Anabela Mota Ribeiro

 

António Feio

Todas as coisas têm um princípio e um fim. Portanto… A partir dos 40 anos, percebi que tudo corre depressa. Se a pessoa não começa a fazer determinadas coisas, nunca as vai fazer. Também tenho a sensação que não vale a pena ter sonhos difíceis ou impossíveis de concretizar. Não me quero desgastar. Isto é possível fazer?, então, ‘bora fazer. Isto não?, então, esquece. Não há condições?, apaga que foi a lápis. Faz o que está ao teu alcance. Essa perspectiva, do fim, não altera a minha vida. O que penso agora é: um dia de cada vez. 

 

 

António Feio, 54 anos. Quatro filhos. Uma irmã a quem diagnosticaram um cancro no pâncreas e que está safa. Tem um cancro no pâncreas e está a fazer tudo para se safar. É actor e encenador. Às vezes, interpreta o bacano. E é o bacano. 

Há cerca de dois meses – ele não sabe bem, porque ele e datas, datas e ele… – foi diagnosticado a António Feio um cancro no pâncreas. Recentemente, na entrega dos Globos de Ouro, o actor e encenador agradeceu ao país a atenção. E ao pâncreas, pelo proporcionado…

O assunto não é para brincadeiras. Mas que há-de ele fazer senão reinar com a situação? Reinar é uma expressão sua. Estás a mangar comigo, também podia ser. Mas não a usou.

Há momentos em que começa a falar com o Toni, o personagem que interpreta na série Conversa da Treta, ao lado de José Pedro Gomes. Fala como falam pessoas de todos os dias, que encontramos no café, no supermercado, na rua.

A Treta é uma leitura do mundo a partir de um quadro C e D – como arrumam as classes sociais nas televisões. Nesse quadro, como noutros, usa-se o “‘bora” como se se dissesse “embora lá”. Mesmo nas classes Ae B, diz-se “embora lá”?

Ai temos um problema?, bora lá resolvê-lo. António Feio é assim. ‘Bora lá ligar o descomplicómetro e chegar às pessoas. ’Bora lá fazer o que há a fazer, deixem-se de tretas. ‘Bora lá fazer de uma ida ao Monumental uma grande festa, com direito a gelado.

Se não fizer, como justificar o estar?

E agora, António? Agora, toca a fazer o que é possível ser feito.

É um fazedor. Um encenador que se ocupa da carpintaria de uma peça, que dirige actores, que aponta o foco a quem tem ao lado (como em O que diz Molero). Trabalhou em dobragens de desenhos animados. Trabalhou na formação de jovens actores (Carla Chambel, Marco Horácio, Nuno Lopes, que lhe ofereceu o seu Globo de Ouro, foram alguns). É um trabalhador.

Ele acredita que ainda tem muito para fazer. Enquanto isso, show must go on e a Verdadeira Treta continua em digressão pelo país.

Pelo meio, está a fazer quimio e rádio. (Não é preciso completar: todos sabem o que significa).

 

 

Como é que está a lidar com o interesse (algo mórbido) – nosso, inclusive – pela sua doença?

Tem sido um pouco ao sabor do vento. À partida é um problema que é meu, não é? Tento preservar o lado mais íntimo.

 

Vamos começar do princípio. Como é que soube? O que é que o fez fazer exames?

Eu andava pelo Hospital da Luz porque a minha irmã teve um problema idêntico ao meu. Um cancro no pâncreas. A origem era diferente; mais simples de resolver do que o meu. A minha irmã, com um problema desses, assustou-me imenso!

 

Pelo cuidado com a sua irmã ou pelo receio de que pudesse padecer do mesmo mal?

A hipótese de lhe acontecer alguma coisa apavorou-me. Foi há três, quatro meses. Eu andava com dores de estômago desde o Natal. Comia e ficava inchado. No período de visitas ao Hospital da Luz, saí dez minutos, fui fazer uma endoscopia. Havia uma inflamação, uma gastrite, nada de especial. Entretanto o processo da minha irmã foi evoluindo e eu continuei com queixas. Decidi voltar ao hospital. “Eu não estou bem, vejam o que tenho”. Fizeram-se exames mais aprofundados, ecografias, umas coisas. E aí, foi, surgiu, pronto, foi-me diagnosticado o cancro no pâncreas.

 

Qual era o cenário?

Não era muito favorável. O que me sugeriram foi fazer radio e quimioterapia. “Vamos ver estas hipóteses”. Continuei a fazer espectáculos. Fui a Madrid falhar com um cirurgião. E a Paris a um hospital de reconhecidos méritos. E mandei o meu processo para os Estados Unidos. As opiniões não variavam muito. O diagnóstico era que eu teria que fazer rádio e quimio. Para haver uma regressão do tumor e poder ser operado – é o objectivo final. Com o oncologista que me acompanha, decidi fazer só quimio.

 

Contudo, para a semana [entrevista realizada a 29 de Maio] começa a fazer as duas coisas, rádio e químio.

Houve uma evolução positiva, mas não o suficiente para ser operado. Por isso, solução número dois: rádio e químio.

 

Em que dia soube?

Eh pá, eu datas…

 

Mesmo uma data tão impactante quanto esta? O tempo passou a correr de maneira diferente no calendário? As coisas mudaram radicalmente?

Não necessariamente. É obvio que passei a ter uma vida diferente. Por me sentir doente e por me diagnosticarem uma doença complicada. Tive um azar…, uma coisa estúpida. No primeiro dia em que fiz quimio, uma terça-feira, fui a uma farmácia aviar um medicamento – para minimizar o efeito de náuseas e vómitos. A farmacêutica da minha zona deu-me um medicamento errado! Um medicamento para diabéticos obesos.

 

Enganou-se no pacote? Como compreender isso?

Não há explicação. A receita, apesar de ser passada à mão, era legível. Creio que quis dar-me um genérico por não ter aquele medicamento; e baralhou-se, não sei o que foi. Andei de terça a sexta a tomar seis comprimidos por dia. O medicamento que me tinha sido receitado era de 10 mg e o que a senhora da farmácia me deu era de 1000 mg! Uma dose de cavalo. Tive sorte de não ter entrado em coma. Ainda tinha alguma – bastante – resistência física.

 

Como descobriu que estava a tomar o comprimido errado?

Fui ao hospital. Eu estava de rastos! “Arranjem-me qualquer coisa que me ponha melhor”. Nesse dia a diferença foi brutal. Na terça-feira seguinte, quando fui à nova sessão de quimio, uma das médicas perguntou-me o que estava a tomar; quando lhe mostrei aquele remédio, entrou em pânico!

 

Há um lado cómico nisso. Parece um sketch da treta… É inverosímil.

Claro! Parece um sketch, sim. Limitei-me a ir à farmácia apresentar queixa. Escrevi no livro de reclamações. Nada contra a senhora, mas é um perigo. Pensei fazer queixa na Ordem, mas acabei por desistir. Estou à espera que me digam alguma coisa.

 

Quando soube, com quem partilhou? Como foi o primeiro impacto?

Quando fui fazer o exame conclusivo, tinha os meus filhos todos comigo, e irmãos, sobrinhos, toda a família. Souberam todos ao mesmo tempo que eu.

 

Um problema? Um cancro? A doença? Aquilo? A terminologia importa.

Chamo-lhe cancro, abertamente.

 

Não é duro olhar ao espelho e dizer, com as letras todas: “Tenho um cancro”.

Não é fácil. Olha, tenho um cancro. É isto. Não sei o que é ter um cancro. Agora, estou a aprender. Sou muito realista. Sou muito prático. Lido bem com situações complicadas – acho bem.

 

A sua atitude perante as coisas, seja uma encenação ou a doença, é: “Ai temos um problema? ‘Bora lá resolvê-lo”.

É nitidamente a minha atitude.

 

Nunca é: “Ai, pobre de mim”?

Há alturas em que dou por mim a pensar em cenários complicados… Tenho medo da operação. Mas sei que é a minha única safa. Se quero ser operado? Tenho o mesmo medo que tive quando a minha irmã foi operada. Entre o António Feio de há um ano e o António Feio de hoje o que sinto é que não tenho a mesma pedalada. Estou a 70%. Mas já estive a 30, 40%. Na semana do erro da farmacêutica devia estar a 10% de mim próprio. Não me aguentava das canetas. E o problema a fervilhar na cabeça…

 

Ainda não falou dessa parte, da vivência íntima do problema. Só falou dos sintomas e do modo como lida com ele.

Acho que tenho reagido bem. Não senti pena de mim. Nem raiva, que é uma coisa frequente – porquê eu? Mas também, desde miúdo achava que as pessoas morrem aos 50. Achava que os meus pais, quando tivessem 50 anos, eram velhos e morriam! [riso] Ficou qualquer coisa disso. Eu já vivi bastante. Se tivesse um acidente de automóvel [bate na madeira], um AVC, um treco desses e já fui, não ia mal servido. Não tive uma vida má. Não tenho nenhum problema em morrer. [pausa] Não me apetece muito. Mas se me dissessem: “Vais morrer amanhã!”, “Olha, paciência”.

 

Isso é pose, de si para si, para lidar com isso?

Não sei. É o que penso.

 

É um modo de não sucumbir ao medo.

Não me apetece ficar em pânico. Não! Sei que estou a fazer o que é possível para resolver o problema. Não é uma ideia agradável, mas não é um bicho de sete cabeças. No dia em que tiver que ir, vou. O chamado “está-se bem”. Não sinto uma grande frustração, “eh pá, houve tanta coisa que não fiz”. Não fiz porque não quis fazer. Aquilo que realmente queria fazer, fiz. Tenho 54 anos. Os meus filhos são crescidos… Se calhar o que me faz pensar mais no assunto, de uma maneira diferente, é o meu rapaz com 17 anos… Quero vê-lo crescer mais. Ainda não tem grande rumo para a vida, e isso gostava de ver resolvido. As mais velhas, têm as suas vidinhas, fazem o seu caminho.

 

O facto de ter corrido bem com a sua irmã…

É um exemplo de sucesso próximo. Anima-me. Falamos todos os dias. Sobre o assunto, não falamos muito. Pergunto-lhe se ela está bem, ela pergunta-me se eu estou bem. Vamos medindo. Ah, hoje estou assim, ah, hoje estou cansado, ah, hoje tenho febre. É uma característica dos Feios. Preservamos o espaço de cada um. Até ao meu caso, nunca falei com ela sobre a doença. Ia lá, perguntava o que é que iam fazer, o que é que tinham feito, qual era o passo seguinte.

 

Não falam do que sentem?

Às vezes. O médico perguntou à minha irmã se ela tinha tido sintomas, indícios que a pudessem levar a pensar que tinha qualquer coisa. A única coisa que disse foi que nos últimos tempos se sentia triste. Engraçado. Eu também me sentia um bocado triste. Mas numa vida, nem tudo corre às mil maravilhas. É natural que uma pessoa se sinta um bocado triste. Vai andando. A doença é silenciosa…

 

Um actor trabalha com o corpo. Nunca falou com o cancro?

Não. E não tenho essa relação física com a doença. Ela manifestava-se por dores. Hoje não as tenho. Fisicamente, nos espectáculos, sentia limitações. Perguntava aos meus colegas: “Nota-se que não estou com o mesmo power?”

 

Contaram-me que o José Pedro Gomes soube que as cerejas têm uma acção benéfica sobre o pâncreas e…

Aparece-me lá em casa, de vez em quando, com cerejas! Tenho um clã que me apoia. O ponto por onde começámos: o mediatismo da doença. É normal!, eu vejo a preocupação das pessoas. Não quero dar uma de herói. Sou um mariquinhas de caca como qualquer ser humano nestas condições. Tenho medo, tenho pavor. Mas não vou andar aqui a choramingar. Sinto-me bem. Neste momento, não sinto que tenho um cancro. Psicologicamente sei que o tenho e é difícil deixar de pensar nisso.

 

De hoje a uma semana, com sessões de quimio e rádio, será diferente? O cabelo vai cair?

Não. Já fiz dois meses de quimio e este produto que faço não é… depilatório. Esta imagem que tenho passado – da boa disposição –, esta reacção que tenho tido – não entrar em parafuso – leva a que a maior parte das pessoas que me abordam não o façam com pena ou comiseração. É simpático.

 

Foi surpreendente o sketch d’ “Os Contemporâneos” em que participou, fazendo paródia da sua própria doença.

Brinco muito comigo. Brinco com tudo. Até com isso se pode brincar. Não estou a gozar. Se ficar com as calças rasgadas em público, é ridículo, não quero, não gosto; mas eh pá, vou ter que reinar com a situação. Relativizar. Passei a pensar de maneira diferente. Toda a gente se queixa. Ai, ai, ai, ui, ui, ui, e isto e aquilo, e que chatice, e apanhei muito trânsito, e para a semana vou ter de fazer não sei o quê. Talvez precisem de levar com uma coisa assim para abrir a pestana, e perceber que não tem importância. Também penso que isto tem alguma lógica…

 

Lógica?

Quando se tem pouco cuidado com a saúde, é natural que surjam problemas. Fumo desde miúdo que nem um cavalo, sempre tive uma alimentação desregrada, sempre me deitei tarde.

 

Drogas?

Não. Sempre tive muito receio. “E se eu gosto?” E nunca tive necessidade. Bebia copos; cervejas, à noite. Andei muitos anos à noite e nunca ninguém me viu entornado, a fazer figuras tristes. Sou low profile.

 

Nem depois dos 50? É verdade que depois dos 50 teve uma espécie de adolescência tardia? Os Porsches e as saídas nocturnas têm que ver com isso?

Não. Tenho Porsches há vários anos. Sou fã! Só tenho esse carro. E subo passeios, e se for preciso metê-lo na lama, meto, e não tenho problemas se chegar ao carro e ele estiver riscado.

 

Não condiz com o indivíduo low profile, moderado.

Ando de Porsche moderadamente. O primeiro Porsche tive-o há 15 anos. Era um Porsche em 25ª mão, muito baratinho. Fui fazendo upgrades. Já tive aí uns dez Porsches! Mudava de carro no dia dos meus anos. Até chegar ao que tenho, há cinco ou seis anos. Tem 450 cavalos! Não lhe posso dar uso como ele merecia. Não posso andar a assapar que nem um maluco. O gozo? Olhar e dizer: tenho um carro muito bonito. [sorriso] Se for preciso meter o pé no acelerador, passo por eles todos. É uma sensação de poder, que o próprio carro tem. Depois, o Porsche é um carro de velhos, só os velhos têm dinheiro para o comprar. Quando um gajo é puto e brinca com os carros, há uns de que gosta mais. Há miúdos que gostam mais do carro dos bombeiros. Eu gostava do Porshe.

 

As garinas, vão atrás do Porsche?

Não.

 

As mulheres interessavam-se pelo personagem público António Feio e por alguns códigos de poder – como o Porsche?

Não tenho razão de queixa. E não tenho dúvida que saí com mulheres que se aproveitaram. Que estavam à espera que pagasse o jantar. Rapidamente pus de lado. Faz-me confusão. Por uma questão de espinha dorsal. Sempre que emprestei dinheiro, dei-me mal. Não há memória de ter emprestado e de me terem pago de volta. As pessoas, quando estão aflitas, rebaixam-se, fazem o que for preciso. Mas assim que têm aquilo que procuram, desligam. E raramente dão uma satisfação, e passam a assobiar. Já me aconteceu várias vezes.

 

Nunca pediu dinheiro emprestado?

Claro que pedi.

 

Que importância teve o dinheiro na sua vida?

Comecei a trabalhar muito novo. O meu primeiro cachet foi aos 11 anos. Nós não éramos pobrezinhos. O meu pai era engenheiro agrónomo, trabalhava para o Estado, ganhava razoavelmente. A minha mãe, houve fases em que trabalhou, outras não. Os meus irmãos e eu, não estudámos em colégios particulares, mas andámos no ensino oficial. Nunca tive uma bicicleta. Não havia dinheiro para comprar uma bicicleta. Os meus pais passaram-me a noção de que o dinheiro não cai das árvores. O meu pai dizia: “Quando há, há, e é para todos; quando não há, não há”. 

 

O seu personagem mais famoso é o Toni, da Conversa da Treta. O mundo a que ele pertence tem no dinheiro um tópico fundamental.

As minhas despesas: vivo numa casa que está paga. Roupa, comida, gasolina. Faço uma vida normal. Tenho quatro filhos, alguns a estudar no estrangeiro. Ainda apoio os meus filhos. Porque quero ajudá-los. Odeio gente forreta. Vamos almoçar e a conta é muito rachadinha, mas eu comi uma sobremesa e tu não? Não, racho a meio. O dinheiro é para usar. Felizmente, de há muitos anos para cá, não tenho problemas económicos. Preocupo-me com isso. Organizo a minha vida com um ano de antecedência. Já sei o que vou fazer para o ano. [pequena pausa] Agora é mais complicado.

 

Continua a organizar, acreditando que vai ultrapassar isto?

Sim, sim. Mas não tenho noção do que vai acontecer. Tenho sempre um “se”. Ao longo da vida aprendi a não fazer planos rigorosos. Há sempre um projecto que cai. Há sempre uma coisa que afinal passa para o ano seguinte. É o “em princípio”. Em princípio vou fazer isto.

 

Neste período da doença, lembra-se mais do rapazinho que foi? Que fazia teatro entre profissionais.

Vim de Lourenço Marques com sete anos, estive em Lisboa até aos 14. Ontem fui a uma entrevista da RTP Memória. Passaram imagens minhas e do Ruy de Carvalho numa peça, Viajante sem Bagagem. Eu tenho para aí 12 anos e mantenho um diálogo, taco a taco, com o Ruy de Carvalho! Tenho dificuldade em perceber que aquele sou eu. Uma cena de quatro, cinco minutos. A voz…

 

Diz isso com orgulho do puto… É desse que se lembra? Quando recorda a sua infância, que imagens aparecem?

Essencialmente, imagens do tempo em que vivi em Carcavelos, na Praceta do Junqueiro, junto à praia, com um pinhal por detrás. E mais tarde em Moçambique, daquela liberdade.

 

Não são imagens do miúdo que está em cima do palco. São imagens de um miúdo, que por acaso fez teatro e cuja experiência foi determinante.

É um misto. Como comecei a trabalhar muito cedo, as memórias estão também ligadas ao trabalho.

 

Foi o Carlos Avillez que o convidou para a primeira peça. Começou a fazer teatro para agradar a sua mãe, que frequentava o Teatro Experimental de Cascais?

Não. Foi um desafio. Era uma actividade. Como um jogo. E conhecia gente gira, e maluca. A peça tinha cenários do Almada Negreiros. Conheci muito bem o Almada Negreiros. O gajo achava piada ao puto… Lembro-me de o ver a desenhar. Sabia que era o Almada Negreiros, “este senhor é um grande pintor”. “Ah, sim”. Um gajo, quando é puto, “iô, tá-se”. Estreei-me com a Mirita Casimiro.

 

Corre que uma vez lhe telefonou a Amélia Rey Colaço…

Uma vergonha! Tocou o telefone, atendi. Pensei que estavam a gozar, um colega. A Dona Amélia tinha aquela voz [assume um tom gongórico]. (Era um ser extraordinário. Trabalhei com ela nesse espectáculo) “António Feio? Daqui fala Amééélia Rey Colaaaçooooo”. A primeira coisa que me saiu foi: “Olheeee, e daqui fala Robles Monteeeiroooo”. A minha sorte foi que ela já estava um bocadinho surda e não deve ter ouvido. O Robles Monteiro era o marido e tinha morrido há anos. Seria uma graça de muito mau gosto. Senti-me tão entalado que a primeira coisa que fiz foi levantar-me! Estava sentado, e por respeito à Dona Amélia, levantei-me! Ainda hoje trato a Eunice [Muñoz] por Dona Eunice.

 

O seu mundo era feito dessas referências?

Já era crescidinho quando trabalhei com a Amélia. Era uma referência. Não a conhecia. A Eunice, sim. Tinha trabalhado com ela na televisão, na rádio, em várias coisas. Em três anos fiz tudo o que havia para fazer. Não havia miúdos. Era preciso um miúdo para uma coisa qualquer, marchava eu.

 

Não ficou um miúdo insuportável, com excesso de atenção?

Não. Sempre fui tranquilito. Nunca fui vedeta, nunca me subiu. Não vou dizer que não era engraçado chegar à escola e a malta toda conhecer-me. Era o aluno mais famoso da escola, não é? Em Moçambique, além da notoriedade, havia inveja. Uma vez fui proibido de ir a uma festa. Um amigo – que ainda hoje é meu amigo – proibiu-me de ir ao aniversário dele. As meninas estavam todas muito eufóricas, porque eu ia à festa… Mas nunca fui peneirento.

 

Era giro?

Em puto, era. Muito pequenino, loirinho, cabelo liso. Só aos 16, 17 anos dei um pulo, cresci. Nas imagens da RTP Memória: aquele brilho no olhar, aquela garra…

 

Donde é que vinham? E a confiança.

Não sei. A minha mãe era uma pessoa divertida. “Mãe, um dia quando for rico, monto-lhe um negócio”. Era uma agência de viagens. Para a minha mãe poder organizar, organizar viagens aqui e ali. Eu andava sempre com a minha mãe. Morávamos em Carcavelos. “Amanhã vamos ao Monumental comer um gelado”. E era uma aventura! Vínhamos de comboio ou autocarro. “Vamos ao Galeto!” O meu pai era diferente. Calmo.

 

A sua mãe encenava esses momentos, fazia deles uma festa.

Sim. Eu gostava muito de viver. Se me dessem um papelinho, eu gostava do papelinho, do brinquedo, de uma porcaria qualquer. Ir lá atrás é meio-estranho, é meio-esquisito. Uma pessoa sente que já é outra coisa.

 

É o filho mais novo.

Houve uma fase em que era muito “eu e a minha mãe”. A minha mãe acompanhava-me a trabalhos. A estúdios, Tóbis, RTP, Emissora Nacional. Era o menino da mamã!

 

Era a mãe babada acrítica ou era do estilo “nunca está bem”?

Era babada. Tudo o que eu fazia, era para ela motivo de orgulho. Transpunha para mim aquilo que gostaria de ter feito. Gostaria de ter sido actriz. Quando foi para o Teatro Experimental de Cascais, fez um papel pequenino na Casa de Bernarda Alba. Morreu há muitos anos. 

 

Não realizou o sonho de ser actriz por causa do casamento?

Foi por falta de oportunidade. Fez teatro amador. O meu pai ajudava, mas era incapaz de saltar para um palco. O sentido de humor que tenho vem do meu pai. Era dos que faziam tudo pela calada. Apanhei isso. O meu filho, vejo agora, é igual. Não sei se é bom. É muito fechado e reservado. Eu sou assim. Não tenho problema em abrir o jogo e falar consigo (que não conheço de lado nenhum) sobre tudo e mais alguma coisa. Mas depois há umas zonas onde ninguém entra.

 

Foi uma aprendizagem que teve de fazer desde pequeno? Para demarcar o território do miúdo a quem acham graça e do miúdo igual aos outros, de porta fechada.

Sim. E sou assim por feitio. Sou do estilo: em vez de passar por ali onde sei que me vou chatear, vou dar a volta ao quarteirão. Pago para não me chatear. Se houvesse uma instituição “Você não quer ser chateado?”, eu pagava uma quota mensalmente! Para não ter de levar com as coisas que me chateiam.

 

É mais actor, mais encenador?

Não acho que seja mais esse ou o outro. Senti que podia ser mais útil enquanto encenador, pela iniciativa que posso provocar. Enquanto actor, faço aquilo que me mandam fazer, ou fico à espera que me convidem; a minha sorte fica em mãos alheias. 

 

Tem trabalhado nos últimos anos com a produtora UAU e o seu parceiro preferencial tem sido o José Pedro Gomes. Porquê?

É importante fazer o repertório que temos feito, mais não seja para captar público, para termos gente. Lembro-me de ir ao Teatro Monumental e de aquilo estar esgotado! Mil e tal lugares. E lembro-me dos anos em que o teatro não tinha ninguém. Representei muitas vezes para 10 espectadores, cinco, três. As pessoas gostam de teatro; é preciso dar-lhes aquilo que elas querem. Ou, pelo menos, arranjar a maneira de não as afastar. Aí, entra o meu lado de encenador. Quando via um texto e acreditava nele, pensava: “Gostava de ver este espectáculo”. Sou um público normal.

 

Quando vai a Londres ver peças, é com esse intuito? Pesquisar, perceber o que pode encenar cá.

Às vezes vou ver por ver. Quanto ao prazer de ser actor, a grande mudança é o “Arte” [de Yasmine Reza]. Eu estava numa de representar o menos possível.

 

Antes do “Arte”, houve “O que diz Molero”, de Dinis Machado, adaptado por Nuno Artur Silva. Não lhe provocou o mesmo impacto?

Considero o Molero uma peça de encenador. O Austin lê 20 páginas do relatório do Molero e o Mister Deluxe comenta e diz de vez em quando: “É óbvio”. [riso] Provavelmente é a coisa mais bonita que fiz na vida. O “Arte” foi um texto que me reconciliou com o grande prazer de representar. É uma síntese do que pode ser o teatro de qualidade e o sucesso de público. Curiosamente, é uma peça de que a Yasmine Reza não gosta muito. Aquilo saiu-lhe da mão, ganhou asas.

 

Alguns personagens escaparam-lhe da mão? Chateia-o que o grande público olhe para si apenas como o Toni? O gajo do bairro, com esquemas, algo mânfio.

As pessoas distinguem. Numa classe mais “piupular” é mais comum essa identificação. Se um cromo tipo Toni me vir na rua, acha que eu faço parte do grupo. O público que vai ver, percebe que o que fazemos é um boneco.

 

O boneco, com gestos, expressões e uma grande dose de improvisação, compõe-no como? Onde é que apanha aquilo?

Veículo privilegiado: a observação. Sou muito observador. Se alguém me perguntasse como está vestida, qual a cor dos olhos?..., pô, não sei. Num assunto de crime, sou péssima testemunha. Mas observo coisinhas, pormenores, relações, os “filmes” que passam no café. As refeições, faço-as sozinho, rápido, em pé; mas naquele bocadinho que estou ali, percebo muita coisa. E para um actor tudo é matéria.

 

Estar em cima do palco, e desde cedo, é um desafio. “E se eles não gostam de mim?”

Muitas vezes penso isso. E com a noção de que não gostavam. Provavelmente eu também estava a fazer coisas em que não acreditava…

 

Falo de uma rejeição mais profunda…

É muito violento para um ser humano. Lidar com a exposição e com a rejeição. É um susto. Sempre tive esta coisa: a minha profissão é tudo. Se me saísse o euro-milhões era incapaz de deixar de trabalhar. Ia aproveitar para viajar. Não ponho a hipótese de não fazer nada como actor ou encenador. Se não fizer nada, não sou útil. Não tenho justificação para estar. 

 

[já depois de desligado o gravador, António Feio acrescenta]

 

Quero ir a Las Vegas, ver os cinco melhores espectáculos do mundo. Tenho de ir ver isso porque depois, se calhar, não tenho tempo… Isso já me irrita. Querer fazer isto porque amanhã, se calhar, já cá não estou.

 

De vez em quando desata a falar como o Toni. Dizer “um gajo mara”, como disse em off, é muito diferente de dizer “porque depois não tenho tempo”.

Um gajo marar… Pois. Mas a ideia que está por detrás é: tenho urgência. O tempo está contado. Fazer isso a correr porque amanhã não posso – isso não!, não faço. Amanhã eu posso! Se não puder, paciência.

 

 

Publicada originalmente no Público

António Feio morreu em  2010

publicado por AMR em 01.10.13

Anabela Mota Ribeiro

Anabela Mota Ribeiro