro do barco, mantendo-me sempre à tona, ciente da minha dependência.

 

“Yes, we can” – Obama. Foi a força das palavras que elegeu o primeiro presidente afro-americano nos Estados Unidos?

 

Julieta Aranda, uma artista com quem trabalho regularmente, criou uma obra na qual escreve a frase: “No, we can’t”... Concretamente, o que é que mudou nos últimos anos na “política política”? Creio que nada. Sim, já não existem 50 milhões de norte-americanos sem acesso a cuidados de saúde, pelo menos na lei. Sim, mesmo antes da lei, o casamento entre homossexuais assume-se. Contudo, os drones continuam a bombardear alvos cirúrgicos algures num recanto perdido do mundo; os imigrantes ilegais (hispânicos, asiáticos e tantos outros) continuam a sustentar a economia; as mulheres continuam a ter duas semanas, um mês, um mês e meio de licença de parto; as exposições dos museus continuam a ser programadas em função de interesses particulares (dos galeristas ou de coleccionadores).

 

E isso é específico da realidade americana?

 

Os Estados Unidos são um país de extremos: há do melhor mas também há o pior. É claro que, ao nível dos costumes, a eleição de um negro – como, daqui a quatro anos, de uma mulher, espero – representa um passo em frente na diminuição da segregação étnica – ou de género – do país. Como os Estados Unidos são o farol do mundo, talvez essa circunstância sirva de exemplo a outros países, pelo menos nas democracias de matriz ocidental. Porém, o problema maior mantém-se e nunca se resolverá sem uma revolução: os ricos enriquecem cada vez mais e os pobres empobrecem cada vez mais. E, quanto a esta distribuição desigual dos rendimentos, Obama nada pode fazer.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios no Verão de 2012

 

 

 

 

 

 

 

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