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Albert Jaeger

A Troika foi-se embora? Mais ou menos. Durante mais um ano, Albert Jaeger vai continuar em Portugal. Dele o FMI pode dizer: o nosso homem em Lisboa.

É do tipo meticuloso. Daqueles que têm a secretária especialmente arrumada e vêem no desalinho milimétrico uma imensa confusão. Austríaco, foi o economista destacado pela instituição para chefiar a delegação permanente durante o programa de ajustamento. Mudou-se então para Lisboa há três anos, vive a 15 minutos a pé do escritório, passa despercebido na rua.

Propus-lhe uma entrevista em que perguntaria pelo modo como nos vê e pelo modo como decorreu o programa. Há nas respostas, muitas vezes, um tom defensivo; em jeito de introdução, explicou-me que não poderia dizer o que contraria a voz do FMI. Mesmo assim, muito pode ser lido, explicitamente e nas entrelinhas, sobre este período, a teia de relações, a tensão surda, as opções técnicas e políticas.

  

Três anos depois de ter chegado, o que pensa de Portugal? Compreende alguma coisa do que é este país complexo?

Não diria que compreendo totalmente Portugal. Sou formado em Economia, vejo as questões económicas e sociais como um economista. Mesmo como economista, não consigo compreender muito bem o que está por trás dos problemas económicos e sociais deste país. [risos]

 

Culturalmente, consegue entender a atmosfera do país, a alma da população?

Creio que tenho uma boa noção da atmosfera; a alma é talvez uma outra coisa. Viver três anos num país dá-nos uma perspectiva dos problemas quotidianos. É a primeira vez que faço uma coisa assim, ir para outro país numa base profissional. Estive na sede do FMI em Washington durante 20 anos. Nunca esperei estar três anos em Portugal.

 

Porque é que aceitou o desafio?

Era uma coisa profissional. No FMI trabalhava essencialmente com países europeus. Inicialmente, em países avançados como a Alemanha, Luxemburgo, Suíça. Depois trabalhei com a Zona Euro, interagindo com instituições europeias, como a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu. Mais tarde trabalhei com países europeus de leste. Portanto tive que enfrentar problemas completamente diferentes.

 

Como foi?

Trabalhar em países como a Suíça é uma experiência muito diferente de trabalhar em países como a Sérvia. Quando o programa Português surgiu, pensei que era uma oportunidade para fazer um círculo completo, voltando a focar-me num país avançado da Zona Euro.

Foi um desenvolvimento inesperado. Quando a crise financeira mundial surgiu, em 2008, ninguém esperava que alguns países da Zona Euro fossem precisar de programas de ajustamento.

 

Sabia que seria difícil.

Já tinha trabalhado em programas difíceis. Não sabia como seria trabalhar com este enquadramento institucional, o da Troika. Isso foi uma novidade para todos. Estava habituado a trabalhar num programa do FMI mais estandardizado.

 

Várias vozes falaram da pluralidade de vozes que há no seio da Troika. Uma coisa é a voz, ou seja, a agenda, os interesses, do FMI, outra é a voz das instituições europeias. Até houve quem dissesse que o FMI era mais simpático para Portugal do que o BCE ou a Comissão Europeia.

No meu ponto de vista houve muita cooperação entre os membros da Troika, tanto a nível pessoal como a nível institucional. Na verdade, esperava mais dificuldades.

 

Esperava mais dificuldades na articulação dos diferentes membros da Troika?

Em termos da coordenação dentro da Troika, talvez. Juntam-se três instituições diferentes, que nunca tinham feito isto antes e podem ocorrer sobressaltos. Mas, no fim do dia, todos estavam no mesmo barco. E, pelo bem do país, tem de se fazer o melhor possível dentro das limitações existentes.

 

Foi também novo ter uma enorme crise na Europa, e não só focada no país onde está a trabalhar. É um enquadramento diferente. Diferentes fogos, com intensidades diferentes, em países diferentes.

Sim. Tivemos sempre que encarar a crise dentro de uma perspectiva multi-dimensional, em contraste com as experiências anteriores (programas aplicados a países individuais).

 

Voltemos ao início. Se precisasse de explicar o essencial deste país a um amigo, imagine, um colega do FMI, o que é que diria?

A primeira coisa que me vem à cabeça é que as pessoas são muito simpáticas. Ao mesmo tempo, e de certo modo paradoxalmente, os portugueses tendem a confiar pouco nas outras pessoas e também neles mesmos. Não há muita preocupação com eficiência. Tem um lado bom, as pessoas arranjam tempo para falar entre elas. O clima é melhor do que na maioria dos outros países. É muito fácil viajar pela Europa. Há o mar. Não se sente a falta de nada. É difícil não gostar deste país.

 

É a descrição de um postal ilustrado. É fácil olhar para Portugal como se fosse um postal ilustrado.

Podemos ir para um campo mais profissional. Há razões para o FMI ter tido três programas aqui durante os últimos 40 anos. Existem problemas estruturais não resolvidos.

 

Desde quando?

Nunca consegui perceber desde quando. Há descrições do século XVII, por exemplo, quando o Conde de Ericeira tentou promover um programa de estímulo às exportações porque o balanço externo corrente era muito deficitário. Quando leio coisas deste tipo, as descrições pareceram-me actuais.

 

No fim do século XIX, tivemos bancarrota. Durante o século XX, constantes problemas, altos e baixos. Porque é que não conseguimos tirar proveito deste postal que descreveu, e porque é que temos este problema endémico relacionado com a economia?

Antes de vir para aqui, trabalhei em países da região dos Balcãs. Quando cheguei a Portugal, encontrei muitos dos mesmos problemas económicos que vi por lá. Há duas coisas em especial: em primeiro lugar, o papel das exportações no crescimento económico; em segundo lugar, o papel do Estado. Tal como os países dos Balcãs, Portugal tem dificuldades em desenvolver uma economia equilibrada com crescimento baseado no comércio externo.

Nesses países, o sector de exportações é a Cinderela da economia. Tal como no conto de fadas, ele é “maltratado” pelo sector de bens não transaccionáveis e pelo sector público. Consequentemente as exportações não conseguem desenvolver o seu potencial de crescimento.

 

E em relação ao Estado?

Os cidadãos têm expectativas demasiado elevadas no que toca ao Estado.

 

Protecção social, emprego?

Sim. Mas também educação, saúde, habitação. As expectativas são muito, muito altas. Simultaneamente, têm muito pouca confiança no Estado.

 

É uma contradição, esperam muito mas não confiam.

Há um grande fosso entre o que as pessoas esperam e aquilo que o Estado pode oferecer dadas as circunstâncias e os recursos que estes países têm. Isto também perturba a imagem do postal.

 

Somos politicamente imaturos em Portugal? As pessoas esperam um pater familias que resolve tudo. Os 48 anos de ditadura que tivemos ajudam a perceber como somos política e economicamente?

Deve ter tido uma consequência no que vemos hoje. Contudo, outros países passaram por longos períodos de ditadura, de regimes opressivos e conseguiram ser bem sucedidos economicamente.

 

Não acha determinante?

Não creio que algo que ocorreu há mais de quatro décadas possa ser definido como a principal causa dos problemas actuais. É possível mudar de atitude ao longo do tempo. (Há 25 anos, Portugal tinha o maior índice de acidentes de trânsito fatais no âmbito da UE. Nos últimos 25 anos, os indicadores melhoraram sensivelmente, em grande parte devido ao melhor comportamento dos automobilistas portugueses.)

 

O que é então central, na sua opinião?

Trata-se, talvez, de encontrar o equilíbrio certo entre a competição e a cooperação no contexto da economia portuguesa. Os portugueses têm tendência a competir quando deviam cooperar e a cooperar quando deviam competir.

Devemos ter mais competição na economia, sobretudo nos sectores de bens não transaccionáveis. As empresas devem competir umas com as outras. Isso torna-as mais produtivas e eficientes. É também bom para o consumidor porque os preços caem e a qualidade do serviço melhora.

 

Temos escala para essa competição interna?

Têm. Olhe para o sector dos restaurantes, é um sector onde têm muita competição. Podem ver-se os resultados no turismo. Os turistas ficam sempre impressionados com a boa relação entre o preço e a qualidade.

Precisam de cooperação na hora de lidar com a economia. Um bom exemplo é o papel dos parceiros sociais (sindicatos, associações de empregadores e Governo) na determinação dos salários e das condições de trabalho. Nesta área, Portugal pode aprender com alguns países pequenos da Europa, que usam mecanismos de acordos colectivos de trabalho bastante mais eficientes.

 

Mencione um país que tenha estado sob uma ditadura e que rapidamente tenha resolvido o problema da competição e os problemas da economia.

Na Europa de leste há alguns exemplos. Talvez a Eslováquia, que estava com muitas dificuldades depois da cisão da Checoslováquia e que conseguiu criar condições para uma economia de rápido crescimento baseada no comércio externo.

 

O problema dos portugueses é não serem suficientemente disciplinados, organizados. Queremos trabalhar mas não sabemos como. Trabalhamos muitas horas, mas a nossa produtividade é baixa. É assim?

Talvez. Mas estaria a apontar para um problema de coordenação e cooperação, de novo. Estamos sempre a ouvir a história de que os trabalhadores portugueses são muito produtivos quando são geridos por estrangeiros.

 

Basta olhar para a Autoeuropa, cujo modelo de funcionamento é alemão.

Não vejo porque é que isso não pode ser feito com gestores portugueses e até penso que alguns dos gestores da Autoeuropa são portugueses. De qualquer forma penso que as condições vão melhorar. A população jovem tem agora melhor formação e terá melhor capacidade de gestão.

 

Apesar de as novas gerações serem instruídas, não somos globalmente um povo especialmente preparado. Volto aos anos de ditadura: no 25 de Abril, 24% da população era iletrada.

É verdade que o ponto de partida não ajuda muito. Mas a questão não é a dos níveis de produtividade mas do potencial de crescimento. Para isto, tem que determinar um equilíbrio entre cooperação e competição. Isto é habitualmente mais fácil de atingir num país pequeno, como se pode ver em muitos países europeus pequenos e bem-sucedidos.

 

Mais do que a reforma do Estado ou as grandes reformas que foram anunciadas no início do programa de ajustamento, considera que temos que resolver a questão entre competição e cooperação?

É uma forma abstracta de colocar o problema. Na prática têm que se fazer muitas reformas para que o país seja mais competitivo. O programa foi um bom começo, mas o trabalho não está completo. Não é possível reformar um país em três anos. Todos sabem disso. No início de 2011, a situação era muito difícil. Não sei se as pessoas se lembram. Havia o risco de uma crise financeira grave. O programa não pode fazer milagres nesse contexto. O que fez foi dar tempo. Deu três anos para que o sector público e privado ajustassem as suas finanças. E deu três anos para se começarem a fazer reformas estruturais no mercado de trabalho, nos mercados de produtos, na administração pública e no sistema judicial. É um programa de reformas bastante exaustivo. Todas estas reformas foram importantes porque permitiram restaurar a confiança em Portugal. Um dos objectivos do programa era financiar de novo o país no mercado.

 

E é verdade que voltámos aos mercados.

É fácil dizer que isso não significa nada. Mas há um ano atrás pouca gente esperava que Portugal voltasse aos mercados e começasse a financiar-se sem grande problema. Há também uma recuperação na economia. Não digo que seja uma recuperação fortíssima, mas o desemprego começou a descer. Admito que ainda é alto demais e que há pessoas a deixar o país.

 

Cem mil pessoas, por ano. É muito.

Há aí também uma oportunidade.

 

Está a repetir as palavras de Passos Coelho quanto às oportunidades no estrangeiro.

Mas é verdade. Se essas pessoas voltarem a Portugal podem ajudar a moldar muitas coisas na direcção certa.

 

Acredita que voltam?

Se o país estiver melhor no futuro, serão naturalmente puxadas de volta. A emigração pode ser vista como uma coisa muito negativa. Se essas pessoas voltarem para o país e trouxerem as capacidades que adquiriram quando trabalhavam no estrangeiro, pode ser benéfico. Grande parte dos emigrantes são pessoas jovens, não nos esqueçamos.

 

Do seu ponto de vista, esses são os pontos positivos do programa?

Não só isto. Atingimos um equilíbrio externo. A maioria da consolidação orçamental foi concluída. A desalavancagem do sector privado iniciou-se. E, como disse, a economia está a começar a crescer.

 

Silva Peneda disse no início deste ano que a perspectiva de crescimento era de 2,5 e na realidade o número é 0,8.

Creio que o número que temos agora, para 2014, é de um 1%. A taxa de 2.5% para 2014 foi uma previsão feita em 2011. A recuperação foi mais lenta. As razões para isso são em parte explicadas pelo facto de a economia europeia não ter crescido em linha com o que era esperado. Para além disso, os impedimentos ao crescimento foram subestimados no início do programa, como por exemplo os efeitos do alto nível de dívidas do sector empresarial no investimento.

Antes do programa não havia crescimento há dez anos. Temos que avaliar as coisas dentro de um contexto histórico. Vejo como positivo as reformas que foram começadas, algumas delas difíceis.

 

Como a reforma do Estado.

Essa é claramente uma área onde ainda há muito trabalho por fazer.

 

Porque sorri quando fala da reforma do Estado?

Porque é uma área especialmente difícil de reformar. É um problema semelhante ao da galinha e do ovo: para reformar precisamos de uma administração pública eficiente, e para ter uma administração pública eficiente precisamos de reformas.

Ter de fazer isto durante uma consolidação orçamental não ajuda. Estamos no começo de uma reforma que pode levar cinco, dez anos de esforço contínuo.

 

Usou várias vezes a palavra “começar”. Devemos entender o programa de ajustamento como um começo? Acredito que a população esperava mais do que um começo. Em especial quando pensa nos custos da austeridade.

Quando digo “começo”, falo em especial das reformas estruturais, não tanto no ajustamento, na parte financeira do programa. Falo de reformar o país a fundo. Essas coisas levam muito tempo a implementar. No ajustamento as coisas mexeram-se depressa. A balança externa corrente teve um saldo positivo em 2013; a última vez em que isso tinha sido conseguido foi na Segunda Guerra Mundial.

Na questão do ajustamento, foi certamente mais do que um bom começo. Portugal progrediu muito nos últimos três anos, mas ainda existe um longo caminho a percorrer.

 

O que correu mal?

O programa não foi fácil. As famílias, os trabalhadores e as empresas sofreram dificuldades financeiras severas. No entanto, isto não implica que estas dificuldades tenham sido infligidas pelo programa.

 

Então?

A principal causa destas dificuldades são políticas erróneas, não apenas provenientes de Portugal, aplicadas antes do programa. Isto não implica que tudo tenha sido perfeito durante o programa. Existem já livros que referem “os erros” da Troika.

 

Está a pensar no livro do jornalista do Jornal de Negócios Rui Peres Jorge, “Os Dez Erros da Troika em Portugal”.

Eu li o livro. Contém uma boa visão geral do programa. O meu problema principal (no que se refere ao livro) é que todas as dificuldades vividas depois de 2010 aparentam ser atribuídas ao programa.

 

Recusa a ideia de que o programa foi mal desenhado? É o que muitos reclamam.

Se as pessoas acreditam que os programas podem fazer milagres, então têm razão. Mas os milagres económicos são raros. Não houve crescimento durante dez anos antes do programa, e havia dívidas muito altas tanto no sector público como privado.

 

Quando as pessoas dizem que o programa foi mal desenhado, mais do que tudo pensam nos custos da austeridade, que foram subestimados quando o programa foi desenhado e os números colocados numa folha de Excel.

Podemos debater qual é que era a velocidade certa para fazer o ajustamento orçamental, mas, mais cedo ou mais tarde, ele tinha que acontecer. Se vamos devagar no início, temos que acelerar depois, e vice-versa. Não há magia. Se as pessoas pensam que podíamos ter evitado a austeridade de todo, estão fora da realidade. Não é realista.

 

Não?

Como é que isso seria possível? Tinham um défice orçamental de 10% em 2010. Só podemos debater como distribuir a austeridade ao longo do tempo. Há bons argumentos para o fazer de forma rápida no início. E há argumentos contrários. Tem que se conciliar os vários pontos de vista. Foi o que se fez através do programa. A velocidade deste ajustamento acabou por ser um pouco diferente do planeado. E houve mudanças nos objectivos fiscais ao longo do tempo. Como consequência, não estamos onde deveríamos estar. Quer dizer que ainda é preciso fazer ajustamentos orçamentais em 2014 e 2015.


Considera-se, sem grande discussão, que os alvos mais vulneráveis deste programa de austeridade foram os da classe média. Concorda?

Imensas pessoas enfrentaram dificuldades, tanto a nível do mercado de trabalho, como a nível financeiro. Tiveram de ajustar os seus padrões de despesas. Sobre os efeitos do programa na classe média, depende de como se define a classe média.

 

Professores, médicos, funcionários públicos.

Houve uma tentativa de proteger as partes mais vulneráveis, o que se reflecte na forma como foram desenhados os cortes salariais e pensões públicas. As pessoas abaixo de um determinado limiar não seriam afectadas, e depois, acima desse limiar, os cortes começariam. É uma tentativa de colocar o fardo nas pessoas que melhor o podem suportar.

Há muitas opções de como distribuir o fardo de um programa de ajustamento. Em última instância, isto depende principalmente do Governo, que foi eleito para decidir onde quer pôr o fardo. Não é uma decisão técnica, é uma decisão política.

 

Há uma paleta de opções e o Governo escolhe a opção que julga mais adequada, mais fazível?

Sim. Têm que conciliar vários objectivos que estão em conflito. E no final é a população que deve manifestar-se sobre as opções do Governo, no contexto do processo eleitoral.

 

Estou a ouvi-lo e a pensar que o discurso de Passos Coelho, ao defender o programa, não é diferente. Pensei que os seus argumentos pudessem ser diferentes. Ou está a reproduzir o discurso institucional (do FMI, neste caso) porque não pode sair dele?

Há uma diferença [entre o meu discurso e o de Passos]. Há uma parte técnica no programa. Concordamos nos objectivos, podemos discutir qual é o alvo que devemos atingir, qual é a velocidade com que atingimos o alvo. A outra parte é que tipo de medidas vamos tomar – e aí há uma grande componente política. Como técnico posso ou não concordar, mas essa não é a questão. A questão é atingir o objectivo à velocidade acordada.

 

Conhece o ditado que diz que é melhor ensinar a pescar do que dar a cana de pesca? A sua função, como FMI, é ensinar a usar a cana de pesca?

O FMI ou as outras instituições contribuem com a sua experiência de outros países. Nesse sentido, espero que tenhamos sido úteis no sentido de ensinar a pescar, e não apenas no sentido de proporcionar a ferramenta.

 

Concordo que há uma séria componente política na decisão. Apesar disso, o FMI está habituado a lidar com a hostilidade da população, é frequentemente responsabilizado pelo que acontece.

Há 20 ou 25 anos havia muito menos transparência no que era acordado. O FMI nem sequer publicava os seus relatórios. Hoje em dia há um processo bastante transparente, está tudo documentado. E ambos os lados podem explicar aos media porque é que estão a fazer isto ou aquilo. Essa é provavelmente a razão pela qual vemos menos hostilidade do que a sua descrição sugere.

 

As pessoas não culpam a Troika? Culpam mais o Governo ou as instituições políticas?

A maior parte das pessoas entende bastante bem qual é a causa e qual é o efeito, neste caso. Não compram o tipo de história simplificada e politizada de que a Troika veio e as dificuldades começaram. Se estão contentes com tudo o que foi feito ao abrigo do programa? Obviamente que não. Por exemplo, com a TSU, muitas pessoas estavam descontentes.

 

Explodiram alguns petardos em frente ao vosso edifício na manifestação contra a TSU.

As pessoas podem discordar. A TSU foi retirada.

 

Concordo, há 25 anos a hostilidade era mais dura. Mas nesta crise, o seu colega conhecido como Mr. Blue Eyes andou escoltado na Grécia.

Na Grécia as coisas foram mais voláteis e mais difíceis sob vários ângulos. Neste caso, Portugal claramente não é a Grécia.

 

É porque somos mais suaves?

Talvez a cultura política aqui seja menos confrontacional. As pessoas entendem melhor qual foi a causa, percebem por que chegaram à crise.

 

Também é da nossa natureza? Um alemão costumava dizer-me que Portugal é o único país onde as pessoas fazem uma manifestação e não partem montras, não ateiam fogos por todo o lado.

Essa é uma das vantagens deste consenso básico. O confronto onde se partem vidros não ajuda nada.

 

Serve para exprimir a raiva.

Sim, mas podemos exprimir a raiva de maneiras diferentes. Há muitos grafittis em Lisboa. É uma forma criativa de exprimir os sentimentos sobre as coisas.

 

Há uns meses, Christine Lagarde disse que os custos da austeridade em países como Portugal, Grécia e Irlanda eram enormes. Pensei então que alguma coisa ia mudar. Não aconteceu nada. Como é possível entender isto? E como é que recebe isto?

Não é justa a forma como colocou o depoimento de Mme. Lagarde sobre esse assunto. Já discutimos o tópico relativo à velocidade apropriada do ajustamento orçamental. Que tenham que corrigir o défice, que as pessoas tenham que rever os seus hábitos de consumo, ninguém questiona isso. A questão é: estamos a fazê-lo a uma velocidade razoável? E estamos a fazê-lo de forma a minimizar os impactos negativos naqueles que podem proteger-se menos em situações como esta?

 

O valor da dívida é 127% do PIB, muito mais alto do que era.

Em parte é consequência de abrandar a velocidade de ajustamento orçamental relativamente ao que estava planeado. Se abrandamos, a dívida não diminui conforme o esperado. Em parte é consequência de um crescimento nominal abaixo do previsto.

 

O economista Félix Ribeiro usou a metáfora de um carro que não tinha combustível nem autorização para circular para descrever a situação de Portugal aquando do resgate. Segundo ele, o que a Troika fez foi dar-nos de volta a licença para circular – ou seja, a credibilidade para voltar aos mercados. Também disse que se não resolvemos alguns problemas estruturais mais cedo ou mais tarde vamos estar na mesma situação: sem gasolina e sem licença.

Parece razoável, é consistente com o que eu disse. No início do programa tinham dois problemas: um é que era preciso equilibrar as contas para recuperar credibilidade; o outro é que era preciso fazer reformas para evitar voltar a esta situação de desequilíbrio que levou ao programa. O que ele disse foi que, se só ajustarem as contas e fizerem um ajustamento pontual, as coisas ficam como estavam antes do programa. [A metáfora de Félix Ribeiro] é uma boa forma de descrever o desafio.

 

Como foi, globalmente, a relação entre a Troika e o Governo?

Às vezes cria-se a impressão de que o Governo está a trabalhar para a Troika. Não é justo nem correcto. Em geral, o Governo foi um negociador difícil.

 

Mesmo com Vítor Gaspar, que agora trabalha para o FMI?

Sim. Ele tinha por objectivo o interesse do seu país. De facto, às vezes, o Governo sentia que a Troika era inflexível, que não era sensível às suas limitações. Por outro lado, a Troika achava que o Governo era demasiado rápido a declarar vitória e a dizer que as coisas estavam a funcionar. Tentei perceber porque é que os dois lados viam realidades diferentes.

 

A percepção externa da vossa relação também é diferente.

Talvez. É difícil fazer as coisas que se tem que fazer. Temos perspectivas e níveis de tolerância diferentes. É como numa situação médica: quando não se tem a certeza do que o paciente tem, fazem-se testes adicionais. Somos adversos a dizer que o paciente está bom – queremos ter a certeza disso. A Troika queria ter a certeza de que o programa funcionava.

 

Nunca diz FMI, diz sempre Troika. Quer dizer, fala de um colectivo e não da instituição para que trabalha.

Neste contexto foi sempre um jogo de equipa. Não eram três jogadores diferentes com três visões diferentes. Tínhamos que ter uma visão comum.

 

É uma posição elegante, mas sabemos que as três partes têm diferentes perspectivas acerca da crise, do ajustamento, da relação com as diferentes partes.

Está a falar de potenciais desacordos ou divergências dentro da Troika. A questão aqui não é essa. A dada altura, a Troika tem que chegar a uma posição comum com o Governo.

 

Então, faz o seu trabalho de casa articulando os diferentes pontos de vista antes das reuniões que tem com o Governo.

Assumo que fazem o mesmo do lado português. Têm que chegar a uma posição comum [antes de se sentarem à mesa de negociações]. Na nossa instituição o processo é igual, temos que convergir para uma posição comum antes de sairmos para um país.

 

Conte-me sobre o trabalho do dia-a-dia.

Chego às nove horas. Sou o primeiro a chegar.

 

Às nove? Em Washington provavelmente começava às oito.

Sim. Dependia do trânsito.

 

Vem a pé?

Sim, é uma caminhada de dez, 15 minutos. Os dias de trabalho variam muito dependendo das missões, dependendo do assunto do dia. A maior parte do trabalho que fazemos é rotineiro. Recolher informação, monitorizar o que se passa na economia, informar a nossa equipa, preparar apresentações.

 

Trabalha até às seis da tarde?

Depende. Normalmente saio às seis e meia.

 

Almoça uma sandes?

Alguma coisa rápida. Excepto se ao almoço me encontro com alguém. Há muitas padarias aqui, posso comprar uma sandes e despachar-me rápido.

 

Tem amigos portugueses ou as suas relações são acima de tudo profissionais?

Não, conheço muitos portugueses. Acho que é importante conhecer pessoas aqui, não apenas de forma superficial. Ouvi-las falar de como vêem as coisas a um nível mais pessoal.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2014

 

 

 

 

 

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