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Cândida Pinto (s/ Snu Abecassis)

Snu é uma mulher a quem a vida não acontece por acaso. Elegante e marmórea. Discreta e misteriosa. Fundadora da editora Dom Quixote. A nórdica que casou com um Abecassis. A ilegítima que tem uma união de facto com Sá Carneiro. Por ela, ele poderia dizer: o meu reino por esta mulher.

A jornalista Cândida Pinto traçou-lhe a biografia.

Sabemos de Snu Abecassis porque ela se apaixonou por alguém que estava “numa situação de querer fazer. No caso, o governo de um país. Não é uma coisa pequena”. Viveu com Francisco Sá Carneiro um romance intenso, que chegou às páginas da Time pelo seu carácter atípico. O líder do PSD continuava formalmente casado com Isabel, mas assumia Snu como sua mulher nos compromissos oficiais. O impacto desta mulher, “reservada e fugidia” na vida de Sá Carneiro, o seu percurso nos cinco países onde viveu, as suas raízes familiares, o encontro com o companheiro que a traz a Portugal, e com quem tem três filhos, são abordados na biografia que Cândida Pinto escreveu.

Snu e a Vida Privada com Sá Carneiro é lançado, como não podia deixar de ser, pela Dom Quixote, a editora que a dinamarquesa fundou nos anos 60. A génese do livro é uma reportagem que Cândida Pinto assinou para a SIC, e com a qual ganhou o Grande Prémio Gazeta 2005.

 

 Relata um episódio no livro que dá uma ideia do que eram os mundos de Snu e de Sá Carneiro quando se apaixonam. “Todas as noites Conceição Monteiro estabelece o elo que os dois aguardam. Telefona a Francisco Sá Carneiro que está de férias em Barcelos com Isabel e os filhos. «A família está habituada a que eu ligue com recados do partido, pedidos de entrevista, é normal eu telefonar.»”. Snu está em Marbella.

Snu dá-lhe um mundo que ele não tinha. Portugal é o quinto país onde ela vive, depois da Dinamarca, Suécia, Inglaterra e Estados Unidos. O background de Snu, as raízes, as relações, são opostas às de Sá Carneiro. Quando vem para Portugal, procura aqui referências do mundo, de pessoas que viajam, de não-portugueses, nas embaixadas.

Quando era jovem, Sá Carneiro viajou um pouco pela Europa com um tio. Mas o seu mundo era muito português. Era advogado no Porto, seguindo a tradição do pai e do avô. A família era conservadora, tradicional, católica. Ia à missa todos os dias.

 

Dava um beijo na mão ao pai, e essa era a maneira de o cumprimentar.

Sim, ao pai e à mãe. O filho [Francisco] contou-me que quando se juntavam em almoços de domingo, os próprios filhos cumprimentavam com um beijo na mão a avó e o avô. As regras eram muito rígidas, a educação austera, e dentro das paredes da casa da Rua da Picardia, no Porto. Uma redoma de granito.

Quando vem para Lisboa, há o primeiro corte com a família. (Já tinha estudado Direito em Lisboa, mas volta para o Porto para exercer advocacia). É atraído pela política. Primeiro na Ala Liberal. Começa a ter uma maior abertura. Apesar de ser bastante solitário. Vivia num quarto de hotel, no Tivoli Jardim. Viajou, foi a Angola. Foi visitar presos a Caxias. Alguma coisa que lhe vinha da influência da Igreja, do bispo do Porto. Alguma preocupação com a liberdade de imprensa, com a liberdade de expressão.

 

Essa preocupação era, sobretudo, por via do catolicismo e do cuidado com o outro?, e menos uma preocupação política?

Exactamente. A religião atravessa-se na vida de Sá Carneiro, que leva para a política alguns desses valores.

A Snu está noutro extremo. Não teve educação religiosa, nasce em plena Segunda Guerra Mundial. Muito pequena é levada para a Suécia, porque a Suécia é neutra. Fogem à invasão da Dinamarca. Os pais estavam altamente envolvidos na Resistência dinamarquesa.

 

Eram judeus?

Têm leves influências nas suas raízes, mas não são marcadamente judeus. A mãe acaba por se apaixonar por um grande magnata da imprensa sueca, Tor Bonnier, de raízes judias.

 

Também o homem com quem Snu vem a casar, Vasco Abecassis, é judeu.

Encontra-o na escola Michael Hall, em Inglaterra. Namoram, casam na Suécia, e vão viver para os Estados Unidos, porque o pai de Vasco tinha um escritório em Nova Iorque, de que o filho toma conta. Só em 1960/ 62 é que vêm para Portugal.

 

Apesar da diferença total em relação ao sítio de onde provêm, em relação aos afectos, tanto quanto se percebe no seu livro, a educação que recebem é semelhante. Igualmente contida. A Snu colou-se o epíteto de mulher fria.

A ideia com que fiquei é que o pai de Snu era afectuoso. Contava-lhe histórias. A mãe impunha mais regras. Não existia a mesma proximidade.

 

Natália Correia, numa carta que escreve a Sá Carneiro, fala de Snu como “uma bela adormecida num esquife de gelo, que espera o teu beijo de fogo. Só ele poderá derreter a clausura glacial…”. Outros que privaram com eles descrevem a relação como sendo não-fria. Aquele encontro derreteu-os?

A Natália gostava de meter o fogo da paixão no que podia. Tinha um certo feeling para encontrar pessoas compatíveis.

 

Natália foi a casamenteira desta relação.

Sem dúvida. O António Damásio falava, com um enorme carinho, de como eles se soltaram nos Estados Unidos, em casa dele. Que não tinham retracção em mostrar o afecto que tinham um pelo outro. Embora fossem explícitos na exposição da relação, no procurarem estar juntos sempre, era mais pela acção do que pelas palavras que manifestavam essa paixão.

 

Há uma frase de Snu que nos faz perceber a atracção que sente por Sá Carneiro, ou por homens como ele. O marido, Vasco, vê um programa político na televisão, e ela comenta: “Em vez de estares a ver televisão devias estar a ser visto na televisão”. Porquê esta atracção pelos fazedores?

Queria, desde sempre, deixar uma marca. A mãe dizia que ela achava que tinha uma missão. Nos seus diários de muito jovem escreve que não se contentaria em fazer coisas pequenas. Queria mexer.

 

Era por narcisismo, tinha uma grande ideia de si própria?

Não. Tinha a ideia de melhorar a comunidade onde estava inserida, de abrir portas e janelas, mentalidades. O Vasco diz que quando convidava políticos para sua casa, para tertúlias, com escritores, com artistas, queria conhecê-los e ver como é que, à sua maneira, podia participar. Encontrou a sua forma de participar através da Dom Quixote. Por influência também do padrasto. Essa vontade de fazer, encontrou-a em Sá Carneiro, é óbvio. Embora por vezes as coisas não resultassem, cortassem a direito, fossem pouco dados a consensos. Era mais importante fazer do que ficar nas meias tintas do “não se sabe se resulta”.

 

Nesse sentido, Vasco não correspondia completamente àquilo que Snu esperaria de um homem, alguém mais interventor no espaço público.

Ela replica aquilo que a mãe fez. A mãe desliga-se de um primeiro marido, um intelectual mais reservado, para casar com alguém que tem outros meios, outra capacidade financeira. Vivem numa mansão lindíssima em Estocolmo, junto a um dos canais. Uma vida desafogada, de grande liberdade.

 

A mãe parece uma personagem fundamental para sabermos quem foi Snu.

Conheci-a brevemente em Lisboa. Era uma mulher com uma personalidade muito forte, quase intimidatória. Uns olhos que não paravam. Não gostava de perder tempo com nada. Havia coisas importantes para fazer, no mundo, no país, onde fosse possível. O facto de nunca se ter esclarecido se Camarate foi atentado ou acidente, para a mãe era uma questão inacreditável. Como é que um país se podia dar ao luxo de não ter investigado para chegar a uma conclusão? Para ela as coisas tinham que ser brancas ou pretas, as zonas cinzentas não faziam sentido.

 

O pai de Tor, o padrasto de Snu, é o editor de Strindberg. A mansão onde vivem é aquela onde Camus vai jantar depois de receber o Nobel. Estes dois nomes dão uma ideia da esfera em que se movimentam. Toda a Europa ali conflui.

E há ligações internacionais muito fortes aos Estados Unidos, também. Muitos dos laureados com o Nobel eram editados por ele, lançava-os em várias zonas do mundo.

 

O primeiro emprego da mãe fora dos países nórdicos é na Penguin Books, em Inglaterra. Também é na edição, e não na escrita – e o pai era jornalista – que Snu acaba por se afirmar.

Os Cadernos da Dom Quixote são um pouco os livros da Penguin Books. São pequenos livros que não são ficção, que vão buscar artigos à imprensa internacional. O meio da edição, da literatura e da imprensa escrita era o meio que Snu conhecia com sucesso, do padrasto, que ela idolatrava, da mãe e do pai. Por um lado traz esse background da edição, e por outro lado chega a um país onde isso está por fazer.

 

Snu nunca se rebelou contra esta mãe que parece, como disse, um pouco intimidatória? Replica obedientemente o percurso dela.

A relação não é fácil entre mãe e filhas, sobretudo quando são crianças. É uma educação com falhas de afecto, com uma forma de ser autoritária. A própria irmã da Snu contou que por vezes havia gritos, discussões entre elas e a mãe. É curioso que quando encontra o Francisco Sá Carneiro vai procurar primeiro a aprovação do pai. Há ali uma certa tensão. Até pela área político-ideológica em que o Francisco Sá Carneiro se posicionava. A mãe, social-democrata, estava mais à esquerda do que o próprio Sá Carneiro. O pai era mais liberal.

 

Quais foram os grandes momentos em que Snu procurou a aprovação da mãe?

Quando lhe apresenta Vasco, o seu namorado da escola inglesa.

 

Há uma previsibilidade social naquele percurso. Vasco era rico, bem-nascido, cosmopolita – três itens indispensáveis. Apesar de ser português e de, naquela altura, Portugal ser uma espécie de país inexistente.

A mãe diz: “Portugal? Uma língua que não se percebe. Não se sabe nada desse país”. Um país colonialista, um país um pouco desprezível. Vasco é muito pouco português na sua raiz, no seu percurso, a sua formação. Também o seu carácter, a sua personalidade é muito pouco portuguesa.

 

Seria possível a Snu apaixonar-se ou envolver-se com alguém que fosse de um mundo completamente diferente? Que soubesse o que é fazer contas, fazer esticar o dinheiro, por exemplo.

Ela precisou sempre de alguém que a desafiasse, de alguém que lhe desse luta. Uma personalidade passiva dir-lhe-ia pouco. Seria pouco provável que se apaixonasse, ou apresentasse à mãe, uma pessoa que para ela própria não fosse desafiante em várias áreas. Isto é especulação pura, às vezes as paixões acontecem com as personalidades mais opostas.

 

Estávamos a falar dos momentos em que Snu procura a aprovação da mãe.

Jamais avançaria para uma editora em Portugal se não tivesse a aprovação da mãe e do padrasto. Há o aspecto financeiro, que é importante. E há uma rede de contactos, estabelecida em termos internacionais, da qual ela usufrui ao fazer a editora.

 

Nunca se emancipa financeiramente?

A Dom Quixote nunca é uma editora que tenha lucros extraordinários.

 

Sobretudo para fazer a vida que Snu fazia.

Exactamente. Existiam dinheiros da família da Suécia, e a situação da família do marido em Portugal era confortável. Ela nunca se confronta com um problema económico. Os colaboradores da editora, mesmo depois de todos estes anos, continuam a sublinhar aspectos da forma como coordenava a editora. O pagamento de férias, os salários sempre a tempo e horas, os contratos com os escritores escrupulosamente respeitados. Uma das funcionárias dizia que uma vez a acompanhou a Frankfurt, a uma feira, e foi em primeira classe, tal como ela.

 

Era discreta em relação às suas possibilidades materiais?

Era. Nasceu assim, cresceu assim, casou assim, continuou assim.

 

Terceiro grande momento em que ela pede, sem pedir, a aprovação da mãe: quando se apaixona por Sá Carneiro?

A Snu inicialmente teve algumas dúvidas. Quem falou muito disto foi o meio-irmão. A mãe aprova porque ele é alguém que está a meter a mão na massa, num país que precisava de pessoas determinadas.

 

Constrangia-a, e à mãe, o facto do Francisco ser ainda casado?

Bastante. Mais à Snu do que à mãe. Para Snu era uma incompreensão que uma mulher que não vivia com o marido há uma série de tempo [recusasse o divórcio]. Constrangia-a deste ponto de vista. Mas não a limitava. Acompanhava Francisco Sá Carneiro em todas as situações de protocolo.

 

Essa incompreensão é diferente de culpabilidade. Isso ela tinha? Era um estigma no Portugal de então ser “a destruidora de um casamento”.

Não, ela vivia uma segunda vida conjugal com o homem que amava. Estava fora de questão esconder isso. Era algo recíproco, que os alimentava aos dois. E contava o tempo que era necessário passar para que pudessem casar. Essa circunstância tinha um custo. Havia embaraços, humilhações, situações muito delicadas, desconfortáveis. Não era a legítima, era a fora da lei.

 

Relata uma situação do tempo em que Eanes era Presidente da República e Sá Carneiro primeiro-ministro. Falou com Manuela Eanes para tentar esclarecer o que se tinha passado...

É durante a visita do Presidente norte-americano Jimmy Carter e da esposa a Portugal. Há uma parte do programa, habitual nessas visitas de Estado, em que Snu acompanha Sá Carneiro; na chegada ao aeroporto, na deposição de uma coroa de flores nos Jerónimos. E há um programa alternativo com a primeira-dama norte-americana, Rosalynn Carter, a que Snu não tem acesso. A esposa do Presidente da República, Manuela Eanes, entendeu que Snu não deveria estar porque não era mulher legítima de Sá Carneiro. Snu acaba por sair dos Jerónimos com Maria José Freitas do Amaral (Diogo Freitas do Amaral era ministro dos Negócios Estrangeiros). Vão para casa, cada uma para a sua casa, e não falam do assunto, constrangidas.

 

A verdade é que muito estava em jogo com aquele romance. A circunstância de Sá Carneiro ser líder de um partido conservador e com uma base católica, diz muito desta dificuldade.

E com uma aliança à direita com o CDS.

 

Onde quero chegar: não era apenas o constrangimento protocolar, eram votos que estavam em causa.

Sim. E isso era sentido na AD, quer no PSD quer no CDS. Isto mede muito o grau de paixão que Francisco Sá Carneiro tinha por Snu: várias vezes a coloca como elemento determinante para prosseguir uma carreira política. Quando a AD vence as eleições, fala com os parceiros de coligação no sentido de perceber se é para eles um constrangimento que a mulher que o acompanha não seja a sua legítima esposa. Se isso for um constrangimento, abdicará em função de outro elemento do PSD. Quando está para ser nomeado primeiro-ministro tem uma conversa preliminar com Ramalho Eanes e expõe o caso da mesma forma. O país está dividido ao meio politicamente, entre a esquerda e a direita; Sá Carneiro joga metade do eleitorado português e uma mulher.

 

Não deixa de ser extraordinário que em conversas de Estado os assuntos privados tenham um lugar tão determinante. É hoje mais ou menos impensável que Passos Coelho vá falar com Cavaco, que fale da sua vida privada, e que isto tenha um peso de Estado.

É uma união de facto nova na sua exposição. O que era natural na altura era manter as amantes e continuar com a vida política e as famílias.

 

É igualmente extraordinário o caminho que Sá Carneiro teve que fazer para chegar àquela situação, e ser capaz de a defender. Não esqueçamos a imagem daquele que beija a mão dos pais e vai à missa diariamente.

Deixa de ir à missa, pura e simplesmente. A Conceição Monteiro contou que, mesmo em campanhas eleitorais anteriores, marcava missa nos sítios por onde passava. Quando aparece Snu, ele deixa de frequentar a Igreja Católica, e a Igreja também não o aceita. A Igreja não estava com a esquerda, mas não podia expor o seu apoio à direita, porque o líder vivia em pecado.

 

Ele sentia culpabilidade por ter sucumbido a esta paixão, por viver desta maneira?

Devia sentir momentos de desconforto, de inquietação. Mas aquela mulher compensava-o de todos embaraços políticos e religiosos.  

Há outro aspecto importante: a saúde dele, frágil. Teve um acidente de viação grave em 1973, antes de conhecer Snu. Em 1975 houve um acidente em Inglaterra, que o fragilizou e levou a um internamento. Embora surja sempre como uma muralha, um orador que se expõe de forma muito viva, determinada (gosta de quebrar, voltar, destabilizar, impor as suas ideias, lutar por elas mesmo provocando perturbações políticas dentro do seu partido) há uma fragilidade de saúde que lhe dá uma urgência de viver.

 

Os dois parecem muralhas. Em nenhum momento conseguimos vislumbrar as zonas de fragilidade ou insegurança de Snu ou Sá Carneiro. Qual é a sua opinião?

Eles tinham fragilidades e inseguranças. Sá Carneiro encontra em Snu uma forma de superar inseguranças, afectivas, de horizontes. Ela tinha dificuldade, pelas circunstâncias públicas em que vivem, em confrontar-se com as pessoas directamente. As situações públicas em que estão, de campanha eleitoral, de comícios, são momentos de insegurança. Está ali com ele, e por ele, e ele quer mantê-la na linha de vista. E está sujeita a ouvir tudo e mais alguma coisa, de pessoas que desconhece. Não se mistura com as pessoas, não vai cumprimentá-las.

 

Isso é também, no fundo, a vida de Snu em Portugal. Nunca se inseriu completamente. Não tinha, a título pessoal, essa facilidade.

Não é extrovertida, não é espontânea. Nem nunca escolhe esse caminho. Dá-se bem em pequenos círculos, com os intelectuais, os políticos, o seu grupo na Dom Quixote. Não se mistura com as portuguesas. Tem algumas amigas através do Francisco, que acabam por fazer parte daquele círculo.

 

Não deixa de ser curioso que uma das pessoas a quem começa por contar que está apaixonada por Francisco Sá Carneiro seja a cunhada, irmã do marido, de quem se tinha separado.

Há uma fase importante e difícil: os dois anos que Vasco passa na [guerra colonial, na] Guiné. Snu fica aqui sozinha e a cunhada acompanha-a muito, em casa e na Dom Quixote, onde tem um part-time. Têm miúdos da mesma idade, criam uma relação forte.

E tem com a sogra, francesa, Lucianne, uma relação de grande entendimento. Tinham longas conversas, tomavam chá juntas. Podiam falar uma tarde inteira de literatura, não havia a obrigação do laço.

 

Nesse círculo restrito, em casa, era uma mulher que podia desmoronar, que podia partilhar as afrontas que sofria, do que isso lhe custava?

Creio que sim. Algumas vezes com essa cunhada, outras vezes com a Helle Lima de Freitas, dinamarquesa, que vivia aqui em Portugal.

 

António Damásio, no prefácio, diz que Snu tinha um estatuto mítico. É legítimo perguntarmos se ganhou esse estatuto mercê da morte precoce, de todas as circunstâncias que a rodearam, ou se já existia então, e o que é que contribuía para ele. Nota que “pairava sobre eles uma sombra difícil de definir (…), a inquietude era palpável”.

O estatuto mítico surge com a morte prematura. Se não tem existido aquele acidente/atentado, a queda do Cessna, as coisas poderiam ter tido outro caminho. A Isabel Sá Carneiro disse-me que tinha confessado à Agustina Bessa-Luís que tencionava dar o divórcio no final de 1980.

 

Damásio fala também da beleza dela. As fotografias, sobretudo de quando era jovem, parecem de uma actriz dos filmes de Bergman. A maneira como veste, como está, tudo era insólito e distinto dos parâmetros de beleza e de elegância vigentes em Portugal.

Essa marca, transporta sempre. O filho de Sá Carneiro, o Francisco, dizia que há pessoas que se destacam por falar alto; há pessoas que se destacam por falar bem; ela destacava-se por estar. Era uma mulher diferente das portuguesas médias. Para além de ter uma fisionomia diferente, tinha uma elegância diferente.

 

Um parêntesis a propósito da vida confortável e do que isso lhe permitia: um dos momentos mais divertidos do livro é quando fala da ida de Snu à PIDE, com os seus casacos de vison.

Para escandalizar.

 

Tinha o conforto de quem sabe que pertence a uma família que se dá bem com o regime, e que não lhe aconteceria nada, e a provocação de aparecer de casaco de vison depois de ter publicado um poeta russo e de o ter levado a Fátima.

Exibe essa qualidade.

 

Há poucas fotografias dela a sorrir. O que é que acha que a expressão corporal diz?

Mostra-a como uma pessoa reservada, voltada para o tal círculo onde se movimenta confortavelmente. Auto-suficiente.

 

Entediada?

Às vezes parece. Tinha pouca paciência para as dificuldades. Era-lhe incompreensível a falta de rigor nos horários, os dias não começarem às sete da manhã…, aquelas coisas muito portuguesas.

 

No meio desta auto-suficiência, onde tudo correu sempre tão bem, visto do lado dos fortes, como é que eram olhados os mais fracos?

A Maria José Freitas do Amaral contava que a Snu por vezes olhava a multidão dos comícios e dizia: “Não sabem ler, não leram nada”. Não acho que existisse uma desconsideração mas uma distância que ela traduzia na sua acção: “Temos de fazer livros para instruir esta gente”. A Maria José Freitas do Amaral respondia-lhe que a democracia era muito recente, que era natural que as pessoas fossem provincianas.

Depois tinha uma atitude inversa com as pessoas com quem trabalhava. Antigos prisioneiros políticos, pessoas com qualificações não muito elevadas. Que tratava bem e que respeitava. Nunca escolheu os seus colaboradores, por exemplo, em função de distinções ideológicas. Todos os anos fazia um passeio com os colaboradores, ao Algarve, a Conímbriga; era um dia em que pagava tudo do bolso dela, para incentivar o encontro entre eles. Não tenho ideia que fizesse distinções classistas rígidas.

 

Snu influencia politicamente Sá Carneiro? Provém da social-democracia nórdica, há muito consolidada.

Sem dúvida. Nesse aspecto tem uma influência grande. No incentivo, na determinação, no “faz sentido lutar por”.

 

O que acha que é a sombra de que fala António Damásio? “Nas visitas que lhes fizemos em Lisboa, a última no Outono de 1980, a sombra estava mais acentuada”.

Nesse Outono de 80, essa sombra tem a ver com duas circunstâncias. Snu tinha muitas dúvidas que aquele candidato presidencial [Soares Carneiro] fosse um candidato vencedor. Existia uma outra questão, que tem a ver com dúvidas em relação à segurança deles. A investigação que [Adelino] Amaro da Costa andaria a fazer enquanto ministro da Defesa, sobre tráfico de armas, e que poderia ter consequências complicadas. Eram aconselhados a ter cuidado. Ela era aconselhada a não conduzir sozinha, a manter um elemento de segurança.  

 

As questões da segurança eram suficientemente sérias para ela falar delas à mãe. “Jytte já lhe tinha notado o receio de viajar em aviões pequenos, o medo de que fosse alvo de sabotagem”. Há um telefonema em que Snu diz que vão numa carreira regular e que não há problemas.

Havia a eventual questão do atentado, e a insegurança que esses aviõezinhos tinham. Ninguém sabia muito bem como é que era feita a manutenção, muito mais amadora do que hoje.

 

O Cessna tem toda uma trajectória, que traça no livro, rocambolesca, duvidosa.

É uma história incrível. A forma como o avião é encontrado, todas as peripécias no aeroporto de Caracas, um motor que explode no caminho... Mas o avião, na altura, teoricamente, estava em condições. Voltando ao que o António Damásio diz: essa sombra tem a ver com algum isolamento, desgaste. E de pouca fé num resultado eleitoral, num candidato de recurso, sem carisma.

 

O que aquilo foi – atentado, acidente – tem as mais diferentes interpretações. Inclusive, interpretações diferentes quer de Rebecca, filha de Snu, quer de Francisco, filho de Sá Carneiro, que foi viver com eles. Surpreendeu-a a diferença na interpretação que fazem daquela história, que é também a sua história?

A Rebecca tem alguma coisa da avó – “Como é que isto não está esclarecido? Um acidente, seria fácil…”. Eles são muito diferentes, a Rebecca e o Francisco, e ao mesmo tempo têm uma relação de irmãos, fortíssima, até hoje. Acabam por viver intensamente a vida do pai e da mãe, e depois vivem os dois. Ela tinha nove anos. O Francisco é mais comedido na exposição das coisas.

 

Qual é a sua opinião sobre a queda? Esta palavra é a mais neutra.

Não tenho uma opinião determinada porque nunca estudei a fundo as circunstâncias do acidente ou do atentado. O que me interessava era a vida dela. A razão da morte é uma outra história, que depois resvala para a falta de provas, testemunhas duvidosas, e 30 anos de adiamentos, comissões sucessivas, investigação sem uma conclusão. Esses aviões eram aparelhos muito frágeis; isso não invalida que tenha existido um atentado.

 

Um tema íntimo para o fim: o papel dos filhos na vida de Snu. Isto de que falámos é a mulher que mudou os destinos daquele homem, e consequentemente esteve presente na história recente do país. Mas como era ela enquanto mãe?

Quando comecei a trabalhar este assunto, para a Grande Reportagem da SIC, há cinco anos, impressionou-me a relação dela com os filhos. Há uma zona de obrigação e dependência com a qual ela não lida bem. Se calhar porque sou portuguesa, porque sou latina, faz-me alguma impressão a distância nos afectos de pais para filhos, de mãe para filhos. (Curiosamente, os filhos de Snu alteraram a relação que têm com os seus próprios filhos, têm uma relação extremamente próxima.) Tudo estava muito compartimentado, havia pouca espontaneidade na relação. A relação com a filha mais velha é muito difícil, têm choques de personalidades absolutos.

 

Essa filha é parecida com ela?, o choque deriva daí?

Não, essa filha é mais parecida com o pai, que é um ser extrovertido, cheio de humor, voltado para fora. As duas personalidades colidem a tal ponto que Snu, depois da separação, expulsa a filha mais velha de casa. Há uma ruptura grande.

 

Que idade tinha a filha nessa altura?

Catorze anos. O filho do meio, dos três, era o que tinha a relação mais forte com a mãe. A Rebecca era muito pequena. A Rebecca tem mais memórias dela com o irmão Francisco, que não lhe é nada, que com os próprios irmãos. A irmã mais velha estava a viver com o pai, o irmão do meio estava num colégio interno, na Suíça. (Os pais, Snu e Vasco, acabam por replicar a educação que receberam: colégios internos, fora da vida dos pais, formação no estrangeiro).

 

O destino da Rebeca seria esse?

Acho que já não. Snu estaria noutra fase. Ela não se expunha, não dava entrevistas. Mas deu uma, em 1980.

 

Já na qualidade de primeira-dama. Como se se sentisse obrigada a fazer uma concessão.

Deu a uma jornalista dinamarquesa de quem era amiga. Na entrevista diz uma coisa incrível: que é importante passar tempo com os filhos. Uma coisa que não tinha praticado na infância dos filhos mais velhos.

 

Falou com a Mikaela para a elaboração deste livro?

Por e-mail.

 

Todos os filhos dizem coisas diferentes dos pais. Mas é fácil presumir que o retrato da Mikaela seja completamente diferente do de Ricardo ou Rebecca.

É diferente. O Ricardo admite que para a Mikaela a morte da mãe foi especialmente difícil, porque a relação entre elas não era boa e nunca houve oportunidade para repor essa relação. É uma coisa muito perturbadora que a acompanha durante muito tempo. A Rebecca fica com uma saudade imensa. É uma procura que tem na vida, por essa mãe. Somos colegas e amigas. Dediquei-lhe o livro.

 

O Francisco Sá Carneiro, filho, cortou com a família da mãe quando escolheu viver com o pai e com Snu em Lisboa. Que relação tinha com ela? Ela via-o como um quarto filho?

Acho que ela o recebeu como um filho adoptivo, sem os problemas que teve com os outros, e com uma enorme vontade que a relação entre eles resultasse. Fazia parte da família a quatro (ela própria, Sá Carneiro, Francisco, Rebecca) em que estava empenhada.

 

 

 Publicado originalmente no Público em 2011

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