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Teresa Pina

Teresa Pina assume como seu o espírito da Amnistia Internacional: “Lutar para pôr fim aos abusos e violações de direitos humanos em todo o mundo, acreditando que essa luta se faz todos os dias, em todos os lugares”. A nova directora-executiva da secção portuguesa explica porque é que é preciso continuar a lutar.

A Amnistia Internacional é provavelmente a maior ONG do mundo. Tem mais de três milhões de membros e apoiantes, está em 150 países. Em Portugal tem cerca de 11 mil sócios e uma equipa de 12 pessoas agora dirigida por Teresa Pina. A nova directora-executiva foi jornalista da SIC-Notícias e assessora de imprensa de José Sócrates. Estudou Direito, fez um mestrado sobre liberdade de expressão. Tem 40 anos, um filho que nasceu em Maio e uma vida nova.

 

 

No filme de Renoir, “This Land is Mine”, Charles Laughton lê a Declaração Universal dos Direitos Humanos e diz que é o mais belo texto que alguém já escreveu. Subscreveria isso?

Sim. E sublinharia que em democracia, em Estados de direito, as coisas nunca estão ganhas. Quando chegaram os primeiros relatos de Guantánamo parecia impossível que aquela prisão existisse, no berço de uma terra de liberdades. Havia pessoas detidas, sem acusação formal, violando todas as normas de Direito internacional e os mais elementares princípios de justiça. É uma situação contra a qual a Amnistia Internacional [AI] se tem batido e que demonstra que some things are not given things. Temos de lutar por elas todos os dias, do zero.

 

Vamos começar pelo princípio – antes de mais: é o princípio?, Londres e o mestrado que foi fazer na Birkbeck College.

Não é bem o princípio. Sempre fiz voluntariado durante a faculdade, em várias organizações. Na APAV, na Comunidade Vida e Paz com sem-abrigo. Sempre tive vontade de participar. Porquê? Quando me candidatei a este lugar, foi uma das perguntas que me fizeram, e não sei bem responder.

 

Depois de anos no mundo do trabalho, meteu licença sem vencimento e voltou a estudar. O que é que foi mais surpreendente numa babel como Londres?

A coisa mais impressionante foi perceber que, em relação a Portugal, Londres ou Paris ou Berlim são de facto o centro. São mundos imensos onde acontece tudo, onde se pode ter várias vidas.

 

Também estava a começar uma nova vida. Não sabia era isso. Ou sabia? Intuía, pelo menos?

Era uma pausa sabática. A médio prazo, gostaria de aplicar os conhecimentos que adquiria de alguma forma. Mas nunca pensei que fosse esta. Uma coisa de que me apercebi assim que cheguei: não ia ter tempo para ir a todas as conferências que havia só na minha faculdade e só na minha área (nem falo de cinema ou de outras disciplinas). Tudo era apetecível. Com os melhores especialistas – da ONU, de instituições do mundo inteiro.

 

Conferências para discutir, por exemplo, o quê?

A invasão do Iraque. Um dos meus professores foi advogado do movimento que tentou levar Tony Blair a tribunal. Trabalha no Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, tem casos importantíssimos, foi signatário dessa proposta. Nessas conferências tínhamos a impressão de que participávamos nas coisas que acontecem no mundo. De um modo directo, imediato.

 

O que é que aprendeu nas aulas?

Nos trabalhos para [fazer] em casa, pediam-nos que organizássemos uma série de documentos, legislação internacional, textos de autores. Eu fazia, essencialmente, uma reprodução, por vezes crítica, de outros. Mas os meus professores começaram a perguntar-me porque é que nunca dava a minha opinião. O que eu devia fazer nos meus essays era começar por dizer o que pensava e ter um argumentário para o sustentar (baseando-me nos autores que tivesse lido). Em Portugal (e falo da minha experiência) somos ensinados a reproduzir o que vem nos livros. Mas ninguém nos faz ver que o mais importante é saber pensar.

 

Quando isso aconteceu, era uma mulher intelectualmente madura.

Exacto. Mas academicamente, foi uma revolução.

 

Tinha uma opinião sobre cada um dos assuntos? As situações têm uma complexidade tal que faz que a resposta não seja preto e branco.

Havia temas em relação aos quais tinha uma opinião formada. Por exemplo, como jornalista, tinha estado na Holanda a fazer reportagem sobre o uso do véu islâmico e o multiculturalismo holandês. Reflecti sobre o assunto. Mas sobre o uso de véus integrais, não tenho uma resposta líquida. A própria AI reconhece que há áreas em que a resposta é cinzenta.

 

Começou a trabalhar na Amnistia em Londres, logo depois de se ter instalado. Era um complemento, uma extensão prática do mestrado?

O meu objectivo era ter qualquer coisa que me permitisse praticar inglês. Achei que o que fazia sentido era uma ONG de direitos humanos. Ver como é que funcionavam na prática. Por sorte, havia procura de pessoas a falar português.

 

Por causa da África lusófona e do Brasil?

Sim. Foi uma grande oportunidade. Não falava assim tanto inglês (falava mais português) [riso], mas foi a maneira de entrar. Fiquei como voluntária.

 

Quanto tempo demorou a sentir que a televisão era uma coisa longínqua?

O movimento, as oportunidades, a excelência de Londres é tanta que ao fim de uma semana já nem me lembrava do que é que fazia em Portugal. É verdade. Rapidamente somos envolvidos e nos esquecemos da vida que tínhamos.

 

Um ano depois, regressou a Lisboa. Animada com que espírito?

Quando voltei, não pensei, por contraste, que Portugal era o fim do mundo e que não havia nada para fazer. Achei que podia aplicar muitas das coisas que aprendi. Por ter uma formação heterogénea, e por ter tido e criado estas oportunidades, tinha vontade de fazer coisas diferentes do jornalismo. Ou, continuando no jornalismo, de fazer coisas diferentes daquelas que fazia. Voltei com vontade de mudar muita coisa. E muito mais aberta.

 

Quis ser advogada, jornalista? Fez uma incursão na política (e já lá vamos) antes da AI. Tem um caminho errático.

Por falar em coisas que não são lineares: comecei por estudar Medicina, [num tom irónico] por três singelos meses. Fiz Direito. Já queria o Jornalismo. Mas queria um curso que me ajudasse a compreender o funcionamento das instituições, as relações entre os órgãos de soberania, os diversos poderes. No fundo, o que sempre quis foi fazer uma coisa que tivesse impacto público – no sentido de contribuir para a causa pública.

 

Trabalhou como assessora de imprensa de José Sócrates. A política pareceu-lhe um caminho possível?  

Tinha curiosidade em participar nesse mundo. O que é que aprendi? Que não é fácil governar um país [riso]. Fiquei a conhecer melhor o país real. Apesar de ser jornalista e de lidar com assuntos de política todos os dias, não tinha isso. No país real podemos perceber a distância que há entre um programa de televisão, onde se discute com os melhores comentadores ou jornalistas, e a vida das pessoas.

 

Desencantou-se com o jornalismo?

Não. Desencantar não é o termo. Trabalhar em televisão, quase sempre em estúdio, consome muito as pessoas. O próprio modelo esgota-as. Chega a ser angustiante o conforto do estúdio, a discussão teórica, interminável. São tantas horas, todos os dias... Eu queria fazer outras coisas. Tendo desenvolvido outros interesses, achei que tinha chegado a altura de [seguir outro caminho].

 

Como é que foi dar à AI em Portugal?

Vi um anúncio no jornal. Concorri. E fiquei. Houve várias provas, um processo de meses. Para começar, uma longa prova em inglês, com mais de cem candidatos, que era eliminatória. Na fase seguinte houve uma entrevista com um júri internacional. E por fim testes psicotécnicos, também com carácter eliminatório.

 

Como descreveria os portugueses em relação ao tema dos direitos humanos?

Creio que os portugueses são um povo profundamente tolerante. Mesmo que se diga que Portugal é um país inculto, distanciado dos grandes temas, os portugueses registam com desagrado a violação dos direitos humanos. Em relação à pena de morte (para os delitos comuns, Portugal foi o primeiro país da Europa a abolir a pena de morte), continuamos a ser um país de referência. Um país avançado como o Japão recentemente voltou a aplicar a pena de morte. Ao mesmo tempo, os episódios de violência doméstica continuam a ser barbaramente frequentes em países como Portugal e Espanha, o que diz bastante sobre a situação da mulher e o respeito pelos seus direitos.

 

É fácil mobilizar as pessoas para as causas da Amnistia?

A alma da AI são os voluntários, as pessoas que reservam uma parte das suas vidas a lutar pelos direitos humanos. Apesar da crise, constatamos que as pessoas querem participar, querem contribuir, inclusive financeiramente. Nos últimos seis meses houve um aumento da participação e de angariação de membros.

 

Entretanto teve um bebé. Em breve regressará ao trabalho. Tem já prioridades definidas?

Quando saí (de licença de maternidade) uma das apostas em Portugal, como noutros países, era referente aos países do Norte de África e Médio Oriente. O desafio é apoiar nas suas aspirações democráticas e na luta por direitos e justiça social as populações que viveram a Primavera Árabe. Estas revoluções levaram às ruas populações inteiras e deram às mulheres lugares de destaque. Uma delas, a jornalista e activista iemenita Tawakkul Karman, foi uma das três mulheres distinguidas com o Nobel da Paz de 2011. Eram coisas impensáveis há uns tempos, e ainda mais se pensarmos que se tratou de um movimento espontâneo que derrubou, um após outro, ditadores de regimes sanguinários com décadas. Infelizmente, países como a Síria não conheceram essa abertura, e noutros a repressão persiste. Mas é uma Primavera que certamente se estenderá por muitas outras estações e que a Amnistia não se cansará de apoiar.

 

Publicado originalmente na revista Máxima em 2012. 

 

 

 

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