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A rapariga que rouba pedras por não poder roubar árvores

Quando eu era pequena, desenhava árvores da seguinte maneira: primeiro um tronco grosso e depois uma copa frondosa. Não me lembro de desenhar flores ou frutos. Nem raízes. Pode ser que tenha desenhado alguns ramos, tímidos. E houve uma fase em desenhava hera a trepar pelas paredes. Mas uma árvore era uma árvore. Monolítica, verde e castanha. 

Sou uma nódoa para o desenho.

E para a botânica.

Mas gosto tanto de árvores que dou por mim a passear regularmente no Jardim Botânico, de Lisboa e de sítios onde vou. Também acontece pensar que as árvores são as coisas mais antigas do lugar onde estou e que tudo parece de ontem. 

Ontem reparei numa coisa na qual não deixo de pensar: é que as árvores não são rectas, regulares, como as que desenhamos na infância. Quase sempre elas são curvadas, sinuosas, cheias de caminhos (troncos) principais e secundários. Têm bifurcações sucessivas. São obtusas, perturbadas. 

Tenho no meu frigorífico um íman da Mafalda (do Quino) que olha para uma árvore retorcida e lhe pergunta: "Nunca te ocorreu ir ao psicanalista?"

Fiquei a pensar que nós somos como as árvores que ontem vi e que são como a árvore da Mafalda. Mas temos a ideia de que somos a árvore que desenhamos na infância. Lineares, irrepreensíveis. A tortuosidade é dos outros. Não é. O inferno somos (também) nós.  

As árvores que ontem vi, muitas delas, tinham as raízes à mostra. Algumas pareciam petrificadas, com a textura de uma pedra. Vi uma que era uma perfeita escultura do Alberto Carneiro, do José Pedro Croft. 

Como não podia roubá-la, roubei uma pedra.  

 

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