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João Taborda da Gama

João Taborda da Gama cresceu no Lumiar, é filho do ex-ministro Jaime Gama e da professora Alda Taborda. Nunca teve um blusão de penas. Nenhum dos seus cinco filhos tem um blusão de penas. Acaso está frio para isso? Converteu-se ao catolicismo tarde. Discípulo de Saldanha Sanches, foi consultor de Cavaco Silva até há dois meses. Como integrar estes elementos aparentemente contraditórios? Ele poderia dizer com Santo Agostinho: “O amor é o meu peso. Onde eu for, ele me levará”.

Já a entrevista estava escrita quando saiu fumo branco da chaminé do Vaticano e o Papa Francisco pediu aos fiéis da Praça São Pedro (e do mundo) que rezassem por ele. “O novo Papa percebeu o coração dos tempos e faz-nos a proposta essencial do catolicismo: sair o mais longe possível de si e dos seus para junto dos pobres e dos que mais sofrem. Ser católico não é uma filosofia de spa, de tranquilidade zen. Ser católico é um impulso para ir, fazer e perdoar – agora”, escreveu-me João Taborda Gama, dos Estados Unidos, onde está a concluir o doutoramento.

A marca da religião, central na entrevista, na construção do seu caminho, era atiçada por um Papa que foram buscar ao fim do mundo, como o próprio disse (parece que foi há uma eternidade, porque tão rapidamente deixou uma cicatriz, mas foi ontem). Concordámos que era importante juntar o seu testemunho e que ele seria anexado à entrevista. “Foi espantoso como de imediato, em poucas horas, até em segundos, tudo isto foi sentido por tanta gente, crentes, não-crentes, e uma quantidade imensa de crentes não-assumidos. Penso que Francisco vai tocar muito estes crentes envergonhados, vai desafiá-los a sair do armário e a fazer junto dos outros o seu caminho de dúvidas e de fé. João Paulo II encheu estádios, Francisco vai trazer mais gente às igrejas. Outra coisa em que tenho pensado é como se sentirá Bento XVI com todo este hype à volta do novo Papa e se este nosso, meu, entusiasmo com a mudança será, em si e por esta razão, absolutamente cristão. Mas Bento XVI é maior do que isto.”

Quem é este católico? Perguntar assim é definidor da sua essência, mas imensamente redutor? Ele teria cinco filhos (três raparigas e dois rapazes) se não fosse católico?

João Taborda Gama nasceu em 1977. É professor de Direito Fiscal na Universidade Católica. É uma boa amostra do que o Portugal democrático propiciou. O seu percurso seria possível antes de 74?

 

 

 

Como é que se tornou tão conservador?

Não me considero um conservador. Considero-me até bastante liberal. A esperança está no futuro, não no passado. Aquilo que está ligado a uma visão conservadora, tradicionalista, moralista, não é aquilo com que me identifico. Apesar de poder mostrar o contrário.

 

Provindo de uma família de esquerda que não lhe deu uma formação religiosa, converte-se tarde ao catolicismo. Gostava que me contasse a história dessa aproximação.

Não tinha um meio familiar nem de amigos em que a religião fosse um assunto. Dos meus amigos, muito poucos iam à missa. Na minha família não havia uma aversão à religião, mas não existia activamente uma prática religiosa.

 

Lembra-se de si a perguntar: “O que é Deus”, “O que é o mundo”?

Tive uma infância e uma adolescência muito reflexiva e espiritual. Sou filho único. Passei horas e horas sozinho a pensar. Em viagens, em autocarros, à noite em casa. Mas não encontrava nenhum fio condutor nas coisas, e não encontrava nunca uma resposta que me satisfizesse. Talvez a reflexão mais profunda, mais antiga que me lembro de ter feito foi se as pessoas morriam para sempre.  

 

Morre-se para sempre ou não: a questão está umbilicalmente ligada à de um sentido para a vida? O problema que se põe é o da finitude e o do propósito?

Essa questão é fundamental na existência humana, mas eu não reflectia assim. Andava à volta das questões que ainda hoje não têm solução. Embora hoje tenha um enquadramento para as minhas angústias que não tinha. Foi esse enquadramento que me permitiu ir juntando as coisas, ir vendo o mapa completo.

 

Na religião.

Durante muito tempo associava a religião a obscurantismo e a algum elitismo social. Duas coisas de que não gostava. A minha conversão foi sendo progressiva. Não houve vozes cavas a falar do céu nem trovões, nem fogo de artifício.

 

Mas figuras inspiradoras, sim? Leituras, encontros.

Leituras. Já durante a faculdade, comecei a ler a Bíblia. Primeiro em inglês, depois em português. Às vezes, quando as coisas são em inglês, o preconceito não vem tanto ao de cima. Ainda guardo essa Bíblia com muito carinho por causa disso. Às tantas comecei a ir a igrejas e a missas.

 

Com que idade?

Vinte anos. Era um percurso muito solitário. Talvez por não me sentir confortável perante os meus amigos e a minha família. (Estou agora a tentar explicar porque é que não decidi falar com um padre.)

Quando fui trabalhar para uma sociedade de advogados, conheci uma pessoa que foi decisiva neste processo. Porque me ajudou a juntar esta meada e porque me mostrou que havia na Igreja Católica, instituição que eu desconhecia quase totalmente, lugar para mim como eu era – com as minhas dúvidas. As dúvidas que ainda hoje tenho.

 

Como é que sentiu que essa porta estava aberta?

Comecei a perceber que a Igreja acolhia pessoas em vários estádios, que não tínhamos que ser todos beatos de ir a Fátima de joelhos. Percebi que a minha fé individual não era suficiente. Precisava de uma gramática para aquilo. Decidi baptizar-me.

 

Gostava que me falasse da infância deste rapaz que não foi baptizado, e que sempre teve um pendor reflexivo. Consigo imaginá-lo observador, tranquilo, não leve. Era assim?

A primeira parte, sim. Era muito observador, sempre fui e tento continuar a ser. O resto, não percebo bem.

 

Uma criança fechada.

Não. O contrário disso. Cresci nos arredores de Lisboa, no Lumiar, um bairro de classe média-baixa, rodeado por bairros problemáticos. Andei sempre numa escola pública.

 

Isso era uma contingência ou uma escolha? Sabendo-se que o seu pai é o Jaime Gama é fácil supor que tinha um enquadramento social mais confortável, e não de classe média-baixa.

Não quero dar uma ideia falsa das circunstâncias, mas não cresci numa redoma. Passava a vida na rua a brincar com pessoas de todas as origens, e isso foi fundamental na pessoa que sou hoje. Passávamos o dia em guerras. Guerras com a praceta das Finanças. Guerras quando éramos assaltados, contra as pessoas dos bairros que nos vinham assaltar, e que rompiam as alianças que tínhamos para não sermos assaltados. Guerras com os betos do São João de Brito. Foi uma infância muito aventureira, nada reclusiva.

Entre os dez e os 14 anos vendia regularmente na Feira da Ladra. Televisões, skates, livros, coisas velhas. Sozinho. Usava o dinheiro para construir uma colecção de artigos militares (não são armas). Tive uma colecção de revistas de propaganda da Segunda Guerra Mundial, bonés da tropa, um manual do soldado, um pin da Legião Portuguesa. Coisas de rapaz que gostava de guerras.

 

O que é que era fascinante nesses objectos?

Não sei. Depois desinteressei-me. (Não alinho no politicamente correcto de que as crianças não devem ter armas de brincar.)

 

O que é que aprendeu nessa altura?

Aprendi a desenrascar-me. Aprendi a fazer cocktails Molotov. (Planeámos um ataque à praceta de trás com cocktails Molotov porque tinha dado na RTP uma reportagem sobre um país da América Latina em que se ensinava a fazer cocktails Molotov.) Os meus pais tinham uma situação económica privilegiada, mas naquilo que eram as manifestações de riqueza dos anos 80, os blusões de penas e ténis-bota da Nike, nunca tive nem uns nem outros. Não que não os tivesse pedido. Fui o último do meu grupo de amigos a ter televisão a cores. O meu pai tinha sempre carros velhos. Uma vez nasceu um cogumelo num dos carros. Talvez tivesse mais livros em casa.  

 

Por que é que não teve blusões de penas?

Porque os meus pais achavam que não era necessário, que não fazia frio suficiente.

 

Em que é que a infância dos seus filhos, dos seus cinco filhos, difere absolutamente da sua?

Os meus filhos não passam tempo na rua.

 

Ao fazer esta pergunta estou também a perguntar pelo que Portugal mudou nestes 30 e muitos anos.

Seria hipócrita da minha parte dizer-lhe que os meus filhos não passam tempo na rua porque Portugal mudou. Acho que não tenho a confiança que devia ter no mundo para os deixar estar na rua. A minha geração deve fazer um esforço para retomar essa liberdade, selvagem, salutar, em que todos fomos criados.

 

E têm blusões de penas e sapatilhas da Nike?

Não. Essa parte está igual. Nem vêem televisão, vêem vídeos. Não vêem filmes parvos. Há uma consola há não sei quantos anos. Somos sempre pais como fomos filhos. A linha de rumo está lá.

 

O que é que imaginava para o seu futuro nessa altura? Se é que imaginava o futuro.

A primeira coisa que quis foi ser arqueólogo. Às vezes ia com o meu pai procurar fósseis, nas arribas da Calçada de Carriche. Talvez por isso gostasse da ideia da Arqueologia. A seguir, por ter visto o Wall Street, queria ser gestor de fortunas e bolsa. E depois, antes de ir para a faculdade, bastante mais tarde, quis ser realizador de cinema, ir estudar para os Estados Unidos.

 

Queria fazer que filmes?

Queria fazer filmes bons, modernos em Portugal. Aprender a fazer filmes normais, não-intelectuais, documentários adequados à realidade portuguesa.

 

Nada que ver com o Direito e a Fiscalidade. Explique-me como é que foi encontrando o seu caminho.  Quando é que esteve perdido?

Nunca estive perdido. Nunca me considerei perdido mesmo quando as coisas não estavam a fazer sentido objectivo. Há sempre sentido nas coisas. Nunca fui muito angustiado pela falta de plano B. O sentido das coisas só o sabemos no fim, não o sabemos durante.

 

Mas sentia que existia uma rede – não sei que rede –, que permitia arriscar e não ter um plano B?

Nunca fiquei angustiado com o não saber o que é que estava à minha frente. Faz parte do jogo. Voltando um pouco atrás: a minha conversão ao catolicismo deu-me uma grande tranquilidade. O que importa é estarmos preparados para o futuro, seja ele qual for.

 

Preparados, como?

Estamos preparados porque sentimos que estamos acompanhados por algo maior que os homens nesse embate com a realidade. Um embate que umas vezes é bom e outras vezes não é bom. Não podemos achar, ou desejar, que a realidade seja sempre como queremos. Os tais blusões de penas.

 

O Homem é sobretudo a maneira como lida com a dor, a adversidade, a maneira como vai sendo esculpido por esse confronto com a realidade?

Sim. É fundamental na minha vida integrar a realidade como ela é. E a realidade é uma coisa indescritível!, tem bom, tem morte e tem vida. Tem muitas vezes todas as coisas ao mesmo tempo.

 

Nunca desiste?

Tenho alguma persistência. Tento sempre determinar a minha acção e não deixar que os outros a determinem. Desisto quando quero desistir e não quando os outros querem que eu desista. Continuo quando quero continuar e não quando os outros querem que eu continue.

 

É uma pessoa determinada, confiante.

Tento fazer [o que acabei de enunciar], não disse que o conseguia.

 

Onde é que está o cerne da sua vida? O coração do seu mundo, para usar uma formulação mais poética.

Não lhe sei responder. Tento que a minha acção seja determinada, não para mim, mas para os outros. Tento antecipar as consequências do que faço, não em mim mas nos outros. Não sei se conhece o São Francisco de Sales?

 

Não.

Escreveu uma meditação sobre a morte. A pessoa imagina-se no leito de morte, pensa no que fez e não fez e analisa essas acções com base na consolação que sente ou na desolação que sente. Um critério muito simples e muito forte. Às vezes leva-nos à conclusão de que estamos a ir pelo caminho errado, que estamos a fazer coisas por vaidade ou por poder, e não pelos outros, que nos afastamos daquilo que, como católico, penso que Deus quer que eu faça. Respostas certas não há, mas reflectir sobre isto ajuda-me mais do que não reflectir e seguir apenas o instinto.

 

Na sua acção católica presta apoio a pessoas que não conhece, faz trabalho de voluntariado.

Trabalhei com sem abrigo, dois anos em Portugal, um ano quando estive nos Estados Unidos [há uns anos]. Prestei também voluntariado quando era jovem em colónias de férias com crianças carenciadas. Neste momento não estou envolvido em nenhuma acção de voluntariado. Estou envolvido indirectamente em acções de voluntariado através de apoio financeiro.

É muito mais difícil fazer o bem do que imaginamos.

 

Porquê?

Porque o bem não cheira bem. O bem não é agradecido. Quando dedico o meu tempo à acção de voluntariado não é óbvio que eu vá receber aquilo que, ingenuamente, antecipo como retorno da minha acção.

 

Que retorno é que se antecipa?

Em abstracto pensamos que vamos trabalhar com sem abrigo e que não precisamos de retorno nenhum. Mas, se calhar, ao fim de um ano a pessoa está cansada. Temos fragilidades, mesmo quando pensamos que estamos a fazer o bem, profundíssimas.  

Tenho admiração por quem faz voluntariado anos e anos seguidos. Há centenas e centenas de pessoas que, sem fazerem alarido, visitam presos, doentes, deficientes, põem comida onde ela falta, levam um sorriso onde não há sorriso.

 

Alguma vez se pôs no lugar daqueles que visitava e pensou: “Podia ser eu a estar aqui?”

No caso dos sem abrigo, é mais difícil. Mas num caso de pobreza, sim. Isso é fundamental para percebermos o sentido da nossa acção e para não a fazermos com arrogância ou paternalismo. Como é que gostaria, se aparecesse aqui uma pessoa, que me tratasse? Com discrição, com simpatia, que fosse rápido, que ficasse?

 

Fale-me de figuras inspiradoras da sua acção. Já falou de São Francisco de Sales.

Tenho uma crescente admiração pela Madre Teresa de Calcutá. O que tem a vantagem de irritar qualquer pessoa a quem se diga isto e que não seja religiosa. Aquela figura frágil, a sua determinação..., interpela-me muito. Também o beato Franz Jägerstätter. Um austríaco que era pai de três filhos e que se recusou a combater no exército alemão. Foi decapitado pelos nazis e beatificado pelo Papa Bento XVI, há uns três, quatro anos. Esses exemplos de coragem na Igreja são avassaladores.

 

E na vida cívica?

Trabalhei com o Prof. Saldanha Sanches durante seis, sete anos. Fui aluno dele no mestrado. Eu dizia-lhe que ele tinha sido importante na minha conversão; ele ria-se e ficava desconfortável.

 

Era ateu.

Com muita cultura religiosa e muito respeitador, proclamava-se como tal. Neste percurso que há pouco descrevi, ele corporiza algumas das qualidades e dos ideais que eu procurava na Igreja.

 

Paradoxalmente, é num não-religioso que os encontra.

É um facto. Infelizmente não houve tempo para converter o conversor. Mas Deus trabalha onde nós não vemos.

 

O que é que admirava nele mais do que tudo?, a coragem, o carácter?

Era um conjunto. O carácter, a boa disposição, a aversão à mediocridade, o espírito de trabalho. Ele conseguia tocar muito as pessoas. A sinceridade via-se.

 

Saldanha Sanches falava de ser um homem de esquerda com imensos amigos que se posicionavam à direita. Também o ensinou a estar com a diferença?

Sim. Cultivava essa heterogeneidade e esse paradoxo, que eram muito visíveis nele. Era algo que decorria, talvez, do passado de extrema-esquerda, de uma constante autocrítica. Na faculdade, o orientador do Prof. Saldanha Sanches foi o Prof. Soares Martinez, que é de direita. Ele replicava o sistema de mérito no qual se tinha sido desenvolvido.

 

A escolha do orientador, Soares Martinez, tão surpreendente para toda a gente, nunca foi incompreensível para si?

Não, de todo. Era uma escolha natural. Eles respeitavam-se, tinham admiração intelectual mútua. O Prof. Saldanha Sanches dizia que o Prof. Martinez não prejudicava ninguém que fosse muito bom aluno, fosse de onde fosse.

 

Aponte dois amigos que tenha, diferentíssimos entre si.

As pessoas unem-se por interesses intelectuais, por coisas que não sabem explicar, por afinidades electivas. Tenho amigos muito católicos e outros muito ateus e anti-clericais. Convivo bem com ambos. E se calhar falo mais de coisas religiosas com os que não o são.

 

Por que é que houve nessas escolhas uma recusa em ser o filho do Jaime Gama? Não querer ser político, escolher uma especialidade e um tutor de uma área completamente diferente da dele, e politicamente mais à esquerda. Uma parte disto foi a rejeição de um rótulo?

Não serei a melhor pessoa para responder. Não foi feito por reacção nem por fuga. Se fosse médico, far-me-ia a mesma pergunta? Só se fosse deputado do Partido Socialista é que não estava a fugir. Mas aí a pergunta era: “Por que é que imitou o seu pai?”.

 

Então pergunto de outra maneira. Foi um peso, em algum ponto do percurso, ser o filho do seu pai?

É uma pergunta muito pertinente. Tenho a percepção nítida de que em momentos da minha vida fui prejudicado, e em momentos da minha vida fui beneficiado, pela minha situação familiar. 

 

Quer dar exemplos?

Nunca determinei a minha vida pelo que o meu pai era ou deixava de ser. O meu pai às vezes tinha motorista, e nunca o motorista me levou a lado nenhum. Nunca tive qualquer benesse desse género (que associamos a filhos de pessoas com posições dominantes).

Quando foi a campanha eleitoral de 1986, tinha nove anos, fui apoiante do Freitas do Amaral. Eu tinha um problema na fala e dizia “Frreitas do Amarral”. Os meus amigos, da minha rua, gozavam a bandeiras despregadas. Primeiro de ser quem era e dizer que apoiava o Freitas, e depois de não saber dizer Freitas do Amaral.

 

Como é que os seus pais reagiram a essa adesão? Achavam graça?

Achavam.

 

Isso era mais ou menos o mesmo que em casa serem do Benfica e dizer: “Agora sou do Sporting”?

Acho que sim.

 

A sua mãe é uma figura nuclear para entender quem é e as suas escolhas?

Tenho uma relação muito próxima com a minha mãe. Era professora de liceu, estava uma parte do dia em casa.

 

Quando foi convidado para ser consultor de Cavaco Silva, pediu opinião a alguma destas pessoas? A partir de que momento é que pensou pela sua cabeça, com a confiança suficiente para não ter de consultar outros, não precisar dessa auscultação?

Raramente consultei os meus pais sobre as decisões que fui tomando. Era mais do género de anunciar e ver a reacção. Às vezes não conseguia era ter autorização para levar a cabo as minhas decisões. Mas fiz quase tudo o que quis (é um legado fabuloso da minha infância!).

 

Nunca os consultou?

Consultar de pedir autorização, de buscar confirmação, não. Isso é passar uma grande responsabilidade para outrem. E a partir de uma certa idade, é tonto fazê-lo. Muitas vezes não concordavam, outras vezes concordavam, mas tomei as minhas decisões.

Nesse caso, as coisas correram com naturalidade. Fui convidado primeiro para a campanha como membro da comissão política.

 

Por que é que se lembraram de si? Não sei se é do PSD.

Havia pessoas que sabiam do meu alinhamento com a candidatura e que me foram auscultando, e eu fui dando sinais, também. Chegámos à conclusão de que havia interesse e aceitei o convite. Gosto muito de campanhas eleitorais, daquela actividade frenética. Os candidatos têm de reagir rápido a insinuações, calúnias, imprevistos, sondagens.

 

É um momento intenso, concentrado e muito emotivo.

Gosto dessas três coisas, desde pequeno. É uma altura de teste. Teste da seriedade das ideias, e da não seriedade das propostas. Se as campanhas eleitorais fossem levadas mais a sério talvez pudéssemos, depois, exigir mais que as promessas fossem [cumpridas].

 

Quando começou a colaborar, sendo consultor, fazia exactamente o quê? Que tipo de relação tinha com o presidente?

Fazia parte da casa civil. Há assessores e consultores; os assessores têm uma dedicação exclusiva, os consultores têm uma ligação mais ténue. Como consultor, trabalhava na assessoria para os assuntos políticos. Também realizei algum trabalho na área fiscal, alguma consultoria que me era pedida.

 

Não quer entrar em pormenores porque saiu recentemente?

Porque não devo entrar em mais pormenores. É isso que é esperado de mim. Era isso que eu esperaria de alguém que tivesse trabalhado comigo. Não que haja segredos, mas não devo entrar em mais pormenores.

 

O que é que aprendeu trabalhando do lado de dentro?

Para alguém que gosta de política como eu, para alguém que gosta de observar política, estar no topo da decisão política, é um privilégio. Foi um período de quase dois anos, rico, conheci pessoas extraordinárias. Também porque foi um período interessante da nossa vida política: saiu um Governo, entrou outro, a ajuda externa, as medidas de austeridade, o Orçamento, a coligação, as manifestações...

 

Por que é que, gostando tanto de política, demorou tanto tempo a estar numa equipa de um modo continuado?

Durante a faculdade tinha participado na Associação de Estudantes, que estava ligada ao PSD. Era o director do jornal.

 

É aí que começa a aproximar-se do PSD?

Sim, não consigo encontrar nenhum ponto de contacto mais recuado.

 

Fazia um bocadinho de pirraça ao seu pai.

Não, não. Aquela era a única lista credível, de pessoas sérias. A oposição era totalmente panfletária, e nem se pode dizer que era do PS, era de extrema-esquerda.

Fui algumas vezes convidado para trabalhar com ministros e secretários de Estado durante os governos do PS e do PSD. Nunca aceitei porque tinha a minha carreira académica, e depois porque comecei a trabalhar com o Prof. Saldanha Sanches. Não fazia sentido interromper aquele projecto.

 

Saldanha Sanches já tinha morrido quando foi para a Casa Civil do Presidente.

Ele morreu em Maio de 2010 e eu entrei em Março de 2011.

 

É apenas porque quer concentrar-se no doutoramento que pediu a exoneração destas funções?

Sim. Quando há dois anos comecei a trabalhar em Belém achei que conseguiria conjugar várias coisas e terminar o doutoramento. Fui optimista demais. Surgiu a oportunidade, neste semestre em que estou liberto na Universidade Católica, onde dou aulas, de estar em Georgetown, que é um dos centros mais reputados em Direito Fiscal do mundo, e terminar nesse ambiente a minha tese.

 

Nasceu em 1977. O seu percurso, quem é, é fruto do Portugal pós-revolução? Os seus amigos são da sua geração, da sua idade?

Tenho alguns mais velhos, mas a maior parte são colegas de liceu, de faculdade, de escritório, da minha geração.

Uma das marcas desta geração é ser aberta ao exterior. Os chavões da globalização começam a ver-se na prática (da mobilidade, da miscigenação, da pluralidade de origens). É uma geração que já não procura – porque também não há – empregos fixos na função pública. Que vai acumulando, e com naturalidade, algum empreendedorismo na gestão da sua carreira (antes seria impensável). As pessoas têm capacidade de se adaptar, de reagir a um mundo diferente.

 

Portugal – a Europa – está numa fase de transição, de rompimento de paradigma. Estamos assustados com a crise, achamos que tudo está a ser fracturado.

Era bom que estivéssemos em  rompimento. Mas temo que não. A crise é uma infecção oportunista que ataca mais cedo e mais intensamente os mais desprotegidos, os mais pobres, os mais novos, os mais velhos, os menos qualificados. Alguns queixam-se da subida do IRS, mas quem perde o emprego, ou não o encontra, tem um IRS de 100%. A perversidade de tudo isto é que se não mudarmos o papel do Estado, vamos voltar a ter ciclicamente estas crises. Nos últimos cinquenta e tal anos os EUA tiveram défices em 92% dos anos, França em 90%, a Alemanha em 78%, Portugal em 100%. O Estado Social que conhecemos é geneticamente feito de défice e dívida. Mudar isto é uma revolução.

 

Implica construir um novo modelo de Estado.

Sim. O que, admitamos, ninguém quer. Preferimos ser o Johnny do Johnny Guitar [Nicholas Ray] que pede a Vienna: “Tell me something nice”, “Lie to me”.... A austeridade que temos é a excrescência normal de um Estado Social em tempos de crise. Um daqueles rituais farisaicos que a sociedade cumpre ciclicamente, para purificar a culpa do gasto público e preparar caminho para ainda mais gasto público. Sempre da orgia da dívida para o cilício da austeridade.... O discurso da austeridade e o discurso do crescimento são a mesma coisa: é a ilusão do “austerimento”. 

Mas não esqueçamos que já houve tempos piores. Se olharmos para o passado recente com alguma seriedade ou profundidade, [constatamos que] a crise que atravessamos hoje não é um bicho-de-sete-cabeças. Houve sempre crises. Houve guerras. A Guerra Colonial, a Segunda Guerra Mundial. Nunca vi nenhuma guerra, a minha geração não viu nenhuma guerra. Nos anos 80 houve crises monetárias, crises na Europa, houve austeridade, houve FMI. Não devemos dar muita confiança à crise, ou deixarmo-nos absorver pela crise mais do que ela merece (tendo a noção de que há pessoas a passar muitas dificuldades).

 

Pensei nos seus cinco filhos. O que é que seria se ficasse sem trabalho?

Penso muito nisso. Tenho muitos amigos – cada vez mais – que estão a perder o emprego. O meu raciocínio é o seguinte – pode ser um raciocínio construído para dormir à noite, mas é o meu raciocínio: em Portugal, hoje, existe saúde gratuita e educação gratuita de qualidade. Como não tenciono fazer férias na neve com os meus filhos, se perder rendimento estou num país que tem educação e saúde gratuitas. Para ter muitos filhos é precisa alguma irresponsabilidade.

 

Irresponsabilidade?

É preciso não estar sempre a pensar no que é que pode acontecer de mau. A minha vivência cristã dá-me alguma confiança.

 

Descreva-me uma refeição que confeccionaria para os seus filhos. Sei que gosta de cozinhar e de comer.

Mas com que objectivo? Com o objectivo de lhes agradar a eles?, ovos estrelados ou mexidos – cada um tem a sua especialidade – com salsichas. E salsichas, quanto pior, melhor. Quanto mais baratas, com certeza com carne de cavalo da Roménia, ou pior, melhor.

 

Então pense numa refeição que gostasse de confeccionar para alguém. Servir comida a alguém não é a mesma coisa que dar um presente banal.

Vou dizer uma coisa que gosto muito de fazer e que é uma tradição importada. De há uns anos a esta parte fazemos um jantar em nossa casa de Thanksgiving. Passo o dia a cozinhar, a preparar o peru, o recheio, a pumpkin pie, e convidamos uma série de amigos, normalmente pessoas que tenham vivido ou que tenham alguma conexão com os Estados Unidos.

 

E falam de quê durante a confecção? E falam de quê durante o jantar?

Com cinco filhos, é um mito que há conversas ao jantar. Não vamos romantizar algo que muitas vezes não é bonito. São pessoas aos berros, uns a mandar calar os outros, choro. Com honestidade, não há conversas, há tweets de uns para os outros. É um caos criativo, rico. É possível, quando não há crianças tão novas, ter algumas refeições em que há mais conversas, mas com crianças de dois, três anos é difícil. Isto se queremos tê-los à mesa, e nós costumamos tê-los à mesa.

 

 

Publicado originalmente no Público em 2013

 

 

 

 

 

 

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