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Ana Cássia Rebelo

Ana Cássia Rebelo é jurista numa instituição pública. Em “Ana de Amsterdam” coligiu textos publicados no blogue homónimo, que mantém desde 2006. O livro é uma maravilha.

 

“Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo” – Fernando Pessoa. Pode falar-me de alguns dos sonhos do seu mundo? 

Vivo centrada nas minhas rotinas, no meu trabalho, na minha vida familiar, na minha doença. Sofro de depressão desde os 20 anos. No meio da escuridão, mesmo quando é difícil, procuro os caminhos luminosos que me permitam ver os meus filhos crescer com saúde, alegria e inteligência.

 

O que se aprende nos livros, no cinema, na arte é muito diferente do que se aprende na vida?

Acredito no poder transformador da arte. O mundo de um leitor é diferente do mundo de um não leitor: os livros explicam e complicam o mundo. Os livros que li são responsáveis pela mulher que sou, determinam as minhas escolhas, influenciam o meu comportamento. Entre muitos, destaco o “Segundo Sexo” [de Simone de Beauvoir]. É para mim uma espécie de bíblia. É um livro que, a cada leitura, com a distância inevitável, me mostra que, apesar das dificuldades, o caminho está aberto e que a liberdade está ao meu alcance.

 

Há 40 anos tivemos um Verão Quente. Empresas e propriedades nacionalizadas, empresários a fugir para o Brasil. As narrativas feitas de acordo com a cor política. Que sequelas temos dessa fractura ideológica?

Vivi a infância e a adolescência com um pai salazarista e uma tia comunista. Na minha casa a tensão era permanente. A qualquer momento estalava uma discussão, escutava-se um insulto, cruzavam-se olhares de raiva. Éramos uma família desavinda por causa da política. Trocávamos acusações à hora do jantar enquanto víamos o telejornal, uns querendo liquidar a resistência burguesa, outros saudosos da estabilidade do Estado autoritário. Esses tempos deixaram em nós marcas profundas. Continuámos a falar de política, com o mesmo fanatismo e emoção, sem escutar os outros, de uma forma irrazoável. Acho que se passou o mesmo com o país.

 

Também há 40 anos, o país recebeu 700 mil retornados. O que é que acha que quer dizer de um país o facto de este ter acolhido sem convulsões sociais uma quantidade tão grande de pessoas?

Sou filha de retornados. Portugal pode ter acolhido sem grandes convulsões sociais aqueles que voltaram das ex-colónias, mas o processo de integração não se fez sem atrito. Houve desconfiança e discriminação. Senti na pele, de uma forma dissimulada, mas intencional, esse desprezo pelos retornados. Recordo um episódio quando era ainda muito miúda. Devia ter oito ou nove anos. Pedalava sozinha pela aldeia dos meus avós quando uma mulher meteu conversa comigo. Queria saber quem eu era. Parei a bicicleta e expliquei-lhe. “Ah, és a filha do indiano retornado!”, respondeu-me. Nunca me esqueci do despeito na sua voz, marcando a diferença, impondo entre nós um fosso intransponível.

 

Acha o discurso: “Eles são todos iguais!” uma consequência banal do estado a que isto chegou? Ou considera que é grave e abre espaço a populismos?

Essa frase, que não é de agora, diz muito sobretudo sobre quem a profere. Revela acinte, disponibilidade para atear a fogueira de novas inquisições, pouco importando se se queimam culpados ou inocentes. Os políticos não são todos iguais. A suspeição de que os políticos são corruptos é simplista, muito perigosa. E injusta para todos aqueles que, com sentido de missão, se dedicam à causa pública.

 

Oficialmente saímos da crise. À esquerda, e sobretudo à direita, disse-se que Portugal tinha vivido acima das suas possibilidades.

Não saímos da crise e dizer que Portugal e os portugueses viveram acima das possibilidades é intelectualmente desonesto. É uma frase de efeito, dita e repetida com o intuito de manipular a identidade de um povo, para nos convencer de que devemos, sem contestar, sem fazer grandes ondas, aceitar qualquer castigo e reprimenda. Nunca vivi acima das minhas possibilidades e, em boa verdade, não conheço ninguém que o tivesse feito. Sinto-me ofendida por esse discurso.

 

Se pudesse escrever uma carta a alguém, gritar alguma coisa (um insulto, uma advertência, um conselho, uma declaração) seria o quê e a quem?

Gritaria “Vergonha!”, alto e bom som, em uníssono com aqueles que estiveram nas galerias da Assembleia da República no dia em que os partidos da maioria aprovaram as alterações à lei do aborto. Não sou contra o pagamento da taxa moderadora, mas obrigar uma mulher que interrompe a gravidez a ir a uma consulta de aconselhamento psicológico é tratá-la como culpada, como irresponsável, é dizer-lhe que, apesar da sua ponderação íntima, errou por ter rejeitado a maternidade enquanto sacrifício. Infelizmente há muita gente que continua a achar que uma mulher é apenas uma fêmea e, como fêmea, tem obrigação de anular-se para dar tudo a um filho.

 

Como é que explicaria a um jovem que vai votar pela primeira vez as diferenças entre a esquerda e a direita? Ou, na prática, não as vê e tudo conflui no centrão?

Sou do centro, desse centro indefinido, por vezes angustiado, que vagabundeia num limbo partidário, procurando alternativas no PS e no PSD. Tenho um filho com dezassete anos e falamos bastante de política. Mais do explicar-lhe o que separa a esquerda da direita falamos dos partidos tradicionais e dos partidos anti-sistema. Ao contrário dele, continuo a acreditar nos partidos tradicionais e desejo a sua regeneração. Procuro explicar-lhe que os partidos anti-sistema, sejam de esquerda ou de direita, têm uma matriz comum, perigosa e extremista. É mais o que os aproxima do que aquilo que os separa.

 

Matilde Campilho disse que a poesia não salva a vida, mas que pode salvar o instante. O que é que salva o seu instante?

A frase da Matilde Campilho é bonita, mas, para mim, vazia de qualquer sentido útil. Para além dos meus filhos, o que salva o meu instante é a medicação que faço: a fluoxetina e o cloridrato de trazodona. Às vezes, um copo de vinho também ajuda.

 

Férias de Verão: dê-me uma recordação das férias de quando era criança. São um dos seus maiores tesouros?

Passei muitos verões numa aldeia alentejana junto do mar. A aldeia foi o meu primeiro espaço de liberdade. Ao contrário do que acontecia em Lisboa, passava o dia fora de casa, passeando pelo campo. Penetrava num mundo imaculado, de veredas misteriosas. Procurava rãs, lagartas, libélulas. Cheirava flores, folhas, caules, raízes. Espreitava tocas, troncos, lagos. Apanhava amoras, ameixas, marmelos. Recordo esses verões com muita saudade e ternura.

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios no Verão de 2015

 

 

 

 

 

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