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António Lobo Antunes

António Lobo Antunes é o escritor que quer meter a vida toda num livro, num gesto, numa expressão. Traduz, em livros inclassificáveis, a essência do humano, na sua grandeza e miséria.

Nesta entrevista fala-se de generosidade, do medo, da atenção ao outro. Fala-se dos livros e das razões por que vale a pena viver. E da eternidade.

Nasceu em Lisboa, licenciou-se em Medicina, tem três filhas. Passou dos 60. É publicado no mundo inteiro, com sucesso e prestígio inquestionáveis. Escreve numa letra miudinha. Está mais magro!

 

Dantes arquitectava os livros; agora quer desaprender de escrever para que a mão siga livremente, e o livro se revele ele mesmo.

O livro falhava o plano, ia em direcções diferentes daquilo que tinha imaginado. Tornava-se um organismo vivo, com as suas ideias próprias, com uma maneira de ser e uma fisionomia. Exigências, diferentes texturas. Este livro que vou publicar agora, a única ideia que tinha era: como é que a noite se transforma em manhã. Não tinha mais nada na cabeça. Depois, o problema é o começar. Tem imensas falsas partidas, a gente faz uma, e duas, e três, e quatro, e cinco, até o livro encontrar o caminho dele. Há pessoas que falam em livros polifónicos; a mim parece-me sempre a mesma voz. Que vem ao longo dos livros e vai ganhando modulações diferentes.

 

Os seus romances têm vários “eus” que comunicam?

Eles não são romances.

 

Então, são solilóquios? Diários?

Não sei. Tenho que arranjar uma definição para aquilo. Parecem sonhos, não é? O romance para mim implica uma história, uma determinada estrutura. Claro que «A Memória de Elefante», «O Fado Alexandrino» são romances nesse sentido. Estes não têm nada que ver com isso, não sei o que são. São livros. 


Eu gostava de perceber a relação de prazer, de descoberta, de espanto que mantém agora com a vida.

Não sei se mantenho: tenho, às vezes.

 

Parece uma relação mais jubilatória.

Não sou muito expansivo para fora, e às vezes sou para dentro, mas é um bocado assustador.

 

Por que é que é assustador?

Porque uma pessoa fica vulnerável. Fica toda nua. E ao tocarem-lhe, tocam-lhe por dentro da pele. Como se estivesse tudo à vista, como se não fosse possível ocultar nada. Mas isso também acontece quando a gente olha para os outros. Olhar para ver. Quando comecei a dieta, de repente tornei-me diferente. Implicou um sacrifício enorme...

 

O que é o que fez começar a dieta?

... deixar as porcarias todas que gostava de comer, quando estava a escrever a meio da noite e as coisas não me estavam a correr bem. Mamava uma tablete de chocolate, inteira, bolachas e bolos e não sei quê.


Saboreava o chocolate ou anulava a frustração?

Nunca me senti frustrado a escrever, a vida tem sido generosa comigo. Tenho estes momentos de alegria tão intensos. Há alturas em que, quando as palavras são aquelas, está-se a escrever e a chorar ao mesmo tempo. Já me aconteceu.

 

Isso já me aconteceu ao ler um livro seu.

Mas são momentos tão raros, é uma alegria tão rara. Parece que é um anjo que está a fazer aquilo pela sua mão, e era exactamente aquilo. Eu não sabia que sabia. Como as crianças que sabem mais do que pensam. Acontece com certas pessoas. Ontem estava a olhar uma senhora velhota, toda deformada, quando estava a andar. Eram oito e meia, ainda era de dia. E, caramba, a velhice é tão injusta, a decadência é tão injusta! Eles não mereciam ser aquilo. Nessas caras, há de vez em quando um olhar, um gesto, e aparece a pessoa que são, de facto, que está escondida por baixo daquelas roupas, daquelas deformações dos ossos. O terrível não é ser velho, é envelhecer.

 

O que é envelhecer, é perder a ingenuidade?

A vida trata mal as pessoas, a vida é tão injusta. Tenho conhecido hospitais, tenho ido lá como doente, e vejo ali centenas de pessoas. Olhamos para elas e vemos o terror e a solidão, enormes, ali, em todas as idades. E os médicos passam sem olhar. Quando era interno fazia a mesma coisa, passava com a bata por aquela gente que estava ali indefesa, à mercê.

 

Está a dizer-me que estima cada vez mais a generosidade?

Eu não. A gente é que a vê cada vez mais à volta. As pessoas não são assim tão más. Os maus verdadeiros, puros, é raro encontrá-los. Às vezes entrelaçam as pernas nas nossas e ficamos muito espantados por não conseguirmos livrar-nos deles.

 

Perguntei-lhe por que é que começou a dieta.

Porque me estava a desrespeitar demais. E apetecia-me voltar a ser bonito. É engraçado, agora vejo outra vez os olhos das mulheres na rua. Coisa inocente, não é?

 

Olham para si porque sabem que é o António Lobo Antunes.

Sabem lá quem é o António Lobo Antunes neste bairro! Não sabem. Não sou locutor de televisão, nada disso. Faço redacções e ninguém me vê nunca nos sítios.

 

Está a posar.

Não, não, estou a falar o mais sinceramente que há. Olhe para estes tipos da tasca onde costumo ir comer: não sabem quem eu sou, felizmente.

 

Por que é que procura o anonimato?

Sou uma pessoa anónima. Não tenho nenhuma importância colectiva. Faço uns livros que espero que daqui a 500 anos ainda dêem trabalho aos críticos. Já cá não estou para ver. Como os Jerónimos. Entre o Camões e o Vasco da Gama! Vivemos em função de eternidades, de maneira que não morremos nunca. Por exemplo, a minha mãe: são eternidades de um ano, dois anos, ou cinco anos. Quando temos 20 anos vivemos em função de eternidades que nunca vão passar. O que é tremendo é ver um muro no fim da estrada. E para a maior parte das pessoas, o muro pode estar a uma distância de três metros, mas esses três metros não vão passar nunca. Olhe a Maria Antonieta no cadafalso, a dizer para o carrasco: “Só mais um minuto, senhor carrasco”. Aquele minuto, para ela, era uma vida inteira.


Sonha com a sua morte?

Não. Ultimamente, desde o almoço [com camaradas da guerra], ando a sonhar com a guerra – isso é muito desagradável. Em regra nunca me lembro dos sonhos. Tenho tanta coisa dentro de mim... Agora, acabei um livro e não tenho nada dentro de mim. Estou aqui tão pobre como um morto. E não sei o que vou fazer depois, vou-me aborrecer aí durante dois ou três meses. E ficar cheio de medo de não ser capaz de fazer mais nada, de escrever mais nada. É um medo constante.

 

O que é que o entretém quando não está a escrever? Quando está a escrever, isso justifica as horas.

Mesmo quando estou a escrever faço outras coisas. Claro que faço outras coisas, também vivo.

 

Pensei que escrever era viver.

Quando estou sem fazer nada, sinto-me culpado, são muitas horas. É como se me tivessem dado uma coisa que eu tinha que transmitir, e sinto-me infiel. Depois vejo toda a gente a trabalhar menos. Tenho muito tempo para ler, mas a maior parte dos livros aborrecem-me. Dão-me vontade de começar a corrigir. Sei lá o que é que faço mais... Olho para as coisas. Não tenho os passatempos que as outras pessoas têm, não jogo cartas, nunca fui à Internet.

 

Não teme a solidão?

A solidão não me custa, nunca me custou. Éramos muitos irmãos, mas eu brincava sozinho. E gosto muito da minha família, tive muita sorte. Tentaram tirar-me o menos possível. O problema da educação não é tanto o que dá, é o que tira. Não sei se era fácil ou não lidar comigo. Ao contrário dos outros, não era bom aluno, não ia às aulas, tinha um comportamento permanentemente transgressivo. Isso não devia ser confortável para os pais, os pais querem que a gente tire um curso. Eu disse ao meu pai que queria trabalhar numa biblioteca itinerante da Gulbenkian. Já viu o que era ter aqueles livros todos para ler?

 

Ele sentiria vergonha de o filho escolher um caminho assim?

Ele disse-me: “Ah, se tu queres ser escritor, o melhor é tirares um curso técnico, talvez te ensine a pensar ou te discipline o estudo”. Ele tinha razão. Os primeiros anos do curso [de Medicina] não gostei porque era cadáver, cadáver, cadáver. Mas depois nos últimos anos, quando comecei a ver as pessoas que sofrem, aí sim, tornou-se apaixonante.

 

O sofrimento dos outros desperta a ternura, que é um sentimento essencial em si.

Não, porque eu não era capaz de a mostrar.

 

Mas sentia-a ou não?

Às vezes sentia-me indignado. Por exemplo, no estágio de pediatria puseram-me ao serviço de crianças com doenças terminais. Por que é que crianças de três, quatro anos, iam morrer e sofriam tanto, a chamarem aos gritos pela injecção de morfina? Qual o sentido disto? A pessoa zangava-se com Deus. Eu zangava-me. Contei isto numa crónica: um miúdo de que gostava muito morreu. O empregado embrulhou-o num lençol. Eu estava na porta das enfermarias e vi o homem afastar-se com o miúdo morto ao colo e um dos pés dele saía do lençol. Isto continua dentro de mim. Como é que vou tirar isto fora? Às vezes penso que escrevo para este pé. Chamava-se José Francisco, nunca mais esqueci. Sensação de impotência, não podia fazer nada por ele. E era tão alegre.

 

Houve um tempo em que foi “tão alegre”?

Sempre fui mais ou menos como sou agora. É preciso estar com atenção, porque manifesto pouco. É por pudor. Tenho um pudor muito grande, sempre. É terrível as pessoas que têm um coração debaixo de cada objecto.

 

Ainda não conseguiu pôr fora o pudor?

Ai, isso espero mantê-lo. Não quero dar às pessoas aquilo que elas não querem – é desconfortável. Como quando deixa de gostar de alguém e dorme na beirinha da cama na esperança que não lhe toquem. Nunca lhe aconteceu?

 

Não, felizmente.

Há-de acontecer.

 

Espero que não.

Já sabia que ia dizer isso. Ou os amigos que telefonam a dizer: “Há que tempos que não te vejo, anda almoçar comigo”, e não lhe apetece nada.

 

Conquistei cedo a felicidade de só fazer aquilo de que tenho vontade.

Eu também, mas às vezes não se sabe que afinal não se tinha vontade. E depois não quer ser indelicada. Como ir embora sem magoar as pessoas, sem que elas se sintam abandonadas? É um sentimento tão intenso, levamos a vida a ser abandonados, todos nós. Todos guardamos dentro de nós uma criança triste. A maior parte das vidas não tomamos atenção a esta criança, com uma sede inextinguível de amor, de ternura, de atenção. Mozart, naquele concerto que deu para a corte francesa, toda a gente aplaudia e ele foi a correr sentar-se ao colo da Maria Antonieta, “aimez-moi, aimez-moi”. Em todos nós existe isto. A vontade que gostem de nós incondicionalmente.

 

Sublinho o “incondicionalmente”.

Mas é. Até ao fim. Faça a gente o que fizer. Temos sempre a sensação que as pessoas que gostavam de nós assim já cá não estão, já morreram, e não é verdade.

 

Porque é que há um desfasamento entre a sua imagem pública e aquilo que realmente é?

As pessoas inventam. Nunca me viu com mau feitio. Não sei o que é que pensam. A mim não me dizem.

 

Então digo eu: diz-se que está reconciliado com a vida e com as pessoas e que agora lhes dá oportunidade e espaço.

Eu não disse que estava reconciliado.

 

Houve um tempo em que estava recluso, misantropo, não falava com ninguém.

As pessoas vão lá saber como é que eu estou! Têm mais que fazer. As pessoas não se preocupam connosco. Há um pequeno grupo de pessoas que gostam de nós, muito pequeno. Para a maior parte das pessoas somos completamente indiferentes, como é natural.

 

O que está a dizer é que mesmo aquelas que se interessam pelo Lobo Antunes-escritor, que o admiram, não se interessam pelo seu íntimo reduto.

Eu não vejo as caras das pessoas que me lêem. Vejo na Feira do Livro ou no estrangeiro quando assino livros, coisas assim. É muito agradável ver as caras das pessoas, vê-las, existem. Há muita gente nova e sinto-me grato, porque me permitem viver disto, viver de escrever. Uma vez, numa sessão de autógrafos, há uns anos, um homem pousou o livro e disse-me: “Ponha aí o seu nome, porque sou eu que lhe pago para você viver”. Tinha toda a razão: se ele não comprasse os livros, eu não podia viver deles. Fui no sábado à Feira do Livro e vi pessoas, mas depois não há tempo para conversar, as pessoas de trás têm pressa e fazem bicha. Acho que fiz sempre mais ou menos como agora.

 

Mas as pessoas achavam que era outro: inacessível, maldisposto, vaidoso.

Sabe, as pessoas são muito especiais. Foram dizer à minha mãe há uns tempos que o meu irmão João operava bêbedo. Ele nunca bebeu. Normalmente não falam para dizer bem. O Oliveira Martins dizia do Costa Cabral: “Pelo ódio que lhe tinham se media o seu tamanho”. Mas não há nenhum motivo para me odiarem, não tenho nenhuma importância.

 

A inveja é um grande motivo.

Sim, mas é um sentimento que se auto-destrói. Ninguém sofre tanto como um invejoso. E sofre cada vez mais com aquilo que imagina que são os sucessos do objecto de inveja. E mal eles sabem que a maior parte das vezes o objecto de inveja está cheio de dúvidas e tem mais incertezas do que ele acerca de si mesmo...

 

Tem cada vez mais dúvidas?

Claro que sim. Não tenho muitas gloriosas certezas. Não tenho nenhumas, quase. Somos tão contraditórios...

 

É extraordinário quando descobrimos que temos tempestades dentro de nós e que não o sabíamos.

Uma guerra civil permanente. Se a Emily Brontë fosse viva, estava apaixonada por ela, queria conhecê-la e estar com ela. Claro que sim, uma mulher que tem aquilo tudo nas tripas... É como se estivéssemos cheios de cães que se mordem, que lutam uns com os outros, que se matam. E as pessoas olham para nós por fora e se não olharem com atenção... Ainda bem que às vezes não olham com atenção. E agora? Tem aí as perguntinhas todas [na folha que tenho no colo]?

 

Quais perguntas? Isto são coisas que disse e escreveu e que eu recolhi. Disse uma coisa espantosa: “Toda a nossa vida é como escrever sem borracha”.

Não pode voltar atrás e apagar. É uma pena. A quantidade de asneiras que fiz. Coisas seguramente inúteis, a mim e a outros, falta de atenção. Perdoo cada vez menos: egoísmos, coisas mal feitas. Fiz tanta asneira. Voltar atrás é impossível.

 

O que é que gostaria de poder refazer?

Se voltasse atrás? Acho que teria vivido tudo da mesma maneira. Não faço a menor ideia. Não tinha fugido quando a minha avó me dava a mão e eu ficava todo hirto. Me dava a mão à mesa. Me fazia festas nas mãos e eu via as mãos dela, tinha rugas. E ficava muito aflito.

 

Aflito porquê e hirto porquê?

Porque quando nos dão a mão de uma maneira desinteressada desconfiamos sempre. Achamos que há alguma coisa por trás. Ela, coitada, o que é que podia querer de mim? Não tinha nada para lhe dar, era um miúdo.

 

Já me tinha ocorrido a palavra gratuito.

Para ela era sempre sentido, era amor. E eu talvez me assustasse de tanto amor. Isso assusta-nos, ficamos desprevenidos em face disso. A generosidade não é muito frequente e o amor também não. Quando o meu avô me abraçava na rua e me dava beijos, eu pensava: “Vão pensar que somos um casal de maricas”, e esperava que aquilo acabasse o mais depressa possível. E agora tenho umas saudades loucas de quando ele me punha a mão no pescoço. E dizia “António”, que era o nome dele também, de uma maneira tão boa. Ou quando telefonava para o meu pai e o meu pai tinha uma voz maravilhosa.

 

Sente muitas saudades do seu pai?

Não. Nem sei o que sinto por ele. Alguma inveja, porque nunca se aborreceu e tinha uma grande capacidade de entusiasmo. É evidente que foi importante para mim. Escrevi uma crónica quando morreu [há dois anos] que diz exactamente o que sinto por ele, e não mudou. A palavra amor não sei se é uma palavra que possa aplicar. Deixou-me muitas coisas escritas sobre ele. Fez-me impressão porque nunca tínhamos conversado. Na minha família não se falava das coisas íntimas. É tudo...

 

Tácito?

Sim, undersaid. E havia um grande pudor. Então acerca do sofrimento..., era uma coisa em que não se falava. Talvez fosse uma forma de elegância. Mas eu sentia alguma falta disso. Apetecia-me pôr a cabeça num colo, mas nunca havia muitos colos disponíveis, nunca há. Ou então há e nós temos medo de lá pôr a cabeça. Ou que ponham a cabeça no nosso.

 

Há pouco estava a dizer que não queria perder o pudor...

Ah, mas há momentos em que me apetece perder completamente. E sentir pele e cheiro e carne e mãos.

 

E humanidade.

Mais do que isso. Uma vida toda em uníssono com a minha. [hesitação]

 

O que é ia dizer?

Parvoíces. Isso não pode aparecer nos jornais.

 

Porquê?

Porque as pessoas têm direito aos livros, não têm direito a mim. Isto não parece uma entrevista, parece um namoro. É impublicável.

 

Está a tentar namorar comigo?

Não. Sei lá. Acho que não se tenta namorar, ou se namora ou não se namora.

 

Eu não entendo isto como um namoro.

As pessoas não são para se cercar como fortalezas sem víveres. São para se entrar lá dentro. Não é ficar à espera que eles morram à fome dentro da cidade. Quando estava a falar em namoro estava a falar em dizer coisas que normalmente não se dizem para os jornais.

 

Na entrevista há momentos em que vai falando cada vez mais baixo, cada vez mais baixo; e existe uma coincidência entre o tom e a interioridade daquilo que vai dizendo.

Sempre falei baixo porque cresci num sítio em que se gritava muito. Desde criança que tenho horror a gritos. Não devo ter gritado mais do que três ou quatro vezes na vida.

 

O que é que foi tão grave que o fez gritar e perder a cabeça?

Das poucas vezes em que me impaciento é com o automóvel. A vez em que me enfureci mais foi na guerra. Por causa de um oficial aconteceram coisas más. Eu pensava que a expressão “borrar-se de medo” fosse uma figura de retórica, e afinal é verdade. O espectáculo da cobardia física é horrível.

 

Tinha medo?

Claro que tinha medo, tinha medo que me fartava. Mas a certa altura deixei de ter medo de ter medo e as coisas passaram a correr melhor. Por exemplo, houve uma altura em que éramos bombardeados sempre às 11 da noite. Comia-se às cinco, porque às seis era noite naquele sítio, perto do Equador. E até às 11 horas, até começar a metralhadora a que a gente chamava “a costureirinha”, taque-taque-taque, era uma ansiedade muito grande. Depois, uma calma enorme. Esses momentos de espera eram terríveis. Gritei essa vez, pouco mais. A pessoa, quando grita, fica feia. Os olhos desorbitam, ficam caras estranhíssimas.

 

E fica-se cansado, exaurido, sobretudo se é tão raro.

Não sei, é uma experiência que não tenho. Cresci num bairro pobre. As mães chamavam os filhos aos gritos, ouviam-se na rua. Ou maridos que voltavam bêbados e havia cenas descomunais. Esses ainda os oiço, esses gritos.

 

Pareciam-lhe gritos de afectuosidade, esses das mães que chamavam os filhos?

Não eram de afecto, elas estavam era furiosas.

 

Mas queriam-nos com fúria. Imagino que isto contrastasse com a sua experiência.

Na minha família também gritavam que se fartavam, do lado do meu pai; do lado da minha mãe, as pessoas eram mais calmas. Era tudo vivido com grande rebuliço, cenas, discussões. Tenho uma memória mais ou menos vaga disso.

 

Se tem uma memória de elefante, como é que essa é vaga?

Esta minha memória é muito selectiva. Sei tantas coisas de cor, que tantas pessoas fizeram, e não sei de cor uma linha que tenha escrito. Quando acabo quero é esquecer o livro para poder começar outro.

 

Outra frase sua: “Inquieta-me o tempo que tenho à frente. [Sinto] uma angústia que tento preencher com trabalho”.

A gente não diz as coisas assim. As entrevistas são situações muito peculiares. Há sempre uma certa tendência para posar de perfil, para dar uma imagem boa ao jornalista e através do jornalista às pessoas que irão ver ou ler. São situações muito artificiais. É difícil que a pessoa seja realmente aquilo que é.

 

Queremos sempre que gostem de nós, no fim de contas...

Não sei bem se é gostar... Acaba por ser, mas é um tipo de gostar que é pouco importante.

 

Eu achei que íamos falar sobre inocência e medo.

Então fale.

 

Gosta de falar disso?

Se gosto? Não. Desde que começámos estou ansioso que isto acabe.

 

É assim tão desagradável?

É. Não é a vida. A Anabela a fazer o papel de jornalista e eu a fazer o papel de escritor que está a falar de coisas. Não é essa a imagem que eu tenho de mim para mim mesmo.

 

Então acabamos.

Acho óptimo.

 

 

Publicado originalmente na Revista Selecções do Reader’s Digest em 2006

 

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