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José Eduardo Martins

José Eduardo Martins poderia dizer de Pedro Passos Coelho: há muitos anos, estivemos juntos a virar frangos. Eram da jota. Eram promissores. Era a geração (embora não exactamente a mesma geração) que estaria no poder daí a 20 anos. Foi há quase 20 anos que deixaram de virar frangos juntos.

É um advogado que lê livros, organiza festivais de música, especialista em questões ambientais. Não é cavaquista, mesmo que tenha sido apoiante de Ferreira leite. Foi secretário de Estado do Governo Durão. Crítico deste Governo, tem esperança que ele deixe de governar à direita do FMI. Acredita que tudo pode acontecer nas próximas semanas.

 

Sente o ónus de ser um jota?

Não, não sinto. Mas percebo que esse ónus exista e que alguns demonstrem, na prática, porquê.

 

Já está a pensar em Pedro Passos Coelho?

Não. O Pedro Passos Coelho [PPC], que eu conheci bem, é uma pessoa bem mais interessante do que esse protótipo do jota que tem na cabeça quando faz essa pergunta. Sempre o considerei uma pessoa muito acima da média daquelas que andavam na jota. Muito inteligente. Com uma perigosa auto-estima.

 

Perigosa auto-estima?

É. Se a auto-estima nos leva a um ponto em que nos achamos auto-suficientes, e vamos dispensando o conhecimento dos outros, torna-se perigosa.

 

Essa não é uma deriva mais ou menos natural do poder? Ficar inebriado pelo poder. Ficar fechado numa redoma.

Sim. Estive no Governo três anos e assisti a muita gente que se achava mais alto, mais bonito e mais forte porque estava no Governo. Voltando à sua pergunta: sou uma pessoa normal. Acabei o liceu, entrei na universidade pública. Chumbei um ano porque estava apaixonado e fui fazer outras coisas. Fiz um curso em seis anos. Um bocado mais que Bolonha.

 

Um bocado mais que Miguel Relvas. É o que está a dizer. Estou a intuir bem?

Está. Estudei, fiz o estágio de advocacia. Boa parte da minha intervenção cívica está ligada a áreas que estudei mais profundamente.

 

A política, tendo feito, desde sempre, parte do seu percurso, era um foco principal?

Não diria isso dessa maneira, se olhasse para mim próprio e para os últimos 20 anos da minha vida. Mas acabou por ser. Who am I kidding? Tive uma lista no liceu Passos Manuel, com o Ricardo Costa, a Catarina Casanova, gente que tem tudo menos a ver com o PSD. Acabei por me inscrever na JSD. Afastei-me. Faculdade. Achei que tinha fechado o ciclo. Conheci o Pedro Passos Coelho, que me desafiou a procurar pelo país, entre aqueles que costumavam trabalhar connosco, e estar nas associações de estudantes, uma certa renovação. Encontrar os melhores e trazê-los para o PSD. Durante quase quatro anos.

 

Deu-lhe um conhecimento do país. E de como funciona o aparelho.

Deu. Você tem uma vidinha toda feita em Lisboa, anda pelo país inteiro, tem 20 e pouco anos. Lê o clássicos e confronta-se com algumas dimensões da natureza humana que não estão nos livros por acaso. Depois houve um momento, que não vou detalhar, de ruptura com o PPC.

 

Porque é que não detalha? Queria saber quando começou a sua pega com ele.

Não tenho nenhuma pega com o PPC. Gostava de encontrar o adjectivo adequado [para falar dele]. Houve um momento em que senti que não seríamos bons companheiros de estrada, para usar a expressão francesa. A política tem de se fazer com proximidade, partilha, em colectivo. O PPC parece, mas não é isso. É muito centrado em si próprio.

Vai fazer 20 anos para o ano. Acontece. Como nos casamentos. Um dia em que se percebe o que não se percebeu durante anos. Sou teimoso, e também tenho a minha auto-estima. Decidi que não ia querer mais ser chefiado por ele.

 

Quantos anos é que é mais novo?

Uns seis. Vou fazer 43, o Pedro tem 50, não é? [PPC nasceu em 64; fez 48]

 

Há 20 anos não era claro qual seria o futuro de Passos Coelho.

Para si. Eu apostava, há 20 anos, que o PPC, se não conseguisse, pelo menos tentaria ser Primeiro Ministro [PM].

 

Demorasse o tempo que demorasse? Estava à espera que fosse mais cedo do que foi? Convém lembrar que, depois da jota, há anos em que está no Parlamento, vai fazer o curso, trabalha para Ângelo Correia.

Não queria fazer da nossa conversa uma análise do que foi a minha relação com o PM. A minha opinião é que todo o seu percurso de vida foi orientado para este resultado. Não digo isto como uma crítica. Se uma pessoa acha que está destinada a servir e a ter esta responsabilidade, que batalhe por ela, é normal.

Quando acabou o ciclo JSD, o Pedro Passos sentiu, e bem, que precisava de ter uma formação académica que o preparasse; depois foi vice-presidente de Luís Marques Mendes, que abandonou a meio de um conselho nacional, ao vivo e em directo – atitude que não me surpreendeu a mim, mas que surpreendeu muita gente na altura; depois começou o percurso para vir a ser presidente do PSD. Os partidos vivem hoje de directas. E Portugal sempre foi um país de grande caciquismo. Na prática, quem tem força e disponibilidade para organizar o caciquismo, acaba por ganhar. Não é o caso do PPC. Nunca teve tempo nem disponibilidade para isso.

 

Foi Miguel Relvas que fez esse trabalho?

Sim, claro. O próprio não esconde, e orgulha-se [disso]. Não faço sobre isso um juízo negativo. Quem quiser ser líder de um partido tem de passar pelo tirocínio de conquistar o aparelho. Com o passar dos anos – não estou a dizer nenhuma novidade – a qualidade do aparelho deteriorou-se muito. Quando se fala de cortar na despesa, as pessoas não percebem bem o que estão a dizer e as consequências que isso tem. Boa parte do “cortar na despesa” é eliminar um sistema em que os grandes partidos levaram muita gente para a administração pública.

 

É o chamado clientelismo.

Que faz toda uma rede de cumplicidades, que não torna fácil a vida a imensa gente de valor da sociedade civil, que esmorece no contacto com os partidos, e que desiste.

 

Neste momento o PM está debaixo de fogo. Convém recordar que não há muito, um ano, dois anos, no próprio PSD, os que atiravam sobre Passos eram de uma outra geração. Você era dos poucos, pouquíssimos, da sua geração a marcar a dissidência.

Da minha geração, não estou a ver outro.

 

Paulo Rangel. É da sua idade. E é uma diferente facção do PSD.

Tem razão. Mas na minha cabeça, Paulo Rangel não é verdadeiramente uma alternativa.

 

Ah não? Não era um certo PSD que personificava quando se candidatou à liderança do partido?

Não acho isso, e por isso não o apoiei. O que é que é esse PSD?

 

O PSD cavaquista, herdeiro dessa tradição, com ligações ao grande capital.    

Não o vejo assim. Não apoiei o Paulo Rangel porque não me pareceu que houvesse uma diferença estruturante em relação ao PPC. A diferença era mais aparente e marcada em torno das pessoas. (Não fazemos política sem pessoas. O carisma, a mobilização, não são indiferentes. Mas temos de nos distinguir por mais coisas do que essa.) Em 20 anos apoiei convictamente duas pessoas para líderes e só uma não me desiludiu.

 

Quer pôr nomes?

Apoiei Durão Barroso que me desiludiu muito com a atitude que teve. Estou a dizer-lhe coisas que não disse em público. Acho que também há um tempo para as dizer.

 

E porque acha que não lhe ficava bem, tendo sido secretário de Estado do Governo Durão, vir a terreiro mais cedo?

Porque sinto, não tendo nenhuma responsabilidade nisso, que tenho responsabilidade nisso. Eu estava lá. Eu apoiei-o. Eu batalhei muito para que fosse eleito líder do PSD. O José Luís Arnaut, o Nuno Morais Sarmento, o José Matos Correia, eu, um conjunto de pessoas. Tenho de lhe dizer com franqueza: desiludiu-me o desinteresse por alguns temas, que tenha sido tão curto o período de tentar emendar a trajectória que nos trouxe até aqui, e sobretudo desiludiu-me que tivesse optado por interromper o mandato e ir embora.

 

Quem foi a pessoa que apoiou e que não o desiludiu?

A Dra. Manuela [Ferreira Leite] não me desiludiu. Podia não estar equipada com todas as armas necessárias, mas foi coerente, séria, capaz de conversar, assumiu as suas responsabilidades.

 

Porque é que falhou tão rotundamente a direcção Ferreira Leite?

Está a referir-se ao Dr. Borges?, ao Dr. Aguiar Branco?, a quem? [riso] Você vai levar o brinde, porque vou mesmo dizer o que penso. Falhou em grande parte porque a cúpula mais imediata –  e muitos dos que estávamos na segunda linha sentíamos isso – não era suficientemente forte politicamente para a ajudar. Havia reuniões da comissão política em que os vice-presidentes entravam e saíam calados porque tinham feito a reunião entre presidente e vice-presidentes antes. Não funcionámos em equipa como devíamos ter funcionado.

Outra razão: a política faz-se muito de um lado comunicacional e de empatia com as pessoas. Não fomos capazes de traduzir a nossa mensagem. As pessoas preferiram fugir da verdade. Quando já estávamos em queda livre, o Eng. Sócrates foi eleito novamente, e a enxurrada tudo levou. Mudou o PSD, como era natural que mudasse.

 

Existe um divórcio brutal entre eleitores e classe política. Como é que se inventa uma nova maneira de fazer política, de comunicar com o eleitorado e recuperar esse capital de confiança? Como é que isso se faz quando estamos à beira do abismo? Na prática.

A minha resposta sincera é: não sei. Pôs bem a equação: à beira do abismo é muito mais difícil reformar. O que é que estamos aqui a dizer? Que os partidos estão muito mal, que não formam elites. Passamos a vida a dizer que a generalidade dos dirigentes partidários não nos satisfaz, que estes senhores (não falo deste Governo, falo em geral) não pagaram ordenados, não sabem o que é ter noites angustiantes em Julho e em Novembro para pagar o 13º e 14º meses. Que não estudaram, que não trabalharam o suficiente. Que promovemos a geração dos jotas. O caminho é fazer saltar o patriotismo de alguns entre os melhores e tentar que estejam nos partidos? Pois. Mas se for preciso controlar listagens e quotas para estar nos partidos, ninguém perde tempo nisso.

 

Como é que a situação pode mudar, então?

A situação é tão grave que tenho a expectativa que algumas pessoas, como diz o Aristóteles, que já não se podem alhear, sob pena de se fartarem mesmo de ser governados por quem consideram menos, [apareçam]. E que esta crise, que é antes de mais uma crise política, uma crise profunda das instituições, [sirva para operar a mudança]. Se tivéssemos tido uma classe política mais educada, preparada, previdente, não tínhamos, à beira da bancarrota, inventado as Parcerias Público Privadas [PPP]. Há um ensaio curioso do Tony Judt que tenta fazer uma reflexão sobre a social democracia e sobre alguns caminhos que a nova esquerda seguiu e que são piores do que os caminhos que a direita conservadora considerou no passado. Dá como exemplo paradigmático as PPP e casos como o dos caminhos de ferro na Nova Zelândia. [Fala de como] esta lógica, que em princípio é boa, de partilhar funções públicas com intervenção de agentes privados, desde que haja regras e protecção do interesse público, foi pervertida no mundo inteiro.

Em Portugal, pela mão do PS e de José Sócrates, aconteceu a desregulação, o desmando, nos últimos seis anos.

 

O discurso europeu do tempo de Sócrates apelava ao consumo e ao investimento. Não fomos sozinhos nesse barco.

Não quer dizer que não tivéssemos errado. Diz-se que esta crise é sistémica e internacional; em primeiro lugar, não é exactamente assim; em segundo, não entrámos nela da mesma maneira. Há vários países da zona euro que não foram incumprindo os critérios do Pacto de Estabilidade e que, não por acaso, estão hoje numa situação mais desafogada. Há quem não tenha uma conta para pagar.

 

Que característica é a nossa, dos portugueses, para repetidamente fazermos as escolhas erradas, votarmos em pessoas que nos defraudam, não conseguirmos um ciclo de estabilidade e um comprometimento com o futuro? E não vamos reduzir isto ao Sócrates.

Claro que seria injusto reduzir isto ao Sócrates. Não sei responder. Estamos demasiado alheados da coisa pública, achamos demasiadas vezes que não é connosco. Cada vez que a vida não nos corre mal, desligamo-nos por completo, e só vamos atrás do prejuízo quando ele já aconteceu. Mas isto aconteceu tudo à nossa frente, não é? Há muita gente que opina, escreve coisas nos jornais, diz que “estava-se mesmo a ver”. A maior parte das intervenções cívicas não são mais do que desabafos.

No escritório onde trabalho tenho alguns colegas que prezo muito e que não pensam politicamente diferente de mim. (Alguns até ligados aos temas do ambiente, energia, que nos mobilizam e que achamos que são os temas do futuro.) A todos tentei fazer interessar pela vida partidária. E todos disseram: “Tu tens mais jeito e feitio”, sempre assim umas desculpas. “No dia em que mandares, chamas-nos e nós vamos ajudar”. As pessoas não se envolvem, e isso não é só culpa dos partidos.

 

Porque é que os seus colegas não se envolvem? Porque acham que não vale a pena? Porque não estão para se maçar? Porque no fundo disso existe um descrédito em relação ao funcionamento das instituições? Porque acham que o jogo está viciado.

Pois está. Mas então que é que fazemos? Uma das razões por que, às vezes parecendo que desisto acabo por não desistir, é por que me pergunto: “Qual é a alternativa?, virar as costas, ficar em casa à espera, emigrar?” Não. Há pequenos passos que ajudariam a resolver. Uma coisa que digo há imenso tempo no PSD: temos de acabar com as directas e voltar ao modelo piramidal em que assembleias de distrito e nacionais põem as pessoas a confrontar-se umas com as outras. Com o que sabem, o que querem, o que se propõem fazer. Veja a tristeza que são hoje os congressos do PSD. E veja, apesar da dificuldade que é fazer discussões sérias em três dias, a maravilha que eram quando havia dirigentes para se confrontarem e serem eleitos em congresso. A democracia representativa – que é o modelo da nossa Constituição – talvez fosse um bom modelo para os partidos voltarem a atrair alguns.

 

Porque é que não pensou em ir embora? Passos incitou os portugueses a emigrar.

Não incitou as pessoas a emigrar. É um exagero. O Pedro Passos tem uma linguagem muito coloquial, às vezes demasiado coloquial para um PM. Mas é ele. Há uma série que coisas que as pessoas acham que são feitas para a imagem; mas ele gosta de andar num carro barato, não é uma pessoa a quem a materialidade encante de alguma forma. A pessoa que eu conheço é genuinamente aquilo que mostra. E nessa coloquialidade e nessas expressões, também.

Não foi um apelo à emigração, foi [um modo de nos] dizer que é uma coisa que temos de fazer num mundo globalizado. Eu emigro uma semana por mês. Vou trabalhar ao estrangeiro, procuro ampliar o horizonte de um mercado que ficou escasso em Portugal. Sou um português que quer ficar em Portugal e que trabalha no estrangeiro.

 

Está a fazer um exercício de condescendência para não parecer que está sempre a bater no ceguinho (para usar uma expressão popular).

Não foi uma expressão feliz [de PPC]. Mas se quiser acreditar que um PM disse aos jovens engenheiros, médicos, professores, advogados deste país: “Ide embora”, no dia seguinte... Não posso aceitar. Não quero que os meus filhos se vão embora. Nem me quero ir embora. Esta é a geração que constrói um país. Quando li a primeira vez a Naomi Klein, “The Rise of Disaster Capitalism”, por brincadeira ofereci o livro à Dra. Manuela Ferreira Leite. Dissemos: “Felizmente, nem o FMI é assim”. Estávamos enganados. O FMI disse ao Governo português: “Pára aí que é demais!”. Quando vamos para lá do FMI, alguma coisa aqui [está mal].

 

Porque é que acha que “nós fomos/nós vamos” para lá do FMI?

Temos de pagar uma conta. Vale a pena ser politiqueiro e dizer que somos os mutuários do empréstimo do Eng. Sócrates. Somos mutuários de muito mais do que isso. Um partido que não é capaz de mudar uma sociedade em duas décadas não pode, com grande moral, propor-se mudá-la nas duas décadas seguintes. Este Governo entrou e tinha de pagar a conta. Porque o sistema tem regras, não pagar a conta é a falência.

O ministro das Finanças citou Bertrand Russell: “Os sábios estão cheios de dúvidas e os ignorantes estão cheios de certezas”. Você está a entrevistar um ignorante que tinha muitas dúvidas durante o ano passado. Não sou economista de formação, não tenho uma solução. Comecei a ver demasiado aquilo que se criticava ter feito a Argentina e outros sítios a acontecer em Portugal. Preocupava-me. Mas sempre achei que estávamos a fazer o que qualquer devedor aflito faz. Que é ser bom cumpridor para renegociar o pagamento da sua dívida.

 

O tal bom aluno?

O bom aluno, não. O cumpridor que ganha lastro para se sentar à mesa com o credor e que diz: “Se insistirmos nesta receita, é mau para vocês credores, porque vamos afundar-nos de tal maneira que não vamos ser capazes de sair disto e de vos pagar”.

 

Quando nos sentámos à mesa com o credor, e depois de Mario Draghi ter dito que punha a mão por baixo...

É isso que é surpreendente, incompreensível e inaceitável.

 

Está a dizer que concordou com a estratégia até um determinado ponto e depois deixou de a compreender?

Exactamente. Não percebo porque é, tendo ganho esse lastro, não o usámos para bater o pé pelo povo. O que eu esperava era que o esforço gigantesco que fizemos em 2012 servisse para dizer: “Somos membro de pleno direito da UE, vamos negociar de forma diferente”. Precisamos de mais tempo e de mais dinheiro. A Alemanha pagou uma dívida em 50 anos. Desinvestimos de ser uma voz na resolução europeia (que uma parte desta crise tem que ter).

 

Podia ser diferente? Não mandamos nada porque estamos de mão estendida.

Estamos de mão estendida nós, os espanhóis, os italianos, os franceses, os gregos...

 

Afinal a crise é sistémica?

A UE tem uma coisa chamada política de coesão. Cameron já veio dizer que não paga mais, Merkel prepara-se para dizer o mesmo. Eu diria com facilidade que não pago mais se não tivesse no sul alguém a dizer-me: “Eu quero mais para fazer isto e todos recuperarmos desta forma”.

 

Isso é desígnio político.

Claro. A maior fonte de financiamento da política de coesão, que é o que nos permite resolver o problema como um todo na Europa e aproximarmo-nos dos mesmos níveis de conforto e bem estar – que era a ideia original pela qual aderimos –, vemo-la esvair-se entre os dedos. Não sabemos sequer explicar à Alemanha que a médio prazo não é o mercado chinês que lhes vale. Precisam de nós.

 

Para enfrentar, justamente, o mercado chinês.

Há um conjunto de pessoas na Alemanha que dizem isso. Não é proteccionismo. É estratégia. Não se vê.

 

Qual é o principal problema de Governo? Falta de estratégia? Ter defraudado as expectativas porque pediu um sacrifício brutal e não tem agora o resultado esperado? É incompetência, como dizia António Capucho numa entrevista ao Expresso? É a teimosia de não remodelar, não rever caminho?

Eu cozinho muito e percebo a alquimia de muitas misturas darem um resultado. Não é possível destacar uma, são todas essas. Há pessoas incompetentes no Governo? Claramente. E não necessariamente aquelas de que [mais se fala].

 

Vai dizer: “Não batam no Álvaro”?

Coitado do Álvaro. O Álvaro é óptimo para os outros. Se estiver entretido a bater no Álvaro, não reparo nos outros. Se todo o jotismo do mundo se concentrar no Miguel Relvas não repara que há lá uma série de outros. [riso] É fácil escolher um alvo e isso distrai-nos muito. Distraio-me pouco. O principal problema deste Governo, se tiver de escolher um, é não ter tido plano B para uma contracção que achava que ia produzir efeitos, e que não produziu. O principal problema deste Governo é um desfasamento da realidade dos mais competentes (não é tanto dos incompetentes).

 

Está a dizer que Vítor Gaspar está a governar com uma folha Excel mesmo que isso o desvincule da realidade?

Houve a crença de que a contracção, por si, produziria um efeito. Quando se insiste no erro estamos a caminho de ser ignorantes, não é?

 

Agora está a pensar em António Borges? Elemento central deste Governo.

Parece ser. O Dr. Borges e eu coincidimos na comissão política da Dra. Manuela Ferreira Leite. Registo que o Dr. Borges encontra hoje muito mais qualidades no nosso PM do que nessa altura encontrava. É uma evolução natural. Podemos ficar a conhecer melhor as pessoas e admirá-las.

 

Os leitores não podem ouvir o tom com que o diz.

Demasiado irónico?

 

Cínico.

É absolutamente cínico. Você há pouco falava de dois lados do PSD; não consigo fazer essa divisão. O José Pedro Aguiar Branco, o António Borges, um conjunto de pessoas que faziam parte desse lado, a que não consigo pôr um rótulo – eu, cavaquista, não sou –, quando o PSD mudou de direcção, encontrou na nova direcção qualidades que até à eleição eles não tinham. Mas é sempre assim.

 

Chama-se a isso fascínio pelo poder.

Chama. Existe. Felizmente não nos fascina a todos. Desculpará a minha imodéstia. Defraudar expectativas? O meu pai poderá dizer que as expectativas dele foram defraudadas. Não esperava no fim da vida que o PSD, que sempre foi o partido do homem pequeno-burguês que acha que o Estado não é dispensável, mas que não lhe pode entrar demasiado pela porta adentro; que o mérito dele e do filho, e que o trabalho que fez para que o filho progredisse na vida, tinha de ser reconhecido; quando vê o PSD a atirar-se à classe média desta maneira, pode dizer que as suas expectativas foram defraudadas. Eu votei, como sempre voto, PSD, contente por acabar aquele governo inenarrável do Eng. Sócrates, que para o fim era um Titanic com uma corda agarrada a todos nós; mas as minhas expectativas não eram espectaculares. Acho que precisávamos de uma equipa melhor do que a que temos.

 

Quando diz equipa refere-se ao Governo?

Sim. O PPC é acima da média, mas não tenho nada a certeza que seja suficiente para o tempo que vivemos. No outro dia ouvi o director do seu jornal dizer que o PPC precisava de reganhar a humildade. Discordo.

 

Acha que nunca foi humilde mesmo que tenha aparecido com uns ares de humildade?

Acho que o PPC ouve as pessoas, mas acha-se... É como dizia o Descartes: a inteligência e o bom senso são as qualidades mais bem distribuídas do mundo; todos nos achamos delas sempre suficientemente providos. Descartes começou “O Discurso do Método” a pensar no nosso PM. [riso]

 

(Quando é que leu Descartes?

No liceu. Era obrigatório. Eu lia os livros. Os livros já me levaram a todos o lado.)

 

Voltando aos problemas deste Governo. Estamos, em sua opinião, em plena crise política, em vésperas de apresentar e discutir o OE? Estamos na iminência de tudo poder mudar?

Os últimos dias são uma semana cada um. Está tudo a acontecer muito depressa. Esta tendência errática (dizer todos os dias uma coisa e o seu contrário) tem de parar. Não é que recuar não seja virtuoso. Não é uma vergonha recuar na TSU, mas é um desastre fazer um anúncio de um aumento “enorme” de impostos para na semana a seguir dizer que se está a trabalhar intensamente para se “mitigar” [o impacto desse aumento]. Estou farto de adjectivos. Quero é saber com o que vou contar no próximo ano. Esse ziguezague, este Governo que uns dias é Olívia-empregada e outros é Olívia-patroa, esta ideia de que andam todos numas pequenas zaragatas para ver o que é que conseguem cortar e que remendos conseguem fazer... De uma vez por todas, expliquem o que há a explicar, tomem as decisões correctas. Têm muito pouco tempo para o fazer.

 

E se não souberem o que explicar? Acha que o problema é esse?

Vai ser o silêncio mais prolongado das suas entrevistas... Já estou a ver os parêntesis a dizer: silêncio prolongadíssimo.

 

Porque é que precisa desse silêncio prolongadíssimo? O que é que tem a perder?

Não tenho nada a perder. A minha tentação seria dizer que a comunicação é má porque a substância é má. O meu silêncio é prolongado porque me aflige a possibilidade de eles não saberem. Eu preciso que eles saibam. Eu não quero que este Governo caia. Quero que este Governo aprenda com os erros e que governe melhor. Este anúncio do despedimento de 50% dos funcionários públicos é a negação da inteligência. É a negação da gestão inteligente da coisa pública. O liberal reformista não é o que esmaga a classe média com impostos de comunista.

 

O PSD não será o mesmo depois de Passos, líder do partido e PM?

O PSD pode levar algum tempo a recuperar a confiança desses eleitores. As sondagens valem o que valem, mas um partido que num mês perde 12% é um partido que alijou uma parte da sua base tradicional de representação. Agora, a política regenera-se rapidamente. Tenho esperança na geração depois da minha.

 

Conta-se com a sua geração, com aqueles que cresceram em democracia, para fazer a mudança. Está a chutar isso para o futuro.

Porque me sinto desalentado com o presente. E porque durante 20 anos batalhei sem sucesso para tentar estar num presente diferente.

 

Acha mesmo que não é o tempo da sua geração?

A minha geração está no poder. Eu é que não estou. Eu e muitos como eu.

 

Não é exactamente a sua geração. No começo da entrevista perguntei-lhe quantos anos havia entre si e Passos. Noutros países é a sua geração que está no poder, mesmo que não seja na primeira linha. É olhar para Cameron, Miliband, para os ministros de Holland ou Rajoy.

Nasci no último mês de 69. Fui vice-presidente da Juventude do Partido Popular Europeu; o presidente é hoje PM da Suécia e o segundo vice-presidente é PM na Finlândia. 

 

Em Portugal, você, apoiou Manuela Ferreira Leite. Outra geração.

Dê graças a Deus por o José Eduardo Martins ter a noção do princípio de Peter. A consciência das limitações é uma coisa boa.

 

Espera ser líder, um dia?

Podia dar-lhe uma resposta redondinha. “Ninguém sabe, o futuro a Deus pertence”. Não. Sou muito pão, pão, queijo, queijo. Sabe qual é o meu sonho? Encontrar rapidamente uma pessoa que seja verdadeiramente mobilizadora, capaz, em que eu sinta que há autoridade e sabedoria para resolver os problemas do país, e que eu possa ajudar.

 

Isso é aquilo com que sonha a maior parte dos portugueses. Chama-se sebastianismo.

Não é. Se me achasse capaz de resolver os problemas do país, se me achasse capaz de ser líder e PM, candidatava-me. O meu sebastianismo, depois de 20 anos de actividade política com muito pouco sucesso, é o de estar disponível para estar ao lado de pessoas que admiro e que acho mais capazes do que eu. Não quero ser imodesto, mas esta sinceridade praticada por muitos ajudava-nos muito.

 

Vê alguém no horizonte?

Agora vou parecer contraditório com o que disse, mas não vejo. E é por isso que quero que este Governo governe melhor. Se visse alguém no horizonte, estava à porta dele, a obriga-lo a dizer: “Mesmo com as regras actuais, vamos lá fazer o caminho”.

 

É tempo de um Governo de salvação nacional (que resultaria da destituição deste Governo)?

As próximas semanas, a discussão do OE de 2013 e o próximo embate com a troika vão dizer isso. Ou este Governo começa a encontrar a força, a sabedoria para fazer as coisas que se propôs fazer, e não as que disse que não ia fazer, ou vai ser preciso tirar uma conclusão mais definitiva sobre a [sua] competência e encontrar a disponibilidade das muitas pessoas boas que este país tem mas que têm estado alheadas da salvação nacional. Estamos à beira de precisar da salvação nacional.

 

Pacheco Pereira escreveu recentemente que há alternativas.

Em democracia há sempre alternativas, mas não estou a ver muitas melhores. A minha mulher diz que precisamos de encontrar 10 Vítor Bento. O Vítor Bento do Ambiente, o Vítor Bento das Finanças, e que eles existem em Portugal. É um sentimento facilmente partilhável, mas quando endeusamos as pessoas corremos muitos riscos.

 

Eleições?

Acho que as eleições, neste momento, não adiantavam nada.

Seriam uma tragédia. Mas por princípio sou avesso ao contrariar da democracia parlamentar. Estou a falar da nomeação de um Governo de iniciativa presidencial, de um Governo de salvação nacional. O que gostava era que este Governo se deixasse desta atitude de estar à direita do FMI e que começasse a bater o pé por nós.

 

Pergunta concreta: porque é que acha que Passos, cercado por todos os lados, não remodelou ainda? Há meses que Marcelo Rebelo de Sousa fala da necessidade de uma remodelação.

Se calhar por isso. Já lhe disse que tenho a ideia que o PM tem uma personalidade “antes quebrar que torcer”. [silêncio] Pois, para remodelar seria preciso encontrar o Governo de salvação nacional. Era bom que o PM fosse capaz de o fazer. Porque é que não o fez até agora? A única explicação lógica seria porque não tem a certeza de encontrar esse conjunto de pessoas. Precisamos de mais Paulos Macedos. Precisamos de mais pessoas com competência, dedicação, discrição (sem tirar muitas fotografias de enxada na mão ou nas vindimas – embora perceba a coerência: há cada vez mais licenciados nas vindimas.

 

Porque é que está a fazer de Assunção Cristas um alvo? Ela tem a sua idade. E está lá.

É mais nova do que eu. Parece-me injusto, nos dois ministérios que são um erro crasso de organização do Governo, estarmos sempre a achar que tudo corre mal na Economia quando tudo corre pior na Agricultura e no Ambiente, onde não há nada de novo nem de bom. Temos de analisar a substância.)

 

Em caso de ser necessário um Governo de salvação nacional, Passos vai conseguir mobilizar Paulos Macedos (para usar a sua expressão), ou é preciso que Passos saia de cena para que esses apareçam?

O que eu gostava que acontecesse é que o PPC fosse capaz de os convocar e trabalhar com eles. Pararmos, para andarmos o forrobodó de eleições que leva as pessoas a disparar demagogia dos dois lados da barreira, não me parece que ajudasse a pagar menos impostos. Falo de mim e dos que vão pagar mais impostos para o ano. Não vejo alternativa, e a que vejo no arco dos partidos que respeito, é pior. Portanto, que é que eu quero? Não está esgotado o tempo deste Governo ainda recuperar destes dois meses terríveis.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2012

 

 

 

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