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Gato Fedorento

Os Gatos. Dito assim, toda a gente os conhece. Conhece sobretudo os sketches que passam na televisão, ou que estão disponíveis no YouTube para serem vistos e partilhados até à exaustão.

Mas quem são os Gatos? Ricardo Araújo Pereira, Zé Diogo Quintela, Miguel Góis, Tiago Dores. Ricardo sumariava a resposta assim: «São uns gajos que são amigos, normais, juntam-se numa casa, jogam e depois inventam umas merdas».

Eles não costumam dizer merda. Embora sejam, em privado, muito asneirentos. Eles não recorrem ao palavrão, à insinuação brejeira, ao facilitismo em que a comédia é pródiga, para ser líderes de audiências. Os Gatos fazem um humor inteligente que contagia o país há quatro anos. Desde há um ano e meio com grande, grande sucesso.

Nasceram num blog. Antes disso, conheceram-se na empresa de escrita criativa em que todos trabalhavam. Eu conheci-os nesse tempo. E parti para esta entrevista com grande expectativa: quem iria eu encontrar? Esses quatro, os mesmos, do tempo do anonimato? Ou os Gatos, célebres e ricos, com que o país delira? Já sabia, com segurança, que a conversa não podia ser séria... E sabia que a conversa seria séria entre gargalhadas...

 

 

Vamos começar pelo dono da casa e por uma coisa pomposa, a ver se não caímos já na bandalheira: ser humorista obriga a uma espécie de esquizofrenia bem resolvida? O Zé Diogo do Gato Fedorento diverge muito do Zé Diogo cá de casa?

ZDQ - O Zé Diogo cá de casa é muito preocupado com a limpeza, que estes gajos só fazem porcaria. Neste momento considero-me mais um humorista do que um argumentista. Não quer dizer que não vá fazer outras coisas. Posso ser agente imobiliário, que é uma aspiração antiga que o Tiago e eu temos.

 

Era suposto seres um beto agente imobiliário, que torce pelo Sporting aos fins-de-semana, que tira a curso na Universidade Católica?

ZDQ - Tudo ao lado! Não tenho curso nenhum. Tenho cadeiras feitas no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Era uma universidade muito reputada no tempo do fascismo, onde formavam os quadros ultramarinos. Fui para lá tirar Comunicação Social porque não entrei na Universidade Nova, naquilo que acho que foi um preconceito da Nova – porque é malta de esquerda, a da Nova, e não me quiseram lá.

 

Que fique sublinhado que és o tipo da direita, neste colectivo.

ZDQ - Também é certo que não estudei o suficiente para tirar boas notas... E torço pelo Sporting todos os dias. Não sabia o que queria ser, nem tenho essa coisa de terem feito planos para mim. A personagem do humorista não é muito diferente daquilo que eu sou. Uma das coisas boas de trabalharmos desta maneira é que não temos que ser muito diferentes do que somos na intimidade. Quando chegaste, nós estávamos a partilhar um momento íntimo... 

 

Quando cheguei vocês estavam a jogar futebol num vídeo jogo!

TD - Estávamos a trabalhar e a partilhar um momento de intimidade.

 

O vosso encontro mudou a tua vida?

TD - Mudou um bocado, não sei se para melhor... Eu também não fazia ideia nenhuma do que queria fazer. Por isso tirei um curso de Economia. Que é um curso para quem não faz ideia do que quer fazer, mas tem esperança de vir a perceber e quer ir trabalhar para a banca. Comecei a trabalhar na área do marketing e da publicidade.

ZDQ - Onde te destacaste...

TD - Destaquei-me com enorme brilhantismo e tremendo sucesso!! Quando se pôs a hipótese de entrar no grupo [Gato Fedorento] tive de ponderar muito... Porque chegava a ganhar 50 contos por mês!

 

Gargalhada geral

 

A brincar que o digas, isto da massa não é nada despiciendo... E vocês, com tanto programa, tanto espectáculo, tanto anúncio, devem estar cheios de guito...

ZDQ - Como se vê pela minha casa... [que é modesta, nota a jornalista, ainda que no centro de Lisboa]

TD - Um problema que eu tenho é esta borbulhagem... São precisas pomadas que vêm lá de fora, e que são muito caras...

 

Voltamos ao ponto da partida: esta entrevista é aos personagens do Gato Fedorento, ou é ao Ricardo, ao Zé Diogo, ao Miguel e ao Tiago?

TD - Como somos maus actores, mesmo nas entrevistas não sabemos ser outra coisa que não nós próprios. Às vezes, as pessoas caem no erro de dizer: “Eles fazem-se de parvos, mas no fundo não são”.

MG - É tudo um plano...

RAP - Queremos desmentir isso...

TD - O que se vê no ar, sobretudo na parte de estúdio, é mesmo aquilo que somos. Gozamos uns com os outros.

ZDQ - É um bocado como os concorrentes do Big Brother: “Somos iguais a nós próprios, e ninguém é ninguém para julgar ninguém! Somos frontais”.

RAP - Há sempre um elemento do Big Brother que diz que quer ser ele próprio. Eles têm-se a si próprios em muito alta conta. Eu não tenho interesse nenhum em ser eu próprio. Gostava de ser... o Mozart!

 

Vamos assumir já que vos conheço há anos, antes de serem “os Gatos”. Posso atestar que sempre foram um pouco avariados da cabeça... Mas retomando a seriedade: depois de uma exposição tão desmesurada, imagino que seja preciso acertar o registo na relação com a senhora da mercearia. Ou com aqueles que vos conhecem há muitos anos e que, de repente, vos olham de maneira diferente porque têm sucesso.

MG - Ser humorista não significa necessariamente ser bem disposto.

ZDQ - Ser humorista não é uma condição, é uma ocupação.

TD - Não sinto que isto nos tenha forçado a mudar fosse o que fosse nas nossas vidas. Mas é verdade que há uma expectativa nas pessoas que nos interpelam ...

ZDQ - E uma defesa da nossa parte. Mas isso acontece com qualquer pessoa que esteja...

RAP - Na berrrrlinda!

MG - Sim, mas não muda. Pelo menos a ponto de se poder chamar a isso uma personagem.

 

Quer dizer que essa personagem não tomou conta das vossas vidas? Não é um génio à solta...

RAP – Não. Até porque nem tenho muitas hipóteses de conviver com a personagem pública. Se tenho dois, três amigos depois disto [sucesso], é muito. Quase todos são anteriores a isto.

TD - O meu mundo é o mesmo, basicamente.

RAP - Não nos protegemos a ponto de não dizer certas coisas, ou mostrar outras que não são verdadeiras. Há muita gente que diz que o Mourinho é um tipo muito afável. Mas a imagem pública não é bem essa... Ter uma personalidade de fachada até lhe dá jeito. É uma coisa óptima para intimidar os adversários! Provavelmente é mais inteligente fazer como ele faz: não revelar fraquezas em público, nem sequer se revelar a si próprio em público. Revela uma espécie de postiço. Como aquelas pessoas que têm o plástico em cima dos sofás para não o estragarem.

 

Também não revelam muito sobre a vossa vida...

RAP - Às vezes usamos [a nossa vida], nem que seja para gozarmos uns com os outros.

ZDQ - Nem o país tem dimensão para questões desse género: quem é essa pessoa, quem é, quem é? Não há indústria do espectáculo...

TD - E mesmo indústria... Somos o país do sector terciário!

 

Ainda voltas a ganhar 50 contitos por mês, se vais para o sector terciário!

TD -  Exactamente.

ZDQ - Somos iguaizinhos ao que éramos há quatro anos. Só que com melhor pele!

RAP - O Zé Diogo tem menos 30 kg, mas o resto é igualzinho. Agora estamos mais tempo calados..., que era o tempo que preenchíamos a dizer: «Olha o badocha», e tal.

ZDQ - Acabou.

 

A minha questão base mantém-se: o que é que muda na vida de uma pessoa quando se é visto por milhões de espectadores todas as semanas. 

RAP - Mudou muito pouco, realmente. Não vamos fazer a rábula do gajo que veio do bairro social... Eu vivo na mesma casa em que vivia antes de fazer o Gato Fedorento. Tenho o mesmo carro.

ZDQ - Eu mudei de carro para ter ar condicionado e CD.

 

O dinheiro não muda a vida de uma pessoa? Em coisas tão prosaicas quanto ir ao restaurante e não olhar para o lado direito da ementa...

RAP - O MacDonalds não é tão caro assim...

MG – E é preciso dizer que antes do Gato Fedorento já ganhávamos bem, os quatro. Só tivemos tempo e disponibilidade para fazer o Gato Fedorento porque tínhamos um bom ordenado – o que nos permitia investir criativamente no Gato Fedorento. Se tivéssemos que trabalhar das nove às seis, isto não teria sido possível. Se tivéssemos que esgaravatar para ganhar dinheiro, isto não teria sido possível.

TG - Nos primeiros dois anos do Gato Fedorento estávamos praticamente a pagar para trabalhar.

 

Nesse tempo, eram associados das Produções Fictícias e escreviam textos de humor para outros actores.

RAP - Para o Herman, sobretudo.

 

Há um lado irónico nisto... Fizeram mão a escrever para uma pessoa que admiravam, que vos formou enquanto humoristas. E depois o vosso sucesso ultrapassa o dele. Como se o criado superasse o criador.

RAP - Quem é o maior actor português? Quem é o maior cantor português? Quem é o maior escritor português? Como é óbvio que o Herman é o maior humorista português, está tudo interessado em que isso deixe de ser assim. Para haver coisas sobre que escrever nos jornais, provavelmente...

TD - O último livro do Saramago vendeu menos do que o livro da Carolina Salgado. Quem é o maior escritor português?

RAP - É uma boa comparação. Nós também alternamos... Entre a imprensa e a televisão.

 

Gargalhada geral

 

O Herman leva 30 anos de carreira, o Gato quatro. Pode acontecer que daqui a 30 anos ninguém se lembre da vossa existência? Que tenham sido apenas um epifenómeno?

RAP - Pode perfeitamente ser. Até daqui a 10 meses.

ZDQ - A minha mãe poderia dizer: tenho dois filhos e um epifenómeno!

 

Dizerem isso que agora disseram sobre a fama e o Herman parece uma coisa de rapazes bem-educados, muito polidos nas respostas...

RAP - É-se preso por ter cão e por não ter... Se disséssemos que somos muito superiores ao Herman [diz isto com voz de troglodita], as pessoas diriam: “Que rapazes desagradáveis...”. Mais vale dizer a verdade. Gostava de ter um euro por cada epifenómeno em relação ao qual as pessoas disseram: “Cá está!, este é o novo Herman”.

MG - Dá uns dez euros.

RAP - Se olhares para trás, nem te lembras. Houve uma altura em que uma pessoa que conhecemos bem andava 50 metros na rua e as pessoas paravam-no para pedir um autógrafo! Hoje, é voz off de um concurso na televisão.

 

Discutem sobre o tempo de duração do Gato Fedorento? Do que vai ser a vossa vida daqui a uns anos? Até que ponto isto é uma coisa estratégica? Ou continua a ser um nacional porreirismo que corre muito bem?

ZDQ - Também temos um lado de nacional porreirismo – é uma boa maneira de funcionarmos. Mas sempre tivemos uma visão estratégica do projecto, mesmo sem saber onde iríamos parar. Quando começámos na SIC Radical, não sabíamos onde íamos parar. Não supúnhamos que daí a quatro anos estaríamos no prime time da RTP1, domingo à noite.

MG - Preocupamo-nos em tomar boas decisões. Mas fazemos aquela coisa muito simples do futebol: é de jogo a jogo. 

RAP - Recusámos alguns convites para fazer publicidade antes de aceitar o da PT. São decisões que vamos tomando à medida que as coisas vão aparecendo.

 

Porque recusaram publicidade? Estavam a guardar-se para coisinha melhor?

ZDQ - Decidimos que preferimos fazer campanhas de que gostemos, que possamos controlar mais ou menos, onde ganhemos bem, em oposição a fazer várias, com menos qualidade, e sem qualquer controlo criativo.

TD - O facto de sermos quatro ajuda a não meter tantas vezes a pata na poça. Como decidimos por consenso, é preciso haver três palermas... Nós os quatro fazemos uma boa cabeça.

 

Ricardo, tu tens o estigma de ser a cabeça, o líder do grupo...

RAP - [com voz enfatuada, e com gargalhadas dos outros] Bom, eu sou o líder natural, o Zé Diogo é a eminência parda, o Miguel é o chefe...

TD - E eu sou o gajo que diz: eminência parva!

RAP - Não há liderança. Nas decisões importantes, chegámos sempre a acordo.

ZDQ - Publicamente, o Ricardo tem a imagem mais forte do Gato.

RAP - [com voz profunda] Por ser o mais sensual...

 

Gargalhada da jornalista

 

RAP - Se tem assim tanta graça, é porque não é verdade... Assim não, Anabela!

 

Bem, não és o George Clooney!

RAP - Muitas vezes digo: “Não me apetece decidir, pensem vocês nisso”. O Tiago é o desgraçado que faz a ronda. Anda de telefone na mão a dizer: «Zé Diogo, o que é que achas disso? Mas o Miguel acha o contrário...».

TD - Não dá trabalho nenhum, este rapaz...

 

O facto de ganharem todos o mesmo é determinante para a facilidade com que chegam a um consenso e para a dinâmica do grupo?

TD - Nunca nos passou pela cabeça que pudesse ser de outra forma. Não seria o Gato Fedorento.

RAP - Seria a Ricardo’s Band.

 

O sucesso tem a vantagem de dar mais poder, permite escolher. Têm agora mais poder sobre o produto final? 

TD - Sempre tivemos.

MG - Ou porque ninguém ligava nada e tínhamos que ser nós a resolver...

RAP - Ganhávamos tão pouco... Ao menos que a última palavra fosse nossa... E tivemos a sorte de a RTP dizer, quando nos convidou: “Vocês vêm para cá fazer exactamente o que faziam”.

ZDQ - Quer na SIC quer na RTP, sempre tivemos um controlo máximo sobre o produto criativo.

 

Mas sentem que têm Poder? Eu aqui atrás de palavras suculentas..., e eles a dizer que isto não é nada de mais...

MG - É só chegar a mais pessoas e dizer as coisas que se quer dizer – e isso, é verdade, é um grande poder. Há um clima que nos é útil: “Ah, esses rapazes, são irreverentes, deixem-nos lá dizerem o que querem”.

 

Mas agora os rapazes têm muita audiência. E poder...

MG - Mas deixam-nos na mesma à solta.

 

Vou pegar num caso concreto: fizeram uma campanha para a PT. Podiam fazer agora um sketch demolidor sobre o Henrique Granadeiro (presidente da empresa)?

TD - Há pessoas que acham que os problemas que temos com o Pinto da Costa, por exemplo, nos agradam. Não dá gozo nenhum estar envolvido em processo judiciais. O nosso objectivo não é maçar as pessoas; é fazer coisas com piada.

RAP - Mas é preciso dizer que há sempre um compromisso. Nós não somos jornalistas, não temos o dever da imparcialidade. Às vezes, há coisas que acontecem com amigos nossos, e a gente não faz. [riso seco]. Não tem a ver com dinheiro. No tempo em que estávamos na SIC seria possível fazer uma coisa demolidora sobre o Balsemão? Será possível na RTP fazer uma coisa demolidora sobre o Almerindo Marques? Há sempre um compromisso.

 

Há, pelo menos, constrangimentos. Uma auto-censura.

RAP - Mas se eu estiver na rua é a mesma coisa: há sempre um constrangimento. Hoje em dia posso fazer uma coisa demolidora sobre o Presidente da República e não correr risco nenhum. Mas se fizer uma coisa demolidora sobre o senhor Joaquim Oliveira é possível, e até provável, que não volte a trabalhar em nenhuma das empresas do grupo que ele detém. E uma vez que trabalho na comunicação social...

TD - Mas nunca aconteceu esta imposição ser externa. Nem a RTP ou a SIC alguma vez nos puseram um limite em relação ao que podemos fazer. Embora nós mesmos possamos fazer esta análise.

 

Como é que trabalham? Como é que chegam àquilo que as pessoas vêem? Funcionam muito concentrados, exactamente como estavam, quando aqui cheguei, não é verdade?...

RAP - Exactamente.

 

Portanto estão meia hora a descontrair...

MG - Meia hora? A nossa vida era tão fácil se fosse só meia hora...São pelos menos três horas.

ZDQ - Estamos sempre em contacto uns com os outros, por telefone, por mail, por pombos-correio, também. Começamos na terça-feira a falar sobre o que se está a passar nessa semana e trabalhamos nalgumas ideias.

TD - Escolhemos as piores ideias e avançamos.

ZDQ - Preparamo-nos para ir gravá-las na quinta, na sexta. E no sábado gravamos o programa.

 

A casa do Zé Diogo funciona um pouco como escritório?

ZDQ - Sim. É central, é perto da nossa produção, e vivo sozinho.

 

Os outros têm vidas de casados, com filhos?

MG - Eu tenho dois filhos.

TD - Eu não tenho filhos.

 

O Ricardo também tem filhas. E ensaiam? Aqui?

Gargalhada

TD - Chegou a haver um ensaio, uma vez.

ZDQ - Fazemos o chamado ensaio gravado. Quando a coisa não resulta, só percebemos na altura. A equipa sai, vai lanchar, dar uma volta, e nós ficamos a resolver. Mas não acontece muito.

 

Inseguranças, têm? Sobre o que fazem, e o talento individual.

MG - Tendo a achar que não existem humorista seguros [de si mesmos]. Porque há sempre um elemento de surpresa, não sabemos se vai resultar ou não...

RAP - Há sketches que têm imenso sucesso e nós não prevíamos que isso fosse acontecer. Aquele sketch e aquele sucesso. 

ZDQ - Ficamos sempre espantados com os bordões. No meu grupo de amigos, as frases com que ficam nunca são as frases em que apostámos. Agora estão com aquela: “Estou aqui que pareço um cão”.

TD - O que é isso?

ZDQ - Uma coisa do sketch do atum.

TD - Já nem me lembrava. Muitas vezes as pessoas vêm falar-nos na rua e não nos lembramos.

 

Ainda sobre a insegurança...

ZDQ - A minha postura no humorismo é como meu pai me ensinou em relação ao mar da Ericeira: não confias em ninguém, se souberes nadar, nadas.

Os outros, em coro - Duraaão, pá, durão!

TD - Mas continua, pá, que é saudável, e não nos faz perder muito tempo a pensar nisso.

ZDQ - Trabalhamos bem em equipa. Às vezes posso estar inseguro, mas basta sentir neles confiança... Basta isso.

RAP - Mas há insegurança, e é a insegurança que leva isto para a frente.

TD - Isto não é nada por acaso. É porque trabalhámos bastante para que as coisas acontecessem assim.

 

Trabalhámos ou trabalhamos?

TD - Sempre trabalhámos e agora também.

RAP - Não rejeitamos os acasos de sorte...

TD - Claro, mas na base está a vontade que sempre tivemos, e temos, de fazer aquilo que estamos a fazer.

ZDQ - Tivemos sorte em ter-nos encontrado naquelas circunstâncias, naquela altura, e com vontade de fazer coisas. Eles já se conheciam os três, mas eu..., podia ter acertado na porta ao lado... E hoje em dia estava na Associação Portuguesa de Barmen, [cuja sede era em cima das Produções Fictícias].

MG - Não é por acaso no sentido de pensarmos que inventámos meia dúzia de parvoíces e, sabe-se lá porquê, isto correu bem. Foi por termos vontade de fazer o que fazemos e termos investido nisso. E felizmente houve depois um número grande de pessoas que concordaram.

 

Se isto não desse gozo, podiam desistir facilmente?

RAP - A ideia é desistir num futuro próximo.

TD - É difícil dizer: daqui a cinco anos não vamos estar a fazer nada.

RAP - Mas é muito provável.

TD - O nosso contrato com a RTP acaba em Dezembro... Portanto, para o ano não temos nada!

 

É previsível que o Gato Fedorento deixe de existir. Mas seguirão carreiras a solo, como na música?

RAP - Como actores?

TD - Como actores, em coisas que não sejamos nós a escrever, acho bastante improvável.

 

Parece que estamos a falar de uma banda, do fim dos Trovante. O João Gil vai para um lado e o Luís Represas para outro...

TD - E quem é fica com a Catarina Furtado?

RAP - Eu ofereço-me para ficar com a Catarina.

MG - Se nós acabarmos... Posso estar enganado, mas não acaba porque os quatro deixamos de ter coisas compatíveis. Acaba porque deixamos de ter vontade de fazer isto e porque este trabalho não se pode eternizar.

RAP - O Destak já disse que tinha havido porrada entre dois de nós e que isto ia acabar!

 

Passo da porrada para a família: isto é uma segunda família para vocês?

RAP - Não, isso seria horroroso! [com voz de gozo infantiloide] Quando as pessoas dizem: «Bem-vindo, isto é uma grande família», eu viro costas e vou-me embora. Porque conheço a minha família, não quero outra... Eu quero é um sítio onde se trabalhe.

ZDQ - Mas antes de mais somos um grupo de amigos, senão, isto não funciona.

 

Tu és o “Tio Zé Diogo” das filhas do Ricardo?

RAP - Chamam-lhe “Tio Fininho”... Que já foi uma alcunha mais irónica do que é hoje... É mesmo tudo muito desinteressante: são uns gajos que são amigos, normais, juntam-se numa casa, jogam e depois inventam umas merdas.

 

Já estão a olhar para o relógio? Querem é voltar para o trabalho, não é? Só jogam futebol no vídeo?

MG - O Zé Diogo agora está a pensar jogar râguebi...

RAP - Aqui para nós: enquanto for a classe alta a jogar aquele jogo, é óbvio que a gente vai levar na cabeça de toda a gente... Agora, a malta da Buraca, que já está habituada a fugir depressa com coisas na mão...

 

Gargalhada!

 

Publicado originalmente na Revista Selecções do Reader’s Digest

 

 

 

 

 

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