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Paulo e Zé

O Paulo e o Zé formam um casal. Vivem em Lisboa. São professores de liceu. O Paulo tem 34 anos e o Zé 47. Usam aliança e preenchem a folha do IRS em conjunto. Vão juntos à casa da mãe do Paulo. Não vão juntos à casa do pai do Zé. Vão juntos ao supermercado e perguntam à senhora da peixaria como se faz aquele peixe. Não andam abraçados na rua. Os amigos são heterossexuais e homossexuais. Quase não frequentam bares especificamente gay. Não têm um discurso panfletário. Dizem que vivem bem a sua condição homossexual. Têm uma gata chamada Vitória. Têm fotografias um do outro e da família espalhadas pela casa. Gostam de livros. Têm um blog onde falam do que sentem (o Zé diz que o blog é mais alimentado pelo Paulo do que por ele). Riem juntos, sonham juntos, decidem juntos (embora o Paulo seja mais mandão e o Zé goste que decidam por ele). O Paulo gostava de ter um filho, o Zé não. Ambos gostavam de casar. Ambos sentem que formam com o outro uma família. Diferente da sua família de origem.

Os amigos straight, quando têm mais confiança, perguntam-lhes como é a sua vida de todos os dias. Nós perguntámos o mesmo. 

 

 

Podem apresentar a vossa família de origem? Para perceber o vosso conceito de família e esta família que agora formam.

Zé – A minha família de origem é do mais tradicional que se possa pensar.

Paulo – A minha também.

Z. – As nossas famílias são muito parecidas ao nível do que pensam, inclusive sobre a homossexualidade, e na forma como estão constituídas. 

P. – A grande diferença é que a minha família é muito grande. Tenho muitos irmãos. Somos bastantes chegados. Se não os visito, reclamam. O Zé nunca conheceu o meu pai. Conhece a minha mãe.

Z. – Curiosamente, ou não, o pai do Paulo faleceu mais ou menos na altura em que faleceu o lado feminino da minha família (a minha mãe e a minha irmã). Isso juntou-nos um pouco. Senti muito fortemente aquela perda, e o Paulo também. Aquelas datas, anualmente, marcam o nosso calendário.

 

Dão-se com a família do outro?

Z. – Dou-me bem com quase toda a família do Paulo. Não sinto em nenhum momento – desconhecendo eles a nossa situação real, ou seja que vivemos em união de facto – que me excluam. Nem à mesa, nem no café, nem naquilo que é preciso fazer durante o dia.

P. – Não há piadas sobre o que poderemos ter… Toda a gente na minha família sabe que moro com o Zé há seis anos, que há mais tempo ainda fazemos férias juntos. Sempre que vou à aldeia, o Zé também vai (a não ser que não possa).

 

É um jogo tácito?

P. – Às tantas não sei se é ignorância, se é um silêncio para não tocar na ferida.

Z. – Percebo a aceitação da situação de anormalidade que existe. Mas ao mesmo tempo, não se toca no assunto, não se procura saber mais. Aceita-se como está, e está bem. E depois há aqueles comentários que nos fazem sorrir; quando a mãe do Paulo diz: “Levem isto”. E não: “Leva”. A utilização do plural… Não é uma coisa que se dá só ao filho, mas que se dá também ao outro. “Precisam disto? Quando é que vêm?”. Coisas perfeitamente normais – normais em qualquer outro relacionamento. Não consigo perceber se esconde algum conhecimento além daquilo que se diz. Da parte do meu pai, não existe conhecimento de todo. Tenho pena que o Paulo não o conheça.

 

Porque é que tem pena?

Z. – Olho para ele com um sentimento de defesa. Para o proteger da sua condição de cardíaco, de pessoa de 80 e qualquer coisa anos que se enerva com a mais pequenina das coisas. Sinto obrigação de o preservar de qualquer aflição. Se tivesse necessidade de o confrontar com isto, haveria um momento de recusa – natural – e até de rejeição, que seria ultrapassada. Já no resto da família que ainda sobrevive, conhecem o Paulo, e sabem.

 

Isto leva-nos novamente à família de origem. No percurso heterossexual, estuda-se, casa-se e procria-se. Que expectativa havia, e que cada um tinha, em relação às vossas vidas?

Z. –A minha irmã era mais velha, casou e teve filhos. Comigo, sim, “quando é que casas?, já tens namorada?”. Nunca senti necessidade de ter descendência. Nunca, por vontade minha, tentei reproduzir o modelo que tinha em casa. E continuo sem sentir, para mal do Paulo, que gostaria de adoptar [uma criança].

P. – Eu senti pressão de outra forma. Sou beirão, de uma zona isolada e o facto de ter querido estudar e de os meus pais me terem dado essa possibilidade, fez com que tivesse vivido muito pouco com eles. Tornei-me muito independente. Nunca lhes dei conta da minha vida. A verdade é que interiormente foi muito complicado assumir-me, perceber o que sentia, saber que possivelmente nunca teria filhos – naturalmente ou que não poderei adoptar.

 

Antes de assumir para si mesmo, desconfiava que a sua inclinação não coincidia com a norma?

P. – Não tinha noção do que sentia, do que é que era. Apesar de, agora, retrospectivamente, [risos] perceber que sempre fui! No décimo ano, percebi que existia amor entre homens. Pela revista Kapa. Se calhar, era aquilo que me perturbava… Lentamente fui-me adaptando à ideia. Vim para Lisboa, ainda tive uma namorada no primeiro ano da faculdade. Pensei que se calhar era bissexual, se calhar as coisas ainda não estavam bem definidas… Depois achei que não valia a pena continuar a enganar-me.

 

Falem-me dessa fase em que ainda não têm a certeza do que são. Ou seja, do reconhecimento e da aceitação da orientação sexual.

P. – Eu queria provar a mim próprio que não era nas mulheres que teria a metade que me faltava. Nunca, sequer, houve entre nós [a minha namorada e eu], concretização sexual.

Z. – No meu caso, é a mesma coisa. Saí de casa cedo. Aos 17 anos fui trabalhar para outra zona do país. Nasci no distrito de Santarém e fui para Faro. Os comentários à minha volta faziam-me pensar nessa hipótese. Os outros tinham namorada, iam ao bailarico… As tentativas que fiz eram no sentido de ser como eles, e não de me sentir bem comigo próprio. E fui lendo, e fui vendo o mundo ao meu redor.

 

O que é que leu?

Z. – A primeira coisa que li foi A Sombra dos Dias do Guilherme de Melo. Percebo que aquela…

P. – Pulsão?

Z. – Aquela instabilidade que sentia, aquele desconforto, não era só meu. Deve ter sido isso que me deu forças para assumir: “Sou diferente, vou ser diferente, vou ser como sou”. Nunca fui de me violentar, de me obrigar a fazer coisas.

 

Seriam quem são hoje se tivessem ficado na aldeia? Se tivessem ficado, teriam feito um casamento convencional, mantendo uma vida íntima dúplice?

P. – É bem possível. Eu nunca quis lá ficar. Também por causa disto. E por querer estudar, conhecer mais coisas. Odiava a aldeia. A relação com o meu pai também não era fácil. Mais tarde, passei a gostar da paisagem, do rio, das montanhas. Refugiava-me a ler e a escrever, e a olhar para as pedras. Uma vez fiquei a olhar a água, (havia uma albufeira) uma meia hora. Aquilo revoltava-me muito.

 

Nunca lhe ocorreu suicidar-se?

P. – No secundário, sim. Houve outros factos: aquilo a que agora se chama bullying. Era bastante gozado, ostracizado, e não fazia por tentar provar o contrário. Eu não tinha consciência do que era.

 

Quando era gozado chamavam-lhe maricas? Estou a tentar perceber concretamente as razões por que se metiam consigo.

P. – Sim. Havia um nome…, que nem vou pronunciar, que odiava. Então, quis sair. Em Castelo Branco o espaço era maior, o anonimato era maior, não conhecia ninguém – era começar do zero.

 

As pessoas à volta chamavam-lhes esses nomes, e é pela Kapa que sabe que há amor entre homens? Não tinha os jogos masturbatórios da adolescência?

P. – Tinha, tinha. Mas era ignorância pura.

 

Ignorância ou recusa?

P. – Eu nunca tinha ouvido a palavra homossexual. Não imaginava que fosse possível ter uma família com um homem. Não foi uma recusa – pelo menos consciente, não foi. Não tinha modelo nenhum. Era mesmo ingenuidade. A leitura do artigo foi uma revelação incrível! Além de não ser o primeiro, também não sou o único! – pensei. [risos] Tinha 16 anos.

 

É demorado o tempo de maturação íntima. Até à universidade, quando falou disso pela primeira vez, ainda viveu uma certa ambiguidade. O que é que era terrível?, pensar como é que ia dizer à sua mãe?

P. – Aos meus pais. Sim, era isso. O que é que lhes digo?, como é que enfrento os meus irmãos, as pessoas da aldeia? Era como tirar o chão dos pés. Tive vários vezes o desejo de desaparecer, esvair-me, esfumar-me. Cortar os pulsos, tomar comprimidos, atirar-me à linha do comboio, sei lá…

Z. – Eu nunca tive qualquer ideia de acabar comigo. Se calhar porque o meu percurso me permitiu não ter. Depois dos nove, dez anos vivi pouco tempo sob a alçada dos meus pais. Passei a viver num colégio, onde era gozado. Mas sempre associei aquela gozação ao facto de não ter jeito para jogar futebol.

 

Soube cedo?

Z. – Muito cedo. Os primeiros encontros tive-os na adolescência. Encontros fortuitos no colégio. Não consigo decidir até que ponto foram decisivos. Quando deixo o colégio e no Algarve tenho acesso a outras ofertas, faço claramente escolhas. É quando decido não me violentar e fazer o que os outros queriam que eu fizesse. Tive um relacionamento heterossexual que até durou algum tempo, que foi consumado e que era até interessante; mas não me preenchia. Havia ali alguma coisa que não batia certo. E acabou. Sem trauma.

 

Como é que se conheceram e perceberam que o outro era “o tal”?

P. – Fomos colegas de faculdade, embora tenhamos frequentado cursos diferentes.

Z. – A minha licenciatura é tardia.

P. – A primeira vez que nos cruzámos foi num almoço na cantina. Mas eu tinha uma relação. Estávamos em universos diferentes. Reencontrámo-nos em 2001.

Z. – Eu passei por um período muito conturbado na minha vida. Tive um relacionamento muitíssimo infeliz, que acabou muitíssimo mal. Foi um dos factores que me fez sair do Algarve. Aquele desencanto fez com que não contemplasse a hipótese de ter outro relacionamento. Centralizei-me no estudo, no trabalho. 

 

Esteve ligado à produção de espectáculos. Os homossexuais, durante muito tempo, eram “os artistas”. E o modelo eram as bichas histriónicas, a bizarria, a excentricidade. Um modelo diferente do gay que temos hoje em dia. Viveu de uma maneira socialmente diferente a sua orientação sexual?

Z. – Acho que não. Mesmo na actividade anterior, sempre fui uma figura muito discreta. Isso não condicionou a maneira como eu me via ou como os outros me viam. Os estereótipos de que estamos a falar – o cabeleireiro, o designer: aceita-se que sejam homossexuais – mantêm-se hoje em dia.  

P. – Há vários modelos. Já não é só o da bicha histriónica.

Z. – Mas o estereótipo só é quebrado quando as pessoas são directamente confrontadas com ele. Toda a gente aceita que o cabeleireiro do salão da esquina seja homossexual, e só ultrapassa o choque quando o talhante também é homossexual.

 

É o estereótipo do homossexual que tem profissões que são tradicionalmente femininas. Para si, há uns anos, o modelo disponível era o do artista?

Z. – Nunca me identifiquei com as plumas. Tive sempre uma aversão à ostentação da homossexualidade dessa forma folclórica. Tenho a impressão que as pessoas que vão por esse caminho também se violentam um pouco: é uma tentativa exagerada de afirmação. No seu dia a dia, sem estarem outras à frente, não são assim.

P. – Ou não. Se calhar são mesmo assim.

Z. – É como se vivessem 24 horas por dia num palco. Não me identifico.

P. – Eu também nunca me identifiquei com as plumas. Há faces mais visíveis e menos visíveis. Para os vizinhos, os mais visíveis são mais facilmente catalogáveis. E desenvolveu-se muito esse estereótipo que não corresponde à realidade; há homossexuais que não suportam plumas.

 

Voltemos ao momento em que se encontraram verdadeiramente.

P. – Foi um processo muito calmo. No princípio achava que era mais uma relação, que não ia dar em nada, que cada um seguiria o seu caminho. Mas pelo conhecimento mútuo, e pelo facto de ambos procurarmos uma estabilidade emocional, as coisas foram-se desenvolvendo. A partir de certa altura foi tácito que tínhamos uma relação.

Z. – E depois surgiu a hipótese de morar juntos. Não foi planeado. Começámos por fazer férias juntos. A colega e amiga que partilhava casa comigo saiu…

P. – E eu vim para cá. Mas também nos perguntámos: “Todos os dias a viver juntos, como é que vai ser?, a aturarmo-nos…”.  

 

De que é que tinha receio?

P. – Que não nos suportássemos. Mas não, não se estragou nada. E a nossa vida é do mais comum que pode haver.

 

Como é que é a vossa vida?

P. – Não há tarefas “isto é o Paulo que faz, isto é o Zé que faz”. É em função do nosso dia a dia. Se o Zé está fora, sou eu que cozinho. Agora estou eu numa fase mais complicada e é o Zé que cozinha e trata da casa.

 

Num casal straight, na generalidade dos casos, elas lavam a casa de banho, eles arrumam a louça. Há tarefas de homem e tarefas de mulher.

Z. – Na casa dos meus pais, sempre ajudei. Aspirava quando era preciso aspirar, limpava o pó. Nunca olhei para isso como um trabalho que a mulher faz. O meu pai fez isso ao longo da vida, e não era homossexual.

P. – Nesse ponto não eram tradicionais.

Z. – Reconheço que era atípico: mas era o meu modelo. Aqui em casa, o Paulo não põe a máquina a lavar. [Paulo olha com surpresa]

Puseste alguma vez? [risos] Há uma partilha, sem pensar e sem cobrança. Há entreajuda, “vai fazer o que tens a fazer, que eu faço”.

 

E a gestão do dinheiro, que é um tópico quente na vida de qualquer casal?

P. – Dividimos as despesas. Com a diferença de que o Zé ganha melhor do que eu. Há momentos em que ele quase me sustenta. 

Z. – A nossa luta tem a ver com o facto de eu às vezes fazer compras e não colocar os tickets para a partilha, e ele insistir em dividir.

P. – Não temos conta conjunta. Eu sou professor, mas sou contratado, não estou estabilizado.

Z. – Eu, além do ensino, estou numa empresa de formação. Mas sou professor de profissão. Fazemos as compras em conjunto. As senhoras da peixaria atendem-nos com um ar brincalhão que só as peixeiras têm, e que nos faz perceber que elas sabem quem têm pela frente…

P. – Ou então és tu que pensas que é assim.

 

É uma questão que se levanta muitas vezes? Se os outros percebem que são um casal?, que são homossexuais?

P. – Sim.

Z. – Nunca penso nisso.

P. – Dê-me exemplos concretos.

 

Chega ao conselho de turma e pergunta-se se os seus colegas percebem que é gay, se os seus alunos percebem que é gay?

P. – Nunca estive dois anos seguidos na mesma escola. Como sou contratado, salto. Normalmente não falo do assunto. A não ser com alguém com quem sinta confiança. Também não evito o assunto. Se vier a talhe de fouce, eu falo. Não é um aspecto importante, quer com os alunos, quer com os colegas. Ao cabo de alguns meses, vão percebendo que há ali alguma coisa, têm suspeitas…

 

Percebem como?

P. – Pelos meus gestos, pelas minhas reacções.

 

Alguma vez se viu ao espelho para tentar perceber se a sua gestualidade era reveladora da sua orientação sexual?

P. – Sim, várias vezes. Lembro-me perfeitamente de ter perguntado ao Zé qualquer coisa acerca da minha voz… Se se percebia.

Z. – Mas aí, estamos no domínio dos estereótipos: o homossexual tem de ter uma voz de cabeça, fina, tem gestos mais delicados… Mas isso, em mim, tem a ver com a educação: sou uma pessoa formada, não sou grunho, tenho algum requinte na minha postura. Se as pessoas entendem ler nesses gestos um sinal da minha homossexualidade, problema delas. Estou a falar de gestos de todos os dias. Depois, há outros. Mas aí estamos a desviar novamente a conversa para as plumas.

 

Desde quando usam aliança?

P. – Há um ano e tal. Era uma coisa que jamais iria usar! [risos] Mas depois, fui eu que a propus ao Zé. Havia coisas que eu associava ao modelo heterossexual. A aliança, a fidelidade, o viver juntos.

 

Porquê essa recusa do que é convencional?

P. – Era alguma revolta contra esses modelos. Porque eu não podia cumpri-los! O que me estava reservado…

Z. – Não podia ser transformado nesses símbolos.

P. – Não podia casar, não podia ter descendência... A aliança era a cereja no topo do bolo!

 

Era também uma forma de vingança? Por ser excluído daquilo.

P. – Também. Por ser excluído e por me sentir excluído. E ver os colegas à volta a casarem…

Z. – Termos optado por usar a aliança é mostrar que aquilo que temos é mais do que aquilo que a maior parte das pessoas julga ter. Muitas vezes, têm apenas no símbolo, mas não têm na realidade. É o caminho inverso: casam-se, recebem a aliança e as coisas correm mal. No nosso caso, as coisas correram bem e depois fomos buscar o símbolo. 

P. – O amor é eterno enquanto dura. Fiquei vacinado com relações que me deram uma absoluta descrença. Não achei que fosse possível ter uma relação estável, duradoura.

 

Porque era uma relação homossexual?

Z. – Não.

P. – Também. Achava que os homossexuais eram muito promíscuos, de um modo geral.

 

Esse é outro estereótipo.

Z. – As coisas não podem ser vistas assim! Os homossexuais são promíscuos e os heterossexuais não são!

P. – Claro. Cada pessoa é uma pessoa.

Z. – Numa relação heterossexual oficializada, o erro de casting é mais difícil de corrigir. Tem que se levar o erro até ao fim ou até a corda rebentar.

 

Não têm de lidar com o falhanço social que um divórcio representa.

Z. – Exactamente. Não é reconhecido e, por isso, não existe. 

P. – O facto de a relação não ser conhecida, levava a que existissem muitas mais, sem qualquer compromisso ou cumplicidade, que não a do mero interesse físico.

 

Têm uma diferença de idade de 14 anos. Como é que a sentem?

Z. – Tenho um temperamento que não tem nada a ver com a minha idade. Tenho agora 47 anos. Um dos pontos que leva a que a nossa relação seja tão boa é o sentido de humor.

P. – Rimos um do outro, rimos um para o outro. E, no exterior, há muita coisa que comunicamos sem ser preciso falar. Pelo olhar, um toque na perna, no ombro. Temos um sentido de humor sarcástico.

 

Riem de quê?

P. – Em casa rimos de nós próprios. De qualquer coisa que eu disse com a voz mais aguda! [riso]

Z. – Uma palavra que se disse mal.

P. – Ontem querias dizer palitos e disseste outra coisa qualquer!

 

É diferente nascer em 75 e ser gay hoje ou nascer em 61 e viver esta condição há 20 anos.

P. – No meu caso, não foi muito fácil. Para os que vieram depois, os dos anos 80, foi mais fácil; e será mais fácil para os nascidos nos anos 90. Na última década, a internet funcionou com uma auto-estrada!

Z. – As diferenças de percurso e aceitação têm também a ver com a questão do espaço físico em que se está. Ter 47 anos e morar numa zona urbana dá-me algum à-vontade para não estar tão preocupado com o que dizem sobre mim como estaria há um tempo atrás. Estou perfeitamente definido no que sou.

 

A vossa senhoria faz comentários?

Z. – Não. Quando lhe comuniquei que ia partilhar a casa, terá dito: “Cada um faz o que quer dentro da sua casa, não tenho nada a ver com isso”. Se acontece cruzar-me com um habitante do prédio, ele pergunta-me como estou e logo a seguir pergunta-me como está o Paulo. “Está bom?, e o Paulo, como é que está?”. Perguntam e nomeiam-no. Há uma associação que fazem, não em termos conjugais. Para eles coabitamos, mas não enquanto casal.

 

Partilham a mesma casa e usam aliança, e acham que os seus vizinhos não percebem que são um casal?

Z. – Acho.

P. – Acho que é isso. Se andássemos de mãos dadas, as pessoas reagiriam de outras formas. Actos de intimidade no exterior, chocam, ferem, provocam e causam muita irritabilidade e susceptibilidade. Como não vêem esses actos, há uma dúvida… Já toda a gente viu que usamos aliança.

Z. – E já toda a gente nos viu ir às compras juntos, voltar com as compras juntos.  

P. – Lidam connosco com imenso respeito.

 

Têm vontade de se tocar em público?

P. e Z. – Às vezes.

P. – Ir na rua e dar a mão. Ou abraçar. Não poder fazer isso não me deixa fora de mim, mas, bolas, porque é que não posso?

 

Por que é que a vossa opção é não o fazer?

P. – Da minha parte é uma atitude de defesa. Para não ser apontado.

Z. – Estava a lembrar-me do beijo que demos quando te fui deixar à escola, e que foi visto por não sei quem; ficaste incomodado com isso? Eu não.

P. – Descobri, anos depois, que os alunos tinham visto e todos sabiam que o professor era homossexual.

 

Essa cena tão banal – ir levar o outro no emprego e despedirem-se com um beijo nos lábios – não a fazem habitualmente. Ou se fazem, que consequências, na prática, é que tem?

P. – Há uma aprendizagem que fazemos: tem de ser às escondidas! Para não nos rotularem. Quando estamos na aldeia não nos tocamos – ponto!

Z. – Também nunca vi nenhuma das tuas irmãs ter uma manifestação de carinho com um dos teus cunhados.

P. – Não sei se pela presença da minha mãe…

 

Frequentam restaurantes e bares gays? A vantagem nesses sítios é não terem o dedo apontado.

Z. – Sim. Mas quando saímos, não fazemos essa selecção. A bares especificamente gay, fomos meia dúzia de vezes.

P. – Não me sinto mais à vontade nesses sítios, porque há uma fome no olhar que me retrai.

Z. – É isso e é outra coisa: como não vamos muito, somos olhados como estranhos. Sinto isso tanto num bar gay como noutro onde não tenhamos hábito de ir.

 

Gostavam de poder casar?

P. – Sim, muito. Acho que o Zé também. Talvez me desse mais força para contar. Para falar explicitamente com os meus irmãos sobre isto. De poder dizer às minhas colegas que não é uma mulher... O que é que acontece? “A tua mulher, e não sei o quê…”. Eu fico a olhar, rio-me e não digo nada. Quando as coisas evoluem, digo: “Olha que não é uma mulher”. Normalmente as pessoas reagem bem.

 

O que é que teme realmente que aconteça se falar sobre isto com a sua mãe e aos seus irmãos? Que riscos correm?

P. – Fazer sofrer. Pela franqueza, destruir, ou confirmar a destruição das expectativas que tinham em relação a mim.

Z. – No campo profissional, no nosso caso específico, não há nenhum receio. Consideramo-nos bastante competentes e não creio que pudesse vir alguma chantagem. Na empresa onde estou a coisa não é dita, mas também não é desdita. E acabei de ser promovido.

P. – Não é mentira. É ocultação. Se somos mais abertos, estamos sujeitos a uma reacção homofóbica ou de segregação. Viram as costas – há colegas que fazem isso.

Z. – [num tom irónico] Temos pena…

P. – Mas [lidar com isso] depende de como estás emocionalmente.

 

No Natal, como fazem?

P. – A nossa família desfaz-se e cada um vai para a sua família. A minha mãe diz-me sempre para levar o Zé, e eu digo-lhe: “O Zé tem pai”.

Z. – Eu nunca deixaria o meu pai sozinho por muito que gostasse de passar o Natal com o Paulo e a família dele. Está com 81 anos, é provável que não possa passar muitos mais Natais com ele.

 

As vossas discussões e tensões enquanto casal são por causa de quê?

P. – [risos] Tivemos uma por causa de comida, aqui em casa, e a outra, foi na rua, logo no princípio; teve que ver com horários ou com o que íamos fazer. Temos algum problema com as decisões: quem é que decide, e decide fazer o quê.

 

Quem decide é uma maneira de perguntar quem é que manda?

P. – Não.

Z. – É porque eu não gosto de tomar decisões. O Paulo é mandão, mas isso é de família… [risos]

P. – Não gosto de assumir a decisão sozinho, e depois ele não gosta, e a culpa foi minha.

 

Vou fazer uma pergunta que vai parecer preconceituosa: porque é que acham que são homossexuais?

P. – Basta olhar para um episódio de quando eu tinha seis anos… Tive um colega a dormir na mesma cama que eu. Foi uma excitação emocional que não consegui explicar. E depois, com 13, 14 anos, tomarmos banho nus na ribeira, e ver o corpo dos outros…

Z. – Não é uma escolha. Há algum processo interno que é espoletado na perspectiva de estar com um homem e não com uma mulher. E nisso, não há um interruptor. Quem é que ainda hoje pensa que isto é uma escolha?

P. – Eu posso escolher casar ou não, enganar ou não. Eu não posso escolher aquilo que sou.

Z. – Eu e o Paulo somos extremamente felizes como somos. E nenhum de nós escolheu: vou ser desta maneira. É como somos. Sou muito feliz com e por causa do homem que tenho a meu lado.

 

Se pudessem casar, assumiriam completamente a vossa relação?

P. – Penso que sim. Fazemos IRS em conjunto e todos os anos me perguntam se sou casado; digo que não, que vivo em união de facto. Para umas coisas conta, para outras não.

Z. – A aceitação do contrato, chamando-lhe casamento ou outra coisa qualquer, traz a garantia de que a sociedade passará a olhar para estas uniões num plano de igualdade. Que as pessoas têm as mesmas obrigações e os mesmos direitos. Isso é que é ser um cidadão de pleno direito. Se eu não puder visitar o Paulo se ele estiver hospitalizado, se me impedirem de dar o acompanhamento que uma esposa dá ao seu marido ou vice-versa, não estou a ter os mesmos direitos que outro cidadão. Se tiver esses direitos, as outras pessoas olharão para mim como um cidadão igual. E terei mais facilidade em dizer-lhes: sou assim.

 

Porque é que gostava de ter um filho, por acaso adoptado?

P. – Não sei se é o desejo de ter descendência. O principal é ver crescer um ser e agir sobre a educação dele, (de uma forma que não posso fazer enquanto professor, por exemplo). E dar afecto e receber afecto de outra forma.

Z. – Acho que deve ser dada a possibilidade às pessoas de o fazer, se assim entenderem, mas para mim não é uma questão essencial.

 

Querer ter um filho é ainda um resquício da família tradicional?

P. – É possível. Os meus irmãos têm todos descendência…

 

Como resolveria a ausência de referências femininas na vida da criança?

P. – Dizer que falta a figura da mãe é um falso argumento. O mais importante é o equilíbrio afectivo, a ternura, a presença e a atenção que podemos dedicar à criança. Modelos femininos não lhe faltariam, não a privaríamos desse convívio. Além de que, numa relação homossexual, os papéis masculino-feminino resultam numa coisa anacrónica. Não reproduzimos os papéis típicos de uma relação heterossexual. Acho que é mais saudável uma criança crescer com dois pais numa relação harmoniosa a desenvolver-se na presença de uma mãe e de um pai numa relação tumultuosa.

 

Voltando ao conceito de família: qual é o vosso?

P. – Os dois formamos uma família.

Z. – Significa partilhar, ajudar quando o outro precisa.

P. – E comunicar – sendo que eu tenho um problema de comunicação.

Z. – É ralhar com ele quando ele come depressa demais.

P. – É identificar os defeitos de um e de outro. É sobretudo a partilha. 

 

 

 Publicado originalmente no Público em 2009

 

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