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Adriana Molder

Para começar, há uma história, há uma cara, há uma fantasia? Há o impulso de pintar mergulhando no papel?

Para começar uma série, há geralmente uma história, sim. Essa história é por mim inventada ou então roubada dum livro. Depois há uma ou várias imagens que fui encontrando porque as procurei, numa espécie de caça. Para começar a pintar, há o atelier limpo, uma tela ou um papel em branco, e há água, muita água na tela ou no papel. Há uma história, há cinema e há música, sempre.

 

Durante anos usou papel esquisso, a que chamou “um mar negro”. Desde 2012 usa outro papel. Como é que foi a transição para outras superfícies depois de anos no papel amarrotado? Estou a perguntar pela importância dos materiais.

Sim, chamei mar negro ao efeito da tinta-da-China no papel esquisso. Gosto desse mar negro. Mas agora encontrei outro, mais plástico, mais falso, mas mais permanente. Já não é um mar... É mais um ecrã de cinema antes de o filme começar, ou o palco preto duma sala de teatro.

Acho que perdi um lado efémero que os meus desenhos têm, mas ganhei em presença e em intensidade. É a passagem do papel esquisso e da tinta-da-China ao acrílico sobre tela.

Continuo a trabalhar no chão, mas sobre tela posso ser mais precisa, e agora que a mão e o corpo finalmente têm um pouco de técnica, posso brincar mais. É como se tivesse começado tudo outra vez...

 

Outra das alterações dos últimos anos foi a introdução da cor, em especial o vermelho. Como se fosse uma mancha de sangue? Que processo a levou ao vermelho? Tenho impressão que o vermelho torna as imagens mais vivas, como se introduzisse um elemento visceral. Concorda?

O vermelho para mim é quase como o preto e o branco. Não é bem uma cor, mas pode ser intenso como o preto.

Acho que sim, é a cor do sangue, tem vida e tem morte.

 

Provavelmente por a paleta cromática ser reduzida e a cor dominante ser o preto-e-branco, é fácil associá-la a um tempo passado, um tempo sem tempo. Esta questão, a do tempo, é central no seu trabalho?

Gosto disso do tempo sem tempo, porque não acredito no tempo. Para mim tanto faz uma pintura do van der Weyden como uma de agora. No fundo, é tudo do mesmo tempo, que é o meu. Durante algum tempo achei que eu tinha que ver com isso do tempo passado, mas agora não vejo assim. O passado não existe e não é a preto e branco. Os filmes e as fotografias do princípio do cinema e da fotografia, essas sim, são a preto e branco.

Dou-me bem com o preto e branco, dou-me bem com o princípio do século XX e final do Séc. XIX, mas ainda me dou melhor com o meu tempo. Toda a arte é sobre o tempo ou sobre a morte. Ou (como naquele diálogo sobre o livro que estava a escrever, entre o patrão da fábrica de pickles e o Bukowski, do filme Factotum) é sobre tudo. Eu acho que o meu trabalho é sobre tudo, ou sobre tudo aquilo que tu quiseres.

 

As caras: o que é que procura num rosto? O que é que a impressiona numa expressão, numa fisionomia?

É sempre um conjunto de características, que tanto podem ser físicas como fazerem parte da construção duma certa personagem que me interessa, pelas mais variadas razões. É sempre um mistério aquilo que me leva a querer possuir e traduzir um rosto, mas quando encontro aquilo que quero, é muito claro. É isso, tem de me impressionar.

 

As histórias, os enredos continuam a ser determinantes? É daí que parte? Continua a alimentar-se, mais do que tudo, de cinema e literatura? 

Sim, quase sempre começa por aí, quando não começa assim é porque vai acabar assim. Mas estas histórias e enredos sobre os quais as séries são construídas ficam geralmente guardados para mim, não são dados obrigatoriamente do público.

Continuo a ver imensos filmes, vejo filmes todos os dias. Faz parte da rotina do meu trabalho de atelier. Adoro o cinema.

Gostava de ler mais, principalmente porque é sempre aquilo que “li há uns anos” que me move a fazer coisas novas. Mas alimento-me também das histórias pessoais, por vezes de actrizes e actores de filmes de que gosto, das pessoas que me rodeiam e, claro, também, e principalmente, das minhas.

 

Nos últimos anos fez uma exposição com Paula Rego, outra contadora de história. Pode contar da experiência de terem feito a Dama-Pé-de-Cabra?

Eu queria muito fazer alguma coisa com a Paula Rego, porque ela é um dos últimos mestres vivos da pintura. Desafiei-a a fazer uma exposição comigo e propus a Dama Pé-de-Cabra, porque achei que nós a duas podíamos bem trabalhar sobre uma Mulher-Diabo, e também o podíamos fazer porque os nossos trabalhos são tão diferentes. Ela não só aceitou o desafio como criou, a meu ver, uma das suas melhores e mais livres séries dos últimos tempos. Acho que poucas pessoas perceberam a grandeza destes trabalhos da Paula Rego e o facto de ela ter criado pela primeira vez trabalhos novos para a Casa das Histórias.

Como experiência, esta exposição também me fez ver como as mulheres são muito mal tratadas em Portugal. O meio artístico é mesmo extremamente machista (e nisto muitas mulheres estão incluídas).

 

O que é que aprendeu com a Paula Rego?

A Paula Rego é insubstituível e não é um fenómeno local. É uma força grande. Poder ver que aos 75 anos a Paula tinha exactamente a mesmo rotina de atelier (e por vezes mais ainda) que eu, e que, estando doente e sem forças, fez-se pintar amarrada a um elevador para poder fazer as peças de grande formato, foi uma grande lição de vida!

Foi também um momento muito conturbado em que um museu muito promissor se transformou simplesmente num museu camarário, sem programa ou direcção. Foi conturbado para o país inteiro, o Verão de 2012. Mas foi uma exposição e uma experiência incrível feita numa sala perfeita para a grande escala. Foi também uma das minhas últimas séries em papel esquisso. Foi como um fechar de um ciclo..., e acho que fechei em grande!

 

A sua carreira tem crescido muito, tem exposto em vários pontos do mundo. Como é que isso acontece?, parte de uma estratégia?, um investimento nesse sentido?

Não acho que tenha uma carreira. Tem acontecido expor em sítios diferentes e inesperados, infelizmente não faz parte duma estratégia, mas mais dum acaso. 

 

Bem vistas as coisas, está a viver em Berlim há dez anos. Como é que isto muda a sua vida, contamina o que faz? A cidade continua a ter o sopro de liberdade que tinha?

Sinto em Berlim uma grande liberdade. É verdade que Berlim mudou imenso nestes 10 anos, mas eu também. Continuo a ver Berlim como um universo paralelo para eternos adolescentes e isso continua a atraír-me muito. Aqui o tempo pára. De momento, e desde 2013, vivo entre Lisboa e Berlim. Esta divisão entre as duas cidades veio dar-me um equilíbrio perfeito. É ter a Luz e ter a Noite.

 

Quem é a sua família artística? Pode apontar personagens, artistas, lugares, pessoas de carne e osso, obras de arte? Para ter um mapa do seu mundo, com pontos nucleares.

A minha é uma família muito grande e variada. Eu acredito que assim como não podemos evitar gostar de alguém, o mesmo se passa com aquilo que nos influencia ou o que é a nossa família artística. Talvez me safe com uma parvoíce assim:

“Noutro dia, no meu atelier, quando ia pôr a tocar, e em repetição no meu Ipod, o Higgs Boson Blues do Nick Cave tropecei no livro do Munch que estava no chão mesmo em cima do catálogo do Redon. Fui contra a secretária e fiz com que os postais que lá estavam caíssem todos no chão. Peguei neles, já nem me lembrava que estavam ali. Um era o retrato do jovem cavaleiro do Vittore Carpaccio que comprei no Thyssen, o outro era Ventura e Vitalina no filme Cavalo Dinheiro, que roubei na Cinemateca. Por baixo estavam o perfil do Brando pelo Sam Shaw e uma das muitas Marlenes (Dietrich) que tenho sempre comigo no atelier para dar sorte (ambos comprados na livraria que fica ao lado do kino arsenal). E no fundo desta colecção de postais amarrotados que eu acabava de estragar, estava o Et nous aussi serons mères, do Jean-Jacques Lequeu, que trouxe de Orsay”.

 

Entrevista feita por escrito propositadamente para este blog, em Abril de 2015.

http://issuu.com/adrianamolder/docs/banho_de_sangue_blood_bath

 

 

 

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