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Adriana Calcanhotto ("Saga Lusa")

O livro começa assim: “Luki, uma loucura, Portugal. Saí do Brasil exaurida como sempre saio, porque deixo uma casa funcionando, são cheques que nunca mais acabam, providências, recomendações…” Antes disso, há o email de Luciano, Luki, que pergunta: “Adrix, muito querida, quando tiveres matérias, críticas daí e tempo, é claro, manda…”. Adriana é Adrix. Calcanhotto é uma pessoa que toma providências e sai de casa exaurida. Uma pessoa como nós. “Saga Lusa” é o livro-resposta ao email de Luki, que resume a mais bizarra das suas estadias em Portugal, em Maio passado.

Podia ter sido uma viagem como as outras. Começou como as outras. O que aconteceu entretanto? Ela surtou. Surtar é apresentar mais ou menos repentinamente sintomas associados às psicoses. Pifar, diríamos nós.

Adriana teve medo de morrer. Adriana quis viver. Cancelou concertos, deu concertos. Continuou a fazer de Adriana Calcanhotto. Não dormiu. Comprou uma mala extra para os comprimidos. Foi aos Açores e não viu baleias. Riu de si própria. Foi parar ao hospital e, no caminho, achou que as fachadas de Lisboa tinham cores de sorvete, que apetecia lamber… Delirou. “Saga Lusa” introduz-nos no mundo privado de Adriana. Como é que ela sente, depois dos aplausos, depois dos autógrafos. Como é que ela lida com o medo, a vulnerabilidade. Como é que ela é na intimidade: de si para si.

Adriana Calcanhotto uma cantora que ama as palavras. Pensando bem, não é estranho que escreva um livro. A mãe dela, aliás, sempre lho disse…

 

“Saga Lusa” é uma viagem aos bastidores da sua mente – expressão que usa no livro. Mostra-a num estado de enorme vulnerabilidade. A escrita foi um exercício de sobrevivência?

Sem dúvida, foi. Estranhamente para mim que não escrevo. Correspondo-me com diversas pessoas e dou muitas entrevistas por email – esse é meu exercício de escrita; às vezes redijo um release de CD, mas nada muito além disso. A não ser as canções, que têm outros motivos.

 

Que motivos? A literatura é omnipresente no seu universo. A relação íntima com os poetas (António Cícero, Waly Salomão, ou mesmo Sá-Carneiro) são expressão disto.

As canções têm motivos próprios, para serem escritas ou para me arrebatar, no caso das que não são escritas por mim. São obviamente mais misteriosas, mais interessantes do que simples relatos, mais incontroláveis mesmo. Não tenho como investigar os seus motivos, e a bem da verdade, nem penso sobre isso…

 

“No momento de surtar de uma hora para a outra e se deparar com a própria loucura é que nosso carácter é posto à prova”. O que é que descobriu de si nesta bad trip?

Que sou mais frágil e mais forte do que imaginava. E que a linha entre a sanidade e a loucura é muito mais ténue do que eu supunha. Sobretudo, que a minha consciência é um arranjo químico bastante delicado. Surpreendi-me principalmente com minha disciplina, paciência e disposição para lidar com a situação; saí exaurida, mas fortalecida.

Passou dias sem dormir, emocionalmente e fisicamente em colapso. Contou com os amigos, os produtores, os médicos. E mesmo assim, este parece ser um relato de uma enorme solidão. Sobretudo quando conta que telefonou à sua mãe e lhe omitiu a sua condição…

Hoje sei que se tivesse tomado um Fenergan era provável que tivesse cortado o surto pela raiz, e mesmo assim não estaria menos só – como, aliás, todo mundo. Mas creio que o que potencia a impressão de solidão no relato vem do meu embate com a linguagem.

 

Como assim?

As dificuldades com as quais me deparei para dizer o que não estava sabendo dizer, transferiram-me um sentimento profundo de impotência. Descer aos infernos não é fácil, mas constatar que é possível viver sem álibi, compensa. Essa é a parte boa, a conclusão mais sábia a que cheguei depois que tudo passou.

 

Durante o processo, esteve em contacto telefónico e escrito com o seu psiquiatra. Segundo ele provavelmente sofreu “uma crise hipomaníaca induzida por medicação”. Teve realmente medo de morrer?

Tive certeza de que ia morrer em pelo menos dois momentos, e a minha sensação era de muita pena, não de medo. Me agarrei àqueles “últimos” milésimos de segundo com tanta vontade de continuar vivendo que, se é que a morte realmente me rondou, creio que foi vencida, ou enganada.

 

E medo de “surtar” de vez – para usar a sua expressão? A páginas tantas escreve: “Não moro mais em mim”.

Medo de surtar de vez, sim. Não fazia ideia que uma mente pudesse ficar tantas horas sem dormir, naquele nível de aceleração, e sair – razoavelmente – intacta da situação. Vivi tudo pensando apenas no presente, e escrever foi o que me proporcionou essa possibilidade.

 

O seu recurso para lidar com tudo o que aconteceu foi a auto-ironia. Rir de si mesma. Porquê?

É uma tendência natural, sempre fui assim. Confio, quando me encontro em situações difíceis, que se consigo respirar e rir de mim mesma nem tudo está perdido.

 

Canta em “Esquadros”: “Eu ando pelo mundo, divertindo gente, chorando ao telefone, (…) e meus amigos, cadê?, minha alegria, meu cansaço”… Tomemos a canção como um preâmbulo a este livro. Temos sempre uma Adriana pública e uma privada?

Ah, sim. Acho que ninguém é inteiramente só uma coisa ou outra. Ninguém precisa ser uma celebridade para ter uma persona que não é a privada. Jogo muito com as minhas facetas e gosto do mistério inerente ao “quem é quem”?

 

Cultiva a discrição. Hesitou em revelar-se tão intimamente?

Na hora de escrever, nem um pouco. Depois cheguei a pensar se queria mesmo me dar ao trabalho de publicar, mas me pareceu que não havia sentido ter escrito se não fosse para ser lido.

 

Escrever um livro era inevitável no seu percurso? Quando é que percebeu que o que começaram por ser desabafos para amigos se iria transformar no “Saga Lusa”?

Não lembro exactamente do momento em que o longo email que respondi virou um livro – acho que foi em Torres Novas. Aconteceu mais de me dar conta de estar a escrever um livro do que de tê-lo em algum momento planeado ou decidido. Nunca havia pensado em escrever um livro. Quando vi, havia pequenos capítulos e eu seguia escrevendo furiosamente…

 

No livro confidencia que a sua mãe sempre lhe disse que ainda iria escrever um livro… O que achará ela do livro?

Ela riu muito de alguns trechos que li pelo telefone – o que para mim é importantíssimo. E gentilmente poupou-me do “eu não disse”?

 

“A alegria é a prova dos nove” é um verso de Oswald de Andrade que cita em epígrafe. Porquê?

Porque é melhor ser alegre que ser triste.

 

Esse é também o primeiro verso do “Samba da Benção” escrito por Vinícius de Moraes e Baden Powel. Mas como procurar a alegria?

Acho que de qualquer maneira, da forma que for. Metendo-se em situações incontroláveis por exemplo, para ver que a alegria é uma escolha, possível, concreta, real e superior. A epígrafe me veio à cabeça logo que decidi tratar o texto como livro e norteou-me a escrita, que é tecida por meio de devorações.

 

A procura da alegria funcionou como norte. Era um móbil para não sucumbir, para se manter à superfície.

Sim. Uns três meses depois, li Caetano Veloso no seu blog dizendo: “O CD será a prova dos noves (é dos noves, sim: a gente parece que tem medo de pôr os numerais no plural! Até o Oswald de Andrade, naquela grande frase de um dos seus manifestos, escreveu “a alegria é a prova dos nove”; bem, não está errado, mas a própria prova é sempre feita com o uso da expressão “noves fora…”; e como eu já gosto de nove, essa ideia de noves – muitos, múltiplos noves – me dá enlevo)”. Decidi então, para me apropriar da apropriação, incorporar os múltiplos ecos dos novos noves.

 

 

Publicada originalmente na revista Máxima em 2008

 

 

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