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A Primavera de Botticelli

Ir a Florença e não ver o Nascimento da Vénus ou a Alegoria da Primavera é como ir a Roma e não ver a capela Sistina (e o Papa). As mulheres angelicais de Botticelli estão em posters desbotados e em porta-chaves, em esculturas manhosas para turistas, vêem-se por toda a cidade. Nem por isso a beleza das telas do mestre italiano é beliscada. Ir a Florença para visitar os Uffizi e celebrar a Primavera? Foi a minha ideia.

 

 

O quadro chama-se Primavera e parece uma cena nocturna. Não tem a cor das papoilas a irradiar nem o verde de Março, o da erva muito fresca que cobre os campos. Não tem o amarelo que usamos na infância para desenhar a chegada da Primavera, um sol vigoroso, o rosa das flores. É verdade que há laranjas que têm brilho, quase pirilampos, e um vestido de flores, uma coroa, e plantas mais rasteiras num fundo escuro. E uma harmonia que nos enleva. Mas a luz é diminuta. O quadro de Botticelli tem qualquer coisa de lunar.

Pode ser que a cena não seja nocturna, que coincida afinal com o crepúsculo, com aquele momento do dia em que o azul ainda é pálido e as luzes já se acenderam e as pessoas são vistas como silhuetas, recortes que passam num começo de noite. Se olharmos bem, há no fundo do quadro, por detrás de uma vegetação pintada com minúcia, esse azul de um dia que não acabou. Porém, as árvores são quase pretas; mais um pouco e eram tinta da China. Fazem contraste com o céu, adensam a atmosfera.

Apesar desta estranheza, não fica uma impressão sombria do quadro, um franzir carregado ou triste. Eu diria que fica justamente uma sensação oposta, e que isso se deve, sobretudo, ao facto de a pintura ser uma imensa metamorfose.

A mudança, a mudança é sempre qualquer coisa que exala vida. Uma vida que deixa para trás os desastres do Inverno, as dores da hibernação, o marasmo. A palpitação é por isso boa. Parece que entrámos numa noite em que já não há frio e encontrámos no coração da floresta criaturas fantásticas, que se transformam e nos exortam à transformação.

Ouve-se ao fundo um exímio tocador de harpa. É só na nossa imaginação, mas não importa. Ouve-se um som encantatório que é aquele ao som do qual dançam as Três Graças, e que é o que invade a tela, e nos chama. O movimento gracioso de todos os personagens também nos passa essa sensação revigorante.

Chegados aqui, vamos ao quadro, nos seus personagens, no enredo que lá se desenrola.

A primeira pergunta que se pode fazer é se a protagonista de Botticelli é a nossa protagonista – e também quem é a protagonista do pintor renascentista. É a Primavera que dá nome ao quadro ou é Vénus, que ocupa a posição central?

Entre as figuras da direita está Zéfiro, alado e azul, deus dos ventos que toma a ninfa Clóris, e pelo sopro a fecunda. A grande metamorfose do quadro talvez esteja neste instante, na acção do vento que muda as coisas de lugar, subverte a ordem do mundo, propicia o fluir da natureza. O sopro faz nascer Flora, de vestido apanhado abaixo do ventre, expressão algo enigmática, envolta em flores. Traz com ela a promessa dos dias longos, espalha flores e abundância.

E então, como se fosse o eixo de um movimento pendular, aparece Vénus no centro do quadro, e com ela Eros, de olhos vendados (o amor também é cego, além da justiça). Há qualquer coisa de beatífico no olhar desta Vénus de Botticelli. Podia ser uma santa se o tempo fosse outro, mas em pleno Renascimento tem consigo a temperança, a bondade, encarna a Humanitas. É aquela que distingue os valores materiais dos espirituais.

Do outro lado do quadro, o esquerdo, estão as Três Graças, as criaturas mitológicas representadas de mãos dadas, nos seus vestidos transparentes, esvoaçantes. São ao mesmo tempo muito corpóreas, concretas, ornadas de pérolas nos cabelos, e também leves, levíssimas, como se flutuassem. Tudo nelas é delicado, sem o peso do mundo.

Uma delas parece olhar directamente para o personagem masculino que está mais à esquerda e que representa o deus Mercúrio. É provável que a sua cara seja a de Lorenzo di Pierfrancesco de Médici (um primo de Lorenzo, o Magnífico), que encomendou o quadro, e ela a sua mulher.

Estamos no final do século XV, algures entre 1477 e 1482. A tela é de grande dimensão, entre os dois e os três metros.

Outra sala. Logo ali é o Nascimento de Vénus, e parece que o movimento da Primavera se mantém. Detectam-se as referências às Metamorfoses de Ovídio, estão lá o mesmo Zéfiro a soprar e a dar vida, a mesma Vénus de cara angelical (julga-se que era a musa de Botticelli), e aqui pudica, a usar a cabeleira para se cobrir, uma figura feminina de vestido florido, como se fosse a Primavera.

Dito isto, ouço Chico Buarque a cantar “Como se fosse a Primavera”. E subo ao terraço dos Uffizi a pensar nos versos “... você chega assim sorrindo, e de que modo subtil me derramou na camisa todas as flores de Abril. Quem lhe disse que eu era riso sempre e nunca pranto? Como se fosse a Primavera...”. E ouço e ouço, só na minha imaginação, mas não importa. E respiro o ar ainda frio, muito frio, e sei que vai chegar a Primavera, com um sopro. Será em breve.

Do terraço vejo tão perto que parece que posso tocar o Palazzo Vecchio, as torres dos palazzos mais ao longe, mas não muito, e também o Duomo, o campanário, o esplendor de Florença. Que cidade!, que bênção estar aqui.

Houve um tempo em que estas Galleria degli Uffizi eram parte do palácio, mandadas edificar por Cosme I de Médici. Vasari desenhou as galerias em forma de um U, com extensíssimos corredores, escadas intermináveis, uma colecção de arte superlativa.

(As filas para entrar também podem ser intermináveis. Maneira de o contornar: comprar bilhetes com antecedência na internet ou comprar num quiosque de Florença que permite, face ao pagamento de uma taxa, entrar daí a umas horas, sem espera. O mesmo princípio se aplica à Accademia, ou está o David de Miguel Ângelo. Vale a pena.)

Sob as arcadas dos Uffizi estão estátuas de pessoas que apetece admirar. Estão os Médici, mas também Dante, os que detém poder e os sábios, que detêm outra espécie de poder. E depois é só virar o corpo e já estou na piazza. Se for na outra direcção, estou na ponte vecchio, aquela ponte de casas encarrapitadas, pilares maciços sobre o rio Arno, e ourives de um lado e de outro.

Mas é a piazza que me interessa. Não conheço nenhum outro museu a céu aberto como aquele. Acho mesmo que não existe. Que outro espaço tem David, Hércules, Neptuno, quase lado a lado? E na loggia, numa espécie de pequena galeria, está Perseu e a cabeça da Medusa, o rapto das Sabinas, centauros, cenas violentas que nos dão marretadas na cabeça... É nesse momento que viramos de novo a cara para David, o imponente.

É um David em tudo igual ao David de Miguel Ângelo, o original que está na Accademia, obra magna do Renascimento. A mesma estatura, a mesma cor marmórea, de Carrara. Não tem a pose dos heróis que provocam um terramoto (apesar de esses também serem belos, como Hércules...). É contido, está ciente de que a astúcia pode mais que a força. (Pôde mais do que a força do gigante Golias.) E que beleza, que beleza, que feitiço. Os músculos desenhados, as veias das mãos, o rigor anatómico em cinco metros de suprema elegância.

Talvez a Primavera seja ele, o David. Bem vistas as coisas não são precisas as colinas da Toscânia cheias de florzinhas amarelas ou a tela de Botticelli, por mais belas que sejam. Para sentir a mudança basta a presença de David. Presença divina que inunda a piazza de esperança. 

 

Publicado originalmente no Público em 2015

 

 

 

 

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