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Ana Bacalhau

No palco, Ana Bacalhau é cada vez mais Ana Bacalhau, e menos a personagem castiça de nome Deolinda. Pertence à geração que agita Que Parva que Eu Sou como uma arma. O tema, que interpretou nos Coliseus, em concertos comemorativos de dois discos de sucesso, traduz um sentimento colectivo. “Retirámo-nos um pouco, porque era o problema que devia ser debatido, e não a canção.” Como é estar em palco? “É assustadora a ideia de que vamos ter 30 mil pessoas à nossa frente. Mas depois subimos ao palco e tudo muda. É preciso enfrentar aquele medo. E sentimo-nos vivos.”

 

 

Sente que se tornou o ícone de uma geração dita à rasca?

Não. Sinto-me uma intérprete de palavras, que foram escritas pelo Pedro [da Silva Martins], e que também me dizem muito, senão não as interpretaria. Trabalho há dez anos. Trabalhei no [sector] privado, trabalhei no público, trabalhei por conta de outrem, trabalho por conta própria. Conheço esta realidade na primeira pessoa e na terceira pessoa (amigos e familiares). Não estávamos à espera daquela reacção nos Coliseus, quando cantámos Que Parva que Eu Sou. Uma reacção de identificação; levantaram-se, aplaudiram, alguma comoção.

 

O tema transformou-se num hino, numa canção de intervenção que traduz um momento. Quase todos os opinion makers o sublinharam. E depois foi um crescendo para a manifestação que aconteceu por todo o país, no dia 12 de Março.

As coisas escaparam-nos das mãos. Não nos passou pela cabeça que a canção pudesse ter este impacto, levantar o problema e trazê-lo para o debate público. A canção inscreve-se no universo Deolinda: é uma personagem que está a cantar e contar, fala de si e da sua vida, mesmo que seja uma canção diferente das outras que temos.

 

Vamos atrás, ao seu percurso, e descolando da canção. Que sonhos tinha?, que queria fazer com a sua vida?

Queria ser professora de inglês. Não me lembro de aprender inglês, lembro-me de já saber inglês. Licenciei-me em Línguas e Literatura Modernas. Gostava de livros. A minha mãe escreveu no livro do bebé: “Gostas muito de ler”. O gosto pela filologia sempre esteve comigo. O gosto pela música também (comecei a tocar guitarra aos 14 anos). Quando descobri a minha voz descobri que podia fazer música.

 

Como é que percebeu?

Percebi que podia cantar canções supostamente difíceis de cantar. Era um instrumento que tinha de aprimorar. Com esta descoberta na música pensei duas vezes em relação ao meu futuro na educação. Os meus pais aconselharam-me a tirar um curso. “Para ter alguma segurança”. Tinham alguma razão. Quando saí da faculdade, já não tinham razão. A realidade tinha mudado naqueles anos. 

Foi nessa altura em que o mundo estava a mudar de lugar que eu descobri que me podia exprimir cantando. Todas as angústias, fantasmas, tragédias da adolescência foram trabalhadas através da música. Teria sido uma fase diferente se não tivesse a música.

 

Escrevia coisas para cantar ou colava-se/identificava-se com outras já escritas?

As duas coisas. Escrevia muito, não só canções. Ser criativa foi a minha forma de passar à idade adulta incólume. Os meus assuntos? Escolhia os blues, o rock. Aquela raiva, aquele pensar sobre a vida. Os tópicos normais: o amor, a amizade, a filosofia.

 

Na sua página do Facebook aponta como preferência Janis Joplin e Nina Simone. São ícones desse sentir, dessa contestação. As duas, apesar da diferença de estilos, são mais do que cantoras.

Traduzem essa inquietação interior, e inventam um modo de cantar. Descobri a Janis Joplin no último ano do secundário. Houve uma altura em que me vestia como a Janis Joplin, cantava como a Janis Joplin, tomei as suas dores como as minhas dores. Foi através dela que descobri a maior parte dos grandes intérpretes. Janis cantava o Little Girl Blue e disse num concerto que era uma versão de Nina Simone. “Nina Simone?, deixa cá ver”. A Nina Simone é um génio interpretativo. Não há sentimento humano que não esteja expresso nas suas versões.

 

O género que Janis Joplin mais interpreta é o blues. Que é um lamento. O que começam a fazer, já enquanto Deolinda, é uma espécie de fado. Que não é senão um lamento. A tónica é a mesma.

Ainda que o modo de a exprimir seja outro. É verdade.

 

Como é que fez esta deriva?

Depois da faculdade, fiz uma banda com algumas pessoas da Faculdade de Letras. Os Lupanar. Era um estilo mais urbano, mais experimental. Foi a minha primeira experiência profissional em palco e em português. Depois criei com o Zé [José Pedro Leitão], o meu marido, que toca contrabaixo nos Deolinda, um trio de jazz. Tocámos um ano e meio num hotel. Depois juntámo-nos aos meus primos, que tinham uma banda. O Pedro tinha duas ou três canções; experimentámos e sentimos que nos servia aos quatro como uma luva.

 

Os Deolinda são dois primos e um casal?

Sim. E o Pedro e o Luís, os meus primos, são irmãos. O que eu cantei antes ajudou-me a cantar como canto nos Deolinda. Quem acompanhou o meu percurso percebe que o mais natural era eu ter acabado por me exprimir na minha língua e trazer as coisas da nossa vida muito à flor da pele.

 

Há um lado castiço que assume em palco. Vem de onde?

Ah, vem de mim! [riso] Sempre fui assim: com um sorriso, brincalhona, com o nariz ligeiramente empinado. Como dizem os anglo-saxónicos, with an attitude.

 

Desafiante.

Sim. E popular. Aprendi com a minha avó, com as expressões populares impagáveis que ela usava, aquele estar lisboeta dos bairros. Num almoço de família, antes de gravarmos o primeiro disco, cantámos o Fon Fon Fon, que termina com “que se lixe o romantismo”. A minha avó disse: “Também acho. Que se lixe o reumatismo”. Estas coisas da minha avó são tão ingénuas, verdadeiras, castiças…

 

Sobretudo quando apareceram, parecia que aquela que estava em palco não era a Ana Bacalhau, mas uma personagem. Esta que agora vemos, na sua maneira de estar, na gestualidade, não é a do Fon Fon Fon.

Foi preciso compor uma personagem para depois a descompor. O projecto, aquilo que nós pensávamos que era, não era. Era outras coisas, mais coisas. Nunca pensámos que podíamos chegar a um palco como o [do Festival do] Sudoeste. A maneira como cantamos num café pequeno é diferente da maneira como cantamos num auditório, ou nas Festas da Cidade (perante dez mil pessoas), ou o Coliseu, ou num festival de verão (perante 30 mil pessoas). A personagem era a mesma, mas tinha de aprender a estar em cada um destes espaços.

 

Foram dois anos intensíssimos, desde a explosão do sucesso.

Quando olho para trás e me vejo nos vídeos de há três anos sinto que evoluímos imenso. No princípio eu fazia uma interpretação dessa personagem inventada pelo Pedro. Entretanto fui-me apossando mais dela. Fui fazendo a transição. Está lá a personagem Deolinda e está lá a Ana Bacalhau de um modo mais natural. Tenho procurado ser cada vez mais eu.

 

Foi preciso trabalhar muito a confiança em si, em frente a uma plateia? É preciso lembrar que nem tudo correu como sonhou. Trabalhou na área do arquivismo, que exige uma concentração e recato que são o oposto da vida do palco.

A confiança é uma dose razoável de loucura (expomo-nos muito!), e uma dose saudável de insegurança, que nos leva a uma necessidade de estar em palco, de comunicar.

 

A resolver essa insegurança in loco?

Sim. Nas aulas de canto ganho confiança técnica no meu instrumento – e essa é preciso ter. Nisso estou segura. O resto, são incógnitas. Cada palco é um palco, cada público é um público. Tive aulas de canto entre 2003 e 2005 e retomei em 2009. Permitem-me ter mais recursos, expressar-me melhor.

Quando saí da faculdade fui trabalhar como recepcionista para uma escola de inglês privada. Depois consegui ser professora nessa escola. Ganhava pouco mais do que o salário mínimo. Trabalhei como assistente administrativa e comecei a fazer a pós-graduação. Eu tinha tirado um curso de que gostava. Não queria ser professora do sistema público porque não ir para aqui e para acoli. Gostava da música mas não conseguia viver dela. Portanto, tive de me aguentar à bronca. A solução foi a arquivística, que tinha algumas saídas. Ser arquivista do Ministério das Finanças foi o meu último emprego por conta de outrem. Trabalhei três anos como arquivista.

 

Com a música sempre em paralelo?

Sempre. Houve uma altura em que estava a estudar, trabalhar e a fazer música ao mesmo tempo, mais as aulas de canto. Não tinha vida pessoal. Não sei como consegui fazer aquelas coisas todas, mas fiz, e valeram muito a pena. Porque depois consegui um emprego melhor, e depois consegui estar com os Deolinda. Mas tive de lutar muito para conseguir estar hoje a fazer aquilo de que gosto.

 

Aprendeu nesses anos que a indisciplina era indispensável.

Ah, pois. Em qualquer profissão. 

 

Os escritores de que mais gosta são introspectivos e psicologistas. Preocupados com isso que somos. Dostoievski é um deles. Isso parece contrastar com o ar juvenil e mexido que tem.

[riso] Ninguém tem de levar com a minha melancolia. Gosto de ter momentos só para mim, em que me conheço. Às vezes temos de nos voltar a apresentar a nós próprios; senão, olhamos para o espelho e não sabemos quem é que está lá. Mas também gosto muito de estar com as pessoas.

 

Sempre foi muito popular na escola, no grupo?

Fui. Em mau e em bom. Na escola primária, fui uma criança gorda. E o meu último nome é Bacalhau. Era gozada todos os dias. O bullying, de que hoje se fala muito… Aprendi a construir uma carapaça, fiz de mim uma mulherzinha. A adolescência encarregou-se de me emagrecer um bocadinho. Levava a guitarra, cantava, incluía-me no grupo. Na faculdade era conhecida pelos corredores. Estava envolvida na associação de estudantes, colaborava na rádio. Tudo isso que vivi, o bom e o mau, ajudou-me a lidar com esta (certa) notoriedade que alcançámos. Vou construindo uma armadura, sem que isso me danifique, sem que me torne amarga ou retire espontaneidade. O que não nos mata, fortalece-nos.

 

Já se apresentou novamente a si própria nos últimos três anos?

Sou mais feliz, mais realizada. Casei. Ando pelo mundo com as minhas canções. É muito diferente da vida da pessoa que estava no arquivo, rotineira, e que à noite ia fazer música, ensaiar. Hoje sinto-me mais eu. Mais parecida com a rapariga de 15 anos que tinha o mundo à sua frente. E que sabia que o ia conquistar.

 

Publicado originalmente na revista Máxima em 2011

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