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Álvaro Santos Pereira

Álvaro Santos Pereira é o tipo de entrevistado que não conhece a entrevistadora, e que assume uma inversão de papéis durante a sessão fotográfica. Pergunta-me sobre o regime em que trabalho (freelance), há quanto tempo faço o que faço (há anos), o flow da massa para trás e para a frente. Porque é que ele faz tantas perguntas?

Diz, com ar de quem deixou Viseu há muitos anos: “Não me quer tratar por Álvaro? Uma coisa de que sempre gostei no mundo anglo-saxónico é que não há senhores engenheiros, nem senhores professores, nem senhores doutores. Toda a gente é tratada pelo primeiro nome. Faço questão, quando falo com pessoas em Portugal, que me tratem pelo primeiro nome.”

Combinámos encontrar-nos num café do Chiado. Telefonou dois minutos antes a apontar um atraso de cinco minutos. Eu, a entrevistadora, portuguesa, percebi que estava com um estrangeirado. Ninguém em Portugal se dá ao trabalho de ligar dois minutos antes a avisar que vai chegar cinco minutos depois.  

Ouvi um amolador de facas e tesouras do outro lado do passeio. A imagem era bucólica, longínqua, inesperada no centro da cidade, manhã-não-muito-cedo. Álvaro Santos Pereira deliciou-se a olhar o amolador, a sua perícia, não se irritou com o barulho. Em Vancouver não há disto.

Quando chegou tinham passado não cinco, mas quinze minutos sobre a hora combinada. Desculpou-se o mais que pôde, que não gosta de se atrasar, patati, patatá. Eu, a entrevistadora, portuguesa, tinha-me esquecido que um estrangeirado, uma vez que pisa o solo pátrio, facilmente resvala para as práticas locais – em Portugal sê português, logo, chega atrasado.

A entrevista tem o tom provocador que Álvaro Santos Pereira gosta de imprimir às suas aulas. Quem com ferros mata, com ferros morre. Embora aqui não haja ferros, e um estrangeirado esteja habituado a ter uma plateia a desfazê-lo na primeira oportunidade.

Que temos então? Um homem que tem tanto tempo de estrangeiro como de Portugal e que escreveu um livro que pretende que seja seguido pelo Governo de Passos, se Passos for Governo.

Hoje, dia em que lêem esta entrevista, ele está em Vancouver a fazer uma vidinha em que a aventura acaba na pastelaria, mesmo que seja em Portugal, no verso de O’Neill, que a aventura acaba na pastelaria. No momento em que lêem a entrevista, ele estará a levar os filhos à escola, ou a challenge the students, ou sentado num banco de jardim, com o green e o sea e as mountains à volta, a escrever no seu laptop um romance (o seu programa ideal, confessou).

A entrevista aconteceu há cerca de um mês, quando da apresentação do seu livro-receita Portugal, na Hora da Verdade. “Gostaria que o próximo governo adoptasse a maior parte das políticas que advogo no livro”. Não tem padrinhos, mas Catroga esteve na génese do projecto.

Álvaro vai a ministro? On verra.

 

Escreve romances. Gostava que fizesse uma curta narrativa de quem é.

Só faço o que gosto. A escrever romances, a escrever livros de economia, dou sempre o meu melhor. A vida é tão curta que se não fazemos tudo com muita paixão e muito amor, não vale a pena fazê-lo.

 

Esta personagem é alguém que se permite, ou conquistou, o privilégio de só fazer o que gosta?

Infelizmente não. Mas as principais coisas que faço, faço por opção. Lutei por isso. Adoro a minha família, é a minha prioridade principal. Os meus filhos, o Tiago, a Mariana e o Miguel, têm seis, oito e quatro anos. Os meus livros, a seguir à família, são aquilo a que mais me dedico. Adoro ensinar. O que faço nas minhas aulas é always challenge the students. Para perceberem que as coisas não são tão lineares como pensam.

 

Quem é que no seu caminho o desafiou, como tenta fazer com os seus alunos?

A pessoa que mais me influenciou a nível profissional foi o meu orientador no doutoramento, o Professor Richard Lipsey. Na primeira vez que lhe entreguei um paper, um trabalho de investigação, deu-me o melhor conselho que algum dia alguém me deu: “Se estiveres interessado em chegar onde penso que podes chegar, tens de começar a escrever melhor”. Tinha entregue aquilo um bocado à pressa, à portuguesa, sem o cuidado necessário. E ele, apesar de ter feito um elogio, criticou logo.

Gosto, quando proponho políticas públicas, económicas, que critiquem. A crítica é essencial para o debate. No mundo anglo-saxónico existe a tradição de meritocracia. Se não for bom, as pessoas dizem e acabou. Não se tenta agradar desnecessariamente. Mas quando há elogios a fazer, fazem-se, não vale a pena estar com mesquinhices.

 

A tradição anglo-saxónica é a de não fulanizar. Em Portugal, pelo contrário, tem-se a ideia de que um elogio ou uma crítica, é uma coisa que se faz à pessoa, e não àquilo que ela produz.

Exactamente.

 

Nessa experiência internacional, deixou de ser um português educado na cultura portuguesa para passar a estar no centro do mundo, onde as regras são outras e a qualidade dos players também. Quer falar da abertura a esse mundo?

Fui fazer o Erasmus em Inglaterra. A partir daí fiquei. Venho cá muitas vezes, passo férias com a família, extensas. Acompanho o país; às vezes conheço melhor Portugal do que conheço o Canadá, a nível político e económico. Desde que fiquei fora habituei-me à maneira de ser anglo-saxónica. Há muitas coisas de que não gosto, há muitas coisas de que gosto. A transição foi fácil. Gostei muito de ser estudante em Inglaterra.

 

Para quem escreve romances, os seus resumos são muito resumidos (assumo o pleonasmo). Queria mais details. Foi sozinho? Integrou-se num grupo, foi para um campus?

Vivi nos alojamentos do campus, fiz amigos, deparei-me com uma cultura muito diferente. As festas à sexta-feira, ao sábado, montes de barulho, álcool. Eles agradecem muito mais do que nós agradecemos. Nunca se dá o dinheiro às pessoas sem ser na mão; se puser o dinheiro na mesa ou no balcão está a ser rude.

 

O que acha que significa esse entregar na mão?

Não sei. A cultura do mérito impera, há mais respeito pelo indivíduo do que num país latino. No entanto, a cultura deles é mais impessoal. Quando é para quebrar o gelo das relações, os primeiros contactos são complicados.

 

Era um rapaz inseguro quando foi para Inglaterra?

Nunca fui.

 

Sempre teve confiança em si?

Sim.

 

Porque é que acha que era agradável estar à mesa consigo a conversar?

Em Inglaterra? Vinha de Coimbra, onde existe a cultura de falarmos à mesa a noite inteira, com uma cerveja, uns amendoins.

 

Era agradável porque a sua conversa era sedutora?

Sim. Não tive receio de ir para Inglaterra. Quando ia fazer 16 anos consegui convencer os meus pais a estudar em Coimbra, sozinho. (É uma coisa que não faria agora aos meus filhos... Estou a brincar. Foi um passo óptimo, talvez um dos passos decisivos.)

Eles viviam em Viseu. Já vivo sem os meus pais, (vivia com a minha irmã, que tinha ido para a universidade), desde os 16 anos. Isto fez com que desde o princípio me tornasse uma pessoa segura de mim. Gosto imenso de ter desafios novos, estimulam-me.

 

Estamos no capítulo “Retrato do Artista Enquanto Jovem”. Como é que conseguiu convencer os seus pais?

Consegui persuadi-los que para o meu futuro era indispensável que fosse para Coimbra. Para grande desgosto da minha mãe, consegui. Contavam que não aguentasse em Coimbra e que voltasse para Viseu passado umas semanas. Quando saí nunca pus a possibilidade de voltar.

 

O que é que se expectava para a sua vida? De Viseu a Vancouver é um longo caminho.

Viseu também mudou muito nos últimos 20 anos. Quando lá vou, perco-me, desenvolveu-se imenso. Saí de Viseu porque tinha a ambição de criar uma banda rock [riso]. Eram os 16 anos, era normal que fosse assim. Era vocalista de uma banda em Viseu.

 

Quem olha para si com esse ar engomadinho não pode imaginar.

Se vir as fotografias da altura, era diferente. Aos 15 ou 14 fiz uma banda em Viseu, com as guitarras do Sérgio Rebelo (é um dos melhores economistas nacionais, está na Northwestern University). Também é de Viseu e o irmão dele andava comigo na escola.

 

As vossas influências eram o rock inglês, alternativo?

Cantávamos em português. Gostava muito do Peter Gabriel. Só fizemos um ou dois concertos, pintámos a cara, com letras elaboradas. Eu queria ser economista ou músico. Apesar de fazer umas letras, talvez giras, era um péssimo vocalista. Em Coimbra – um novo desafio, cidade nova, a viver sozinho – o sonho da música deixou de ser tão importante. A escrita passou a ser mais importante. Aos 17, 18 anos tive a ideia do meu primeiro romance. Percebi que o meu desígnio era escrever. O que mais gosto, sem dúvida, é sentar-me e escrever.

 

Que autores lia? O que é que lhe interessava?

Os meus favoritos, ainda hoje, são o Garcia Márquez, principalmente um livro que as pessoas não lêem, O Outono do Patriarca. E já li muitas vezes um livro do Salman Rushdie, Filhos da Meia-Noite. Gostava muito de Pessoa. O meu heterónimo preferido? Álvaro de Campos, de longe.

 

Um verso do Álvaro de Campos.

“Se te queres matar, porque não te queres matar?”. É um poema lindíssimo. Infelizmente hoje não leio poesia tanto quanto ficção. (O maior sacrifício que fiz ao escrever o último livro, para além de ter andado um ano a dormir menos, e dos reflexos na família – sabia que este livro tinha que sair o mais cedo possível – foi estar um ano sem ler.) A primeira coisa que fiz quando acabei o livro foi comprar um livro e lê-lo. Comprei um livro de uma escritora nova, americana, Nicole Krauss, The History of Love.

 

Se era para ser um escritor, porque é que estudou Economia?

Sou as duas coisas. O meu fato-macaco é de economista, mas não consigo ver o Álvaro Santos Pereira sem a literatura.

 

Porque é que foi estudar Economia e não Línguas, Literatura, Filologia?

Adoro Economia porque a Economia tenta perceber porque é que há tanta pobreza no mundo, tantas desigualdades sociais. O mistério de crescimento económico foi o que me fez (e faz, dou aulas de Desenvolvimento Económico) pender para a Economia. Lá por se gostar muito de literatura não quer dizer que não se queira ajudar a resolver os problemas do mundo.

 

Porque é que é especialmente sensível ao problema da pobreza?

Em parte porque vi bastante pobreza quando era novo, não necessariamente na minha família. Não tenho dúvidas que a preocupação em tentar eliminar a pobreza é um dos princípios directores da minha vida. A Economia é uma ciência fascinante. É um bocado como a vida; sabemos a nossa trajectória pessoal, nascemos, crescemos, educamo-nos; se possível, trabalhamos, casamos, temos filhos, reformamo-nos e morremos. Sabemos que a trajectória é a subir, a subir, e depois é descendente. Quando se acorda, às vezes, há surpresas nas flutuações da nossa vida. Como costumo dizer aos meus alunos: “Nunca se sabe se nesta sala de aula, onde me estão a ouvir, encontram o amor da vossa vida”.

 

Vou dizer o que disse o seu professor: para chegar onde acho que pode chegar, tem de me contar mais detalhes. Das suas escolhas, daquilo que as explica. Que coisas viu, que coisas ouviu, que o fizeram perceber a injustiça da pobreza, da distribuição não-equitativa do valor.

Quando era criança passava dias inteiros na aldeia da minha avó. Era muito mau a jogar futebol, mas adorava jogar com os meus primos. E lembro-me de ver miúdos muito pobres, miúdos descalços. Havia famílias onde o álcool era uma tragédia, famílias extremamente humildes. Foram essas experiências, é difícil definir uma.

 

Sentia alguma culpabilidade por ser um calçado entre descalços?

Não, não. Eram poucos os que andavam descalços. Aos oito, dez anos, sente-se alguma culpa?

 

Acha que as crianças não sentem culpa?

Uma vez, já na cidade, éramos uma família de classe média, e havia pessoas na minha escola que eram bastante humildes.

 

Aquilo em que se especializa em Economia é na compreensão daquilo que faz o desenvolvimento económico e naquilo que ajuda a resolver desequilíbrios básicos. Insisto nele por ser um tópico tão importante, mesmo que a escolha não tenha sido consciente.

Não é à toa que os economistas de desenvolvimento económico são indianos ou de países subdesenvolvidos. As pessoas percebem o poder do que é o crescimento económico. Não digo isto neste livro com tanto ênfase, mas digo no anterior, O Medo do Insucesso Nacional. O crescimento económico teve um impacto brutal em Portugal. Há 30 anos era um país muito mais atrasado do que é hoje.

 

Quando usei a frase do seu professor, estava, não só a pedir-lhe detalhes, como a provocá-lo e a tentar perceber como é que reagia a esta provocação.

Gosto de provocações. Sou um incondicional da democracia. O primeiro romance, que as pessoas ainda não leram, porque não está publicado, [decorre desta ideia]: qualquer ditadura é sempre pior do que a democracia.

 

“A democracia é o pior de todos os sistemas, com a excepção de todos os outros.”

Exactamente. Gosto de provocar os meus alunos, perguntando-lhes se os direitos humanos são mais importantes que o desenvolvimento económico. Dou-lhes sempre o exemplo de Tiananmen. Uma aluna chinesa uma vez disse: “Eu estava a ouvir a BBC e a Voice of America e pensava que era terrível o que o meu governo estava a fazer às pessoas, aos estudantes. Tornei-me numa mulher de negócios, viajei pela China, vi muita pobreza, muita fome. Depois de saber da transformação económica brutal que aconteceu no meu país nos últimos 20 anos, já não sei o que hei-de pensar sobre Tiananmen”. Se as autoridades chinesas não se tivessem deparado com a rebelião, será que a China se desenvolvia tanto? É este dilema que provoco nos meus alunos, para os fazer entender que as coisas não são a preto e branco.

 

Qual é a sua resposta?

Claro que Tiananmen foi um erro, claro que as ditaduras são sempre más e são sempre inferiores à democracia. Mas como é que podemos avaliar uma ditadura que consegue levantar da pobreza centenas de milhões de pessoas? O que é que é preferível? Depois de falarmos disto, 90 por cento dos alunos estão a defender as ditaduras e a dizer: ”Nem acredito que estive a defender ditaduras nesta aula, mas fez-me pensar”. No final digo-lhes: “Shame on you!”. Mas é importante que as pessoas percebam que em quase tudo, e na economia isso é importante, não há uma resposta padrão.

 

Nem um livro.

Exacto. Os direitos humanos: é tudo muito bonito, e sou um incondicional da protecção dos direitos humanos. No entanto não há direito mais básico que ter uma vida decente, e ter uma vida decente para os filhos, também. Quando tinha 16, 17 anos, pertencia à Amnistia Internacional, uma organização que ainda respeito muito; mas hoje percebo que as coisas não são tão lineares como pensava.

 

Como é que se desencantou?

Não me desencantei, percebi. A história de Tiananmen é um bom exemplo de como às vezes as coisas não são tão simples.

 

Ficou com um discurso político. Isso é o tipo de concessões e o tipo de conciliação que os políticos muitas vezes fazem.

Espero bem não ter um discurso político. Obviamente tenho um discurso forte – como se diz em inglês, “opinionado”. Toda a gente sabe no meu departamento que não sou politicamente correcto. Se isso é ser político… Nem sempre digo as coisas que as pessoas estão à espera de ouvir. O que não gosto no discurso político é quando, para se proteger determinado interesse, se escondem as verdades. Isso não admito. É um princípio de que espero nunca ter de abdicar na minha vida.

 

Tinha expectativa de o ver político em Portugal daqui a não muito tempo. Estou a ver que dificilmente abdicará da sua carreira de académico em Vancouver.

A nível de serviço público, já disse que essa não é a minha intenção. A minha intenção foi contribuir para uma reflexão dos problemas do país, apresentar soluções diferentes. Tenho todo o gosto em colaborar, mas a questão de me tornar político não se coloca. Se se colocar no futuro, logo se verá. Se isso acontecer, espero que a minha independência e o meu espírito crítico não desapareçam. Tenho a certeza de que isso não vai acontecer. Um dos princípios que tenho é a integridade, a honestidade. Seria uma traição a mim próprio se quebrasse esses princípios.

 

Agora percebo que estou a falar com um homem que tem 39 anos.

Porquê?

 

Porque parece haver alguma ingenuidade no seu discurso.

Talvez. Ou então é de propósito [riso]. Talvez seja a minha resposta política. Neste momento tem que ser.

 

O que é que aprendeu sobre Portugal a partir do momento em que a sua grelha de leitura passou a ser anglo-saxónica?

Há algum tempo que ando a estudar economia portuguesa e Portugal. A vantagem de estar fora é que se consegue ter uma maior distância. Apesar de seguir a blogoesfera, ouvir a rádio e ver a televisão como se vê cá, há muito menos carga emotiva. O ruído consegue-se dissipar. Concentro-me no essencial. Tem-se uma visão mais neutra, mais ponderada.

 

São quase tantos anos de estrangeiro como de Portugal.

A cultura do mérito é muito mais seguida no estrangeiro, sobretudo no mundo anglo-saxónico. Há uns anos, fiz uma cadeira de Economia Urbana na qual estudei os resíduos sólidos urbanos e o modo como se fazia a reciclagem. Fui a três aterros tentar perceber todo o processo. Quando fui tirar fotografias à lixeira de Coimbra, apareceram uns senhores com resíduos hospitalares, sangue, seringas; tornei-me mais discreto e tirei fotografias. Falei com o vereador: “Sei disso, mas prefiro que estejam aí do que deitados num campo qualquer”. Depois fui falar com a QUERCUS: “Vamos esquecer isso por um tempo porque vem aí o Mário Soares fazer uma presidência aberta e temos outras coisas [sobre que falar]”. O meu sogro, que era médico e trabalhava no centro de saúde, em conversa com um administrador, ouviu isto: “Um tipo qualquer, que deve estar à procura de tacho, tirou umas fotografias sobre resíduos hospitalares e causou aqui uma bronca dos diabos”. Isto é a mentalidade portuguesa que ainda perdura.

 

Esperar um tacho?

Sim. Outro exemplo. Quando publiquei o último livro pedi ao Eng. Belmiro de Azevedo para ser o prefaciador. Não o conhecia, conheci-o no lançamento do livro. O Eng. Belmiro de Azevedo é uma pessoa que acredita no mérito, gostou e decidiu dar a cara pelo livro. Um amigo meu, como tenho bastante exposição nos meios de comunicação social, virou-se para mim e disse: “Quem é o teu padrinho?”, “O meu padrinho é o meu trabalho”.

 

Em Portugal pergunta-se quem mete a cunha, qual é o apelido, quem é o padrinho.

Quem o ajudou a chegar onde chegou. Se há coisa em que tenho orgulho, em mim e no meu trabalho, é que tudo foi construído à custa do meu esforço. Se algum dia chegasse a algum lado por causa de um favor que me foi feito, sentiria que estava a perder a face. Acredito piamente, e isto não é uma resposta política, que se algum dia fosse nomeado ou convidado para alguma coisa que não fosse por mérito, estaria a ir contra todos os meus princípios. Não sou assim, não quero ser assim e não gosto quando as pessoas são assim. Isto não é ser moralista. A cultura do mérito é muito importante para mudarmos o nosso país. Os favores e os padrinhos: é vergonhoso! É uma coisa que, espero, seja erradicada, ou pelo menos atenuada, em Portugal.

 

Quando é que percebeu que nada é impossível?

Foi quando estive fora. Dizemos muito isso aos nossos filhos. Se achamos que vale a pena lutar por uma causa, se acreditamos, o trabalho, mais cedo ou mais tarde, vai-nos conduzir a isso. E mesmo que não consigamos, é importante que percebamos que demos o nosso melhor. Quando os meus filhos jogam futebol ou basebol, o que lhes digo é que primeiro tentem ser os melhores, e mesmo que não consigam, é importante que percebam que não deram só 50 por cento.

 

Isso é uma cultura muito orientada para o sucesso.

Não quero ser o melhor, quero fazer o que me faz feliz. Senão não escrevia literatura. O sucesso não é o meu drive.

 

Qual é o seu drive? What makes you run?

Há muitas coisas que me fazem correr. Depende do que estou a fazer. Obviamente, este livro de economia é para influenciar. Gostaria que o próximo governo adoptasse a maior parte das políticas que advogo no livro, porque gosto muito de Portugal e gostaria que o meu país tivesse futuro.

 

Escreveu o livro pensando que ele podia ser uma espécie de manifesto?

Não é um manifesto político. O que se passou nos últimos anos é gravíssimo. É meio caminho andado para o país estar na bancarrota, para as pessoas emigrarem e para haver um desemprego recorde. E não foi por causa da crise internacional, foi por causa dos problemas que se foram acumulando na economia portuguesa nos últimos dez, 15 anos. Há alternativa. A alternativa é o que acho que deve ser feito, o que digo no livro.

 

Foi o Eduardo Catroga, não o seu padrinho, mas aquele que o convenceu a escrever este livro há um ano?

Não, ao contrário. O Eduardo Catroga e o Alexandre Patrício Gouveia contactaram-me quando fiz o segundo livro para pertencer ao manifesto da reavaliação do investimento público. Foi aí que eu e o Eduardo nos tornámos mais conhecidos e amigos. Uma vez vim a Portugal e disse-lhe: “Gostava de escrever um livro sobre finanças públicas; está interessado?”. Ele disse que tinha um bocado de dificuldade em escrever: “Não se preocupe, discutimos as ideias e eu escrevo, gosto de escrever”. Ele gostava de fazer uma coisa que não fosse só de finanças, e eu também queria fazer uma coisa sobre a competitividade. Passado um mês o Eduardo disse que não tinha agenda, e eu disse que não havia problema. De qualquer maneira já tinha começado o livro e fiquei com liberdade total. O Eduardo ainda não leu o livro, vai lê-lo agora, como revelou ontem [na sessão de lançamento]. Foi uma referência para as finanças públicas, não há mais entrelinhas.

 

É claro para si que o livro contém uma receita.

Tem, mas não é mágica, são várias receitas. Estamos numa situação muito parecida com aquela em que estava a Argentina nos anos 30. A Argentina era um dos países mais ricos do mundo.

 

Isso, nunca chegámos a ser.

Claro. A Argentina estava a começar a ser um país intermédio, mas havia a possibilidade de se tornar um alto milagre económico, como nós, até aos anos 90. A Argentina nunca recuperou depois do Perón. Espero que Portugal consiga recuperar depois de José Sócrates e dos governos dos últimos 16 anos. Para o fazer é urgente que o próximo governo mude o curso. Por isso escrevi este livro.

 

Quer convencer-me de que quer continuar em Vancouver, depois do que acaba de dizer? Parece evidente que tem uma apetência política.

O livro tem contornos políticos.

 

Falo da sua vontade de mudar o curso das coisas, confiando em si e naquilo que contém o seu livro.

A política não está nos meus planos. A intenção é a de influenciar, senão não teria escrito o livro. Se me está a dizer que tenho um político dentro de mim, todos os economistas são um bocadinho políticos. Os que fazem macroeconomia têm de ser políticos, porque quando se fala de política económica tem que haver escolhas. Não há que ter medo das nossas opções.

 

Isso já é uma resposta politicamente correcta.

Provavelmente. Tenho a vida tão estabelecida em Vancouver…, é das cidades mais bonitas do mundo. Temos uma vida bastante boa.

 

Como é a sua vida? Vive numa casa boa, vai a pé para o trabalho, trabalha quantas horas por dia?

Os meus filhos acordam às seis e meia, sete, eu acordo com eles. Vivo numa casa perto da universidade onde dou aulas. Preparo o pequeno-almoço para os meus miúdos, preparo café para a Isabel, tomo o meu café, e, ou eu ou ela, levamos os miúdos à escola. (Agora temos ama. A Isabel esteve um ano e meio sem trabalhar para acompanhar os meninos – lá é muito habitual; agora voltou à consultoria, ao project management.) Apanho o autocarro para ir até ao metro. Prefiro porque posso ler os meus livrinhos, as notícias de Portugal na Internet. Chego ao trabalho, e em vez de ir para o meu gabinete, gosto de pegar no computador e ir escrever para um café. (Uma das coisas de que gosto em Vancouver é que há privacidade total.) Às quatro, cinco da tarde vou para casa, a Isabel chega por volta das seis, jantamos, e às oito, nove da noite os miúdos vão para a cama. Se houver hóquei ou futebol vemos um bocadinho. O que faço, especialmente quando estou a escrever livros, é escrever até à uma, duas da manhã. É o dia típico.

 

E os romances que escreve, são sobre quê?

São muito diferentes uns dos outros. O primeiro foi sobre ditaduras. Com três ditadores, um religioso, um comunista e outro tipo Salazar. Um ditador decidiu comprar um país todo branco – a metáfora da ditadura. No final começa a democracia e a cidade é pintada de cores, as letras aparecem pintadas de diferentes cores, no texto. Por isso se chama O Povo Branco e a Revolução das Cores. Escrevi-o em 2004, em português. Não chegou a ser editado; meteu-se outro romance pela frente, um livro de economia, e ainda não tive tempo de o rever. Mais cedo ou mais tarde vou publicá-lo. O segundo, porque adoro ciência e religião, foi sobre a história de Deus e do universo. O pressuposto é: se o universo existe há 14 biliões de anos, sabendo que a eternidade tem triliões de anos, porque é que Deus levou tanto tempo a criar o universo? Tento explicar isso no livro. Deus é a personagem principal. E tento perceber o que é que poderá acontecer no futuro. É O Diário de um Deus Criacionista, foi o primeiro livro que publiquei cá. O terceiro, que já está parado há um ano e meio, é uma história de amor no Portugal rural. Ficou parado por causa de dois livros de economia.

 

Os romances que escreve não têm nada que ver com os livros de economia?

A minha voz em economia é diferente da minha voz na literatura. A escrita tem que se praticar muito, trabalhar muito. O importante quando se escreve é descobrir a própria voz, e ser diferente do resto. 

 

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2011

Álvaro Santos Pereira foi ministro da Economia entre 2011 e 2013 

 

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