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From Russia (exposição na Royal Academy)

Entra-se e encontra-se à esquerda Tolstoi de pés descalços. Há nele vestígios de uma imensa melancolia, e o ascetismo de uma figura monástica. Na parede oposta, madame Nadezhda Polovtsova incarna Anna Karenina: o colo muito alvo, o vestido de cetim azul, o enlace singular das mãos: a pele translúcida de uma delas, a luva posta na outra.

Transpõe-se a porta de entrada e está-se num mundo que já acabou. Inventaram uma nova ordem social. Leram outros livros. Implementaram outros modelos. Fizeram revoluções. Já não há heroínas românticas, nem impressionistas, nem fauvistas, nem cubistas, loucos, modernos, vanguardistas. Já não há coleccionadores como Shchukin ou Morozov. Vivia-se um fim de império. Era um mundo em ruptura.

A Royal Academy, em Londres, recebe a exposição From Russia. Sem amor, com amor. Uma mostra de 120 quadros para ver até Abril. Os cartazes anunciam obras- primas da pintura francesa e russa, produzidas entre 1870 e 1925. Os textos dos directores de museus falam da contaminação e da fertilização mútua – do que aconteceu entre um país e outro, nesses anos. Os jornais falam do estado das relações Londres- Moscovo e da ameaça que pendeu sobre a exposição. As estações de metro estão revestidas com “A Dança”, de Matisse, e envolvem os londrinos nesse movimento sensual e ondulante. Alguns amantes de arte falam da qualidade exemplar das pinturas que ali se vêem. Entra-se e à esquerda encontra-se Tolstoi.

Once upon a time, dois empresários do têxtil, compradores compulsivos, de gosto educado, competiam entre si na Rússia do virar do século. Sergei Shchukin e Ivan Morozov construíram colecções de arte prodigiosas. Um tinha mais Picassos do que o próprio Picasso. Outro tinha as paredes do quarto forradas com 18 quadros de Cézanne. Inimaginável! Inimaginavelmente bom.

“A Dança?” Aquela dança é uma variação da Dança que o mundo ocidental conhece e vê em museus desde as últimas décadas. Esta, a russa, é ligeiramente diferente. O ocre parece mais ocre, o contraste com o azul mais vívido, os elementos estão ligados por uma pulsão dionisíaca. É uma sagração da vida. O quadro resultou de uma encomenda expressa de Shchukin a Matisse. Em 1909, o pintor escreveu uma carta ao industrial russo explicitando a intenção da tela: nela se fala do poder da música. Monsieur, le proprietère pagou 15, 000 francos e seguiu viagem de comboio com um sentimento ambivalente em relação à tela: seria ela excessivamente arrojada, primitiva, fracturante? Comprou-a, em todo o caso, e exibiu-a na Rússia. Bem como outras peças famosas de Matisse – entre elas, um quarto vermelho, intenso, paradoxalmente sanguíneo e harmonioso. Uma cena doméstica, um vaso com flores ao fundo, uma mulher fechada no seu mundo, uma imensidão de vermelho bordado a flores que passa um conforto uterino.

O interior da mansão de Morozov em Moscovo: as paredes com quadros alinhados, uns sobre os outros, ao lado dos outros. Como se formassem uma segunda parede. Sem recuo suficiente para ver as telas de grandes proporções, sem espaço para que a beleza pudesse respirar. Um museu em casa. Atolado. Sem o despojamento que os museus têm nos nossos dias. Sem a luz certa. Organização incerta. Que importa. Morozov tinha uma das mais fabulosas colecções de pintura do mundo, e usa-a no quotidiano como se usa um objecto de que se gosta muito. “Ver” é uma conjugação possível para o verbo usar.

Os dois magnatas faziam incursões a Paris. Nessa Paris fervilhante, os artistas transformavam Montmartre um bairro instigante. Picasso e Matisse ficam como ícones desse período revolucionário. Os russos chegavam e compravam tudo. Compravam as paisagens de cores impossíveis de Monet, a joie de vivre dos quadros de Renoir, a dilaceração e o tormento de Van Gogh, a cidade romântica de Pissarro, a imersão exótica de Gauguin no Haiti, a reinvenção de um mundo a partir da cor operada por Cézanne, a poesia sublime das telas de Bonnard. Mais tarde, compraram Braque e outros cubistas, compraram artistas cujo nome não chegou ao século XXI, compraram, compraram, compraram.

E mostraram. A pintura russa das primeiras décadas do século XX não seria a mesma se não fosse este convívio com a vanguarda parisiense. Não existiria Kandinsky, nem Chagall, nem Malevich. Sem Picasso e a sua geração, o retrato de Anna Akhmatova, que figura no catálogo da exposição, não seria como é. Não se pintariam retratos como o da bailarina Ida Rubinstein. Nem se faziam figurinos como os que foram feitos para a companhia de Sergei Diaghilev. A fertilização, a mútua contaminação de que falam os directores dos museus exprime-se nisto mesmo. O diálogo foi profícuo.

Shchukin e Morozov eram personagens da literatura. Da melhor literatura russa. As suas colecções tiveram durante décadas um destino funesto. Em 1918 as colecções foram apropriadas pelo Estado – decreto assinado por Lenine. Uma “apreensão” acompanhada de uma nota delicada: “Uma colecção exclusiva de grandes mestres europeus, sobretudo franceses, do fim do século XIX e começo do século XX”.

Quatro anos mais tarde, o espólio das duas colecções foi integrado no museu de arte moderna ocidental. Contudo, o museu foi simplesmente liquidado em 1948 sob sentença de Estaline. A justificação era a de que fomentava pontos de vista formais e deferentes a uma cultura burguesa decadente. Durante décadas, os quadros permaneceram em armazéns cavernosos na Sibéria. A reabilitação foi tardia.

A disseminação das obras fez-se pelas cidades de Moscovo e St. Petersburgo e pelos museus Pushkin, Hermitage, Estatal e galeria Tretyakov. Os herdeiros dos magnatas têxtil reclamaram desde sempre a devolução das obras. O imbróglio com Londres surgiu, justamente, a pretexto deste problema não resolvido – um pretexto sério, ainda que a questão de fundo seja o adensar das relações entre os dois países depois do envenenamento do espião Letvinenko. Gordon Brown, o primeiro ministro britânico, interveio e assegurou que a devolução das obras seria feita aos museus. Uma resolução que contentou as autoridades russas e permitiu que se mostrassem pela primeira vez peças únicas de um período irrepetível.

À saída, Malevich faz-nos mergulhar no seu quadrado preto. Também no vermelho. Deixa-nos num tempo onde ainda estamos. 

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2008       

  

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