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6 crianças fazem selfies com palavras

A Laura, a Margarida, a Marta, o Martim, a Matilde e o Pedro fizeram selfies com palavras, em fotografia, em desenho. Neste auto-retrato, falaram do brincar, dos sonhos, das pessoas importantes da sua vida, dos lugares para onde dirigem a atenção. Mostraram-se crianças como as outras, pessoas como as outras. Ou seja, todas diferentes entre si.

Amanhã é Dia da Criança. Ouvir crianças permite-nos conviver com a criança que temos algures, visitar um espaço remoto, continuar a descobrir o mundo com espanto. Para que, como num poema de Pessoa, a criança que fomos não fique para sempre a chorar na estrada.

 

Laura, oito anos

Chamo-me Maria Laura Monteiro da Silva, mas gosto que me chamem Laura. Os meus pais chamam-me Laurinha e Maria Laura quando é mais a sério ou se zangam comigo.

Passo a maior parte da minha vida na escola. É uma escola pública. Entro às nove e saio às cinco e meia. Estudo. Faço trabalhos, projectos. Almoço. Não gosto de toda a comida, mas tenho de comer o que há. Às vezes vemos teatros. Gostava de ter mais tempo para brincar e de ter mais aulas de violoncelo.

Quando for grande quero ser violoncelista e dar concertos, conhecer muitos países e pessoas diferentes. Não sei explicar o que sinto, mas fico feliz quando estou a tocar. Quando estão a olhar para mim, fico um bocadinho nervosa, mas depois passa porque esqueço que as pessoas estão lá. Sofre-se para tocar bem porque é preciso muito trabalho.

Pratico todos os dias, trinta ou quarenta minutos, em casa. Duas vezes por semana, estudo na Academia de Música de Costa Cabral, no Porto, que frequento desde os seis anos.

Quando comecei, o violoncelo era pequenino e mesmo assim era quase do meu tamanho. Escolhi o violoncelo por causa do som e porque gostava do instrumento. É bonito. Se não puder ser violoncelista, não tenho nada que queira ser. Pode ser que depois queira outra coisa.

Além do violoncelo, divirto-me a brincar com os meus amigos, jogar futebol, andar de skate, ler, andar de bicicleta e passear. Em casa, não passo muito tempo em frente à televisão, mas gosto de ver. Gosto de falar sobre os meus amigos, as coisas que vejo na televisão e na rua. E também sobre banda desenhada. Aos fins de semana e nas férias brinco mais e estou mais tempo em casa dos meus amigos e dos meus avós. Nas férias de Verão gosto de ir à praia e vou para a quinta na aldeia.

No futuro, gostava de viver na quinta e trabalhar no campo (quando não tocasse). Na aldeia temos mais tempo para fazer as coisas e mais liberdade. Podemos brincar na relva, andar descalços e ter muitos animais. Gostava que a minha casa fosse a casa da quinta, com toda a minha família lá. É grande e bonita, só falta uma piscina.

Tenho irmãos. Comigo, somos quatro. Uma irmã filha da minha mãe, dois irmãos filhos do meu pai. Têm 20, 21 e 26. Sou a mais nova e recebo o mimo deles todos, mas às vezes também me põem na ordem.

As minhas características: não sou tímida e não falo muito. Nos trabalhos, como estudo e como sei, sinto-me segura. Quando faço uma prova de violoncelo, tenho confiança que vou conseguir. Estudo muito e se me enganar numa nota, tento outra vez.

As pessoas mais importantes da minha vida são os meus pais. Penso ter filhos. Bem educados, simpáticos, que ajudem os mais velhos e os pobres. Vou dizer-lhes para serem boas pessoas. Preocupo-me com as pessoas que passam dificuldades. Fico com pena. Às vezes nem conseguem arranjar casa nem têm dinheiro. Ouço isto nas notícias e vejo pessoas na rua a pedir. Algumas contam as suas histórias. Ficaram desempregadas, não conseguiam pagar mais nada e começaram a pedir. Fico com pena porque, se fosse eu, ia ficar triste, não ia gostar.

Também penso nos senhores que têm aquele trabalho muito difícil de nos proteger. Os polícias, os bombeiros e os políticos.

O segredo que te posso contar é que gostava de aprender a tocar percussão.

 

 

Margarida, nove anos

Quem é que eu sou? Sou uma pessoa. Vivo com dois irmãos e com os meus pais. O meu nome é Margarida.

De manhã acordo, como toda a gente. Acordo às 6.45. Não acordo sozinha porque ainda tenho preguiça. Já sou bastante autónoma. Gosto de me aventurar. Aventura é descobrir coisas novas. Correr riscos.

As pessoas fundamentais da minha vida são a minha mãe e o meu pai. A minha mãe é uma pessoa muito simpática, com grande carácter e alegre. Está sempre lá para nos ajudar. Tem cara de advogada, mas não é advogada. O meu pai é uma pessoa com características muito fortes, que se diverte muito e é muito divertido. Tem cara de pessoa que faz filmes de animação. Gosto muito dele. Foi em quem me inspirei mais. Somos muito parecidos. Fazemos piadas. Tem aquelas frases que nos fazem ser uma pessoa melhor. Por exemplo: “Pai, ajuda-me com os trabalhos de casa”. “Não, Margarida. Porque quando fores maior, não vais ter ninguém que te ajude. Tens de aprender a fazer as coisas sozinha.”

Outras pessoas importantes: a Jô. É a senhora que limpa a casa e trata de nós. Está desde que nasci. Foi como uma segunda mãe para mim.

O meu irmão Francisco tem menos dois anos do que eu. Zangamo-nos muito, como é normal. Temos muito em comum, brincamos, ajudo-o nos trabalhos. Há uma coisa em que somos completamente diferentes: ele é muito meiguinho e eu sou um bocadinho mais bruta. Não é para ofender as pessoas, mas digo mesmo o que penso. É um defeito que tenho. Também pode ajudar as pessoas a mudar.

O meu irmão António: é como se eu me preparasse para ter um filho. Sou cinco anos mais velha. Nunca lhe mudei a fralda. Aos sábados dou-lhe banho. Em casa, se a mãe está doente e o pai está fora, dou-lhe o jantar. É uma questão de paciência. Alguém tem de o fazer.

A minha avó Sheila é muito importante. Ela ensina-me a criatividade e a abstracção. É muito solta. Tem umas folhas grandes onde podemos pintar. É uma avó mais para o lado divertido.

A minha avó Margui, que não se chama Margui, mas é o que lhe chamamos, também brinca muito comigo. Ensina-me a jogar jogos de cartas. Preocupa-se com as notas e a escola. No almoço de domingo, em casa dela, estou com os meus primos, os meus tios.

A minha mãe fala comigo em inglês. O inglês ajuda-me. Fico preparada para correr o mundo inteiro. Índia, Nova Iorque, México. Falo inglês com a minha avó Sheila. Naturalmente. Se não sei alguma palavra, paro e digo em português.

Gostava de ter uma boa vida. Uma vida boa é viver bem. Ser bom no que se faz. Ter orgulho em quem se é. Gostava de ter dois filhos. O que quero mesmo muito, muito é ser cozinheira. Chef de cozinha. Gosto de ajudar o meu pai na cozinha. A minha tia entrou no Master Chef e isso empolgou ainda mais o meu gosto pela cozinha.

Empolgou: estas palavras, aprendo na leitura. Leio livros de aventura, de magia. Agora estou a ler o Harry Potter, em português.

Adoro, adoro, adoro dançar. Gostava de aprender breakdance e dança contemporânea, tenho aulas de hip hop. Samba, vou aprendendo, com a Jô, que é brasileira.

Música, ah, pois. O meu avô está muito ligado à música, a minha mãe, também. Fui para uma escola de música quando tinha cinco anos. Sempre gostei da flauta transversal e da lira, que é o símbolo da Academia de Música de Santa Cecília. Só que não pude ir para a lira. A lira é muito cara e há pouca gente que a toque. É uma harpa pequenina. Antigamente é que se tocava.

 

 Marta, oito anos

Eu sou a Marta. Tenho oito anos. A minha vida está a correr bem. Não está a correr nada mal. Tenho três irmãos, uma irmã e dois irmãos. Sou a segunda. Primeiro foram as meninas e depois os rapazes. Agora partilho o quarto com a minha irmã. Temos um beliche. Durmo na parte de baixo, mas vamos trocando.

Acordo às sete da manhã. Primeiro visto-me e depois tomo o pequeno-almoço. Uma torrada e leite. Depois vou de carro para a escola. Demora meia hora. Vivo em Oeiras e a escola é no Cacém. Andamos os três mais velhos nesta escola. O mais pequenino, não, anda na pré. Os pais vão buscar-nos à escola às três da tarde, à terça e à quarta. No resto da semana, é uma amiga. De manhã, são os pais que nos levam. Esta amiga deixa os filhos no nosso carro, e eles vão connosco.

Costumo brincar à apanhada. Nos intervalos vamos ao parque. Temos um parque ao pé da escola. Gosto de ver as plantas. Há umas que se pode chupar. É assim: a planta tem uma parte que se chupa e sai um suco docinho. Não sei o nome da planta. Tenho muitas flores preferidas, mas aquela de que gosto muito é a tulipa. No parque não há tulipas, mas o nosso vizinho tem flores, e costumo ver as tulipas dele. Nós temos plantas, em casa. Manjericão plantado. Está na varanda e os pombos vão lá.

Em casa ajudo a mãe a cozinhar. Não gosto de polvo, lulas, cogumelos, camarão. O cogumelo não tem sabor, mas a textura... Do polvo e da lula, também é da textura que não gosto. De lula grelhada é que não gosto mesmo nada! Às vezes tenho de comer, outras vezes, não. Gosto de lasanha, bife, do peixe que a minha mãe faz. E gosto muito de limpar!, de ver tudo organizado.

O meu pai é pastor evangélico. Penso todos os dias em Deus. Fazemos o culto doméstico no final do dia, ao domingo fazemos o culto na igreja. Depois da refeição, vamos buscar as bíblias e o meu pai lê. Depois dizemos versículos de cor. Depois eu e os meus irmãos lemos alguns versículos. Depois a minha mãe conta histórias da Bíblia. Depois cantamos alguma coisa. Depois vamos para a cama. Gosto muito do culto de domingo. A minha parte preferida é quando cantamos.

Deitamo-nos às oito ou nove. Quase não vemos televisão. Ao domingo, temos o culto, de manhã. Durante a semana também não dá. Ao sábado, vemos um bocadinho. O que gosto mais de ver é “Os Cinco em Acção”.

Não penso no futuro. Simplesmente faço o que acontece. Não penso se vou casar ou ter filhos. Mas gostava de ser cantora. Gosto muito da Marisa Monte. O meu pai também é músico. Não conheço as canções todas, que ele tem muitas!

Gosto muito da minha família, dos meus amigos. A minha melhor amiga é a Fabiana, que conheci no acampamento das crianças de Água de Madeiros, no ano passado. (Água de Madeiros é muito longe!) Tenho outra melhor amiga, que vive ao pé de mim, a Inês.

Não costumo estar muito sossegada. Mas sou um bocadinho tímida. Às vezes sou distraída, outras vezes sou atenta. Sou parecida com a minha mãe, de cara. Apesar de não ter caracóis. Tinha, quando era pequenina. Mas perdi-os.

Os desenhos: agora já não faço tudo à pressa. Faço devagar, para sair bem. Mas quem desenha mesmo bem é a minha irmã, que tem 11 anos. Somos amigas. Como ela está no quinto ano e eu no segundo, ajuda-me com os trabalhos. Gosta mesmo muito de ler. Emprestaram-lhe a colecção Uma Aventura e está a ler tudo aquilo. Eu também gosto de ler. Nós os três gostamos de português e não gostamos de matemática. Eu estou bem na matemática, mas não gosto das matérias.

Quero fazer-te uma pergunta: quantos anos tens?

 

Martim, dez anos

Chamo-me Martim, fiz dez anos em Janeiro. Vivo com o meu pai e a minha mãe, o Ricardo e a Sónia. Os meus irmãos chamam-se Manel, Madalena e Mateus. Tenho um cão, o Mojito.

Acho que sou um menino feliz. Porque tenho tudo o que é preciso para ser feliz. Tenho pais, irmãos, avós, tios. Tenho uma casa. Não queria mudar nada na minha família.

O dia mais feliz da minha vida foi quando a minha irmã nasceu. Eu queria um irmão mais novo. Eu queria ser o irmão mais velho. Ao princípio, tive ciúmes. Depois, sorriu para mim e comecei a gostar dela.

As pessoas mais importantes para mim são os meus irmãos e os meus pais. Com o Manel, gosto de brincar. De vez em quando andamos à pancada porque gozo com ele e ele fica demasiado irritado. Digo-lhe: “Não jogas nada de futebol!”. O Manel tem 13, vai fazer 14. Dividimos o quarto. Partilhamos as coisas. Prefiro assim.

A Madalena pede-me muitas coisas. Por exemplo, para desenhar com ela. Tem cinco anos. Às vezes vou buscá-la à escola de trotinete, e ela queixa-se: “Não me trouxeste a minha trotinete!”. Nunca fui buscá-la sozinho, mas às vezes vou à mercearia sozinho.

A primeira vez que andei sozinho tinha quase nove anos. Fui comprar batatas e outras coisas para uma festa cá em casa. Gosto da responsabilidade, apesar do medo de perder o dinheiro ou de me esquecer do recado.

O Mateus tem seis meses. Estou sempre a brincar com ele. A fazer com que se ria.

A relação com o pai e a mãe é diferente. Com o pai, gosto, quando ele não está à espera, de lhe tocar no ombro e fugir. Outras vezes, brinca comigo a torcer os dedos, aos encontrões. Com a mãe: gosto de fazer piadas que a façam rir. É um tipo de brincadeira que não sei explicar. A mãe é mais meiguinha. Quer abraçar-me muito e eu deixo-me abraçar, mais ou menos.

Como é que imagino que vai ser a minha vida? Ocupada. Gostava de ser tenista profissional. Sendo tenista, tendo dois ou três filhos, uma mulher desempregada ou com emprego, acho que teria o mesmo dinheiro que os meus pais têm agora.

Quando tinha seis anos, recebi uma nota de 50 euros. Dos meus avós. Os meus pais também me deram uma nota de 50. Fiquei louco, louco! Comecei a gostar de ter dinheiro – para poupar. Tenho 400 euros ou mais. Gasto algum dinheiro, cinco, dez euros. Para gelados, nas férias.

Agora ganho num mês, pelo menos, 20 euros. Os meus pais fizeram uma coisa: nos testes, se tirarmos negativa temos de lhes dar dinheiro. Satisfaz: damos-lhes cinco euros. Bom: dão-nos 12 euros. Muito bom: é 24. Eu andava a tirar “satisfaz” a mais e o Manel a ter negativas. Se não fosse o dinheiro, trabalhava na mesma, mas assim é como ter uma profissão: trabalho para ganhar dinheiro.

No dia a dia não penso muito no preço das coisas. Não sei quanto custam as coisas no supermercado.

Com este dinheiro, se oferecesse um presente, dava aos meus pais uma viagem ao Brasil. Aos meus avós, depende. Os avós maternos: estão separados. Para a avó, uma ida à Madeira. Para o avô, uma prova de vinhos. Para o avô paterno, uma ida ao teatro. Para a avó materna, um curso de cozinha.

Destes presentes todos, a prova de vinhos está excluída. Já provei vinho. Não gostei do sabor. De cerveja, gosto. Gosto mas não bebo.

Se o ténis não correr bem, posso ser negociador. Negociador de várias coisas. Tenho talento para convencer as pessoas.

[longa pausa] Há uma coisa que quero saber: o que é ser adulto?

 

 

Matilde, dez anos

Eu sou a Matilde, tenho dez anos. Tenho dias em que sou resmungona, impaciente, outros, não. Gosto muito de desenhar, de animais e de passar muito tempo com a minha melhor amiga, a Vitória. Brincamos, falamos sobre o nosso dia-a-dia, fingimos que temos filhas. As filhas são os Nenucos. Sou amiga da Vitória desde que nascemos. Só uma vez não nos entendemos. Conto-lhe segredos que sei que ela não conta a ninguém. Confio nela. Tenho três cães, um pastor alemão e duas cadelas da raça Golden Retriever, mãe e filha. O Tobi, a Nina e a Chiara.

Moro numa casa, entre o campo e a cidade, perto de Vila Real, em Trás-os-Montes. Ao pé da casa há um rio e uma vinha. Moro com a minha mãe e o meu padrasto. Não vivo com o meu pai há dez anos. Os meus pais separaram-se quando eu tinha dois meses.

As pessoas mais importantes na minha vida são a minha mãe, o meu pai, a minha prima, que é muito chegada, e a minha melhor amiga. Os meus avós maternos estão em França. O meu avó paterno está em Portugal, mas só convivo com ele quando o meu pai está cá.

O meu pai emigrou há dois anos. Está na Suíça. Comunicamos pelo Skype. Conto-lhe as minhas notas. Sou boa aluna, mas não sou das melhores. A minha disciplina preferida é português. Faço erros, mas tenho jeito para redacções. Tenho saudades do meu pai e gostava que ele estivesse cá. Mais perto. Vejo-o mais ou menos uma vez por ano. Quando ele vivia em Portugal, estava com ele todos os fins de semana.

Falo francês porque a minha família materna está toda em França. Vou lá todos os anos. Habituei-me a falar francês, também, por causa da minha prima, que me ensina e corrige. Eu faço a mesma coisa com ela: ensino-a a falar português.  

No futuro gostava de ter um bom emprego, em que ganhasse bem. Gostava de ser criadora de desenhos animados ou então veterinária. Gostava de ter uma casa, claro. Que não fosse muito grande nem muito pequena. Gostava de viver com alguém, mas não faço questão em casar. Não quero ter um marido. Se uma pessoa se quiser divorciar, não tem de ir a tribunal. É mais por isso. Mas gostava de ter filhos.

Outro projecto: viajar. Sempre quis a Londres, ver o Big Ben e ver o estúdio onde foi feito o Harry Potter.

Um dos livros que tenho é o Diário de Anne Frank. Na escola fizemos um trabalho sobre o livro. A minha mãe tinha-o em casa e emprestou-mo. Ainda não o li todo. Li algumas passagens. É muito impressionante, por acaso até é. Vi a publicidade do filme e é um bocadinho pesadinho. A minha professora disse que a casa estava em exposição, que tinha o cabelo e as roupas que a Anne Frank usava. Fiquei a pensar: como é que pode ser, se o cabelo dela foi cortado e para o lixo? Depois, a minha melhor amiga, que visitou a casa, contou-me que a casa estava vazia. Que o pai da Anne quis que a casa estivesse vazia para mostrar a solidão em que eles viviam.

Gosto da vida que tenho. Gostava que fosse diferente em algumas partes. Gostava de tirar tudo cinco, na escola. Sou aluna de quatro. Tenho uma amiga que tirou cinco a tudo.

Quando é que vou deixar de ser criança? Quando tiver 16 anos. Nessa altura vou ser adolescente. Jogo basquetebol e ao fim de semana faço natação. Amanhã vou dar uma caminhada até à Régua. Vai ser das grandes.

 

Pedro, oito anos

O meu nome é Pedro, nasci no dia 23 de Setembro de 2006. As minhas festas de anos normalmente não são temáticas, mas a última foi sobre culinária e fizemos pizzas. A cozinha lá de casa era pequenina para seis meninos.

Tenho uma família boa. A família principal é constituída por: avô, avó, outro avô e outra avó, pai e mãe e a minha irmã. Se for família maior, acrescento os meus primos, os meus tios, os tios-avós, os tios-avôs.

A minha rotina também é boa. Acordo às oito. Tenho oito anos mas continuo a gostar de comer Nestum. Depois vou lavar os dentes. Depois dispo o pijama e visto a roupa. Depois pomos os lanches na mochila e vamos para a escola. Vamos a pé. Vivo perto da escola, nos Anjos. É uma escola pública. Quando acaba a escola, o pai, a mãe ou a avó vêm buscar-me. Nunca é às cinco e meia. Há uma coisa que é o Centro de Apoio à Família para pais que chegam mais tarde. Às terças e quintas faço ginástica.

Estou uma semana com o pai e uma semana com a mãe. Na semana da mãe, às terças feiras ficamos com o pai, e na semana do pai às segundas-feiras ficamos com a mãe. Estou habituado a isto. Estão separados desde a pré-primária.  

As minhas amigas meninas são mais do que os amigos rapazes. Porque eu não costumo jogar à bola. Fora da escola, até jogo. Mas na escola fazem batota. E quando uma equipa ganha, começam à bulha. Nunca andei à bulha com ninguém.

O assunto de que gosto de falar é animais. Rapazes e raparigas não costumam prestar atenção. Estão mais interessados em brincar. Eu também brinco. Brincamos aos pais e às mães.

Brincar aos pais e às mães é assim: existe um pai, existe uma mãe. Às vezes existe apenas uma mãe. Os outros são os filhos. Existe o mais velho, o mais novo. Às vezes até existe um bebé. De vez em quando existe um animal de estimação. É mais ou menos brincar ao faz de conta. O pai ou a mãe mudam a fralda e dizem: “Vão pôr a mesa”. Há cenas mais dramáticas, uma filha foge de casa. A família toda vai procurar essa filha.

Eu gosto mais de fazer de filho ou de animal de estimação. Recebo a atenção dos outros.

Tenho um vocabulário bom. Aprendo lendo muitos livros, ouvindo os pais a falar. Os meus livros preferidos são os do Harry Potter. Conheço a história da Menina do Mar e da Fada Oriana porque a mãe leu à noite, a mim e à minha irmã. O meu pai está a ler o Dom Quixote para nós. É um livro mais para adultos. Ainda não chegámos a essa parte, mas já ouvi falar do Sancho Pança. A minha irmã tem uma camisola que a minha mãe trouxe de um país que já não me lembro qual é, e que tem o Dom Quixote e o Sancho Pança.  

Ser adulto é ter a responsabilidade de cuidar de mim mesmo, das minhas coisas. É ter a responsabilidade de ganhar dinheiro para me alimentar e alimentar a minha família. Ser criança não é o melhor do mundo, mas ser adulto também não é o pior do mundo.

O meu animal preferido é o flamingo. A minha cor preferida é violeta, mas não há nenhum animal violeta. A segunda cor é rosa. E o flamingo é cor de rosa.

No futuro gostava de ter filhos. Dois ou um. Uma casa arrumada. Um bom emprego. Um bom emprego é um emprego em que uma pessoa trabalha bem e recebe bem. Quero ser zoólogo, veterinário e poeta. Não faço poesia, mas gostava de ser poeta. Um poeta escreve poemas que são versos bonitos; podem não ser bonitos, mas acho que deviam ser bonitos. Servem para as pessoas lerem e sentirem-se felizes.

 

 Publicado originalmente no Público em 2015

 

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