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Aldina Duarte

Aldina Duarte diz, como quem diz que está sol: “Estragamo-nos num instante sem nos darmos conta”. Também diz que mesmo que não se cante a si, canta com o que é. E nesse caso, para falar do disco novo, Contos de Fados, é preciso falar de como se fez a cantar assim. O disco é um disco e um livro ao mesmo tempo. Um objecto particular, como Aldina.

É muito mais do que a menina pobre que se afirmou como uma das fadistas mais interessantes do nosso panorama. (Diz que não quer ser “um petisco para tias”…). Contos de Fados é o seu novo disco. Um disco que é também um livro, com introdução, índice, edição bilingue. Tem a sofisticação e o cuidado de um livro de capa dura.

Aldina desafiou alguns dos seus cúmplices habituais (José Mário Branco, Manuela de Freitas ou Maria do Rosário Pedreira) a fazer a adaptação poética de clássicos da literatura universal, e encaixou-os na estrutura de fados tradicionais. Textos como Um Eléctrico Chamado Desejo ou Medeia, autores como Hermann Hesse ou Eugene O’Neill. É um trabalho que revela uma intérprete madura.

A entrevista decorre num hotel da cidade. Personagens principais: Aldina, a mãe de Aldina, o Fascismo, o Fado. Os secundários (determinantes): Beatriz da Conceição, Maria da Fé, Camané, e Manuela de Freitas e José Mário Branco. O plot: como é que Aldina Duarte chega ao fado e ao disco que esta semana é posto à venda. Duração: duas horas de gravação. O título não pode ser: História de uma Cantadeira. Mesmo que esteja aqui a história de uma mulher que, cantando, se encontrou.

  

Caetano canta num verso: “Os livros são objectos transcendentes”. Como é que os livros a ajudaram a transcender a sua condição e o mundo de onde provém?

Os livros ajudaram em tudo. No início eram mesmo a minha única e grande saída daquele mundo limitado em que vivia, Chelas. Quando aprendo a ler, muito cedo, aprendo a ler e a ler livros. Eram duas coisas que não se separavam.

 

Aprendia-se a ler para ler livros?, era isso?

Sim. Fossem os livros que fossem. Na escola do bairro, de um lado estavam as meninas, do outro, os rapazes, e contíguo ao edifício dos rapazes, era a biblioteca, a que todos tínhamos acesso. As casas eram pequenas, os andares tinham corredores abertos. Havia uma vida na rua que era o nosso mundo principal. Muitas crianças. Como gostava muito de ler e não havia livros em casa, habituei-me a ir para a biblioteca.

 

Quem é que a ensinou a ler? Como é que aprendeu cedo a ler?

Não sei, mas quando fui para a escola, para grande espanto da professora, aprendi a ler mais rápido do que era suposto. A minha mãe diz que antes de ir para a escola já tinha bastante interesse, e que achava que sabia ler.

 

Nessa altura era filha única?

Era.

 

A sua mãe sabe ler?

Sim. Fez o 11º ano ao mesmo tempo que eu, ela de noite, eu de dia. Ainda durante a minha infância, fez o equivalente ao ciclo preparatório num externato, à noite.  

 

O que é que a atraía nos livros e na biblioteca?

Na biblioteca era o silêncio. Nos bairros, as pessoas falam muito alto, há sempre muito barulho. Adorava aquele silêncio, aquele cheiro que não sei definir.

 

O cheiro do livro?

Não sei se era exactamente do livro. Tenho ideia de que havia uma lareira na biblioteca. Era um ambiente muito confortável. Lembro-me de a D. Bárbara, a senhora que tomava conta da biblioteca, dizer quais eram as estantes que podia utilizar para a minha idade. E tirava o que fosse. Das primeiras vezes era uma coisa quase física; nem sei se era o que lia que me dava prazer, era tudo o que envolvia. Quando estava a ler, não punha a hipótese de aquilo ser inventado.

 

Como assim?

Achei durante muito tempo que tudo o que vinha nos livros existia. Eu é que não conhecia, e um dia havia de conhecer.

 

Como se nos livros estivesse um mundo exterior a Chelas.

Pois. Depois descobri que havia uma coisa chamada imaginação, e aí quis escrever livros. “Quero ser escritora, se afinal se pode inventar o mundo e a vida como queremos”. Foi a única profissão que quis ter, durante muito pouco tempo. Ao longo da infância e adolescência, era como se a leitura me estivesse a preparar para qualquer coisa que havia de conhecer.

 

Algum dos autores que assinam os contos que canta neste livro, apareceram, ainda que fugazmente, na sua infância?

A Bela Adormecida, O Pastor e o Lobo [fábula de Esopo]. Fazem parte do meu imaginário infantil. A Bela e o Monstro, não.

 

Quais são os grandes acontecimentos que marcam a sua vida nesses anos?

O grande acontecimento que marca a minha primeira infância é o fascismo. A minha infância foi triste, cruel. Nem é uma coisa de que goste de falar. Como tema de conversa é sério demais. As crianças pobres assistem à humilhação dos pais, pobres. É um sofrimento redobrado.

 

O fascismo existia como pano de fundo à vida das pessoas daquele tempo. Estava a tentar perceber que implicação directa teve na sua vida.

Se implica que não há comida, não há conforto, não há respeito, determina tudo. Não há nada que apague isto. Pertencia a uma classe social que era humilhada, desprezada pelas classes superiores.

 

Humilhada porque destituída materialmente?

Não. Ainda hoje assim é: as classes superiores acham que aquelas pessoas são pessoas de segunda, que existem para as servir, para os libertar das actividades mais primárias da existência humana (a limpeza da casa, cozinhar). Como se servir fosse um motivo de desprezo. O fascismo é isso. Achar que há seres humanos de primeira e seres humanos de segunda. Os filhos também não são crianças como as deles. Uma infância destas não tem espaço para a alegria.

 

Mas tinha consciência disso?

Tinha, sempre tive. Andei com a minha mãe 24 horas por dia, até aos seis anos. Fora de tempo, fui uma criança velha, a grande companhia da minha mãe, e vice-versa. Só nos tínhamos uma à outra.

 

No documentário Princesa Prometida, há um momento, um dos mais comoventes do filme, em que diz que a patroa da sua mãe a sentou à mesa com ela, e não permitiu que a sua mãe se sentasse também à mesa.

Isso é tudo muito evidente. Tinha que ter consciência da discrepância entre ricos e pobre.

 

O que não percebi é se, por essa patroa, foi tratada, não como a filha da empregada, mas como uma criança de quem se gosta especialmente, a quem se ensinam coisas.

Havia brinquedos que não tinha e que naquela casa havia, certo tipo de jogos. Poucos anos depois acabei por ter. A minha mãe leu num livro que era importante para o desenvolvimento intelectual de uma criança ter puzzles, fazer construções de Legos. Virou mundo para que eu tivesse isso. Da mesma maneira que me incutiu o gosto pela leitura. Achava que a salvação de um pobre era a inteligência e o conhecimento.

Acima de tudo tinha que ser leal à generosidade dessa patroa da minha mãe, para que pudesse estar ali. A minha mãe não tinha onde me deixar e não queria arriscar.Claro que, não vou mentir, aprendi coisas e sei que aquela marca também está no meu crescimento. Mas não tenho respeito nenhum por ela. Tenho gratidão.

 

Ainda não falou do seu pai. Como é que o trajecto dele foi marcado pelo fascismo?

Nunca o conheci. O meu pai foi para a guerra quando eu tinha três meses e morreu lá, tinha eu dois anos. Não tenho qualquer vínculo com a família do meu pai. Representa a injustiça da Guerra Colonial, onde morreu tanta gente, estupidamente.

 

Tudo isto importa, quando a vemos hoje cantar. Há um tom sofrido; perguntamo-nos o que é que ele traduz, que caminho teve que fazer para cantar como canta.

O risco desta conversa é que às vezes as pessoas que têm o meu percurso tornam-se numa espécie de petisco para tias. É isso que não quero. A pobrezinha heroína que ultrapassou a sua condição social... “Estão a ver, quando se quer consegue-se”. Isto é abjecto. Daí a minha salvaguarda.

 

Segundo momento da sua infância.

O 25 de Abril, é óbvio. Foi a restituição da dignidade merecida. Toda a gente merece, à partida, e a minha mãe especialmente. Acreditou sempre que ia haver uma revolução. E disse-me. Era o nosso segredo. Nunca podíamos falar disto com ninguém, porque havia a PIDE.

 

Tratou-a como uma adulta, sempre.

É uma das coisas de que se culpabiliza. Mas quem me tornou uma adulta à força, foi a situação, o fascismo, não foi a minha mãe. A revolução era nunca mais permitirmos que alguém nos humilhasse. Íamos ser todos cada vez mais iguais. Devíamos ter todos as mesmas oportunidades ao nascer, e ser iguais perante a lei. Pelo menos isso.

 

Como é que mudou, na prática, a sua vida?

Houve um aumento de ordenado substancial que permitia ver a minha mãe a almoçar e a jantar comigo à mesa. Antes, ela só comia nas casas onde trabalhava. Passei a ver a minha mãe a rir, coisa que raramente via. Passei a ouvir as pessoas dizer com o que é que não concordavam.

 

As pessoas, eram quem?

Era o bairro. O nosso andar, o nosso prédio. O plural é o que define o bairro.

 

É espantoso que a sua mãe interrompa a cadeia. O que é comum é reproduzir o comportamento.

A minha mãe tinha uns pais muito inteligentes, que a amaram muito. Apesar de vir de uma grande pobreza, tem uma origem em nada miserável. É só pobre, não acumula. Normalmente a pobreza atrai a miséria e contaminam-se reciprocamente, mas não era o caso.

 

Aquela frase do Strindberg n’O Sonho: “A miséria é sempre um pouco suja”.

Era o que dizia o João Bernardo, num artigo que escreveu: “A pobreza trata-se com dinheiro, a miséria não”. Ela quis passar para mim essa herança, e conseguiu mesmo. É natural em mim gostar da delicadeza – é uma coisa bela. Tornei-me uma pessoa sensível ao silêncio, à honestidade.

 

No disco, há uma biografia, Apenas o Vento, escrita por Manuela de Freitas, e encaixada num fado tradicional. “Deu-me Deus tudo o que quis, já nem sei de quanto fiz, se foi Deus ou se fui eu”. O que é que fez?

Não sei. A única coisa que me lembro de querer ser, ao longo do meu crescimento, era uma pessoa bem formada. Nunca tive outra preocupação. Limitei-me a aproveitar as oportunidades que me surgiram, e fazer tudo para merecê-las. A cantar não foi bem assim. Saiu-me do pêlo.

 

O cantar aparece muito depois dos livros. Fui buscar este pedaço da biografia-fadista quando estava a falar da mudança do 25 de Abril. Com o que é que passou a sonhar?

Apesar de ter uma consciência social muito grande, tinha sete anos. Íamos todos ter uma casa confortável, boas escolas. As pessoas iam tornar-se todas muito bondosas, os maus iam arrepender-se dos seus erros, os bons iam vencer tudo. Era assim que festejava o 25 de Abril.

Fui crescendo. Quando cheguei à adolescência, quer pela capacidade de entendimento do que me rodeava, quer pela inquietação dessa fase, tive a primeira explosão de revolta. Foi a primeira vez que as emoções ultrapassaram a razão.

 

É uma frase espantosa, tudo em si parece sentimento.

Mas fui uma criança racional. A minha mãe diz que eu não chorava, dizia: “Apetece-me chorar”. É sinistro. O meu primeiro grande contacto com as emoções foi na adolescência. Lembrei-me de que não tinha sido feliz na infância. E tive raiva. “Tiraram-me a infância, estes filhos da mãe dos fascistas!”.

 

Que livros havia durante esses anos?

Na minha casa, a partir do 25 de Abril, começou a haver livros do Círculo de Leitores. Ainda hoje os leio, os clássicos, Eça de Queirós, Camilo de Castelo Branco, que adoro.

 

Estava a ler um livro do Camilo Castelo Branco quando cheguei.

Ando a ler os Mistérios de Lisboa. Lia as enciclopédias que a minha mãe ia fazendo. E ia à biblioteca, requisitava livros. A partir dos 14 comecei a ler os autores estrangeiros. O primeiro, que é aquele de que mais gosto até hoje, foi o Dostoiévski, O Jogador.

 

Mas no disco pega no Eterno Marido, de Dostoiévski. E é você que faz a adaptação deste conto. Porquê o Eterno Marido?

Porque é alguém que quer tanto acreditar no amor que prefere um falso amor à ausência dele. É o risco que todos corremos. Não é por acaso que as relações se acabam antes de darmos conta disso. Depois parece que é sempre de um momento para o outro. As pessoas não conseguem desistir da ideia de encontrar alguém que as complete, que as acrescente, alguém para a vida. De todas as dores do mundo, de todas as lutas, essa continua a ser a mais complicada.

 

Foi sempre solitária. Não contou que outra pessoa viesse resolver os seus nós.

Quem tem a chave de casa aos seis anos, é normal.

 

Mas, contando consigo, não deixou de sonhar com alguém que a completasse.

Se calhar foi porque li muitos livros [riso]. Isto não veio da minha mãe, que não é nada romântica.

 

Você é?

Muito. No Eterno Marido há uma coisa muito bonita: uma questão moral e ética. São as duas coisas que se impõem na minha vida também. Estou sempre a reflectir nos valores e nas regras que nos regem, quero perceber o porquê, o sentido. Este livro deixa em aberto o perigo da ilusão. Ele é um homem que se ilude em nome de um amor incondicional. Pela primeira vez aprendi num livro – as pessoas dizem que se aprende vivendo, mas há coisas que se aprendem mesmo nos livros – que há uma diferença entre mentira e negação. Uma pessoa que está em negação não está a mentir, não consegue ver. Isto fez-me tomar consciência de limites meus, e de limites nos outros. Este livro demarca bem essa fronteira.

 

Importa saber qual é a intenção?

Não, é mais do que a intenção. Qual é a realidade que está por trás de um determinado comportamento. A pessoa que está em negação perante uma situação, quando age, não tem boa nem má intenção, acredita na sua ilusão. Daí a ilusão ser tão perigosa. Acredita, independentemente dos factos. O Dostoiévski não é moralista, questiona a moral. Mostra que nos pode acontecer a todos. Podemos ser pessoas horríveis.

 

Perguntou-se: “E se eu for uma pessoa horrível”?

Sempre. Foi o meu maior horror toda a vida.

 

Quando é que formulou essa interrogação para si?

Desde pequena. Sempre tive horror a ser má. Achava que havia qualquer coisa de mau dentro de mim, e que nos podemos tornar maus sem dar conta. E ainda acho. Mas hoje tenho recursos para escolher e decidir, que não conhecia. Temos de ser muito vigilantes. Estragamo-nos num instante sem nos darmos conta.

 

Isto era a propósito dos seus encontros com os livros, com o Dostoiévski e outros autores que canta no disco. Um deles é Ricardo Reis.

É o meu heterónimo favorito. Porque é o mais diferente de mim. Admiro as pessoas que conseguem as coisas que não consigo, mas que até gostaria. Admiro um fadista que tenha um talento que eu não tenha. O Ricardo Reis é o mais racional dos heterónimos. (Essa coisa de sobrepor a razão às emoções…, esgotei a minha capacidade na infância, naquele abuso infantil.) E é o mais clássico. Os clássicos amparam a humanidade nos piores momentos. O Ricardo Reis é o mais rigoroso na linguagem, é o que se inspira na mitologia grega. Também sempre tive uma grande atracção pelo panteísmo.

 

O mais próximo de si seria Álvaro de Campos?

Sim.

 

Quando é que passou a chorar, e não a dizer: “Tenho vontade de chorar”?

É na adolescência que deito tudo cá para fora que nem um vulcão. Fiquei em erupção. Até muito tarde.

 

Pessoa já fazia parte da sua adolescência ou descobriu-o mais tarde?

A poesia veio muito mais tarde.

 

É na adaptação de Manuela de Freitas do poema de Ricardo Reis que estão os versos: “Já não são contos, são fados, já não são fados, são vida”. Que talvez sejam os versos centrais, não só do seu disco, mas também da entrevista. O que estamos a perseguir é a ligação entre estes três vectores: os contos, o fado e a vida.

Este disco é aquele em que menos me canto a mim. Os temas em que me canto a mim estão definidos como tal. São a Biografia e o Que Amor é Este (o do Eterno Marido). Ter escolhido o tema mais universal de todos foi para me escudar naquilo que é de nós todos. De outra maneira acharia demasiado íntimo, não conseguiria cantá-lo assim.

 

Como é que o seu encontro com o fado não se deu mais cedo? De certeza que já pensou muito nisso.

Já. Há duas artes com as quais tenho uma relação de amor: a música, à cabeça, e depois a literatura. Desde a primeira vez que entrei em contacto com elas fiz tudo para não as perder. E para alimentar a presença delas na minha vida. A leitura e a música podiam salvar-me. Não sei explicar melhor isto. Salvar-me do que fosse.

 

Da solidão, de não ter rumo?

De tudo.

 

Até da pobreza. Na infância a literatura resgatou-a mentalmente.

E sejamos pragmáticos, era o espaço que tinha para não estar sozinha, e protegida. Adoro a rua, é a única memória de alegria da minha infância. A rua e aqueles jardins das casas apalaçadas onde a minha mãe trabalhou. O meu gosto pelo universo pagão vem daí, de andar na Serra de Sintra nos jardins do Palácio do Penedo. Imaginativa como sempre fui, havia alturas em que acreditava que as árvores falavam, que havia fadas, gnomos...

 

E que era uma princesa.

Sim.

 

Princesa Prometida, é um poema que escreve, e é o nome do documentário sobre si. Não tem que ver?

Tem, claro. Escrevi esse poema para arrumar de vez os limites que essa infância me trouxe, exorcizá-los. As pessoas que consomem mais música e mais literatura têm mais hipótese de desenvolver a sua sensibilidade, de atingirem níveis de compreensão mais profunda.

 

O encontro é com o fado, não é com outro género musical.

O meu primeiro encontro com a música foi com a música de intervenção.

 

Banda sonora da revolução da sua vida, além da revolução do país.

Para mim só havia José Mário Branco, Fausto, Sérgio Godinho e, passado algum tempo, Jorge Palma. Cheguei ao mestre, Zeca Afonso, através dos seus discípulos.

 

A sua mãe nunca cantou? Nem no trabalho doméstico?

Não. A minha mãe é mais racional, mais pragmática do que sonhadora ou criativa. É o oposto de mim, temperamentalmente, apesar de muito parecidas na formação. Depois descobri as cantoras do jazz e do blues, de que também gostava muito, o Jacques Brel, a Billie Holliday, a Nina Simone.

 

Descobriu na rádio?

Na rádio, e depois no liceu, com outros. Ainda hoje tenho um rádio em cada divisão da casa, e não vejo televisão. Quando gosto sou muito compulsiva, dedico-me a saber mais. Esses autores determinaram o meu gosto musical e a minha formação humana.

 

Porém, essa música não despertou em si o desejo de se expressar daquela maneira. Coisa que aconteceu com o fado.

Sempre disseram que tinha boa voz. Na escola disseram que tinha bom ouvido musical. Tive a preocupação de me tornar independente, muito cedo. A sobrevivência foi uma questão sempre presente. Ainda hoje, mesmo quando estou mais segura financeiramente, sinto que é um fantasma. Tinha crescido com a ideia de que ser artista é uma coisa para ricos – “senão, morres de fome”. Era uma não-profissão, era um hobby. Era um gosto, mas não levava a sério.

 

Não se permitiu a música porque achava que havia uma necessidade mais premente, a da sobrevivência, que se impunha. E não podia dedicar-se àquilo que a apaixonava.

Era quase uma castração, durante muitos anos. A única escola de que consegui gostar foi a António Arroio porque havia ali uma linguagem que tinha a ver com a criatividade. Foi a escola a que aderi incondicionalmente, onde tive melhores resultados. Já tinha feito Humanidades e Economia no Liceu D. Dinis. Criei aversão a horários, a rotinas, durante a adolescência. Tudo o que se parecesse com autoridade, rejeitava veementemente. 

 

Nunca saiu de Chelas?

Só aos 20 anos quando larguei a escola e fui trabalhar. O fado foi um acaso. Ouvia os sucessos da Amália e do Carlos do Carmo, que passavam na rádio, mas nem sabia letra nenhuma de cor. Cantava nas festas da escola.

 

O que é que cantava?

A Noite Passada, do Sérgio Godinho, o Amazing Grace, da Joan Baez. Hoje nem gosto particularmente dela. Foi o primeiro concerto de artistas estrangeiros que vi cá, em Cascais.

 

Foi a Beatriz da Conceição que mudou tudo?

Foi. Aquilo foi um terramoto!

 

O que é a Beatriz da Conceição para si? O que é que representou naquele momento?

A Beatriz da Conceição, enquanto fadista, é o topo que um fadista e artista – ela acumula – pode atingir. Já não se distingue o que é a Beatriz da Conceição e o que é o fado, é tudo a mesma coisa.

 

Talvez seja altura de definir o fado.

Só conheço uma coisa parecida com o fado, em termos de definição: Deus. Não posso definir.

 

Disse que Beatriz da Conceição é fadista e artista. Quando olhamos para si também pensamos que é fadista e é artista. É assim que se vê?

Prefiro não falar disso.

 

É pudor em falar em causa própria?

Não consigo. Tenho uma visão de mim nada interessante e nada assertiva. Não serve para nada a minha opinião nisto.

 

Quando a Olga Roriz faz um espectáculo consigo, é pela artista que é, pela sua personalidade artística.

Ainda hoje estranho quando há pessoas com muito talento que acham que eu tenho talento. Isto não tem nada a ver com modéstia.

 

Teve uma grande crise de insegurança, já depois de ter começado a cantar. Interrompeu a sua carreira.

Vou ter sempre. A insegurança que tenho a cantar é como a visão que tenho fisicamente de mim: nunca será boa mas já me habituei a ela. Uma vez que temos de viver juntas procuro entender-me. Faço tudo para que não nos atrapalhemos no essencial. Estou aqui muito concentrada nesta conversa, e estou interessada em dar o meu melhor, e você toca nesse assunto e o meu raciocínio, o meu prazer…, parece que tenho uma interrupção.

 

Então contextualize aquela interrupção que fez na sua carreira.

Foi o extremo disto que estou a falar. Seis meses.

 

Sentiu-se perdida nesses seis meses?

Não, deprimida. Triste, mais que deprimida. Já cantava há quase cinco anos. E já tinha feito algumas coisas importantes, tinha estado num teatro de Milão, fiz uma peça lindíssima do António Tabucchi, Os Últimos Três Dias de Fernando Pessoa. Já tinha estado no Clube de Fado durante dois anos, já tinha ido para o Senhor Vinho.

 

Estamos em 1997. E depois?

A Maria da Fé, num dia de aniversário meu, (fui festejar com uns amigos, na altura estava casada com o Camané e ele estava lá a cantar), dedicou-me um fado. Disse que eu tinha um talento extraordinário mas que estava num momento de pausa. Foi como quando estamos a ouvir um programa de rádio e há uma interferência [riso], só se ouve ruído. Nem sabia que ela pensava aquilo. E dizia que quando se tem este talento, por mais que se queira fugir, é impossível, é mais forte que nós. E que o que ela mais gostava era que eu retomasse no Senhor Vinho. Tive um ataque de choro, convulsivo. Recompus-me e fui cantar dois fados. Passado pouco tempo estava lá a cantar aos fins-de-semana. Fui ficando, ficando, já estou há 16 anos. Canto de terça a sábado, quando não tenho concertos ou outras coisas que me levem a faltar.

 

É feliz quando canta?

Nem sempre. A felicidade é uma coisa impermanente, e a cantar também. Cantar torna-me uma pessoa melhor, põe-me em contacto com coisas que me dão prazer, tenho momentos de felicidade que decorrem daí. Gosto muito de viver, a felicidade é o meu sentido para a vida. Mas não tenho uma propensão natural para a alegria. Sou muito crítica de mim mesma e dos outros. Quando corre bem, é uma memória que nos fortalece. É o nosso reservatório de alegria, de esperança, que nos ajuda a aguentar os momentos maus. Mas viver com esta lucidez e exigência diária, é duro. As pessoas querem mais, mas não querem ser melhores.

 

É curioso que, tendo tão pouco à partida, não quisesse ter mais. É curioso que tenha querido ser melhor.

A morte foi sempre uma coisa que esteve presente em mim. Nunca me esqueço de que vamos morrer. Achei sempre um mistério, termos de morrer. Mas também nunca me assustou muito. Gosto tanto da vida que a quero viver bem, independentemente de morrermos ou não. Quando não nos esquecemos de que a morte existe, essa coisa do “ter” não tem o mesmo significado. Podemos morrer porque tropeçamos na escada.

 

E aí é preciso ter algumas contas em dia.

Acima de tudo é importante deixar uma boa memória em alguém, de alguma coisa boa que tenhamos feito, de uma alegria. Gostava que se lembrassem: “Da última vez que estive com ela foi bonito, estava um sol radioso, rimos muito”. Isso é o que é possível deixar.

 

O que é que significou na sua vida o encontro com Manuela de Freitas e José Mário Branco? Basta olhar para este livro (onde assinam letras e fados) para perceber que são duas pessoas centrais na sua vida artística.

O José Mário Branco foi a grande referência de sempre, artística e humana. Ainda hoje procuro corresponder humanamente àquilo que faço e vice-versa. Não basta que gostem do meu trabalho, quero que a minha personalidade seja um resultado do bom trabalho que faça. E quero que o meu trabalho seja um resultado da boa pessoa, da boa vida que dou a mim mesma.

 

Ainda que faça essa separação em relação aos outros.

Faço. Há artistas maravilhosos com personalidades desinteressantes, e o contrário. Mas o José Mário Branco é um bloco. Ele consegue ter uma personalidade humana que corresponde à artística. Quis conhecer o José Mário, arranjei o pretexto, estava num projecto da Comuna. Acabei por conhecer a Manuela de Freitas mais rapidamente, ela é mais expansiva. Eles sentiram, humanamente, alguma atracção por mim, suficientemente grande para nunca mais termos cortado o elo. São seguramente dois dos meus melhores amigos. Artisticamente, o meu percurso foi feito à margem deles. Quando canto, canto com a experiência que tivemos no trabalho com o Camané, e, ainda antes, com a maneira como sempre absorvi a actividade artística deles. Fazem parte da minha formação em geral, estão em tudo o que faço, directa ou indirectamente. Mesmo que não me cante a mim, canto com o que sou.

 

O encontro com eles é anterior ao seu casamento com o Camané?

É anterior, mas não muito. Eu e o Camané já vivíamos juntos. Conhecia tudo do José Mário Branco, e já tinha visto a Manuela de Freitas na Comuna. Estava na fase em que ia para os fados todas as noites, só ouvir, nem pensava cantar. Comecei a projectar as Noites de Fado na Comuna, que fiz com o Camané em 1994 (convidávamos mensalmente fadistas e actores para dizerem poesia portuguesa). 

 

Nos discos de Camané, já a trabalhar com Manuela de Freitas e José Mário Branco, e antes de começar a cantar, fazia pesquisa, escrevia letras, fazia um acompanhamento do trabalho discográfico. Foi um período de aprendizagem importante para si, mesmo enquanto intérprete?

Muito. Tenho três fadistas que são o meu tripé artístico, a Beatriz da Conceição, o Camané e a Maria da Fé. Para além de haver outros com quem aprendi muito, com estes contactei muito – que é uma forma de aprendizagem muito forte. Ouvir tantas vezes o Camané cantar, a Beatriz e a Maria da Fé, dá-nos uma perspectiva indizível. Nuns dias estão menos bem, nos outros geniais, são momentos irrepetíveis. Mas aprende-se sempre a ouvi-los cantar. Com eles aprendi não só a arte do fado, como a arte da profissão.

 

Traduza isso em coisas mais concretas.

A arte do fado é conhecer as melodias e a importância da palavra na melodia. Conhecer os vários estilos, dos vários fadistas que fazem parte da história do fado, de que há registo. A profissão significa saber, pressentir, conduzir o público, que todos os dias é diferente. Para cantar numa casa de fados, a um metro de distância seja lá de quem for, e ao mesmo nível, porque não temos palco, é preciso ter uma força e uma coragem na exposição emocional que o fado impõe. É preciso ser-se honesto, forte, respeitável. E depois aprender a técnica de cantar. Sendo o fado uma tradição oral, aprende-se tudo por passagem de testemunho, e com muita prática. Aprende-se cantando diariamente, aprendendo a conhecer os públicos, a fazer respeitar o ritual daquele momento, a reconhecer e a interiorizar as melodias e as letras ao ponto de elas se tornarem a nossa pele.

 

Como se o fado fosse uma actividade vital?

Tenho uma profissão que me obriga a entrar diariamente por uns caminhos que não são fáceis de definir, em permanente contacto com os meus sentimentos, com a linguagem poética, com a força da música. Há dias em que isso me transforma completamente – é lindíssimo. Mas também há dias frustrantes, porque não descubro nada, não consigo realizar nada de jeito. Tudo o que me acontece na vida interfere com os meus fados, tudo o que acontece com os meus fados interfere com a minha vida.

 

Como dizia há pouco, não canta o que é mas com o que traz.

É uma arte que se confunde com a vida, que se torna na nossa vida. Estamos sempre na iminência de ser transcendidos, mas também estamos sempre na iminência de cair para um abismo. E vivemos entre o abismo e o céu.

 

Tem uma maneira de se exprimir poética. Sempre foi assim?

Poética, não sei, mas a minha mãe diz que desde pequena tinha uma linguagem diferente. Os professores também diziam isso. Sou muito sensível às palavras. Oiço as palavras como música.

 

Voltemos ao que canta e às personagens que aqui são evocadas. Medeia, Orfeu e Eurídice, Blanche Dubois.

Desta vez, aquilo que me acontece na casa de fados aconteceu-me na gravação de um disco. Estou artisticamente diferente, e estou humanamente diferente depois desse disco.

 

O que é que mudou?

Fui obrigada a cantar sentimentos que nunca tinha cantado. As dores do amor, as alegrias do amor, a cidade, a raiva, o desespero – canto isso desde sempre. Mas o vazio, a frieza, a incapacidade de amar, não. Uma biografia, também não. A mentira, a fealdade, também não. Tive que ir a um fundo a que ainda não tinha ido, para poder interpretar.

 

É verdade o que está neste fado, a partir da peça de Eugene O’Neill, “por mais triste que fosse o que eu contava, ainda era mais triste o que eu escondia”?

Isso foi o mais fácil de cantar. Cantei de um take só, à primeira. A tristeza é-me familiar.

 

Mas ainda mais triste o que se esconde?

Quando a tristeza é muito profunda nunca se consegue revelar completamente. Esse fado: é alguém que tem muitas razões para ser triste, mas que quando tem oportunidade de deixar de o ser, descobre que gosta de o ser.

 

Também é assim?

Não, foi o que sempre tive medo de ser. Habituarmo-nos à tristeza é o mais fácil, dá menos trabalho. O medo do desconhecido pode impedir-nos de viver. É o medo que o desconhecido traga sofrimentos maiores do que aqueles que já conhecemos.

 

Que momento foi esse em que pegou em si e dissipou a raiva e a revolta da adolescência, em que se obrigou a encontrar um caminho? Explique essa detonação interior.

Foi por amor, a começar pela minha mãe. Uma pessoa que acreditou tanto na vida, que sacrificou tanto por mim…, não posso ser infeliz.Isso seria defraudá-la, frustrar todo o plano de vida dela. Foi quando me decidi a arriscar nas minhas paixões, nas minhas convicções, nos meus sonhos. Não posso dizer que sou uma pessoa muito bem sucedida, mas valeu a pena. Perdi o medo de amar, e tenho cada vez menos medo de ser amada.

 

No disco canta estas personagens e histórias a partir destes contos. Porquê? Os letristas escolheram estes contos porque isto tem que ver consigo?

Sim. São todos meus amigos. Nunca uso a palavra “amigo” em vão. Quando digo “o meu amigo”, é como dizer “o meu irmão”. Mesmo gostando muito de uma pessoa, enquanto não sentir que somos amigos, não chamo amigo a ninguém. Gostei tanto das letras, qualquer uma era maravilhosa. As histórias, conhecia a maior parte, as que não conhecia fui ler. À medida que ia conhecendo as letras, ia amando-as mais. Não escolhi, mas de tudo o que está aí, nada me é estranho, a tudo isso sou sensível. E fiquei a saber que tudo isso está dentro de mim. A novidade foi cantar essa parte de mim, essas pessoas.

 

Depois há no seu disco-livro um poema de Pedro Mexia, A Balada do Café Triste, que não é cantado.

Admiro a poesia do Pedro Mexia. Tem uma tristeza e uma melancolia que ligam muito bem com o fado, e comigo. Não está habituado a escrever para músicas com uma estrutura tão definida, tão fixa, e tem, como ele diz, “problemas com a rima”. O Pedro Mexia trouxe questões novas para a minha vida. Somos muito diferentes, opostos em questões essenciais (como a política), mas temos uma formação humana semelhante. É uma pessoa muito culta, muito inteligente, e um grande talento poético. Uma pessoa assim, por quem se tem afecto, acrescenta-nos sempre. Por tudo isto, faz todo o sentido que o poema do Pedro esteja no disco.

 

Nesse poema há alguém que rouba livros.

O poema é a síntese do meu disco e tem o título de um livro de Carson MacCullers. Passa-se numa feira de livros, e fala de uma história de amor, de alguém que passa por ladrão de livros.

 

Já roubou algum livro?                                                          

Não. Nunca roubaria nada, sou contra. Nem por amor. Excepto se for para comer.

 

 

Publicada originalmente na Revista Pública, em Maio de 2011

 

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