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Bruxelas

O que é a mentalidade belga? É chegar a um restaurante 15 minutos antes do fecho, pedir um prato que demora 18 minutos a ser confeccionado e ver o pedido recusado porque a cozinha fecha impreterivelmente às 21. Ou receber telefonemas histéricos dos vizinhos porque nos enganámos a depositar o lixo nos contentores (e não importa que sejamos novos no prédio). Ou lidar com a ofensa de um colega de trabalho porque ousámos convidá-lo para jantar com apenas umas horas de antecedência (o pedido de desculpa deve ser acompanhado de uma vénia!).

O belga – não se espantem, mas escandalizem-se! – não puxa o autoclismo durante a noite porque o barulho incomoda o vizinho do andar de baixo. (Está visto que os belgas têm o intestino educado à hora, talvez ao minuto, ou mesmo ao segundo.) Os vizinhos denunciam o caso à polícia ou vão directamente invectivar os infractores. Os vizinhos impacientam-se com tudo o que belisca os seus direitos. Os vizinhos são uma chaga. Os vizinhos (também) somos nós.

O belga com mentalidade de belga vai de férias, programadas com dois anos de antecedência, bien sur, e depois come, come, come, come como se não houvesse amanhã, porque está tudo incluído no pacote. O belga com mentalidade de belga que não é classe média é isto com mais requinte e discrição. Faz da avareza um desporto nacional porque desperdiçar é um ultraje. Uma certa austeridade cai bem, e estamos no tempo dela.

Excusez moi mon français, mas os belgas tendem a ser chatos como a potassa. Terem como ex-libris um menino a fazer pipi numa esquina sempre apinhada (o Manneken Pis) é só uma confirmação da frase anterior.

Dado isto como adquirido, é espantoso que tenham saído desta mesmíssima Bélgica figuras fulgurantes como Jacques Brel ou René Magritte. Para não falar de Simenon. Um tal sentido de transgressão, sexual e não só, uma tão exacta identificação da alma humana, de que são mestres, derivam desta formatação obsessiva?, de uma compreensível tentativa de escapar dela?

Sábado. O trânsito flui sem congestionamento. As obras estão assinaladas. As ruas estão razoavelmente limpas. Autóctones e visitantes dão passeios higiénicos a seguir ao jantar. Nos cafés de bairro onde há uma table communale partilha-se a manteiga e a compota com o vizinho do lado (é favor dizer aos inspectores da ASAE que os espera um festim na Bélgica e que é urgente que façam a transumância para aquele país, em socorro dos belgas, mortos ou contaminados pela bicheza que, sem dúvida, e segundo a ASAE, ataca a manteiga e a compota portuguesas e os faz, a eles, inspectores da ASAE, avançar que nem formiga branca pelas tables desse Portugal).

Tudo funciona automaticamente, mesmo que o país esteja sem governo há coisa de um ano. Imaginem como seria em Portugal. Se a Bélgica não fosse a Bélgica, a esta hora a Bélgica seria o caos. Até podia ser Portugal. Na penúria. Em todo o caso, racé.

Muito antes da Bruxelas tecnocrata, onde se alinham pastas, gravatas, assessores, directores, eurodeputados, cabelos penteadinhos, uma notável concentração de gente feia, muito antes do enxame de estrangeiros que deslizam no aeroporto numa mala com skate incorporado, a cidade tinha um charme que extravasava a Grand Place. E tem. Onde? Por exemplo, nas fachadas de edifícios desenhados por Victor Horta. Vê-las justifica uma ida a Bruxelas. Sem favor.

O trabalho de Horta, que nasceu no final do século XIX, não pode ser desligado do que aconteceu em Viena no virar do século XIX para o XX.

A Secessão Vienense foi um movimento artístico de protesto contra uma sociedade atávica, conservadora, como Viena era então. O pintor Klimt e o arquitecto Otto Wagner são nomes proeminentes que ergueram a bandeira do movimento. O estilo Art Nouveau – Jugendstil propunha arrasar a pompa e o barroco do passado e fazer a defesa de uma arte mais próxima das formas vivas. Abaixo o imperialismo do edifício da ópera de Viena, viva o museu da Secessão, um edifício de formas puras com folhas douradas na fachada e na cúpula (tão discreto que mal se dá por ele).

É claro que um movimento destes não surge isolado, e é fácil pensar que na mesa de café do lado estavam Freud, Wittgenstein, Schnitzler a escrever A menina Else. Como é fácil pensar que na cidade do lado outros artistas eram contaminados pelo que se passava em Viena. Que a contaminação era recíproca.

O precursor da Art Nouveau na Bélgica surge nesta Europa em mudança. Que temos então? Ferro e madeira que assumem formas vegetais. Mosaicos que encantam como caleidoscópios. Vitrais que contam histórias. Os livros ensinam uma das premissas essenciais do trabalho de Horta: a decoração e a estrutura formam um todo. Uma fachada basta para perceber o conteúdo da frase anterior. A sua casa (que fica um pouco fora de mão, mas só um pouco, e que vale muito a pena) funciona como uma síntese poderosa do seu trabalho.

Horta deve ter nascido com um tijolo na barriga – confirmando o que os belgas dizem de si próprios, querendo com isto dizer que estão sempre a fazer obras, e considerando o ditado um elogio. No caso de Horta, nenhuma dúvida quanto ao facto de ser um elogio.

Mas tenho dificuldade em acreditar que Brel nasceu com um tijolo na barriga. A admiração que Brel me desperta, e que suplanta a que tenho por Horta, não permite aceitar esta imagem. No caso de Horta é não só aceitável como justificada, porque Horta é um arquitecto. Mas Brel, Brel é um ícone de uma geração, a expressão de um tempo, e todos os adjectivos são insuficientes para falar dele. Brel tinha um talento raro para nos salvar da nossa noite escura, na tradução que fazia da sua (e da nossa) noite escura. Um talento para dizer da guerra, da cobardia, da vida de todos os dias. Para falar do amor (não me lembro de outro homem a cantar a uma mulher “Deixa-me ser a sombra da tua sombra, a sombra da tua mão, a sombra do teu cão”. Lancinante.)

A fundação Jacques Brel tem uma programação que celebra a vida e a obra do artista. Pode ser uma exposição na qual se destaca a relação do autor com os seus compatriotas, pode ser uma exposição que sublinha no mapa os lugares de Bruxelas que fazem parte do imaginário e das canções de Brel.

Visitar a cidade pela mão de Brel pode transformar-se num enredo entusiasmante. Ainda mais porque Bruxelas é uma daquelas cidades onde, por razões profissionais, se vai amiúde, e em três passeios, fica vista. De certa forma, uma boa companhia muda a nossa percepção de um lugar. E Brel é um velho amigo. Cumprimentos, se forem por lá.

Outros amigos: Magritte, cujo museu inaugurou há cerca de um ano, e que é interessante sem ser espectacular, ou Bruegel, o Novo e o Velho, que pode ser visto no Mont des Arts, ou James Ensor, cuja obra não pode ser vista em lado nenhum. (Não se acredita, pergunta-se novamente. Em lado nenhum. Terei percebido mal? Só mais uma vez. No Ensor. No answer.) Se alguma vez as autoridades belgas decidirem mostrar um artista superior como Ensor, esta vossa dedicada escriba mete-se no aviãozinho e vai lá ver. Isto se restarem uns cobres no bolso. O que não é certo, dado vivermos tempos de formiga branca. Tempos de eles comem tudo, eles comem tudo.

Para os que, contrariando os tempos, consideram que gordura é formosura, Rubens está sempre à mão. (Os chocolates também, e os belgas são mesmo os melhores do mundo. Uma trufa da Marcolini faz milagres pela nossa felicidade.)

O pintor tinha de si uma grande ideia: “Por causa da minha natureza, estou talhado para realizar grandes obras, mais do que pequenas curiosidades. Cada um de acordo com o seu dom. O meu talento nunca se intimidou diante de nenhuma empresa, seja qual for o tamanho e o tema”. Na casa-museu de Antuérpia, a meia hora de Bruxelas, é possível seguir a vida de um homem da corte. Rubens foi diplomata, amante de mulheres arfantes, homem de negócios, coleccionador de estátuas, livros, obras de arte, um católico que, ao pintar, servia o ideário da Contra Reforma. Era na casa de Antuérpia que os seus assistentes se ocupavam de tarefas como misturar cores, preparar telas, realizar cópias de trabalhos, fazer face às encomendas. Uma verdadeira oficina. Velásquez foi um desses assistentes. Não é certo a partir de que momento passou a ser melhor do que o mestre.

Chegados a este ponto da prosa, é preciso dizer que o melhor da Bélgica são os belgas (alguns belgas, pelo menos). Mas um guia de Bruxelas deve, pelo menos, referir-se às moules do Chez Leon, aos parques lindíssimos, aos mantos de folhas macias, à arte urbana (em vez de grafittis, banda desenhada, Tintin por todo o lado), às galerias de telhado abobadado, de vidro, às livrarias onde é possível encomendar livros de Elias Canetti que não se encontram em lado nenhum, e onde é fácil imaginar Pacheco Pereira e Vasco Graça Moura quando eram eurodeputados, e todos os bibliófilos que se sentem em casa em Bruxelas.

Um guia de Bruxelas tem de incluir um glossário básico. Désolée, dangereux e interdit ajudam a compreender as idiossincrasias dos belgas. A paciência, a frontalidade com que se pergunta “Como é que tu progrediste na carreira?, quanto é que tu ganhas?”, a tendência para o regulamentozinho, também. Se quiser aderir a valer, afie a faca para os franceses ou mesmo para os vizinhos flamengos (tudo na cidade está indicado nas duas línguas).

Se tudo correr mal, meta-se no comboio e mergulhe no passado. Bruges, a magnífica cidade medieval, fica a uma hora de distância. Se tudo correr mal, mesmo em Bruges, ou mesmo depois de mergulhar num Simenon, é bom ter a noção de que é um caso perdido… E o problema não está na chateza dos belgas.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2011

 

 

 

 

 

 

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