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Chile (40 anos depois)

Foi pouco antes do fim de ano. Os jacarandás estavam floridos, as férias de Verão prestes a começar, fazia calor. No Instituto Nacional, a melhor escola pública do Chile, fundada há 200 anos, não havia uma atmosfera de fim de festa, quando se sente um ar fétido e as caras exibem olheiras de cansaço. As caras tinham o entusiasmo de quem acredita no futuro, o país cresce 6,6% ao ano, a mina de Chuquicamata (a maior mina de cobre do mundo e uma das maiores a céu aberto) parece inesgotável.

O discurso de Benjamín González, aluno finalista, pré-universitário, funcionou como uma interrupção. Uma suspensão da euforia colectiva. As pessoas na sala – os “ilustres vários” que o jovem saudou, entre eles a presidente da Câmara de Santiago, Carolina Tohá – esperavam talvez um discurso igual aos outros. Mas González decidiu, em público, fazer uma “catarse de seis anos de silêncio”, contar uma “história não contada”. O Instituto Nacional fora frequentado por 18 presidentes da República – “não são poucos os que têm as mãos manchadas com o sangue deste povo” – e também por um “pouco mencionado nos discursos” Salvador Allende. No Instituto Nacional aprendera, aos 12 anos, que “errar é humano, mas não institutano”. Aprendera muitas coisas. O que é que não lhe haviam ensinado?

“O dia 11 de Setembro [de 2012] calhou numa terça-feira. Dia no qual tinha História. No meu interior, quando me dirigia para a escola, pensei que, pelo dia que era e por aquele ser um curso de Humanidades, usaríamos essas três horas para discutir o tema. Erro crasso. Parece que eram mais importantes as Batalhas Napoleónicas e a Lei da Oferta e da Procura do que o barulho dos petardos que se ouviam explodir nas ruas [adjacentes ao] Instituto a essa horas da manhã [como sempre acontece no aniversário do golpe]. Comentando com um dos companheiros no recreio a situação, recordámos que nunca, nos seis anos que passámos na escola, nos ensinaram o golpe de Estado (onde morreu um presidente que frequentou o Instituto). Ou seja: se eu apenas soubesse o que ali me ensinaram e nada mais, não saberia quem foi Augusto Pinochet na história do Chile. Repito: [12º ano] de Humanidades na melhor escola do Chile.”

O discurso de Benjamín González teve o impacto de uma deflagração. As redes sociais, a comunicação social, as conversas de fim de ano dissecavam o discurso como se disseca um corpo. Um corpo que é uma complexa e polémica aula de anatomia política. O que é se passou no dia 11 de Setembro de 1973? Um golpe de Estado ou um pronunciamento militar? (É melhor ler novamente a frase anterior: não se trata de uma pergunta retórica. Entre as duas definições está um abismo ideológico.) Entre 1973 e 1990 o Chile teve um Governo militar ou uma ditadura? Porque é que nas escolas públicas não se ensina quem foi Pinochet na história do Chile? Quem foi Pinochet na história do Chile?

A resposta, as respostas, podem encontrar-se em livros de História, em discussões acesas, quando se atravessa a rua. Uma das artérias principais de Santiago chama-se “11 de Setembro”. Celebra a data, celebra a acção de Pinochet que, com o apoio da CIA, impediu que o Chile se transformasse numa Cuba da América do Sul. As comissões de investigação criadas nos Estados Unidos permitem concluir que Nixon e Kissinger conspiraram contra Allende. O grande fantasma? A besta comunista. Basta ler o título do conservador El Mercúrio (que continua a ser o mais importante jornal chileno) para perceber como foi justificado o golpe: “Marxistas preparavam audaz golpe para hoje”.

Choviam bombas em Santiago. Na mesma página de jornal havia horários de autocarros e a vida a correr normalmente. Um número indeterminado de aviões despejou um número indeterminado de bombas no Palácio de La Moneda. Pela rádio, cercado, o presidente Allende despedia-se dos chilenos: “Eles têm a força. Poderão submeter-nos. Porém, não se detêm os processos sociais nem com crimes nem com a força. Fiquem sabendo que muito mais cedo do que tarde se abrirão as grandes avenidas por onde passe o homem livre, para construir uma sociedade melhor. Viva o Chile! Viva o povo! Viva os trabalhadores! Estas são as minhas últimas palavras e tenho a certeza de que o meu sacrifício não será vão. Tenho a certeza de que, pelo menos, será uma lição moral que castigará a cobardia e a traição.” Allende suicidou-se com um tiro, uma versão hoje pacífica. Durante anos, suspeitou-se de que tinha sido assassinado.

A primeira página do El Mercúrio pode ser vista no Museu da Memória e dos Direitos Humanos, em Santiago, inaugurado pela “presidenta” Michelle Bachelet em Janeiro de 2010. Também se podem ouvir comentários de visitantes deste tipo: “Este filho da puta passeia-se pelas ruas alegremente”. O filho da puta em questão era um membro do Governo dos anos 80 e falava num documentário.

Evidentemente a direita não assistiu à inauguração do museu que pretende “dar visibilidade às violações dos direitos humanos cometidos pelo Estado do Chile entre 1973 e 1990” (lê-se no site do museu). Evidentemente Bachelet não assistiu ao funeral de Pinochet, em 2006. O pai da ex-presidente, um general das Forças Armadas, morreu na sequência da tortura de que foi alvo em 1974. A sua mãe, e ela própria, foram presas e torturadas no centro de tortura Villa Grimaldi.

Na recepção dizem-nos que o Museu da Memória é visitado por cerca de 120 mil pessoas anualmente, a maior parte das quais alunos em idade escolar. Estes e os pais destes têm leituras diferentes dos acontecimentos que ali são expostos. A leitura não é geracional. Resulta de um fosso ideológico que, passados 40 anos, está longe de estar suturado – que fará cicatrizado. E é porque a leitura dos acontecimentos não é unívoca – melhor: é porque a justificação dos acontecimentos de 11 de Setembro de 1973 e, as suas consequências, não são coincidentes – que não ensinam a Benjamín González e a estudantes da mesma idade quem foi Pinochet na história do Chile.

Os cadáveres recuperados são uma prova material do que aconteceu? Os milhares de perseguidos, presos, torturados, desaparecidos, assassinados são uma prova do que ali se viveu? Segundo os relatórios da Comissão de Verdade e Reconciliação (conhecido como relatório Rettig) e a Comissão Nacional sobre Prisão Política e Tortura (relatório Valech), o número de vítimas directas da violação dos direitos humanos no Chile ascende aos 35 mil. Mas quem eram essas pessoas? Camponeses, professores universitários, donas de casa, gente comum. Eram resistentes? Eram terroristas? Por que lutavam?

A direita golpista tende a justificar os “excessos” de 11 de Setembro de 1973  como sendo isso mesmo: excessos. Uma decorrência dos processos de transição. A esquerda que começou a expressar a sua orfandade e a ajustar contas com o passado, primeiro com Ricardo Lagos (presidente entre 2000 e 2006) e depois com Michelle Bachelet (2006/2010), ergue monumentos às vítimas. Um dos mais tocantes encontra-se em pleno deserto do Atacama, no norte da língua estreita e infinda que é o Chile. Uma série de colunas, dispostas num semicírculo, evocam dezenas de pessoas que aí foram enterradas pela Caravana da Morte. Acidentalmente os seus corpos foram encontrados anos mais tarde; muitos deles estavam desaparecidos há anos.

Não é este o espaço para dar explicações adicionais sobre o modus operandi do grupo de militares que constituiu a Caravana da Morte. Mas talvez valha a pena perguntar: o que é que lhes aconteceu? É verdade que dezenas de militares responsáveis por crimes da ditadura foram condenados. Nem tudo, nem todos ficaram impunes. Mas então, como compreender, por exemplo, que só há um mês tenham sido acusados oito oficiais pela morte do músico e activista Victor Jara, com 44 disparos no corpo? Trinta e nove anos depois. O  principal acusado, então tenente, vive agora nos EUA, casado com uma americana. Já foi pedida a extradição.

Um muro espesso, quase inviolável, protege muitos dos intervenientes destas páginas da história do Chile. Uma Constituição blindada, um sistema eleitoral assente em círculos binominais e a Lei da Amnistia deixados por Pinochet – que os impôs para se demitir – constituem um dos grandes desafios do próximo presidente da República. (Como os mandatos não podem ser consecutivos, o próximo será forçosamente outro que não o actual, Sebastián Piñera.)

O outro grande desafio será esbater a diferença entre ricos e pobres, que o crescimento económico não conseguiu resolver. Um relatório da OCDE (OECD Economic Surveys: Chile 2012), considera que o “Chile fez progressos consideráveis na redução da pobreza nos últimos 20 anos, e tem agora um dos índices mais baixos de toda a América Latina. A desigualdade também foi reduzida, ainda que mais recentemente e de um modo muito mais modesto. Contudo, os níveis de pobreza e desigualdade continuam altos para os standards da OCDE”. Segundo o mesmo relatório, o Governo tem o “ambicioso objectivo de erradicar a pobreza extrema em 2014 criando as condições para eliminar a pobreza em 2018. Um dos instrumentos para alcançar esta meta é a introdução do Ingreso Ético Familiar” – uma espécie de Rendimento Social de Inserção.

O novo presidente não poderá escapar ao “tema indígena”. Esta semana, Piñera prometeu um projecto para o reconhecimento constitucional das “etnias originárias”. Um reconhecimento que a esquerda pede desde 1990 e que a direita não consente que seja dado. Não é uma questão menor nem pacífica na opinião pública. A morte de um casal, cuja casa foi incendiada pelos índios Mapuches, teve um grande impacto nos primeiros dias de Janeiro.   

Michelle Bachelet, neste momento na ONU, respondeu um lacónico: “Em Março falamos”, quando lhe perguntaram se iria recandidatar-se. A frase foi suficiente para, numa sondagem do início do ano, 49% dos inquiridos dizer que tem a intenção de votar em Bachelet e 53% dizer que pensa que a ex-presidente vai ganhar as eleições. O segundo lugar nas sondagens pertence a Laurence Golborne, que ganhou protagonismo aquando do resgate dos mineiros chilenos em 2010, com 11% das intenções de voto.

Nas ruas de Santiago, a polícia veste um uniforme verde tropa e anda fortemente armada. Os carros têm grades de ferro a proteger os vidros. (Explicam-nos: “Ao contrário de Portugal, a primeira coisa que aqui se faz numa manifestação é atirar pedras contra os carros da polícia.) Tudo aponta para a militarização do país e para um passado cuja exumação está longe de estar concluída.

O resto, os conceitos que na Europa de 2013 parecem miríficos – como desenvolvimento económico –, parece, senão garantido, no bom caminho. O Santiago a Mil, um dos maiores festivais de teatro do mundo, tinha arrancado. (As peças de teatro Villa+Discurso, de Guillermo Calderón, Gladys, de Elisa Zulueta, e El Año en que Nací, de Lola Arias, escritas e levadas à cena sobretudo por aqueles que nasceram depois do golpe, estiveram na Gulbenkian. Duas das peças, Villa+Discurso e Gladys, foram consideradas pelo PÚBLICO as melhores peças representadas em Portugal em 2011 e 2012. Todas se centram no passado político recente. A condição do teatro chileno é pujante.) A casa-museu de Pablo Neruda estava entupida de turistas. As vinhas onde se produz o muy apreciado vinho chileno são encantadoras. O peixe, tan rico, que se serve nos restaurantes, é pescado na costa, no Pacífico. A água é gélida. Os leões marinhos apanham banhos de sol ao largo de Valparaíso. No deserto crê-se estar na superfície lunar. E há ainda a Patagónia. E Violeta Parra que canta a importância de: “Voltar aos 17 depois de viver um século”...

 

 

Publicado originalmente no Público, em Janeiro de 2013

 

 

 

 

 

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