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Nini Andrade Silva

O que é criar ambientes? Não é dispor cadeiras, mesas e sofás.

É criar fantasia. E, no caso de Nini Andrade Silva, é transformar a fantasia em realidade. A premiada designer madeirense explica como é que faz.

Início da tarde. Uma luz mágica incide sobre os olhos de Nini Andrade Silva e fá-los de um azul puro. O cabelo é muito louro, corte preciso. Cara redonda, angelical. Uma beleza diáfana que é quebrada pelo que diz. Um certo modo de falar, peculiar. Adoptando expressões antigas, usando o gerúndio. O sotaque madeirense, cerrado. O riso muito largo. A descontracção de quem já viveu imenso e não sucumbiu às intempéries. A morte dos pais. A doença dela (de que fala pouco, mas o suficiente). Estática, ela é uma. E outra, ágil, vitalista, criativa, quando se expressa.

Chega pontualíssima, confere a hora no relógio, pousa a mala Prada sobre uma cadeira, mede a luz para as fotografias. Veste uma roupa preta com que anda sempre. “Os meus pijaminhas”. Para não perder tempo nos aeroportos, enrola três camisolas e duas calças iguais num saco de mão, e embarca. E para ter a certeza de que não lhe colocam objectos indesejados na mala… Depois, mistura os pijaminhas com uns sapatos de salto alto para ir jantar à embaixada, ou com os chinelos de meter o dedo para andar entre as pessoas da rua.

Com uns e outros, está sempre bem.

Com ela, nada é demasiado sério. Porque sabe ser grande e ser simples.

O que é que ela faz? Cria ambientes. É designer de interiores. Mais do que tudo, faz a arquitectura de interiores de hotéis. Something big. Positiva. “Às vezes estou fazendo um trabalho e não sei como é que vai acabar, mas sei que vai acabar bem”. Lidera uma equipa de 40 pessoas. Vive numa casa minimalista na Madeira. (Verdadeiramente vive no mundo todo). O seu estilo é minimal, ou ninimalista, como já lhe chamaram.

O que ela faz, não é para ter aquilo. É para conseguir fazer aquilo.

Tem 48 anos.

Em Novembro do ano passado ganhou prémios europeus pelo seu hotel The Vine, na Madeira.

Sim, Nini Andrade Silva está entre os melhores do mundo. E sem saber explicar porquê ela sente que já veio com o mundo inteiro dentro dela.

 

 

 

 

 

Como é a sua casa?

A minha casa já não existe. A minha casa, na realidade, era a casa dos meus pais. Os meus pais já morreram, a casa já não existe no sítio onde existia. Era uma casa fantástica, com um jardim enorme e uma escola. Os meus pais eram professores e tínhamos sempre muitas crianças em casa. Oitenta crianças, todos os dias. Eu não andei nessa escola. Fui para um colégio porque era muito acelerada.

 

Como eram os espaços dessa casa? Para depois perceber como é que cria espaços.

Os meus espaços não têm nada a ver com essa casa. As coisas que faço têm a ver com a vivência que tive no mundo inteiro. Era uma casa típica madeirense, com “tapa sóis”, portadas em reguazinhas de madeira verde. Grande, com vários quartos, salas.

 

Do seu quarto, por exemplo, o que é que fica?

Fica uma grande parede. Colava tudo na parede: os bilhetes do autocarro, as passagens do avião, os desenhos que fazia. E também podíamos fazer desenhos na parede, que a mãe deixava.

 

Começou a viajar cedo?

Vivíamos numa ilha, tínhamos de viajar. Vinha muito ao continente e ia às Canárias. Aos 14, 15 anos comecei a ir para os Estados Unidos. Saí do aeroporto JFK, olhei para a rua e não quis acreditar no que estava vendo. Era como entrar num filme!, aqueles prédios, os Cadillac. Hoje em dia, depois de ter viajado para a Ásia, o resto do mundo é muito pequeno. O mundo torna-se pequeno depois de ir à China.

 

O que é que foi fazer com 14 anos aos Estados Unidos?

Fui ver. Tinha uns grandes amigos, a família Kiekeben, que tinha uma fábrica de bordados e needle point. Tinham negócios em Nova Iorque e na Florida e trabalhavam com os melhores designers do mundo, que vinham à Madeira fazer os seus tapetes. Um designer nova-iorquino, o David Easton, vinha de Concorde até Paris, e depois Lisboa e Funchal, só para escolher uma cor. Vendiam para a Ralph Lauren, Estée Lauder, Casa Branca – top. Esta família foi muito importante para mim: abriu-me as portas para tudo o que era Decoração.

 

Eram amigos da sua família?

Os meus pais tinham sido professores dos filhos. Eu namorei um dos filhos durante muitos anos. Era uma família alemã. O que aprendi com eles? Primeiro a ser grande e ser simples. Mas isso já tinha aprendido em casa. Influenciaram-me muito devido a terem o mundo inteiro dentro deles. Levavam-me aos sítios. Esta minha coisa de ir para a China também é do senhor Kiekeben, que sempre disse que o mundo estava a mudar e que tinha de levar o bordado para fora da Madeira. Fui influenciada por várias pessoas que passaram na minha vida; uma delas foi ele.

 

Quem foram as grandes referências na sua vida?

Os meus pais, os meus irmãos. Se pudesse escolher, se voltasse outra vez ao mundo, queria voltar para a mesma casa e começar tudo de novo. Os meus pais eram fantásticos, fantásticos. Eram umas pessoas que nos deixavam ser “nós”. A mãe sempre nos disse que, fosse como fosse, tínhamos de ser nós próprios. Nunca me obrigou a fazer nada. Fisicamente era igual a mim. Tenho um irmão e uma irmã, sou a mais nova. A minha irmã foi uma excelente aluna, já sabia ler aos cinco anos, acabou o curso muito cedo. Era tudo muito correcto com ela. Trabalhou no Turismo durante muitos anos. Trabalha comigo actualmente; é quem me vê os e-mails, é quem trata da minha vida toda.  

 

Voltemos à casa da sua infância. Como eram os ambientes criados pela sua mãe? A escolha dos móveis, das cores.

Sabe, numa casa, não é o que se vê, é o que se sente. Na nossa casa sentiam-se coisas. Não era tanto se estava verde ou roxa. Era uma casa bonita. Cantávamos juntos, fazíamos peças de teatro. Do que sinto falta da casa é do que sentia dentro dela.

 

Consegue lembrar-se mais do que sentia do que dos móveis?

Tínhamos uns móveis clássicos que havia antigamente na Madeira, e que as pessoas ainda têm misturados com coisas modernas. Há sempre quem guarde o móvel da família. O nosso quarto tinha umas cortinas com umas flores laranja pequeninas e um tapete azul no chão. Tinha a cama, e por cima umas prateleiras de uma ponta à outra onde tínhamos livros e bonecos. A minha mãe mandou o mestre reforçar a prateleira não sei quantas vezes para a prateleira não cair em cima de nós.

 

O apelido Andrade Silva é de quem?

Andrade da mãe e Silva do pai. A família do meu pai, Teixeira de Aguiar, era muito, muito conhecida na Madeira. Éramos descendentes do Tristão Vaz Teixeira, que é da zona do Machico. Da parte da minha mãe, éramos da zona da Ribeira Brava. A mãe achou que tínhamos de fazer uma coisa que nascesse com aquela família, e não ficar presos a nome nenhum.

 

Pelo facto de a família do seu pai ser muito conhecida, sentiu que tinha que corresponder às expectativas?

Fui uma artista desde miúda. As pessoas sempre me deram as desculpas… Sempre fiz o que quis. Nunca liguei a nada disso, não. Às vezes as minhas amigas não podiam fazer coisas e eu fazia, porque era uma artista.

 

Havia uma diferença, na escala social, entre a família da sua mãe e a do seu pai? Isso marca as famílias com quem se dão, com quem passam férias, as casas que frequentam

Não, eram do mesmo círculo. Mas amigos, tenho de todos os níveis sociais. Sempre fui igual para todas as pessoas, talvez por isso tenha grande popularidade na Madeira. A máquina é muito grande e pode parar por causa de um parafuso pequeno...  

 

Mas, aos 20 anos, namorava com um igual, de uma família alemã, e não com o marceneiro.

Percebo o que quer dizer. Às vezes, há coisas que faltam, não pelo facto de ser marceneiro, mas pelo facto de não falarem a mesma língua. A pessoa acaba por se juntar com as pessoas que falam a mesma língua.

 

Queria ser artista, já era artista. Isso era só porque desenhava e pintava?

Não. Eu queria ter uma profissão em que pudesse andar de um lado para o outro, viajar. Queria ser artista ou do circo. O circo era o máximo porque podia andar no ar. E gostava de andar no meio de pessoas e ao mesmo tempo só. Queria ser hospedeira, artista ou do circo. E no fim das contas, consegui essas três coisas. Ando sempre de um lado para o outro a trabalhar. Quanto ao circo, era um mundo onde aconteciam coisas que não eram realidade; na minha vida acontecem coisas que não são realidade, porque eu as crio. E artista é o que sou, também.

 

Como é que chegou lá?

Quando uma pessoa quer ser uma coisa e trabalha para isso, consegue. Tem é de lutar. Enquanto muitos dos meus amigos iam para os cafés, sempre me dediquei ao trabalho. Sempre confiei em mim, nunca tive falta de confiança em mim.

 

Isso tem que ver com a educação que teve em casa, com o reforço, sobretudo, da sua mãe?

Tem. O meu pai era um artista; herdei a parte artística do meu pai. A minha mãe era mais séria, mas foi o conjunto dos dois que fez a pessoa que sou. O meu pai também trabalhava bastante. Dava explicações de Matemática e mais tarde foi trabalhar para um banco. A mãe é que trabalhou sempre como professora e, quando se reformou, deu aulas na Academia de Línguas e português para estrangeiros.

 

Isso porque era preciso ganhar dinheiro? O dinheiro era um problema?

O dinheiro é sempre um problema, não é? Há muitos anos, houve na Madeira um banco que foi à falência, e os meus avós, que tinham o dinheiro nesse banco, ficaram sem nada, e tiveram de começar de novo. Penso que os donos desse banco tinham algum engenho, porque as pessoas que perderam dinheiro receberam uma saca de açúcar em vez do dinheiro. É um grande ensinamento.

 

A história funciona ao mesmo tempo como um fantasma? “E se eu ficar sem nada?”

Se o pior acontecesse e tivesse de começar de novo, começava outra coisa de novo. Sei fazer tantas coisas…, isso não me preocupa nada, nada.

 

O que é que sabe fazer bem?

O que sei fazer bem, mesmo, é o que faço. Mas sei fazer outras coisas. Gostava de incentivar pessoas, os jovens. Às vezes vou falar a uma universidade e ficam entusiasmados. As pessoas têm de acreditar em si – é o que falta. É a única maneira de seguir em frente e serem boas naquilo que fazem. Nem que seja a vender tremoços, que é uma coisa que temos muito na Madeira. Isso, eu sabia: o que fosse, tinha de fazer bem. Quando era mais pequena era engraçada…

 

O que é que quer dizer, que era bonita?

Sim, uma menina bonita. Chegava aos sítios e as pessoas diziam: “Oh Nini, está tão gira”… Enervava-me, porque parecia que chegava só por ser bonita. Pensava: “Um dia ainda vão chegar ao meu pé e dar-me valor por aquilo que faço. Não por olhar para mim, mas pelo que faço”. Sempre tive essa mania na cabeça.

 

Porque é que se comove ao falar disso?

Porque acho que consegui [sorriso].

 

Houve momentos em que ser loira de olhos azuis, tão engraçada…

Pode ser mais difícil.

 

Porquê? É difícil lidar com a cobiça sexual dos homens, com a desconfiança das mulheres?

Antigamente as pessoas achavam que as pessoas assim mais loiras não eram capazes de fazer coisas como as outras. Ou talvez fosse da minha cabeça… Quando tinha 15, 16 anos não perguntavam: “O que fez, o que está fazendo?”. Hoje em dia não, felizmente, e eu tenho sempre histórias para contar. Há tempos estava numa embaixada na Índia, cheguei às 7 e tal e à 1 da manhã ainda estava lá, falando, falando. Estava há três meses no Oriente e aproveitei para falar português, que já não falava há muito tempo. A embaixatriz disse: “Nini, estamos a adorar. Devia escrever um livro”.

 

Queria ser notada pelas histórias que contava, pelo que fazia, pelo propósito que tinha, e não pelos seus olhos azuis.

O que faço é que tem valor.

 

Mas quando se é adolescente, e os rapazes se aproximam, não é pela beleza interior.

Pois é. Mas nunca me escondi. Sempre fui muito social. Era uma Maria Rapaz, adorava fazer tudo o que os rapazes faziam. Ficava louca quando me metiam em casa a fazer de mulher do cowboy e a assar batatas no meio de uma fogueirinha em vez de andar aos tiros com eles.

 

Nunca sonhou com o destino da mulher burguesa, bem casada, com filhos loiros e de olhos azuis?

Não, Deus me livre! Um dia perguntei à minha avó se as pessoas eram obrigadas a casar, e a minha avó disse que sim. “Tem a certeza?, ai, ai, ai”. Sempre quis ter a minha vida, fazer o meu trabalho.

 

Consegue perceber esse horror à vida matrimonial e esse desejo de aventura? Por acaso, no seu trabalho, faz mais hotéis do que casas.

Talvez seja o meu espírito de querer ir para ali e para aqui. Se fosse ligada a uma família tinha de lhe dar atenção.

 

É da sua natureza insular o desejo de partir?

Talvez. Aquele mar todo que temos à frente, a pessoa tem necessidade de descobrir o que é que está por trás dele.

 

Com que idade começou a falar?

A minha irmã aos cinco meses falava; disse “água”. Eu tinha mais de um ano, e a única coisa que dizia era “nini”. Por isso é que fiquei a Nini. Água, pai, mãe, era tudo “nini”.

 

Quando era pequena, queria ser como a sua irmã?

Não, não, queria ser como eu. Se quisesse ser como ela tinha sido, que eu fui o que quis.

 

E havia livros e filmes e conversas que alimentavam essa vida? Onde quero chegar é à razão por que cria estes ambientes e não outros. Dos enredos de que se alimentou e alimenta.

Não foi um livro nem um filme, porque toda a vida fiquei sentada a desenhar as minhas coisas. Eu vim com o mundo inteiro dentro de mim, não sei explicar o que é, mas é verdade. Isto veio comigo, agradeço sempre a Deus. Claro que uma pessoa vai na rua e vê coisas, e essas coisas vão entrando na cabeça, e às tantas junta tudo. Com os hotéis, prefiro ir às raízes, África, Amazónia, ver coisas da natureza para daí fazer coisas novas. Senão andamos sempre a olhar uns para os outros e passa a ser só uma coisinha diferente do que o outro já fez.

 

Formou-se no IADE, em Lisboa. Foi uma decisão fácil?

Quando vim tirar o meu curso, as pessoas diziam: “Design não tem interesse nenhum, nunca vai conseguir ganhar dinheiro nenhum. Arquitectura, sim”. A minha mãe chamou-me e disse: “O que é que queres ser?”, “Designer”, “Então é isso que vais ser”.

 

O seu desejo era criar ambientes onde as pessoas se sentissem bem?

Criar ambientes, criar fantasia, transformar a fantasia em realidade. Não pôr só cadeiras, mesas e sofás. Os nossos sítios têm sempre alguma magia, alguma história, alguma coisa no ar.

 

São sítios onde as pessoas se possam sentir bem, onde possam viver uma grande história, onde tenham vontade de estar?

Onde eu tenho vontade de estar. Normalmente misturo coisas. Se entrar aqui uma pessoa que gosta de um ambiente clássico, sente-se bem. Se for uma pessoa que gosta de um ambiente moderno, sente-se bem também.

 

O que é que acharia mais clássico no espaço onde estamos, o seu escritório em Lisboa?

As cortinas de veludo, que dão um ar mais solene. Modernos, tem a mesa e os espelhos.

 

Quando entrei aqui, percebi que esta é a mesma pessoa que fez o Hotel Aquapura no Douro. Sobretudo por causa da luz, pelo uso parcimonioso da cor, pelo ambiente criado.

Os meus trabalhos têm sempre alguma coisa a ver uns com os outros, mesmo que sejam diferentes.

 

Qual é a sua marca, o que é que há em comum?

É o que se sente quando se entra dentro das coisas. Dou uma alma aos sítios. Disse que entrou aqui e sentiu o Aquapura; se olhar bem à volta, o que é que isto tem do Aquapura? O Aquapura não tem esta cor, não tem ocre.

 

Há em ambos os espaços uma imensa zona de penumbra.

Isso é ponto obrigatório. É uma maneira de as pessoas terem um sítio para elas próprias serem quem são. Não gosto de mostrar tudo de uma vez. Não dá espaço para as pessoas sentirem coisas.

 

Não revela tudo de uma vez, e tem de haver espaço para o mistério e para a intimidade. Por isso é que aposta nesta luz ténue?

Sim. Talvez seja influência da Ásia. Há muitos anos que vou e adoro, e a luz asiática é esta luz.

 

No seu percurso de formação passou por Nova Iorque, Londres, Paris, África do Sul e Dinamarca. Não podem ser mais diferentes.

Não.

 

Fale-me do que aprendeu em cada um dos sítios.

Na África do Sul, pintura e murais, e tudo o que era marmoreado. Nessa altura estava muito em moda pintar as paredes. Em Nova Iorque, foram os designers e a relação com a arquitectura. Na Dinamarca, tudo o que se relaciona com arranjos florais. Na Dinamarca estive dois meses, na África do Sul seis, e aos Estados Unidos, durante 20 anos, ia todos os anos.

 

Arranjos florais?

Os primeiros arranjos de flores, quem faz, sou eu. Às vezes vêm as floristas dizer que assim não dá, e acabo sempre dizendo como é. Porque sei. A seguir as pessoas têm mais respeito. É bom mandar, mas é preciso saber por que se está mandando. Uma flor que não tenha nada a ver com este espaço, estraga tudo. Gosto muito de verdes.

 

E de pedras? São uma constante. Nos seus espaços é notória uma forte presença dos elementos da natureza.

A Madeira está rodeada de pedras. Em criança, com os meus pais, ajudávamos as pessoas menos favorecidas, fazíamos carteiras, pintávamos coisas. Os miúdos menos favorecidos eram conhecidos pelos “garotos do calhau”. Quando comecei a pintar os calhaus foi para ajudar orfanatos. Daí a minha loucura por pedras e a minha colecção chamar-se “A Garota do Calhau”. (Quando me portava mal a minha mãe dizia: “Pareces uma garota do calhau”. [risos] Era uma maneira de dizer que uma pessoa não devia fazer certas coisas).  

 

Simbolicamente, o que é que as pedras querem dizer?

Querem dizer a minha ilha, a minha terra, eu.

 

As suas telas são pedras, pedras, pedras. Continua a pintar?

Continuo. Adoro pintar. Quando estou pintando, estou fora deste mundo, é como se não estivesse aqui, as horas passam. Uma vez, no Natal, fiquei em casa, ninguém deu por mim, pintei de noite e de dia.

 

O que é que aconteceu nesse Natal para se isolar dessa maneira?

Nada. Deixe-me ver…

 

Os seus pais ainda eram vivos?

É isso que quero ver... A minha mãe tinha morrido três anos antes, três anos depois o meu pai morreu. Foi nesse ano, agora é que me estou a lembrar. Nem me queria lembrar que o Natal existia. O Natal é a família, não é?

 

Já era a Nini Andrade Silva quando eles morreram?

Não como agora, agora sou muito mais conhecida. Para eles já era!, eles sabiam que ia chegar onde cheguei. A minha mãe fez nove anos que morreu e o meu pai fez seis.

 

Chegou a criar espaços para eles, a casa deles?

Os meus pais tinham a casa deles e gostavam de como era. Só nas festas, no Natal, na Páscoa, é que fazia os meus arranjos e as minhas decorações. A nossa casa é a nossa casa, não é preciso nada disso.

 

Eles sempre a levaram a sério, mesmo quando estava a desenhar a Festa das Flores na Madeira ou os trajes para o Carnaval? Quando não tinha a dimensão internacional que tem hoje…

Sempre me levaram a sério, de certeza absoluta. Para eles eu era grande. Até mesmo se não tivesse feito metade do que fiz.

 

Durante muitos anos a sua vida foi viver na Madeira e viajar.

Com que dinheiro, se posso perguntar?

Pode. Sempre fiz dinheiro. Fazia ténis, cestas de vime e t-shirts iguais, pintava tudo. Tinha sempre a casa cheia de tintas, de frascos pintadinhos. Estava sempre a inventar coisas novas para vender.

 

O que é que teve de sacrificar na sua vida para chegar onde chegou?

Sacrificar, não sacrifiquei, porque gosto do que faço. Mas às vezes posso estar sentada num sítio e vejo passar uma família com crianças, todos a rir… fico olhando e pensando. Um dia, no aeroporto, ia para o Brasil fazer um hotel, e ao meu lado estavam umas crianças a correr, a brincar. Pensei: “Passo a vida inteira no mundo, a viajar, e aqui há uma alegria, esta gente, é bonito, também. Será que teria sido mais feliz se tivesse feito uma coisa daquelas?” Nesse dia pensei, mas depois, como a minha cabeça foi feita para isto, aquele programa já não cabe dentro deste.

 

Não pode ser mãe. Foi uma coisa muito dolorosa para si?

Não, não posso. Se tivesse pensado que queria ter uma família teria sido o fim do mundo. É engraçado, a minha mãe até chegou a dizer: “Penso que Deus escolheu por ti, assim foi mais fácil”.

 

Quando é que soube isso?

Tinha 24 anos. Fui fazer exames a Londres, fui operada duas vezes, o médico disse: “Tem dois anos se quiser ter filhos”. Até tinha namorado, podia ter tido, mas não se faz filhos só porque se tem dois anos para ter filhos. Fiquei pior. Tirei o útero. Mas ajudo crianças, tenho afilhados de orfanatos.

 

A ideia de um casamento feliz, teve de sacrificar?

Vivo com o meu namorado, estamos bem. Não tive de sacrificar isso. A primeira coisa que vejo quando alguém tem sucesso, a primeira coisa que me vem à cabeça, é: “O que esta pessoa trabalhou!”. Eu sei o que é. Em duas semanas já fui a Londres duas vezes, fui ao Funchal, vim aqui [Lisboa], fui a Barcelona, vou para Los Angeles. Cansa.

 

Já teve uma tromboflebite, o que limita as suas viagens de avião. Às vezes, parece que o corpo não a ajuda.

Pois. A tromboflebite: dessa vez fiz loucuras. Fui da China para a Tailândia, da Tailândia para a Índia, daí para o Dubai, Frankfurt, Lisboa, Rio de Janeiro, em menos de um mês. Fiz o que nem um piloto faz. Nessa altura eu achava que nada me acontecia. Depois de me acontecer, fiquei seis meses sem poder viajar.

 

Teve medo de morrer?

Um dia, tive. Não tem muito tempo, tem uns quatro ou cinco anos. Eu disse: “Não posso ficar cá, tenho de ir para Londres”. O médico disse: “Se se mexer, morre”. E aí percebi o que era morrer. Vi tudo negro, negro, negro, e não podia pedir ajuda a ninguém. Tinha de estar totalmente em repouso, não podia fazer nada. Se um coágulo subir aos pulmões a pessoa morre automaticamente – basta mexer-se. Foi muito difícil, mas o ser humano esquece num instante.

 

Nos seus projectos, é marca essencial a ligação aos sítios do mundo que visitou, as peças únicas que vai trazendo, a sua história. O étnico tem uma presença fundamental nos seus ambientes?

Tem, tem. Por exemplo, no Aquapura têm peças com muito valor, peças que fui recolhendo pelo mundo inteiro. Têm uns painéis lindíssimos na sala dos pequenos-almoços, que são do Índia, e que fui buscar com um guru.

 

O que é que a fez dar o salto? Nos últimos anos temos assistido a um crescendo da sua carreira. Há 10 anos não era assim.

Não. Mas é o evoluir. Não tenho um trabalho, tenho um projecto de vida. Quando se tem um projecto, as coisas vão surgindo. Estão a surgir na altura em que era suposto surgirem. E ainda vão surgir mais.

 

Qual foi o detonador?

Há várias coisas que são importantes. Entrámos para o livro do Andrew Martin [autor do guia The World Leading Designers] e as pessoas começaram a conhecer-nos.

 

Ele já a referenciou algumas vezes.

A primeira vez tem dez anos. Outra coisa muito importante para a hotelaria: o Aquapura. Foi um projecto reconhecido no mundo inteiro. O abrir do ateliê em Lisboa foi muito importante também; as capas de revista em tantos lados do mundo. Hong Kong, Coreia, China. Wallpaper, Financial Times. Começámos a ganhar prémios. Este ano sou a representante da Europa na América.

 

Porquê hotéis, mais do que tudo?

Os hotéis, de facto, são um lugar onde a pessoa pode criar. São coisas grandes e sempre gostei de fazer coisas grandes; não gosto de fazer coisas pequeninas.

 

E é preciso atender menos à personalidade de quem o habita.

Uma casa é para aquela família, é em função daquela pessoa. Um hotel é para várias pessoas, mas cada promotor sabe qual é o género de pessoas a que quer chegar. As pessoas que vão para o Fontana Park [Lisboa] não são as pessoas que vão para o Sheraton. Um hotel de design é diferente dos outros, não é para qualquer um. É para qualquer idade, mas não é para qualquer cabeça.

 

Tem a ambição de fazer hotéis para qualquer cabeça? Ou seja, uma coisa para pessoas e situações de todos os dias. O normal.

Gosto de fazer coisas que não sejam normais, porque aí é que está a imaginação, aí é que está a criação. Nós fazemos [o normal], temos várias cadeias de hotéis; mas onde queremos bater mesmo é no diferente.

 

Onde ganha prémios é no diferente.

Sim. E cada vez mais há mercado para isso. Vi isso em Barcelona, [entrega de prémios do World Architecture Festival, em Novembro], onde ficámos na short list. Tudo o que estava lá era bom, e estar no meio de tudo o que é bom é uma coisa grande. Entre os hotéis que chegaram à final estavam o The Vine, o Fasano do Uruguai, o Fasano do Brasil.

 

Existe alguma relação entre os espaços que cria e o seu estado emocional, a fase de vida em que está?

Não, sou profissional. Há coisas que influenciam. Por exemplo, se for à Ásia ou ao Brasil, apanho coisas novas. Mas o The Vine só tem a ver com a Madeira. Os lavatórios foram desenhados parecendo um carro de cesto, as banheiras como se fossem os carros de bois, o pavimento é como se fossem as praias, as torneiras são como as cascatas. As raízes antigas da Madeira com o design contemporâneo. Aquele hotel é bom em qualquer lado do mundo, mas só faz sentido na Madeira. E é disso que gosto: não chegar à Tailândia e parecer que estou na América.

 

Criar uma sensação de familiaridade?

Sim, acho que é isso.

 

É desprendida com os objectos?

Os meus? Sou, completamente. Mas há coisas pequeninas de que não me livro. Por exemplo, o meu anel da pedra. Foi o Aníbal, que trabalha comigo na Madeira, que o fez com uma pedra do pavimento do The Vine. Coisas pequeninas da minha mãe que ela usava no hospital. Foi o que guardei dela, não queria mais nada.

 

Podemos apresentá-la assim: Nini Andrade Silva, designer de interiores, uma pessoa que gosta de criar ambientes onde outros se sintam em casa.

Exactamente.

 

 

Publicado originalmente no Público.

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