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Ana Bacalhau

Ana Bacalhau é cantora. Prepara o novo disco dos Deolinda, a sair em 2016. Recentemente esteve em São Paulo, a solo. É formada em Línguas e Literaturas Modernas.

 

“Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo” – Fernando Pessoa. Pode falar-me de alguns dos sonhos do seu mundo?

O que me impele é a vontade de ir. A única coisa a que me obrigo é dar ouvidos à voz interior que me vai dizendo quando preciso de ir e para onde devo ir. Sempre que é ela que me comanda, não me engano. Quando é a cabeça, corre mal e estatelo-me. Se souber respeitar o tempo próprio das coisas, as coisas com que sonho acabam por se materializar. Entrego-me por completo em tudo o que faço. Cantar, amar e ser amada. Rir muito, chorar um pouco. Fazer música que me importe e que importe a alguém. Saber viver o que a vida tem reservado para mim e não apenas aquilo a que me reservo na vida. Ser quem sou.

 

Outro verso de Pessoa: “Navegar é preciso, viver não é preciso”. O problema é que viver é preciso. Quais são as dificuldades concretas do viver que acha mais preocupantes em Portugal?

O que me toca mais é a injustiça, a falta de empatia que encontramos em todos os cantos da nossa sociedade que, assustada por uma austeridade que corta tudo, se recolhe na sua concha, temendo que ao ajudar o próximo, dando-lhe a mão, acabe por se cortar também.

 

Que caminho, então?

É preciso que sintamos que somos todos uns pelos outros, é preciso que vejamos isso na prática dos nossos políticos, dos nossos gestores, da nossa justiça. E, caso todos esses agentes falhem, é preciso pedir responsabilidades e fazermos nós. Não podemos deixa que um pai não tenha o que dar de comer aos seus filhos, que um ancião não tenha dignidade no final da sua vida, que um doente não receba o melhor tratamento possível, que um animal seja maltratado. A democracia precisa de ser protegida de alguns por todos os outros.

 

O que se aprende nos livros, no cinema, na arte é muito diferente do que se aprende na vida?

Pode ser muito diferente da vida, se negarmos à vida a imaginação de que a arte precisa. Se nos contentarmos com a realidade e deixarmos a criação, o sonho fora da equação, preferindo viver uma vida “normal”, “padronizada”, nunca aprenderemos com a arte. É preciso darmo-nos ao objecto artístico para que ele possa exercer o seu efeito em nós.

 

Pode dar um exemplo de uma obra que tenha exercido um efeito em si?

A personagem mais importante para mim foi Raskolnikov, de “Crime e Castigo”, por Dostoievski. A forma como a nossa cabeça, ou, melhor dizendo, a nossa mente pode (re)criar a realidade, como pode ser a nossa desgraça, o nosso castigo divino, mudou tudo para mim. A redenção, no final, através da espiritualidade, confirmou aquilo em que já acreditava, mas o processo mental que leva a personagem do crime ao castigo abriu um admirável mundo novo. A música também sempre me ajudou a expurgar e a sublimar muita dor e alegrias.

 

Vamos aos gregos: diz o guerreiro Aquiles ao rei Agamémnon, na “Ilíada”: “Ah, como te vestes de vergonha, zeloso do teu proveito”. Os portugueses estão divorciados dos políticos? Que parte deste divórcio tem que ver com o zelo do interesse próprio?

Parece-me que o facto de o nosso voto não ser directo leva a que nos sintamos separados por um muro daqueles que são eleitos e daqueles que decidem quem fica ou não em posição de ser eleito. Talvez por isso sintamos que os nossos deputados não nos representam. Há também a sensação de que a política não está ao alcance do cidadão comum. O centralismo dos nossos órgãos decisórios retira protagonismo aos órgãos de poder local. E é a partir do local, do que nos está mais próximo de “casa”, que podemos começar a exercer a mudança. Se nem o nosso “quintal” está ao nosso alcance, é difícil manter a motivação para ir mais além. Exigir medidas duríssimas à maioria da população e à maioria das profissões e votar medidas de excepção para a classe política também não ajudará...

 

Quando José Saramago recebeu o prémio Nobel da literatura, isso coincidiu com os 50 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. O discurso do escritor português reflectiu essa coincidência. Que direito lhe parece mais ameaçado e que urge fazer cumprir?

O direito a exercer a nossa liberdade de expressão, de acção, de pensamento. O direito à prática democrática.

 

“Caminhando contra o vento, sem lenço, sem documento, no sol de quase Dezembro, eu vou...”, canta Caetano Veloso. Já não vamos sem lenço, sem documento. Levamos atrás o quê?

Há uma obsessão em controlar todos os passos do nosso caminho, na ânsia de que dê tudo certo: a escola certa, o curso, a casa e o carro certos, o companheiro e os filhos certos. A vida certa. Infalivelmente ficamos frustrados. É que a natureza da vida não é essa. A sua natureza é a da imprevisibilidade, da mudança (muitas vezes) brusca. Não adianta levar demasiada bagagem connosco. Atrasa-nos a viagem e podemos perder a saída. Levar uma mala que caiba nos padrões das “low cost” e nada mais do que isso. E o passaporte, para podermos viajar para qualquer lado que nos apeteça. A vida não pode ser vivida como uma prisão, mas como uma aventura.

 

O futuro passou a ser uma ameaça, evitar o perigo uma divisa. É mesmo assim? Quando foi a última vez que usou a palavra esperança?

Se nos tiram o futuro, tiram-nos a liberdade. E a esperança passa a ser como o Latim: letra morta. Há que perseverar e cuidar para que os pretéritos não ameacem e condicionar as presentes e futuras esperanças. Que nunca deixemos de estar de esperanças. A esperança é fértil e sem ela a humanidade terminará.

 

Matilde Campilho disse que a poesia não salva a vida, mas que pode salvar o instante. O que é que salva o seu instante?

A música. Fazer música é estar no presente. Cantar é sentir que se está vivo em todos os instantes da melodia. A minha avó dizia que cantar é rezar duas vezes. Elis Regina, que é sacerdócio. Eu digo que cantar é a minha salvação.

 

Férias de Verão: dê-me uma recordação das férias de quando era criança. São um dos seus maiores tesouros?

Quase todas as memórias são no Carvalhal de Mouraz, uma aldeia perto de Tondela, terra dos meus avós maternos. Lembro-me do pastor a acabar o pastoreio das suas ovelhas e gado no largo da aldeia. Das mulheres a escolher o milho e o feijão. Da água fria dos tanques, onde tomávamos longos banhos. E do bom que era apanhar amoras das silvas que estavam à sombra, para as poder comer de imediato sem arriscar uma valente dor de barriga.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios no Verão de 2015

 

 

 

 

 

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