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Maria Bethânia

«Essa mulher exótica, muito chique numa foto dos anos 60, comemora 35 anos de carreira com um show no Canecão. Você sabe quem é? Veja na página 20».

A legenda, datada de Novembro de 2001, ocupava a coluna da esquerda de uma página do Jornal do Brasil. A mulher exótica, a coluna da direita. O cabelo da mulher é o que mais impressiona; esticado num rabo-de-cavalo, vai muito para lá da cintura. O perfil, que pronuncia a testa alta e o nariz proeminente, destaca-se logo depois. A roupa é confortavelmente prêt-a-porter: umas calças de espinha, uma camisola de malha, um lenço à volta do pescoço. O que faz da imagem aquilo que a imagem é, é a imponência da mulher. Exótica e chique. Sendo que o exotismo era parte substancial do seu ser chique.

Essa mulher, no Brasil de 65, transformou-se numa estrela da noite para o dia. O mesmo Jornal do Brasil escreveu então: «Magra, esguia, tímida, Maria Bethânia, a moça dos mares da Bahia que veio substituir Nara em Opinião, teve que voltar a Salvador para fazer uma segunda época de matemática». O título não podia ser mais entusiástico: «Do mar surgiu uma nova musa». Maria Bethânia tinha 17 anos, contas a arrumar com a escola, e uma brasilidade que nada tinha que ver com a de Nara Leão, protótipo da carioca de boas famílias, que substituiu no show «Opinião».

Foi o seu debute. Para trás ficavam experiências avulsas na Baía. A acompanhá-la, menina virgem que o pai quer resguardar, o irmão mais próximo.

O irmão dá pelo nome de Caetano Veloso, e foi por causa dele que ela se chamou assim. (Na altura fazia sucesso no rádio o tema «Maria Bethânia», de Capiba, gravado no ano anterior por Nelson Gonçalves. O pequeno tinha quatro anos e insistiu com o pai para que a irmã mais nova se chamasse assim).

O que aconteceu antes e depois desta noite mágica é o que ela esclarece nas próximas páginas. A noite é o ponto de partida que assinala 35 de carreira, 55 anos de idade. O disco «Maricotinha» promove a festa de duplo aniversário.

Uma manhã, por altura dos concertos que deu no Porto e em Lisboa, Bethânia acedeu a viajar à margem do tempo.  

 

 

No dossier de imprensa que acompanha «Maricotinha», há imagens suas posando como modelo. São imagens muito estilizadas, que datam de 1969.

Eu era modelo. Não uma modelo profissional de passarela, mas fazia muita fotografia para moda. Moda com uma assinatura vanguardista. Alguns artistas plásticos resolviam desenhar roupas e pediam-me para posar.

 

Em Salvador?

No Rio, logo que cheguei, em 65. Sempre fui magra e tinha uma postura de cena de que as pessoas gostavam. Era diferente do manequim daquele período. Essas pessoas..., vanguardistas, (não tenho outra palavra), e criadores mais exigentes, me convidavam para que apresentasse as suas roupas, em fotografia. Já tinha feito o «Opinião», e fazia isso em paralelo à minha carreira. Nunca deixei de ser cantora.

 

Porque é que fazia?

Achava bonito. A roupa, os adereços, achava isso bonito. Tudo o que me pediam para fotografar – não tem muita coisa –, era como se fosse uma pintura, como se fosse um objecto da Lígia Clark. Adorava fazer.

 

Pensei que pudesse ser em Salvador, porque viveu intensamente a sua movida cultural. É muito fácil imaginá-la, então, a posar para artistas plásticos.

Quando vim de Salvador tinha 17 anos, era meniníssima, não tinha feito nada profissionalmente. Só tinha feito três espectáculos; dois com o grupo, (Caetano, Gil, Gal, Tom Zé, Pitti), e depois a ideia do grupo era a de que cada um fizesse um solo. Fui escolhida para fazer o primeiro solo, dirigida por Caetano e Gil. Como tenho, sempre tive, uma atracção muito grande pela dramaturgia... Havia no Teatro dos Novos uma montagem muito especial com cenografia de um dos maiores artistas baianos. O espectáculo era «Eles não usam black-tie». A cenografia era uma réplica de uma favela carioca. Mas espectacular!, foi premiado no Brasil inteiro! Como você disse, esse período na Baía era de uma efervescência cultural mágica e única, e espero que um dia se repita para que outras gerações tenham o privilégio que a minha teve. De poder conviver, participar. Então, o meu espectáculo solo foi montado nesse cenário. Mas tudo amador, nós não éramos profissionais.

 

A componente social e política era relevante?

Contundente. Me referi a esse espectáculo porque foi a partir dele que Nara Leão, que não assistiu mas ouviu a fita de gravação, me indicou para fazer o «Opinião».

 

Gostava de perceber a relação que tinha com a sua imagem e com a sua feminilidade. No «Opinião» esticaram-lhe o cabelo, e tinham alguma dificuldade em lidar com a força que o seu físico emana, que não é o convencional de uma menina carioca – ao contrário.

Nunca tive problema; tanto que posava. Juro para você que essa coisa de posar para fotografia de moda era muito um agrado que fazia, uma maneira de dar o meu apoio à criação artística daquela figurinista ou daquele artista plástico. Não ganhava nada para fazer isso, era bem espontâneo e amigável. Nós, brincando... Só que era levado um pouco a sério, porque tinha feito o «Opinião» e virei um nome nacional muito forte. Mas sempre lidei com muita naturalidade. A criação que tivemos, meu pai e minha mãe sempre deixaram para nós uma escolha ampla. De gosto, de escolha de música, de escolha de tipo físico. Família de oito filhos, e eu sou a caçula [mais nova]. Vim herdando o gosto de cada um.

 

São todos parecidos?

Muito parecidos fisicamente. Eu com Caetano sou muito próxima, Mabel com Rodrigo, Clara Maria com Roberto. São sempre casais. Mas se olhar qualquer irmão meu, vai dizer «Ah, tem a ver com Caetano e com Bethânia».

 

Nas fotografias da época é muito evidente essa parecença. E partilhavam uma espécie de beleza andrógina, um e outro.

Nós temos isso. Quando fizemos o espectáculo juntos, havia comentários muito engraçados. Me lembro de um escritor argentino que foi assistir ao espectáculo e falou «Adorei; mas essa brincadeira de espelho não tem graça». Ele achou que realmente éramos um.

 

A sua relação com esse corpo e esses traços...

Sereníssima. Para mim não era difícil. Era para algumas pessoas que estranhavam aquela beleza, estranha e misteriosa, ou não-beleza. Era uma outra coisa: nordestina, do interior da Baía, com 17 anos.

 

Tinha orgulho nessa diferença? Nessa mestiçagem, por exemplo?

Não é orgulho nem nada. Para mim sempre foi normal. Sempre percebi que era uma singularidade, como tudo em mim. A minha voz é singular, a minha postura em cena é singular, a minha escolha intelectual é singular, tudo é singular. E Caetano, quatro anos acima de mim, desde menina que me chamava a atenção: «Olha a sua sobrancelha, olha como é desenhado o teu lábio». Tivemos sempre uma relação muito próxima com o nosso físico.

 

É verdade que um dia, num autocarro, iam perguntar que relação tinham, e você se antecipou e disse «Somos amantes!»?

[riso] Não me lembro dessa história, mas pode ser. Nós tínhamos um elo... Cresci com Caetano me ensinando tudo. E eu despertava nele um interesse... Ele viu uma criança virar mocinha e virar mulher. Era uma descoberta interessante.

 

Quando virou mocinha, com a chegada da menstruação, esse tipo de coisas contava mais facilmente a Caetano que a qualquer outra pessoa?

Não. Na hora que menstruei estava brincando, jogando bola com amigos. A palavra que se usava não era menstruar, era «Ficar incomodada». «Minha mãe, fiquei incomodada». E ela «Então vem rápido tomar banho, vou lhe ensinar». Saí da brincadeira, tomei banho, ela me ensinou como usava e voltei para a brincadeira, normal. Lógico, fui correndo, Caetano foi das primeiras pessoas a quem quis contar, «Caetano, fiquei moça!». Meu pai ficou um bocadinho zangado.

 

Porquê?

O pai não gosta muito de ver a filha desenvolver. Acho que meu pai atinava que eu me ia embora cedo, que eu ia sair daquele ninho.

 

Daí que mais tarde ele incumbisse o Caetano de a proteger e acompanhar.

Era virgem, era a filha caçula, e não vinha para uma cidade grande sem um irmão mais velho acompanhando! Não saia de noite sem um irmão me acompanhando!

 

O estigma da virgindade e da rapariga, em Portugal diz-se «Honrada»...

Lá também. «Perdeu a honra», quando perde a virgindade.

 

Era forte esse estigma?

Forte, mas não avassalador, e muito menos dentro da minha família. Conversava-se sobre tudo, com o devido respeito; não era essa intimidade que hoje tem com a mãe ou o pai. «Meu pai, preciso conversar com o senhor um assunto, minha mãe preciso conversar com a senhora». Tinha uma solenidade, mas muita naturalidade.

 

A relação que as pessoas dos Trópicos têm com corpo, passará com certeza pelo clima, é muito mais desinibida.

Muito viva.

 

Por isso fiquei surpreendida quando soube da extrema preocupação do seu pai com a sua honra.

Tinha, tinha.

 

No Rio seria diferente?

Completamente. Além de ser Baía, era interior da Baía, recôncavo baiano, berço das tradições mais enraizadas da Baía. O que nossos pais nos deram foi uma noção de «Como deve ser». «Como deve ser» na cabeça deles, mas «Vocês escolhem e sejam responsáveis». Isso sempre permeou a nossa formação.

 

O seu pai era quem mais se preocupava. Mas no «Verdade Tropical», Caetano escreve que a sua mãe a tinha por preferida

É, até hoje falam. Sou caçula e minha mãe me denga. Minha mãe tem comigo uma admiração extra por eu ter escolhido o palco. Por viver no palco. Minha mãe era actriz. É que em Santo Amaro, as senhoras milionárias que tinham as suas fazendas e terras, no fim do ano, chegava Novembro e terminava o colégio, arrebanhavam as moças, filhas de amigas ou conhecidos dos maridos, 20, 30 moças, para formar durante três meses.

 

Como é que se chamava a senhora que formou a sua mãe?

Dona Sinhazinha Batista. O marido era senador. Minha mãe, menina, teve uma formação ampla: aprendeu teatro, aprendeu a bordar, a cozinhar, a fazer doce, a cantar, a dirigir. A primeira pessoa que me dirigiu foi a minha mãe.

 

Aprendiam a ser prendadas?

Era costume da época formar as moças para um casamento, entendeu?, era para um casamento. Para a moça ter um conhecimento geral do mundo. Minha mãe cantarola até hoje trechos de ópera que ela lembra, que ficaram marcados. Meu avô era poeta e minha avó era uma mulher de classe média-baixa, como nós todos. Não tinham acesso a essas vitrolas com discos importados da França, com ópera gravada. Era bacana essa formação.

 

Como é que os seus pais se conheceram? Ficou a menina prendada, ensinada pela Sinhazinha Batista, pela qual ele se apaixonou?

Minha mãe era linda.

 

Na capa do disco do Caetano «Uns» percebe-se como são parecidos.

Temos muito dos dois. Tenho mãos idênticas às do meu pai, Caetano também. No rosto, o nariz é do meu pai, um nariz que se acha um pouco árabe, mas é muito do índio da região da Baía. Não sei muito da história de amor deles; eu vivi-a, graças a Deus!, vivi e me formei nesse núcleo amoroso. Um amor de causar espanto. Acho que foi uma paixão fulminante. Casaram logo, meu pai muito pobre, funcionário do Correio, e foram morar numa cidadezinha, menor ainda que Santo Amaro.

 

O seu pai tinha alguma formação cultural?

Era um apaixonado da poesia, da literatura de um modo geral. Os amigos do meu pai, todos os que conheci, era poetas.

 

O assunto vinha a propósito da preferência da sua mãe por si.

Minha mãe era óptima actriz lá nos dramas de Dona Sinhazinha. Depois se apaixonou pelo meu pai, foi viver a vida dela, de casamento e de filhos, e o palco sumiu. Então, o que é que ela fazia? Quando eu era meninota, ela dirigia umas meninas de Santo Amaro e eu inclusive. Fazíamos uns espectáculos, caseiros, para as pessoas da cidade. Sou um pouco ela no palco. Represento o palco que ela não viveu. Tanto que é muito exigente comigo; tem uma imensa confiança, mas até ganhar essa confiança... Hoje em dia, Bibi Ferreira, uma grande amiga, me dirigiu inúmeras vezes, tem comigo esse rigor que a minha mãe tinha. Me dá ordens. «Be, a perna...». Sabe como é, reclama da postura.

 

Trata-se de uma complementaridade. Mas a sua mãe tem um outro lado, mais estereotipado, da mulher que casa e tem filhos. Nunca ambicionou para si, também, essa vida?

De casar? Quando tinha 18 anos tinha uma quase obsessão em ter filhos. Vim cantar com 17, minha vida deu uma virada. Eu sabia, eu esperava, sabia que ia viver no palco. Mas não sabia que ia ser naquela rapidez, naquela violência que foi. Subi no palco à noite para fazer uma apresentação, e quando acordei era quem sou hoje. Um ano depois de estar no Rio, me bateu a solidão de uma grande cidade, e outra, a do palco, sozinha, comendo em restaurantes, sabe essas coisas? Talvez pela necessidade de preservar o que admirava – me fascinava a vida de nossa casa, família imensa, mesa com 20 pessoas –, pensava profundamente em ser mãe. Mas, junto com esse desejo, a visão da minha carreira, da minha história como intérprete do meu povo, era tão grande quanto. Com o desenrolar do tempo, me vi muito dirigida para o meu trabalho. E diminuiu esse anseio.

 

Havia ainda a dificuldade em fazer uma família à imagem e semelhança da sua.

Que era o meu modelo de perfeição. Todos os meus novos amigos, que tinham os seus pequenos núcleos familiares, não via ali a mesma coloração, o mesmo calor. Todo o mundo trabalha. E eu não ia deixar a minha carreira por nada! Senti muito isso, «jamais, isso não vai ser como sonhei» Também não foi uma decisão chapada, «Então não terei filhos». Ficou uma coisa «Se acontecer será muito bom, conquanto que não me divida». A maneira como sou no meu ofício, não posso ter divisão. Do mesmo modo, se parisse, tenho a certeza que seria igual. Nada me poderia dividir na criação. Deus foi generoso comigo; não me deu filhos, que é uma realização feminina, mas me deu a voz. Me deu a voz, que é feminino. Compreendi essa escolha que Deus fez em relação a mim.

 

Do que falamos é do feminino. As suas escolhas musicais marcavam também uma diferença nesse sentido. Neste caldo efervescente da Baía, era a que gostava das músicas melodramáticas do Noel Rosa, e até do Roberto Carlos, mais tarde. Depois de ter feito o «Opinião», que é um espectáculo eminentemente político, quer voltar ao Rio com «Um show de amor».

A mulher é diferente do homem, mais sensível e tal. Caetano, sendo um homem tão especial, tem toda essa coisa que eu tenho, todo esse lado amoroso, delicado, feminino, que faz dele quem ele é. Do mesmo modo que eu tenho uma energia masculina muito forte comigo. Canto uma canção de amor derramada, mas a minha postura e a minha emissão de amor têm uma energia forte que modifica a canção. É essa a nossa assinatura, a nossa individualidade.

 

A mulher não fica a chorar o amor perdido pelos cantos?

Choramingas nunca, jamais! Eu sou a mulher da luta, do amor, do palco. Filmes; Caetano e eu crescemos vendo tudo juntos, de Fellini aos dramalhões mexicanos. Chorávamos tanto no dramalhão mexicano como n’ «As Noites de Cabíria». Com emoções diferentes, mas tudo pode. Quando Caetano fez o Movimento Tropicalista, a grande marca do movimento foi «Não tenho medo do que gosto. Gosto de tudo que meu país é, mesmo que não seja o mais elegante, o mais fino». Amigos meus iam no cinema e tinham vergonha de chorar no dramalhão mexicano.

 

Nunca teve vergonha de gostar de Noel Rosa?

Absolutamente.

 

Li que quando ouviu João Gilberto o achou interessante mas destituído de emoção e carga dramática.

Não, não. João Gilberto, ouvi a primeira vez e falei «Esse homem é uma coisa, eu amo essa maneira». Ele tem uma coisa que corresponde à dramaticidade: é tão anti-dramático que vira o drama puro, renega tanto que é um drama, é uma tragédia grega! O João é genial, está fora dos parâmetros, João é um em século, quando o século é bom. O Noel não vinha tanto pela dramaticidade, vinha mais pelo lado do narrador do quotidiano. Noel era um compositor como Chico Buarque. Como se fosse um jornalista que conta sobre o típico da sociedade, do país. Noel sempre me interessou por isso, e pela maneira poética de ver o dia a dia, o amor, a vida de trabalho.

 

A vivência do amor no quotidiano é muito exaltada em si. Onde pensa que radica este interesse?

Não sei lhe dizer que raiz é essa.

 

Que memória tem de si enquanto menina que vai cantando e vivendo estas coisas?

Meu pai sempre falou «Você nunca vive a sua idade, você vive dez anos à frente da sua idade». Acho que já gostava destas canções mais aprofundadas, já gostava de imaginar uma relação amorosa com as dificuldades que essas músicas de Noel e de Chico... Tanto que Chico é a minha referência na minha geração. Chico e Caetano são os dois compositores. O Chico me pega mais no lado do amor, das crónicas do dia a dia; Caetano com uma coisa mais penetrante, mais aguda.

 

Como é que era a sua vida, menina pequenina?

Era em Santo Amaro, minha casa, colégio, brincadeiras, brincadeiras, brincadeiras... Brinquei muito, feliz de quem nasce no interior, com quintal e com árvores, com rua sem carro, cidade pequena onde toda a gente se conhece e se fala.

 

Completamente liberta de uma angústia, que é marca da vida e da opressão citadina.

Completamente liberta. Nesse período, não tinha angústia. Recentemente, conversando com Caetano, falámos sobre isso. Caetano não tinha angústia, naquele periodozinho não tinha não; depois foi chegando... Ele até falou «Tinha pavor de imaginar que ia viver a minha vida toda em Santo Amaro».

 

O sítio era demasiado pequeno para o seu talento e para a sua sede de mundo?

Uma cabeça como a de Caetano... Foi lindo o que vivemos, e hoje em dia voltamos e revivemos, mas tínhamos que sair. Principalmente Caetano, que é um autor.

 

Você também.

Eu, como intérprete. Mas um autor? Não pode. Os poetas amigos de meu pai, todos eles iam para Salvador ou Rio de Janeiro, para um curso, para qualquer coisa que desse uma respiração. De algum modo, o provincianismo deprime.

 

Aos 12 anos instala-se em Salvador com Caetano, para completar o liceu. Foi o seu primeiro desenraizamento.

Para mim foi dificílimo, foi um dos piores sofrimentos. Se não tivesse vivido esta ruptura, não sei se aguentaria com tanta firmeza a vinda para o Rio e o sucesso rápido.

 

Fazia birras de menina caprichosa, calava-se, não era?

Era muito calada. Fiquei muito infeliz. Vivia no meu quarto, que não era só meu. Nossa família é muito pobre. Meu pai alugou um apartamento para Rodrigo e Roberto, que já trabalhavam em Salvador, para mim e para Caetano, e Nicinha, minha irmã mais velha, foi tomar conta de nós. Meu quarto era dividido com ela. Nunca tive um quarto meu, só meu. Só fui ter depois que virei mulher, cantora, dona da minha vida. Não tinha dinheiro para ter um quarto para cada menina! Imagina, oito filhos!

 

E quando teve o seu espaço?

Ah, você não sabe, mas quando era menina pedia para minha cama ser encostada na parede. Porque tinha uma parede! Decorava toda a minha parede, tinha tudo o que eu amava. De fotos da Gelsomina, a Caetano. Caetano pintava; tinha retratos de amigos que mandava lhe fazer, programas de teatro a que ia, tudo, tudo.

 

Havendo tão pouco, a relação com os seus objectos seria intensa.

É, fortíssimo. Ao pé da minha cama tinha um caixotinho de madeira que me pai me deu; ele limou, lixou todinho e meu irmão Rodrigo decorou com retalhos de revistas. Eu adorava desde menina trabalhar com metal _ ainda hoje trabalho, preciso me ocupar com as mãos. Meu pai me deu uma tesoura e material para trabalhar com folha fina de cobre. Para Gal e para mim, na nossa estreia, fiz um enfeite que usámos: um girassol de cobre. Tenho uma pena de ter perdido essa peça...

 

A Gal tem a dela?

Não, perdeu também. Na nossa estreia, eu estava de branco e a Gal de preto, o mesmo modelo, o mesmo tecido, e fiz o girassol de cobre para usarmos. Então, tinha minha oficinazinha, que era a minha paixão, e tinha meu violão, que ganhei do meu pai e da minha mãe. Era um violão maravilhoso, chamava-se Zé.

 

Pôs nome ao violão?

Sim, sim.

 

A árvore que tinha quando era pequena...

A goiabeira.

 

Também tinha nome?

Não. Eu gostava de ficar no fruta-pão e Caetano na mangueira. Estão lá até hoje. Subíamos para o olho da árvore e ali passávamos o dia, brincando de tudo, ele no galho da mangueira, eu no galho do fruta-pão. Brincávamos muito de faquir, que era ficar deitado o dia inteiro no cimo da árvore sem dizer uma palavra. Era óptimo, desenvolvia a cabeça... Mas a minha árvore era a goibeira. E ainda hoje falo assim: a minha revista, a minha.

 

Aos 17 anos, vai para o Rio e quando acorda é uma super-estrela.

Tive que amadurecer em segundos. Compreendi na hora tanto a beleza como a responsabilidade do ofício. E o juízo que precisava ter. Compreendi o sucesso, assim, imediato: tenho que respeitá-lo para que ele me respeite. Mas me custou. Não gostava de mim nesse período.

 

Porquê?

Tive que envelhecer. Eu era adolescente, queria era namorar, ter os sonhos de adolescente, ter meu pai e minha mãe cuidando de mim. E tive de fazer de tudo, de pai, de mãe, de irmã, de cantora... Me senti extremamente só.

 

Mas Caetano foi consigo para o Rio, justamente para a proteger.

Mas não adianta, não. O palco é de uma solidão incrível. Você é só. E ao mesmo tempo é deslumbrante. O palco me salvou de tudo. A minha geração, muitos amigos meus entraram em drogas, em equívocos, se atrapalharam com seus talentos. Felizmente o palco me sustentou e me sustenta.

 

Sempre no duplo registo da responsabilidade e do prazer?

Imprescindível, o prazer. O prazer de realizar, de expressar, de poder expressar.

 

O que implica a existência de uma mensagem, daquilo que se quer expressar.

O artista tem necessidade de expressar. O palco é uma tribuna como outra qualquer. O que faço é ser intérprete do meu povo. Sensitiva, fiel e verdadeira. Eu não minto. Não posso entender mentiras no palco. Não combinam, mentira e palco não casam. Cada espectáculo é o que estou querendo dizer no momento. Por isso é solidão. Porque também é nudez.

 

Não amedronta ao mesmo tempo?

Nada. É um lugar onde não tenho medo, o palco. Cá fora? Inúmeros. Era muito mais corajosa, não tinha medo de quase nada quando era menina. Até virar cantora, até virar pessoa notória, não tinha medo de trovoada, não tinha medo do escuro. Agora tenho.

 

Ainda menina, pelo quadro que nos deu, parecia uma força da natureza. Crescer desenraizou-a.

Não desenraíza. Mas você tem de se adaptar, tem de incorporar. Não tem jeito: realidade é essa, vivo nesse mundo. «Maricotinha», a canção do Caymmi, porquê a minha atracção por essa canção? Para mim é um modo de vida. Fico encantada de ver que Caymmi escreveu isso, um homem tão sensível. E infinitamente menor na minha sensibilidade e na minha genialidade diante de Caymmi, também eu tenho necessidade de a cantar. O que é «Maricotinha»? Se fizer bom tempo amanhã, eu vou, se por exemplo chover, eu não vou. É um direito que todo o ser humano tem e que vai perdendo todos os dias. Mesmo que não possa agir assim, é lindo admirar esse modo. Por isso escolhi esta canção para representar este momento: 55 anos de idade, 35 de carreira.

 

Não é assustador envelhecer?

Nunca tive medo da velhice. Os meus velhos são mágicos, são gente muito bonita. O medo da velhice viria se vivesse de uma coisa superficial, de exterior, e eu não vivo disso. Me alimento do meu interior, da terra, de coisas perenes. Sabe, passei a gostar mais de mim a partir dos 40 anos. Fiquei mais feliz e menos dura comigo. Fiquei mais mole com a vida, compreendo melhor. É maturidade, mesmo. A minha voz, aos 40 anos, chegou no lugar. Para mim, é uma marca muito importante.

 

Canta melhor agora?

Muito melhor. A única angústia que vem com a velhice é que a voz também envelhece. Vai chegar um ponto que não vou poder mais cantar e isso me dá uma certa melancolia. Querer cantar e não poder.

 

Ainda canta sem estar em cima do palco?

Canto, canto o tempo todo. Cantoralo pedaços, e passo muitas horas trabalhando com música na minha cabeça. Sonho muito que estou cantando. Está muito presente no meu subconsciente: o palco, o cantar, a emissão, as minhas preocupações.

 

Imagine que oferece à sua mãe de presente uma canção cantada por si.

Eh, para a Dona Canô...

 

Chama-lhe assim?

Minha Mãe. É que a gente brinca, porque ela é muito famosa... Ah, ela gosta tanto das canções do filho dela... Se fosse para meu pai, saberia imediato: seria a canção de que mais gostava, «Objecto não identificado», adorava esta canção que Caetano fez e eu cantando. Mas para minha mãe... Talvez cantasse uma canção religiosa. Fiz um disco para Nossa Senhora. Certamente tiraria de lá uma canção para oferecer a ela. Uma dessas preces, anónimas, muito simples.

 

Da terra?

É. Uma homenagem à mãe de todo o amor. 

 

 

Publicado originalmente no DNa, do Diário de Notícias, em 2003

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