Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Gonçalo M. Tavares (2011)

Por onde entrar no labirinto de Gonçalo M. Tavares? Vários acessos, vários percursos. Vários livros, vários personagens. É um autor prolífico. Nos últimos meses, editou o ambicioso Viagem à Índia, Matteo perdeu o Emprego e novo livro da série dos senhores. Editou dezenas de livros, nos últimos nove anos.

É um homem genial, passou os 40, reconhecido já como um dos grandes escritores de língua portuguesa do século XXI. Editado no mundo todo, recebe críticas elogiosas nos grandes jornais e revistas. Recentemente, Aprender a Rezar na Era da Técnica foi apontado como o melhor romance estrangeiro editado em França. Uma honra, diz ele. Em França dizem frequentemente que é o Kafka português.

Usa uma barba espessa, anda a pé pela cidade, esquiva-se a falar de si próprio. O que importa são os livros.

 

Os seus livros traçam a odisseia de homens simples, homens de todos os dias. Bloom, o herói de Uma Viagem à Índia não se parece com Aquiles… Que homem é aquele sobre o qual se debruça? Que aventura é a dos seus personagens?

Uma Viagem à Índia narra as aventuras de Bloom, que foge de Lisboa porque cometeu um crime. O livro conta as aventuras mais ou menos burlescas, mais ou menos trágicas, por vezes aventuras mentais, de uma personagem do século XXI – um individualista. Ele quer fugir porque cometeu um crime, mas quer nessa fuga aprender. Aprender enquanto foge, eis o seu desígnio.

 

Na narrativa, a viagem tem, de qualquer maneira, um objectivo concreto.

Falar com um sábio indiano. Perceber se o Oriente lhe conseguirá dar a tranquilidade e ensinar uma forma de vida que o transforme. É de certa maneira a última micro-utopia deste Bloom, no século XXI, que é o século que vem depois das grandes tragédias e do fim de todas as grandes utopias do século XX. Quem ler o livro verá que até esta última micro-utopia esbarrará com uma decepção. E por isso, o regresso a Lisboa de Bloom, depois da decepção na Índia.

 

Volta outro.

É um regresso perigoso, pois aí é já alguém que perdeu a última esperança, que já não tem qualquer expectativa. Mas a personagem Bloom tem várias contradições. É uma personagem meio desastrada, que se vai livrando de pequenas armadilhas, quase sem saber como.

 

A Viagem, cuja estrutura é decalcada da d’ Os Lusíadas, é um projecto ambicioso, que fica. Vasco Graça Moura disse que “dentro de cem anos ainda haverá teses de doutoramento sobre passagens e fragmentos”.

Para quem escreve, é uma alegria sentir este acompanhamento logo no início do percurso de Uma Viagem à Índia. Sentir o entusiasmo de Vasco Graça Moura e de Eduardo Lourenço, que fez o prefácio, entre outros excelentes leitores, é um sinal bonito. Um livro é um organismo, e este começou agora a sua vida.

Uma Viagem à Índia começou a ser escrito em 2003, e a sua matéria bruta é desse ano. Depois ao longo destes oito anos foi sendo revisto, e muito cortado – como normalmente faço. Foi um trabalho longo. Penso que os livros são sempre de um outro tempo.

 

Outro tempo?

Qualquer livro sério entra no mundo com uma outra velocidade que não a velocidade do mundo normal. Entra neste mundo, com uma lentidão de outros tempos. E por isso é que me parece que os livros, em geral, são cada vez mais necessários. A aceleração é tanta na vida comum, que o livro é quase como um conselho, como alguém que sussurra, no meio da balbúrdia: mais devagar, mais devagar.

 

Acabou de ganhar o prémio de melhor livro estrangeiro publicado em França com Aprender a Rezar na Era da Técnica. Pode falar da relação com um autor que tenha ganho este prémio e que tenha sido especialmente inspirador para si?

Há tantos autores extraordinários na lista de vencedores deste prémio que é impossível escolher apenas um. Desde Canetti, Musil, Gabriel Garcia Márquez passando por muitos outros grandes da história da literatura. Também por isso mesmo, é bom ver o Aprender a Rezar na Era da Técnica ao lado de livros que marcaram, alguns a minha juventude, e outros a minha vida. Foi realmente uma grande honra este prémio. E fico contente por prémios destes por vezes irem parar à literatura de língua portuguesa. Acho que a literatura do Brasil, Portugal e África merecia mais vezes isto. Estes países têm excelentes escritores.

 

Duas das suas séries mais famosas são O Reino (da qual fazem parte, por exemplo, Jerusalém) e O Bairro (com os “senhores”). Depois há peças soltas, teatro, poesia, ensaio. São diferentes vozes? São quase heterónimos?  

Há livros com tons e conteúdos muito diferentes, mas há uma ligação clara entre todos eles. Há uma forma de escrita que julgo que é comum a todos esses registos. O tom pode ser mais pesado, ou mais lúdico, o objecto da narrativa ou a forma do livro podem ser muito diferentes, mas há uma maneira de escrever que passa por todos os livros. Mas acredito também que cada forma ou género literário faz o pensamento e a narrativa chegarem a pontos diferentes.

 

Que quer dizer com isso? Dê um exemplo.

Quando escrevo um conto breve – como por exemplo no Senhor Brecht ou no Senhor Calvino – chego a sítios onde não chego com um romance ou com um ensaio. E vice-versa. Os romances Aprender a Rezar na Era da Técnica ou o Jerusalém têm histórias que não poderiam passar por formas curtas. Gosto de me obrigar a fazer caminhos diferentes para tentar chegar, claro, a sítios diferentes.

 

A força e a fraqueza, o medo, a estranheza, a opressão, o espanto, a ironia são os seus temas essenciais? Mais do que tudo, o que se propõe fazer é uma radiografia da condição humana? 

Realmente o que me interessa sempre é olhar para os comportamentos humanos. Como agem e reagem as pessoas. Como falam e como se calam. Como actua o medo e a violência. Agrada-me também pensar nas situações fortes, como a doença, a loucura – tudo isso me interessa. E julgo que realmente, como diz, tudo isto muitas vezes é acompanhado com um certo distanciamento, com uma ironia, com uma forma de mostrar que há sempre uma saída, nem que seja pelo humor – mesmo que humor negro. Quando faço uma viagem e ando pelas cidades que não conheço, olho sempre para as pessoas e para a forma como agem.

 

Como se uma cidade desconhecida lhe interessasse mais pelas pessoas, pela sua idiossincrasia, e menos pelos edifícios?

Os edifícios e os grandes monumentos são para mim mais elementos da paisagem. Uma paisagem sem seres humanos torna-se cansativa. Preciso mesmo de ver pessoas. Eles são o centro do meu trabalho.

 

Aos 18 anos levantava-se de madrugada para escrever. Guardou tudo num “baú”. Só aos 31 é que publicou. Como é que percebeu que estava pronto, maduro? 

Concentrei-me durante muitos anos na escrita e escrevi muito sem publicar. Costumo dizer que ser escritor nada tem a ver com editar. Escritor é aquele que escreve. Durante a infância assisti muitas vezes à construção de obras de engenharia. E via, por vezes muito espantado, que antes de se começar a construir em altura começava-se a escavar um buraco, um enorme buraco. Para uma criança aquilo era de loucos: queriam começar a fazer um prédio e abriam um buraco. Depois percebi que aquele buraco era feito para construir as fundações: as estruturas metálicas que permitiam que o edifício se aguentasse em pé. E esta imagem ficou-me muito marcada. É necessário primeiro construir fundações fortes, para conseguir depois fazer uma casa sólida. Penso que o período até aos 31 anos foi um pouco a construção dessas fundações.

 

Olhando para a sua vida, é como se os livros fossem um bairro numa cidade onde cabem outros bairros. O do homem pai de três crianças, o do professor universitário, o de homem que paga contas. No princípio, esteve hesitante entre o futebol e a matemática pura. Parece que foi há uma eternidade?

Sim, parece que foi há uma eternidade. Há um conjunto de experiências que nos vão marcando, mas todos vamos avançando sempre noutra direcção. Aliás, o que talvez me faça mover com mais intensidade é a curiosidade. Tenho tendência para me aproximar sempre daquilo que não entendo bem, ou daquilo que ainda não estudei. E em relação a paixões antigas, a matemática é talvez a que está ainda mais presente. Era um entusiasta da matemática, mas com o afastamento durante anos torna-se depois impossível voltar.

 

Não é estranho o fascínio pela matemática se olharmos para a construção de alguns livros…

Julgo que a lógica está muito presente em vários livros – por exemplo em O Senhor Valéry ou no Senhor Swendenborg e as Investigações Geométricas, em que se contam histórias através de quadrados, circunferências e triângulos. Todas as experiências vão sendo absorvidas e transformadas.

  

Publicado originalmente na revista Máxima em 2011

 

Em destaque

Entradas recentes