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Beatriz da Conceição

Quem é Beatriz da Conceição? Perguntem a Ana Moura e a Carminho. Perguntem a Camané. Perguntem a quem não gosta dela. Uma referência. Fadista de palavras que cortam como facas. A tia Bia tem 73 anos, nem amaciados nem derrubados pela vida. A Dona Bia exige ser tratada com respeito.

Ouvir a sua história é ouvir um puro grito. Ouvir um tempo e uma condição social. Ouvir uma cidade e um género. Um capítulo do salazarismo. Uma página do neo-realismo. E a revolta e o combate contra tudo isso. Beatriz da Conceição é do tempo em que as mulheres eram desonradas, as crianças davam de frosques da escola e as raparigas trabalhavam na costura até casar. (Quando foi pela primeira vez à televisão, empenhou-se e comprou a prestações um tecido de seda. “Fiz o vestido numa modista.”) Fala como quem sangra. Tudo nela é autêntico e singular. Tem qualquer coisa de personagem maldito. Escreveram-lhe estes versos: “Chamaram-me ovelha negra, por não aceitar a regra de ser coisa em vez de ser.”

Uma noite, por acaso, a vida mudou. Cantou uns fados. Achava que o que sabia dos fados era de ouvir. O que ela não sabia é que o que sabia dos fados era de viver. A Dona Márcia Condessa disse-lhe: “A menina não vai nada para o Porto, vai ser uma grande fadista”. Lucília do Carmo assinou por baixo. “Ó menina, você canta à sua maneira e muito bem. Assim é que é bonito”. Fez-se fadista.

Encontrámo-nos no Museu do Fado, em Lisboa. É tratada com uma deferência que a conforta. Do outro lado da rua, no largo que dá para Alfama, fazem-lhe uma festa. Um viola que vai para a Parreirinha, um fadista que é uma jóia e que se livrou da droga. Gente dali. Gente do fado que presta homenagem à Dona Beatriz da Conceição. À Tia Bia.

(Advertência: ela continua a falar como a rapariga do Porto que sempre foi. Isto é: preparem-se.)

 

 

Então benzeu-se… Porquê?

Porque sou uma rapariga crente. E para não dizer disparates. Asneiradas. Às vezes sai-me.

 

É do Porto, onde se dizem muitas asneiradas.

Cá também se dizem. E de que maneira. Mas as do Porto não magoam tanto como as de cá. Por exemplo, no Porto dizer: “Esta filha da puta está a irritar-me” não tem maldade. Diz-se sem ofender ninguém. É como dizer: “Vai à merda, não me chates”. Em Lisboa, não. Foi o que senti quando cheguei cá. No Porto, até as madames ricas da Foz dizem: [com voz afectada] “Ah, o menino vá para o caralho, não me chateie”.

 

Nunca ouvi uma madame rica dizer isso. Mas está bem.

Conheci uma data delas que diziam. Uma – não vou dizer os nomes – dizia do marido: “Este cabrão, ahhhh, o que me chateia este cabrão”. Mais tarde conheci-o. Monárquico. Era uma gente que gostava muito de mim.

 

Como é que os conheceu?

Iam aos fados.

 

Vamos começar pelo princípio, pelo Porto, onde nasceu em 1939. Beatriz da Conceição. Nome da Beatriz Costa. Tem que ver com isso?

Não. Que disparate.

 

Podia ser.

Porquê? Ela gostava mais de mim por causa disso. “Cabrona!, ainda por cima és Beatriz da Conceição”. Pensaria que não havia outra Beatriz da Conceição. Ela não pôs. Pôs Beatriz Costa. Mas eu sou do Porto e ela da Malveira.

 

Não é um nome vulgar, apesar da Beatriz Costa. Porque é que lhe puseram Beatriz da Conceição?

Ah minha querida, a minha madrinha já morreu.

 

Está a falar do tempo em que se punha às crianças o nome dos padrinhos.

Por acaso a minha madrinha não se chamava Beatriz da Conceição. Tenho uma irmã Maria da Conceição. A minha mãe chamava-se Joaquina. Nome que detesto. A minha mãe morreu era eu muito pequenina. Oito anos. Ainda hoje vejo a minha mãe na cama a morrer. [põe a mão nos olhos, testa franzida] “Tiz, Tiz, Tiz”. Chamava-me Tiz. Isto bateu-me mal muitos anos. Verdade. É uma história um bocado complicada.

 

Quer contar?

Posso contar. A minha mãe morreu com 29 anos. Está a ver. Era uma rapariga. Existia eu e um irmão mais novo. Também já está lá [levanta os olhos para o céu]. O meu pai era muito malandreco. Tinha a mania que era galã. Por acaso até era. Para a minha mãe foi muito bera. Arranjava amantes. O que é que lhe deu naquela corneta? Tínhamos uns vizinhos. A senhora tinha uma filha, que nem era do marido, e que estava num colégio de freiras. Quando fez 17 anos, saiu das freiras e foi para a mãe. O meu pai deitou-lhe a gadanha.

 

Gadanha?

Nem sei o que quer dizer gadanha. 

 

É um instrumento agrícola. Mas é também o que traz a morte quando vem ceifar vidas.   

Não sabia. A gente no Porto dizia [com tom guloso]: “Deitei-lhe a gadanha...”. Aquilo deu-se muito mal. A outra queria que o meu pai se casasse com a rapariga, não é? Foi para tribunal dizer que ele a desonrou. Essas tretas. Foi aí que a minha mãe se começou a enervar. Por causa do divórcio. Depois de isto começar, durou pouco tempo. Quando lhe rezo, estou a vê-la. Era muito bonita, a minha mãe. Deitada na cama. Deixou de falar. Só dizia: “Meus Deus” e o meu nome. Como quem: “Que vai ser feito de ti?”.

 

O que é que faziam os seus pais?

O meu pai era vendedor de sapatos. [Caixeiro-] Viajante. A minha mãe, fartou-se de trabalhar, como uma moura. Trabalhou numa fábrica. Uma viola que está aqui na Parreirinha [de Alfama], o Zé, andou comigo ao colo. “Esta cabrona já me fez xixi nas calças”, dizia para a Dona Argentina [Santos, fadista, dona da Parreirinha]. “A mãe da Tiz andou numa fábrica de botões, e a minha irmã trabalhava com ela”. Ele também era um rapaz. A minha mãe deixava-me no berço, ‘tadinha, enquanto trabalhava. Pirava-se do trabalho ou pedia ao patrão e ia lá dar-me o leitinho.

 

Onde é que moravam?

Na Rua do Alto da Fontinha. Está a ver a Rua Santa Catarina? Há ali uma transversal do lado direito, a Rua da Escola Normal. (Foi uma das minhas escolas. Fui de frosques das outras duas por ser refilona. Pá, quando se pegavam à porrada, havia uma desgraçada que levava de todas. Passava-me e ia eu para a tourada também.) Em frente a essa escola normal, fica a Rua da Fontinha. A minha, era se subisse por ali acima. Era uma ilha. Como é que aqui chamam às ilhas?

 

Vila.

Ainda sei a morada: 93, casa 18. Nunca mais me esquece. Sempre gostei do 18. Já morei em duas casas 18.

 

Acha que a sua mãe se matou?

[algo ríspida] Não! Não. Não foi do coração. Nem sei bem o que é que foi aquilo. Dos nervos. O meu irmão ficou muito doente. Foi para a casa de uns vizinhos. Eu fiquei a dormir uma data de dias na casa de um casal de lá da rua. Quando me lembro disto... Eu tenho estas insónias desde garota. O casal só tinha uma cama, não é? Dormia na cama com esse casal, nos pés. Levava com as pantufas deles nos cornos. Comecei a bater mal aí. Depois fui para casa de uma tia. Uma casa do tamanho da da Branca de Neve e dos Sete Anões. Tinha duas filhas e o marido tinha-se pirado para África. Eu gostava de estar com a minha tia, mas ela também me punha a trabalhar p’ra caraças.

 

A fazer o trabalho doméstico?

A minha tia tinha a mania da limpeza. Era histérica. Lembra-se daquelas máquinas a petróleo, amarelas? Tinha de limpar todos os dias. O chão era em pedra. Arrggg, passar o chão outra vez. Era tudo gente pobre. Tinha um larguinho cá fora onde estava o tanque da roupa. A minha tia também me punha muito a lavar a roupa. E eu começava a cantar. As vizinhas vinham para a janela. “Ó Alice”. Era a minha tia. “Ai a tua sobrinha canta tão bem.”

 

O que é que cantava?

Fados da Amália. E do Max.

 

“Pomba branca, pomba branca”. Quem diria que anos mais tarde gravaria essa música.

É verdade. O meu pai gostava muito do Max. O meu pai não sabia ler muito bem. Tirou a quarta classe quase com 40 anos. Mas eu sabia ler. Deitado na cama: “Anda lá, ensina-me, que eu dou-te cinco paus”. [Canta] “Na pequena capelinha, da aldeia velha e branquinha”. Cinco paus! Curiosamente o meu pai era muito parecido com o Max. O Max conheceu o meu pai no casamento da minha irmã no Porto. Olhou para o meu pai: “Ó pá, somos irmãos?” O casamento da minha irmã foi numa casa de fados. Foi o [António] Calvário. O meu pai tinha paixão por ouvir aquele senhor [Max].

Da Amália cantava marchas. Não cantava aqueles fados tristes. Eu na altura nem era assim muito triste.

 

Ia à escola?

Ia. Fiz a quarta classe. O que se segue: estou na minha tia uns anos. A minha madrasta, toda contente. Mas o senhor meu pai disse: “Não posso estar sem os meus filhos”. Foi-me buscar. Entretanto tinha arranjado um namorado. Era mais velho do que eu onze anos. Eu tinha 17. A família: era tudo gente dali. Gostavam muito de mim. “Tadinha da Tiz, a mãe morreu tão cedo”. Essas merdas. Coisa fantástica: fiquei grávida.

 

Foi ele que a desonrou?

Foi. Aos 18, fui logo mãe. A minha filha nasceu a 11 de Agosto, eu sou de 21. Disse-lhe a ele. “Eu não sei o que é isso de ter um filho”. A minha tia: “Vais fazer um aborto”. E eu: “O que é um aborto?”. Eu era assim muito chouriça na brincadeira mas nessas coisas era muito inocente.

 

Nunca tinha tido conversas com ninguém sobre sexo?

Não. Nada. Um beijinho quando andávamos lá no bailarico, e pronto. A minha tia com medo que o meu pai me desse uma grande tareia, ou ela, a minha madrasta. À noite, quando estavam a dormir, a roncar, fugi. Isto parece um filme.

 

Ele tinha modo de vida, como se dizia na altura?

Tinha. Duas mercearias. A família toda de Vila Real. Tinham dinheiro.

 

Tem um fado que diz: “Deste-me um beijo e vivi”. Foi o que sentiu quando o encontrou?

Não. Eu gostava muito dele, mas ele também era um grande malandro. Desculpa lá, ó António.

 

Casaram?

Não.

 

Estar amancebado era problemático?

Pois, mas eu estava-me cagando para isso. A casa era em Gaia, longíssimo. Quase ao pé da televisão [RTP]. Prédios novos. A minha sogra não fazia népia em casa. Cozinhava mesmo à moda de lá de cima. Também aprendi muito com ela. Mas não gostava de arrumar. Comiam e deixavam a mesa toda. “Mas que é isto, sou alguma escrava?”.

Eu, com uma grande barriga, ela tinha a mania de abrir a porta do meu quarto: “Menina, pino!”. Pino é: salta da cama. E eu a dormir tão bem... Tenho insónias desde essa altura. 

 

Trabalhava?

Trabalhava na costura. Depois, deixei. Fui com 13, 14, 15. Gostava muito de costura.

 

Percebe-se que tem gosto em arranjar-se. Ainda faz coisas para si?

Sei o que quero e sei o que compro e não preciso de estilistas. Há 30 anos, eu ia muito à televisão. Muita gente dizia: “Calada, que vai cantar a Beatriz”. E só olhavam para os meus vestidos. Pá, é assim: eu já tinha ido muitas vezes a Paris e a Londres.

 

Como é que tinha ido a Paris e a Londres?

Cantar, porra. Isto foi nos anos 70. Corria aquelas montras, armazéns. Nem era caro. Por 20 contos comprava vestidos lindíssimos, boas malhas e tudo. Tinha uma amiga que bordava. Começava logo a pensar: “Aquela gaja vai-me bordar aqui umas coisas”.

 

Era uma rapariga muito bonita?

Sim. Muito, muito... Era normal.

 

Sempre contou com a sua beleza? Tem um ar altivo.

Não era de propósito. Era assim. Tenho de ter medo porquê? Ia ouvir a Lucília do Carmo, que era a minha musa. Chorava que me fartava. Ia ouvir a Fernanda Maria. “Vou mas é fazer as malas e vou para o Porto”. Até elas me dizerem: “Ó menina, você canta à sua maneira e muito bem. Assim é que é bonito”. Estas gajas, agora, imitam todas. Umas imitam-me a mim.

 

Quem é que a imita?

[sorriso] Oh, é chato, porque elas gostam todas muito de mim. Outras imitam a Amália. A Mariza foi beber a alguém. Agora está menos. Eu, não. Criei um estilo meu. Podia gostar da letra que outra fadista cantava. Enquanto estivesse a cantar com ela [na mesma casa de fados], não cantava. Quando mudava para outra casa de fados, cantava. Sei que não cantava igual a ela. Foi um condão que Deus me deu. Toda a gente diz: “A Beatriz tem personalidade a cantar”. E podia ter imitado muita gente.

 

Por isso importa conhecer a sua história. É ela que lhe dá essa personalidade a cantar. Não é?

Pois. Eu a cantar sou muito emotiva. Até demais.

 

É uma emotividade contida, ao mesmo tempo. Os movimentos da sua boca, quando está a cantar, comprovam-no. Nunca é histriónica. É feroz.

Sou. Feroz com as palavras que digo.

 

Palavras ditas como se fossem facas.

Às vezes é qualquer poema que tem qualquer coisa que me magoa. Digo aquilo, mas não grito. Nunca gritei a cantar. E tenho raiva a quem grita. Mas pronto.

 

Não sabia que tinha uma filha.

Tenho dito em muitas entrevistas. Mas agora não quero dizer. Estamos numa muito má. Péssima. Ela odeia-me. Eu não a odeio. “Abandonaste-me...”. Diz isso para me machucar. “Não te abandonei. Ficaste com o teu pai. Que era rico e te pôs num colégio”. Fez mal foi em pô-la num colégio de freiras. Eu ainda tinha aquela revolta de o meu pai ter desonrado a rapariga do colégio de freiras. “As freiras são todas uma putas. E as meninas dos colégios de freiras, outras putas”. Isso era para a ferir a ela.

 

Deixou o pai da sua filha porque estava farta dele?, porque queria viver a sua vida?

Estava farta dele! Tinha 20 para 21 anos. Ele chegava todas as noites às três, quatro da manhã. E arranjava mulas. Notava pelo cheiro dele. Andava sempre a espiolhar as camisas. Uma vez cacei batom numa. Dei-lhe com aquilo com os cornos. Ia-me a ele. Engraçado, não me batia.

 

Não estou a ver um homem a bater-lhe.

Sim, é difícil. Eu lia muito. Romances de amor. Adorava. Pá, não me dava para ler coisas intelectuais.

([O fotografo chega com um café.] Ena pá. Então não trouxe para a menina? [Para o fotógrafo] Vou ficar tua fã pela tua simpatia. Julguei que já tinha dado de frosques, já nem me lembrava dele.)

 

Estava a dizer que lia romances de amor.

Era devoradora. Tinha uma amiga, rapariga estudada e letrada. “Lê este, que é bom”. Chorava como uma Madalena. Misturava a minha situação com certas romances. Também havia madrastas. Ou sogras. Levei com esses nomes.

Um dia disse-lhe: “Vou-te deixar”. Ele dava-me tudo o que eu precisava.

 

Era ciumento? Estamos a falar de fado e ainda não falámos de ciúme. Como é possível?

Sei lá se ele era ciumento. Não me levava a lado nenhum. Estava ali fechada em Vila Nova de Gaia. Um desterro. Ele gostava de mim, sei que gostava. Faltava ele portar-se bem.

 

Não andar com mulas.

Um dia, uma gaja que eu conhecia da costura, e que morava na Rua Escura (a rua das putas lá no Porto), viu-me na Baixa. “Ai mulher, esse gajo tem aqui na Rua Escura uma prostituta”. O quê?! “Chama-se Mariazinha. Até a tirou da rua”. Já não fiquei bem da cabeça. Quando chegou a casa: “Onde é que estiveste?”. Meu este, meu aquele – aqueles nomes bonitos. Antes que ele me deixasse, deixei-o eu a ele. “Ficas a falar com o senhor Daniel”.

 

Quem era o senhor Daniel?

Estes calões que se dizem. Em vez de dizer: “Ficas a falar com o caralho”, “Ficas a falar com o senhor Daniel”. Digo muito isso a algumas fadistas que me estão a chatear: “Ficas já a falar com o Daniel”.

Fui ver se era verdade. Já agora. Saio no autocarro, desço umas escadinhas, Rua Escura. Tum, tum, tum. Veio uma remelada à porta. Juro por Deus. Uma rapariga para aí com quarentas.

 

Isso é que foi humilhante? Tê-la trocado por uma mulher mais velha?

Pois foi. Se ela fosse uma Sofia Loren. Muito pequenina. Não me esquece a cara dela. Mandou-me entrar. Qual não é o meu espanto quando olho para cima de um móvel e vejo uma fotografia dele. Quando cheguei a casa, rasguei-lhe a roupa toda.

 

Isso parece uma letra de um fado.

Não tenho letras assim.

 

Coisas excessivas. No fado “A vida que eu sofro em ti” diz assim: “Por cantar este meu fado, que é teu corpo decepado, dentro do meu coração”. O corpo decepado? Lembrou-me a propósito da roupa rasgada.

Pois. Deixei a minha filha com o pai e os avôs ela não tinha dois anos. Era muito bonita quando era pequenina.

 

Essa é a grande dor da sua vida?

Já foi. Agora não. A minha filha é muito má para mim.  

 

Há quantos anos não fala com ela?

Há uns três. Às vezes falamos e ela começa logo a desconversar. Ela está metida nessa merda do Reino de Deus. E como sabe que jogo, [atira]: “Vais pôr o dinheiro no casino, nos chineses!”. “Queres que morra para herdares? Vais herdar merda!”.

 

Ricas conversas. Quando é que começou a jogar?

Tinha 25. Ia cantar ao Casino do Estoril e não jogava. Os croupiers: “Não joga, menina?”. Eu via a Simone entrar. A de Oliveira.

 

Parênteses: a Simone era uma rival?

De mim? Não! Puxa. Era [rival] da Celeste Rodrigues. “Vou jogar um bocadinho, filha”. O Varela [Silva] também jogava. Foi só no Algarve que me comecei a viciar. O raio de uma espanhola tinha um namorado que era croupier. “Eu pago o cartão”. Os músicos meus amigos diziam: “Não entres, Bia, que se entras nisto ficas marada como a gente”. Havia um homem dono de uma coisa de conservas que gostava muito de mim. “Dou-lhe dinheiro para jogar”. “Queres ver este velho que se está a amandar a mim?” E estava. Havia assim muitas xaropadas.

 

Tinha de apanhar com umas xaropadas?

Ah pois tinha. E eu que nunca gostei que ninguém me escolhesse. Oh pá, nunca gostei. Gostei de ser eu a escolher.

 

Quando é que se apaixonou? Quando é que teve de lutar por um homem?

Lutar, não lutei nada. Eu parece que tinha mel. Eles vinham.

 

Porquê? Porque tinha um ar fogoso?

Não. Eu não era atrevida nem nada. Apaixonei-me muito, e viveu comigo muitos anos, o Fernando. Nem sei se está vivo, mas acho que sim. Também era um malandreco. É a minha sina. Malandrecos com mulheres. Uma vez dei-lhe umas grandes mocadas com tachos – juro por Deus –, fechei-o à chave em casa e fui-me embora. Desapareci três dias. Um amigo meu disse-me: “Coitadinho do Fernando. Se calhar não tem nada para comer”. “Deixa-o estar.” “Pode estar morto.” “Não quero saber.” Quando abri a porta até fiquei com medo que ele se amandasse como um leão. Nem tinha cigarros nem nada, estava enlouquecido.

 

Jogar foi um dos problemas da sua vida?

Foi. Foi mesmo.

 

Como outros têm a droga?

Quase. Já me passou.

 

Quando é que deixou de jogar?

[Há] dois anos. Mas foram 30 e tal anos a pôr lá o dinheiro.

 

Roleta?

Banca francesa. Dados. Nunca tive assim um vício. Tenho outro: fumar. Mas nunca fumei outra coisa. [riso] É o cabrão do SG. No casino a jogar, não me lembrava de nada.

 

O que era aquilo para si?

Era um mundo. A minha cabeça não estava ali. Não pensava nisto nem naquilo. Ia lá cantar e eles pagavam-me assim: “Bia, queres em cheque ou em fichas?” “Ah cabrão, que já me deste azar.” Deixava lá o dinheiro, 200 contos.

 

Dívidas sérias, teve?

Hum. Dívidas, não tive. Vendi foi as jóias todas. 

 

Jóias que recebia dos apaixonados?

E que tinha comprado. Umas de um apaixonado, que era de Alfama. Comprava muitas jóias quando estava no teatro. A gente comprava a uma senhora que era do Porto, a Aidinha. A Florbela também comprava.

 

Qual Florbela?

A Queirós. “Biazinha, tenho aqui um anel”.

 

Esse anel que traz é bem giro.

Este? Tem anos. E este [mostra] também é um anel, não é uma aliança. É um anel com um brilhantezinho. Sempre gostei de anéis grandes.

 

Que é que representavam?

Não sei. Em Londres é que apanhei essa tara. Via lá. Comprava em bom. Não era de plástico. Gostava de ouro, brilhantes e safiras. E tive muitos. Lindos, lindos.

 

Ganhou muito dinheiro?   

Ganhei. Mas estourei-o. Esse senhor com quem vivi e que era de Alfama, o Vítor, era joalheiro. Foi agora no fim da minha vida. Vivemos onze anos. Também um dia chateei-me. A casa era minha. “Faz as malas e vai-te embora.” Era amoroso para mim. Um bocado nariz empinado. “Vi uns sapatos, uma camisola...” Dava-me tudo. Vínhamos muito à Parreirinha. Ele gostava de ir ao Mónaco jantar e dançar um bocadinho. Também não havia muitos sítios para dançar, não é?

 

Como é que conseguiu libertar-se do vício?

Do casino? Não sei. Não tenho explicação. Tanto que pedia a Deus que me tirasse aquele vício. No jogo não pensava em nada. Não estava doente, não me doía a cabeça. Não tinha fome, não tinha insónias.

 

Durante anos bebeu bastante.

Também bebia.

 

Nunca foi um problema?

Não! Bebia com peso e medida. 

 

Ambiente boémio. Bebia-se a noite toda.

Sim. O meu champanhezinho. O meu Baileys. Descobri o Baileys ainda em Londres. Bebi garrafas daquilo. Depois enjoou-me tanto que deixei de beber. Como bebi Tia Maria. O Tia Maria era mesmo [um licor] de café. Agora não bebo nada. A jantar em casa bebo água. Quando vou jantar fora bebo um copinho de vinho branco.

O deixar de jogar foi uma felicidade. Deus devia dizer: “Estás a pedir, mas não tens vontade...”. 

 

Disse isso e levou a mão à cruz que tem ao peito.

Sim? Não foi de propósito. Já tenho pedido a Deus que me tire o vício de fumar. Um dia, não fumei. Um dia. Estava engripada. No outro dia apetecia-me andar por cima das paredes. Uma loucura. Que é que hei-de fazer?

 

Fale-me de Londres. Como é que lá foi dar? Quanto tempo lá esteve?

Ora bom. Londres: a primeira vez fui em passeio com um casal amigo. “Pá, vamos até Londres”. Eu já tinha estado em Paris. Ah, e já tinha estado em Londres. Cantar. O senhor [que me levou lá] fez o jantar num hotel. O pai dele foi um homem que fez um anúncio: “Quem casa, quer casinha. Mas só no Lapinha”. Era o Eusébio que fazia o anúncio. Não é do seu tempo. Dava na televisão. Eram uns apartamentos em frente ao Tejo. Como eram todos Benfiquistas, puseram o Eusébio. Os filhos dele (dois malucos) gostavam muito de me ouvir cantar. Um deles foi para Londres. Disse-me assim: “Tenho um espectáculo, para uns convidados. Queres ir?” “Se me pagares, vou”. “Não dás uma borla?” “Eu, porquê? Deves estar a reinar. Se fosse para alguém pobrezinho...” Lá fui. Já nem me lembro quanto é que me pagou. Pôs-me num hotel muito bom.

A segunda vez fui com esse casal amigo. Já conhecia muitos sítios onde ia às compras. Olha, ia muito àquele que o filho morreu, o da Lady Di. Como é que se chama aquilo?

 

Harrods.

Andava o dia todo lá. Adoro Londres, por acaso. A última vez que lá fui foi quando morreu uma amiga minha. Muita amiga. Tinha um restaurante numa rua pequena, mas rua chiquíssima. Pediram-me para cantar numa festa, ela estava mesmo a morrer. Não vai há muito, quatro anos. Quando comecei a cantar, ela era empregada de mesa na casa de fados da Severa.

 

Safa-se com o inglês?

Não. Por preguiça. Depois fui com os pais da Marie Myriam, aquela francesa que não é francesa. Mas pronto, não interessa. Aquela que ganhou um festival. Se calhar também não é do seu tempo. [trauteia] Os pais eram portugueses. Tinham uma casa de fados muito bonita [em Paris]. Eu ia para lá passar férias.                

 

Chegou a Lisboa com 23 anos. Muito rapidamente as pessoas gostaram de si.

Por acaso, foi. Foi muito rápido.

 

Era um estilo muito diferente do da Amália.

De todas. 

 

Como é que aprendeu a cantar fado?

Minha querida, eu ouvia rádio no Porto, não é? Essa casa, a Severa, dava às quartas-feiras. À terça, era o Carlos Ramos. Adega da Lucília. Estava sempre a pau.

 

Transmitiam na rádio os espectáculos?

Era. A Lucília, como era a dona, cantava em último. Nem fazia ideia de quantos anos é que poderia ter. Se era bonita, se era feia. “Ai esta, meu Deus, esta é que canta bem”. A Fernanda Maria: vi logo que era toda triques.

 

Viu pela maneira como ela cantava?

Não a estava a ver, não é? Diferente da Lucília. Achei a Lucília mais clássica. Havia outra, Maria José da Guia: também era fadista até à quinta casa. Foram rivais, ela e a Fernanda Maria.

 

A sua rival era quem, quando começou a cantar?

[peremptória] Ninguém! Era a Berta Cardoso [riso]. Não tinha rivais, mulher. A Dona Berta gostava muito de mim. Aprendi muito com ela. Chamava-me Lecas. “Lecas, anda cá”. Eu bebia as palavras que ela dizia. Uma senhora já de idade. Vê lá, ela cantava um fado que eu fartava-me de chorar. Foi a coroa de glória dela: [canta] “Quando vieram dizer à pobre mãe, que o filho tinha morrido lá na guerra. Ela ajoelhou, a tremer, sentindo bem o desgosto mais dorido que há na terra”. Não tive filhos que foram para a guerra. Mas ela emocionava.

 

O seu repertório vivia muito mais da relação amorosa, do desencontro amoroso e do corpo. O seu fado mais emblemático é “Meu corpo”. Os títulos de alguns fados: “Dei-te um nome em minha cama”.

Tinha outro muito bonito, com muita força, mas foi do teatro e não pegou tanto. “Fado para esta noite”.

 

Tudo isso é mais carnal.

[com troça] Carnal...

 

Então não é?

[riso] Não fui eu que escrevi. “Dei-te um nome em minha cama, aberta no meu Outono, depois amei-te em silêncio que é uma forma de abandono.” Isso é do Vasco Lima Couto. Que ia muito para minha casa. “Ouve lá, amorzinho, dás-me de jantar?”. “Dou. Porra. Então.” Ia, bebia uns grandes copos. Bebia o vinho e depois uns xixis, uns uísques. Uma noite apanhou uma cadela. “Vou dormir cá.” Começou a fazer-me um fado, “Dei-te um nome em minha cama”, para uma história que lhe contei. Houve uma frase qualquer que eu achei que não estava bem. “Pá, estás com uma grande cardina e isto não me cheira bem.” “Lá estás tu com as tuas merdas, ó intelectual!” Ele chamava-me..., aquela que está ali na fotografia...

 

A Natália Correia, cuja fotografia está entre outros poetas e fadistas, no corredor.

“Vai p’ro caralho. Nunca mais te dou de beber.” Pus o poema ao lado da mesinha de cabeceira. “Hás-de ver que tinha razão”. De manhã: “Ó Bia, ai que mal que estou.” Fiz-lhe um café. “Bebeste muito. Andas a curar alguma dor de corno que não me contas. ‘Tadinho.” [riso] A gente já se tinha encontrado em África. Também me fez lá um poema. “Isto não é poema para fado. É um soneto”. Qual soneto. Estava lá um guitarrista que tocava muito bem. “Anda cá, ó Toninho.” Quando não sabia o nome era Toninho. Eu já tinha metido a música.

 

Ou seja, encaixa numa estrutura de fado tradicional um poema.

Tinha a métrica do fado. “Conheces o Fado Súplica? Toma lá, que isto é fado”. É assim: [canta] “Não me peças amor, dá-me prazer. Com amizade se o quiseres, mas só. As palavras caíram sobre o corpo.” Já não canto isto. Quando acordou: “Eh pá, esta gaja é lixada. Esta quadra não tem pés nem cabeça.” Deu a mão à palmatória. “Chama-me agora outra vez Natália Correia!”

 

Porque é que não gostava da Natália?

Porque ela era uma petulante, uma estúpida. Tinha a mania que era a Sofia Loren. Uma pessoa está a cantar e aquela filha da mãe sempre a falar... Com a merda da boquilha, a fumar para cima da gente. Eu dizia assim: “Lá vem a chaminé.” Tinha aquele séquito todo atrás dela. E um senhor dizia: “Bravo, bravo. Bravo Beatriz da Conceição”.

 

Ou seja, rivalidades. Coisas de gajas.

Fui lá à mesa: “Minha senhora, a senhora pode ser escritora, poetisa. Mas eu sou fadista. A senhora respeita-me quando eu estiver a cantar. Senão um dia, quando estiver a dizer a merda da sua poesia, vou lá e cago em cima de si.” Deu-lhe o chilique. “Sérgio!”. Era o dono da Viela, na Rua das Taipas. “Sérgio! Esta mulher ofendeu-me.” Eu perdia a cabeça.

 

Contam-se muitas histórias dessas a seu respeito. As pessoas iam às casas de fado jantar e ouvir fado. Quando faziam barulho, mandava-os calar. E rapidamente incompatibilizava-se com as pessoas por causa do seu feitio.

Aos turistas, dizia: “Xarape, boy, ok?” Acabavam por se rir e calar. Nem eram os turistas que me ofendiam. Eram os portugas. Uma vez na Adega Machado estava numa mesa, ao cantinho, do lado esquerdo, um embaixador não sei de onde. Cantei o primeiro fado. O guitarrista ouviu-os falar. “Lá vai haver trolha.” Cheguei-me lá: “Oiça usted. Usted tiene que se calar. Isto é uma arte. Não é para hablar, ok?”. Si, si. Foram comprar os meus discos e pedir-me autógrafos. Eu estava mosca. “Não dou! Rua.” Levei logo uma bronca. E em África fiz o mesmo, numa casa de fados. Como é que se chama a mulher de um embaixador?

 

Embaixatriz.

Ai que puta. Aiii que puta. Aiiii o machimbombo. Era assim [abre os braços]. Falou, falou, falou. “Cala aí a boca, ó machimbombo!” Quase desmaiou. O marido começou-se a rir.

 

Nunca teve complexos do sítio de onde vinha.

Não! Porquê é que havia de ter?

 

Nunca tentou ser outra coisa, refinar-se.

Mas eu sou refinada, minha querida.

 

Refinar-se no vocabulário, nos modos.

Sou refinada. Mas estar a cantar um fado cheia de sentimento e estarem a lixar-me, passo-me. Fico desconcentrada. Hoje, nas casas de fado, cantam para o turismo. [canta e bate palmas num tom pateta] “Casa portuguesa, com certeza.” Eu???, cantar a “Casa Portuguesa” e a “Lisboa Antiga”? Isso é que era bom. Esse filme vai no São Jorge.

 

Que ambição é que tinha? Sabia que era boa.

Sabia. E boa rapariga. Mas não tinha ambições. As coisas aconteciam-me. Sabia que cantava bem. Não sou mouca, não é?

Surda.

 

Na contracapa do primeiro disco escrevia-se que era “jovem, turbulenta e irreverente”, com “pose altiva e quase sanguinária”. Passaram, a bem dizer, 50 anos desde esta descrição.

E eu continuo a ser assim. Quem é que escreveu isso na contracapa?

 

Continua a ser assim porquê? A vida não a amaciou?

Não. Nem me derrubou nem me amaciou. Quero dizer como o brasileiro: quero ser como eu sou.

 

A altivez é uma das suas características mais marcantes?

Não sei. Talvez. É assim porque sou assim. Não quero ser altiva. não faço de propósito. Sou muito dócil.

 

É dócil?

Mas altamente dócil.

 

O que é preciso é saber levá-la.

Está a ver? (Coisa engraçada para o fado: o que é preciso é saber levá-lo. Bom título.) Se me pisam os calcantes, não.

 

Um outro título bom, de um fado seu. “Ovelha Negra”.

Muito forte. “Passei fomes, passei frios, bebi água dos meus olhos”.

 

Viveu como quem está à beira do precipício? Como uma personagem trágica, que bebe água dos seus olhos. Tem também este verso: “... de ser coisa em vez de ser”. 

“Chamaram-lhe ovelha negra, por não aceitar a regra de ser coisa em vez de ser. Rasguei o manto do mito, pedi mais infinito, na urgência de viver.” Minha querida, não fui eu que escrevi. Os poetas é que me viam assim.

Tenho um amigo advogado, Dr. Fernando não sei de quê. Chamava-me camarada. Sentiu que eu era camarada. Muito amigo do Carlos do Carmo, o Charmoso. Nessa altura eu estava na Tipóia, uma casa de fados muito bonita no Bairro Alto. Ele ia ouvir-me e contava-me umas coisas sobre política. Sabia o que sentia desde miúda; [eu sabia] quem era o Salazar e essas coisas todas, mas profundamente, profundamente não percebia de política. Sabia umas merdas, como ainda hoje sei umas merdas. Embora agora me esteja cagando para a política. O primeiro-ministro, o secretário de Estado: quero que se lixem.

Esse sujeito, Fernando, disse-me: “Venho ouvi-la cantar para a levar no meu coração, que vou para Paris”. Ia dar o fora. A PIDE já andava em cima dele. Deixou-me um poema. “É como eu a vejo.”

 

Ainda o sabe?

“Mas porquê meu ser assim, porque trago dentro, em mim, tanta morte e tanta vida. Esta fogueira inconstante, ora chama crepitante, ora cinza arrefecida. Quase sempre esta descrença, este estado de indiferença pela verdade ultrajada. E de repente esta fé, esta ânsia de pôr de pé cada ilusão derrubada. E logo a fúria incontida, com que esbofeteio a vida quando ela humilha os vencidos. Ai quem me dera ter paz...”

 

Quem é que eram os seus grandes amigos no meio do fado?

Quase todos. Manuel Almeida, Manuel Fernandes. Já morreram.

 

Da Amália, alguma vez foi amiga?

Não. Ela não queria ser minha amiga, eu queria que ela se fodesse também. No entanto, as bichas amigas dela eram também amigas minhas. Diziam-me: “A Amália gosta de ti. Gooooosta! Ela adorava que tu aparecesses lá com a gente”. Mas eu, não. Quem é a Amália? A Amália é uma mulher como eu. Nem é mais, nem menos.

 

Nunca quis ter o sucesso da Amália?

Não. Estava-me cagando para o sucesso da Amália. Não queria ser como ela.

 

Tem de reconhecer que era boa cantora.

Claaaro! Puxa. Na minha casa, não me ouço a mim e ouço-a a ela.

 

Ainda hoje?

Sim. Estou sempre a ouvir um CD que um amigo dela me deu. Morro por aquele CD. Nunca canta da mesma maneira. Que mulher de um cabrão, esta... Dá umas voltas e depois já não é igual.

 

Numa só gravação do “Havemos de ir a Viana” canta de três maneiras diferentes o verso: “Se o meu sangue não me engana como engana a fantasia”.  

Pois. Isso é que é arte. Agora, Mariza, rrrggggg, que horror. Quando me dão discos dela – obrigadinha – passo logo para alguém.

 

A Mariza é das que dizem que a Beatriz é uma referência.

Espera aí que já me pisaste um calo.

 

Diz ela, diz a Ana Moura, diz a Carminho, diz a Cristina Branco. Dizem todas.

A Ana Moura e a Carminho, dizem de coração. Essa Cristina Branco, nem a conheço. 

 

Cantou com ela no outro dia, no Casino do Estoril.

Ou ela cantou comigo. Foi aí que ela disse: “Boa noite, Beatriz”. “Boa noite, dona Cristina”. Fodi-a logo, não é? E não lhe dizer: “Ouça lá, minha senhora: conhece-me de algum lado?”...

 

Porquê esse gosto pelo confronto?

Porque antigamente nós tínhamos muito respeito pelas fadistas. Fernanda Maria, trabalhei com ela. Não era por ser minha patroa, chamava-lhe Dona Fernanda. Ainda hoje continuo a chamar-lhe Dona Fernanda. Dona Celeste Rodrigues. As mais novas dizem: “Ó Celeste...”, e eu continuo a chamar Dona Celeste.

 

Da Celeste, é amiga?

Muito. Porra, adoro a minha querida Celeste. Mas adoro. E adoro ouvi-la cantar. Ouço a Celeste e choro.

 

Como é que quer que lhe chamem?

Dona Beatriz!   

 

E eu? [O fotógrafo pergunta: e eu, que lhe trouxe um cafezinho?]

Para nós, é Bia.

 

São mal educadas por não lhe chamarem Dona? Por todo o lado a elogiam.

É tudo mentira. São hipócritas. Palavra. Ai filha, não te quero ensinar nada sobre o fado, senão ficas a saber tanto como eu.

 

A Ana Moura convidou-a para cantar com ela no Coliseu.

Nos coliseus. Foi nos dois [de Lisboa e Porto]. A ela, gosto de ouvir. Puxo pela minha cabeça para ver quem é que ela imita. Quem? Mas quem? Ninguém. A Mariza começou por imitar a Dona Amália. Ainda hoje, quando canta a “Maria Lisboa” e outras merdas..., por acaso não são merdas que são bons poemas, [imita]. Lá fora, só canta coisas da Amália. “Ó gente da minha teeeeerra”. O poema até é bonito.

Ela vê-me: “Bia!”. Judas.

 

Ainda no outro dia me disse que ela é simpática. Porque é que diz essas coisas da Mariza?

A gaja tem tudo marcado no papel como deve fazer. Aqui é a altura de chorar. Acreditas? Fogo! Que jornalista do caralho me havia de sair. Para que é que havia de estar a mentir? Eu seiiie.

 

Seiiie. Disse isso mesmo à Porto, pondo um “e” no fim da palavra.

Sou de lá.

 

Quando canta...

Meu mal espanto. Vá.

 

Quando canta, pensa em quê?

Nada. Estou concentrada. Fico cinco minutos [sozinha], rezo um bocadinho. Pai Nosso, Ave Maria. E entro. Às vezes, de estar tão concentrada foge-me uma frase. Aconteceu-me no casino. Os guitarristas também estavam parvos. Os gajos agora não dormem. Vão para a América, se chegarem hoje vão logo trabalhar nessa noite.

 

Porque é que não se encontram os seus discos?

Sei lá. 

 

Que é que tem feito nos últimos tempos? Além de emagrecer.

Este ano fui aos Estados Unidos. Eu, o Camané e mais umas galinhas. Um mês e meio antes fui a Antuérpia.

 

Tem um agente que lhe arranja esses espectáculos?

É o Hélder [Moutinho, também fadista e irmão de Camané].

 

Vive bem? O que ganha é suficiente?

Sim. Às vezes... E tenho 300 euros de reforma.

 

Porque é que está a emagrecer tanto?

Isso queria eu saber. ‘Tou magra mas não é de tomar comprimidos. Foi de repente. Nem tenho forças nem nada. 

 

Quantos quilos emagreceu?

Dezassete. Pesei-me no hospital, em casa não tenho balança. Cinquenta quilos!

 

Vive sozinha?

Com um periquito. [riso] Não tenho. Nem gatos nem cães. Incomodavam-me. Estou a dormir; agora vem o cão para cima da minha cama? Não.

 

Continua a ter o ritmo da fadistice?

É. E não saio de casa.

 

Que é que fica a fazer?

A ver televisão. Como televisão. Falo sozinha: “Este programa, que coisa horrível.” E o canal Hollywood é uma grandessíssima merda. As séries, igual. Só monstros. Até sonho depois com isso. Só gosto de filmes de amor.

 

Deita-se de manhã, acorda as três da tarde. É isto?

Ontem deitei-me às duas e meia, para ver se hoje estava bem. Acordei. Fiz um chazinho. Tomei mais um Lorenin. Qualquer dia morro do Lorenin. Queria estar fresquinha hoje. Até queria ir ao cabeleireiro. Quando acordei e olhei para o relógio, foi um desassossego.

 

Qual é o seu maior defeito?

Tenho vários. Mas tenho mais virtudes que defeitos. Queres guerras, mas eu não te dou.

 

Não quero nada guerras. Depois também lhe pergunto pelas qualidades.

O meu maior defeito é ser teimosa. A minha maior qualidade é ser uma pessoa muito humana e amiga.

 

O que é que hoje em dia lhe dá prazer?

Nada. Nada me dá prazer. Já nem suporto ir aos fados. A não ser que me digam: “Vamos ouvir o Camané.” Isso vou logo. Até vou descalça. Ouvir a Ana Moura? Descalça vou, para a fonte, Leonor pela verdura.

 

Cantar, dá-lhe prazer?

Agora não. Agora é por obrigação, para ganhar dinheiro. 

 

Acabamos a entrevista.

Está feito?

 

Quer dizer mais alguma coisa?

Não.   

Publicado originalmente no Público em 2012

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