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Ana Cristina Oliveira

Ana Cristina Oliveira ligou na véspera. Pediu uma boleia para o estúdio onde ia decorrer a sessão fotográfica. Conversámos entre um trânsito infernal e o calor de um dia de Verão. Vestia um vestido longo, cai-cai, trazia o cabelo apanhado, estava agarrada a uma garrafa de litro e meio de água. Falou da América em crise, e denunciou a crise em que também ela vive. E agora, Ana Cristina? Em vésperas de fazer anos, pôs as cartas na mesa e não arriscou previsões. Olhou-se ao espelho, sem contemplações. Disse que tinha o cabelo de uma mulher das cavernas. Diz coisas com graça, diz coisas aterradoras. Depois ri-se para partir o gelo. 

Mantém a irreverência da miúda que fez o anúncio da Levis. Ou que dançou com Bryan Adams. Protagonizou o filme “Taxi” ao lado de Gisele Bundchen – era uma ladra. Mas verdadeiramente gostou de ser “Odete” – a caixa de supermercado que patinava em direcção ao espectador.

Agora está de férias em Portugal. Foi há 20 anos que tudo começou.

 

 

Tem 36 anos. Faça o seu auto-retrato.

Tinha uma ideia de quem eu era há quatro ou cinco anos. Nestes últimos anos, houve uma mudança. Nem me reconheço. Fiquei muito mais séria, ponderada. Eu não era bem pateta, era destravada. As maluquices que agora faço, faço-as com cúmplices, com pessoas que não me vão julgar. Não faço à descarada como antes. Aos 20 anos, eu queria lá saber do que os outros podiam dizer de mim! Às vezes magoava…

 

A mudança coincidiu com a curva dos trinta…

Não foi fazer 30 anos. Foi fazer 33, a idade de Cristo. Deve ser um resto do catolicismo. “Agora, morreste, ficaste crucificada. O que tiveste até agora, that’s it!” Quando tinha 17 achava que ia viver até aos 300 anos. Quando tinha 17 imaginava que aos 33 teria outra vida.

 

O que detonou esta mudança significativa?

Vivo num país onde trabalho e dinheiro são sinónimo de auto-estima. Tudo o que vem além disso é um acrescento. A família e os amigos são valores secundários, são uma coisa supérflua. É o oposto do que se tem em Portugal. Sempre senti isto, mas nunca com tanto realismo. Sabia que os meus amigos não estavam nos Estados Unidos. É um país onde tudo muda, onde as pessoas estão sempre em trânsito. Trata-se de trabalho, trabalho, trabalho. Entrei nos trinta e a economia mudou. Antes disso, o 11 de Setembro. Constatei que o trabalho estava a desaparecer, os restaurantes a fechar.

 

Que vida imaginava para si quando tinha 17 anos?

Nunca imaginei que aos 35 iria para a universidade! Matriculei-me em História de Arte. Porquê? É a única coisa que me interessa um bocado. Medicina, não. Advocacia, não. O interesse pela História de Arte [deriva] de olhar para as coisas. Porque são bonitas. As pessoas perguntavam-me qual era a minha formação base. Eu respondia: “I’m indecided” [Sou indecisa”]. Quando uma pessoa tem 18 anos, é indecided. Mas aos 35 anos, História de Arte é uma coisa decente de se dizer.

 

Como foi voltar à escola?

Quando entrei no college assustei-me imenso. Eu tinha andado sozinha por todo o lado…, e estava a morrer de medo. De tudo. Já não estudava há muitos anos. Vou ser capaz, não vou ser? Antes de fazer o primeiro exame, achei que ia vomitar. De ansiedade. Agora estou mais habituada.

 

Teve medo de ser uma loser, uma perdedora?

Esse medo ainda persiste. Paira. É como aquela névoa que está sempre sobre a serra de Sintra. É um modo de fazer contas à vida: o que é que fiz?, o que é que quero fazer agora? É uma questão que me ponho. Não estou a ser fatalista, fadista…, mas comecei a sentir a solidão e a saudade. Los Angeles é uma cidade muito solitária.

 

Vive sozinha?

Com o meu gato. Não é bem viver sozinha, embora os gatos sejam muito independentes. Sinto uma ponta de nostalgia quando penso no passado, quando levanto interrogações sobre o futuro. Isso deixa-me num estado de ansiedade. E como não faço ioga nem meditação, fico a suar, só de estar parada, a pensar. Não sei se sentiria isso se os meus 30 coincidissem com os anos 90 nos Estados Unidos. Estou a estudar praticamente a tempo inteiro há quase dois anos.

 

Vive de quê?

Tinha algumas reservas. Foi a coisa boa de ser portuguesa e de ser filha de pais mais velhos. Ensinam-nos que “nunca se sabe o dia de amanhã”. Não podia supor que o dia de amanhã seria tão devastador. O espírito de poupança não vai bem com a cultura americana. Olho para o lado e vejo pessoas que conheço de perto a passar mal.

 

Protagonizou o filme “Odete” de João Pedro Rodrigues. Porque é que foi uma experiência tão avassaladora?

Adorava repetir a experiência do “Odete”. Adorei trabalhar com aquela equipa. Adorei ter passado noites num cemitério, passar dias sob um calor de 40 graus. Foi o melhor trabalho da minha vida. Enfiei-me na personagem. Eu adoro o trabalho como actriz. Se eu quisesse trabalhar mais, trabalhava mais. Mas sou muito selectiva. Se calhar sou snob. Se leio um argumento e acho que é uma patetice pegada, prefiro não fazer. Fiz um curso de representação no Stela Adler Academy.

 

Que não é um sítio qualquer.

Pois. Não faço coisas simplesmente para aparecer. Não quero ser actriz apenas para ser famosa ou para aparecer na festa do croquete. Até hoje não me arrependo de nada que tenha recusado. Quer em Portugal quer nos Estados Unidos. Posso ponderar a situação se for um trabalho que não aquece nem arrefece o currículo, mas que me dá um bom saco de dinheiro sobre o qual estou sentada a rir durante uns tempos. As pessoas dizem: “Que é que ela tem feito?” É a minha escolha: não fazer.

 

É uma escolha que tem implicações, nomeadamente ao nível do dinheiro.

Tem. Faço trabalhos eventuais. O ano passado dei aulas de português no Beverly Hills Language Institut. Apareceu alguém a querer aprender português de Portugal – normalmente querem aprender o português do Brasil. É verdade que quanto mais se ganha mais se gasta. Nos últimos anos aprendi a ser poupada. Jantaradas constantemente fora de casa? Pararam. Nos últimos anos tenho ido a uma loja onde nunca tinha entrado e que agora é o meu supermercado: o 99 Cents Store.

 

Ou seja, tudo a praticamente um dólar.

Não vou comprar rolos de papel higiénico que custam três dólares na loja chique na esquina de minha casa; vou comprar ao 99 Cents Store. E é a mesma marca. São coisas que via a minha mãe fazer, que nunca tinha feito e que agora faço. Dar uma volta e comprar no supermercado mais barato.

 

Percebeu que não precisava de muito dinheiro para viver.

A quantidade de parvoíces que eu comprava quando não estávamos em crise! Um desperdício. Quando acabava os castings e tinha dois dias de folga, ficava aborrecida, saía de casa e ia fazer compras. Podia ser um perfume ou um creme que não serve para nada. Eu dava-me com pessoas da moda e do cinema. Desde que vou à escola, dou-me com pessoas que apanham dois autocarros. Na Europa, qualquer pessoa apanha o autocarro. Em Los Angeles só uma pessoa mesmo pobre apanha o autocarro. Eu só conhecia aquele mundo. Onde se acha normal que um par de sapatos custe 500 dólares. Quando se sai desse mundo e se lida com outras pessoas, 500 dólares passa a ser um preço impensável para um par de sapatos.  

 

Esse mundo glamoroso é também conotado com excessos. De álcool e drogas.

Continua a ser assim. A diferença é que umas drogas eram famosas nos anos 80, outras nos 90, outras nos últimos anos. É como a moda: muda, mas sempre há. E é como a bulimia e a anorexia. Só agora é que descobriram que há pessoas extremamente magras nas revistas? Vivi com uma modelo, que era uma das minhas melhores amigas; eu não sabia que ela era bulímica. São doenças que se escondem. As pessoas não saem da mesa e não anunciam: vou ali vomitar e já venho. Droga: sai uma fotografia da Kate Moss a snifar cocaína. Uau!, como se fosse a primeira. Não há paciência para este falso moralismo.

 

O seu corpo é a sua ferramenta de trabalho. Alguma vez foi um problema ser olhada apenas como um corpo?

Quando sou escolhida para um trabalho, o cliente vê o portfólio, e o pouco que se diz é o nome, a idade, de onde vem. A pessoa é escolhida em função daquilo que querem: mais magra, mais alta, com peito ou sem peito. É o aspecto físico o que está em causa. É preciso aprender a lidar com isto com naturalidade. Paris era o sítio mais desagradável para um manequim – não sei se ainda é. Entrava, e se dizia olá, nem respondiam! Entregava o book e nem bom dia nem boa tarde. Uma pessoa habitua-se a isto: a ser tratada como se fosse nada. Como se fosse um objecto.

 

Fala nisso e comove-se.

Na altura, não me ofendia. Mas agora, quando penso nisso, dói. As manequins começam muito nova. Eu comecei com 16, saí daqui com 17. Criei defesas. Entrei nesta cadeia.

 

Quando é que sentiu que estava por sua conta?

Quando fui para o Japão. Estava sozinha, chegava a casa ao cabo de 17, 20 castings, exausta, a morrer de fome. Chegava ao apartamento das manequins e não podia virar-me para uma pessoa que tinha a mesma idade que eu e pedir-lhe que me fizesse uma sopa. Percebi que estava por minha conta.

 

Tem uma boa relação com a sua mãe?

Agora tenho, porque sou crescida. Mas quando era rebelde não era fácil. Coisas de teenagers. Nunca gostei de ter horas para chegar a casa. Que horror! Se eu tivesse uma filha, trancava-a numa cave! [risos], como fez o austríaco. De que queria protegê-la? De tudo. Se tivesse a certeza de que tudo ia correr bem… Mas nunca se tem. Hoje percebo que a minha mãe foi corajosa por ter-me deixado ir para o Japão, e daqui para todo o lado. Eu era menor. Conheço pessoas de 17 anos e penso que foi com esta idade que me lancei, feita tola. A trabalhar, a discutir com pessoas adultas para ser paga. Nem tudo é maravilhoso e estamos sempre a ouvir histórias da carochinha para pagamentos.  

 

Gostava de ter filhos?

Gostava. Espero que sejam bem comportadinhos. [risos]

 

Que planos tem? Pensa voltar a Portugal?

Não sei. Deixei de dizer “nunca”. Agora só digo “não tenho a certeza”. Tudo pode acontecer, o futuro está em aberto.

 

Começa a assistir ao “envelhecimento” do seu corpo. Para uma manequim, a palavra não é tão desajustada assim.

Cheguei a Portugal há uma semana e meia; a minha mãe olhou para mim e disse com um sorriso encantador: “Engordaste mais um quilinho!” Se como mais um bocadinho, engordo mais facilmente. E depois, para emagrecer, não é tão fácil. Tenho-me mantido a comer quase tudo o que quero e sem fazer desporto – o que é péssimo. Tenho de começar a correr, a fazer alguma coisa. Isto já não é o que era…

 

Voltemos ao auto-retrato. Que pessoa é?

Sou uma rapariga que estuda. Sou um pouco bipolar, sem que me tenha sido detectada uma doença bipolar. Vivo entre a euforia e a depressão. Sou inconstante. Não dependo dos dias, dependo das estações. Que pessoa era quando fiz o anúncio da Levis? Era talvez mais feliz. Era mais nova, viajava constantemente, profissionalmente tudo corria bem. Pensava que ia ser sempre assim. Não sei se era mais feliz, mas era mais confiante. Preferia ser como era antes. Menos consciente. A consciência faz-nos pensar, ponderar. Foi isso que evitei a vida toda. Estar inconsciente é muito melhor. Não tem de se sentir nada. Sentir dói. Todos os sentimentos fortes doem. A amizade dói, a saudade dói, o amor dói. O medo não dói tanto. O medo é paralisante. 

 

A sua mãe, de quem falou várias vezes, é a pessoa mais importante da sua vida?

É. A minha mãe tem 73 anos. O meu pai faleceu há onze anos. A minha mãe é a única pessoa que dava a vida por mim, tenho a certeza disso. Nem o meu gato dava a vida por mim! [riso] e eu sou tão boa para ela. Chama-se Jack.

 

 

 Publicado originalmente na Máxima em 2009

 

 

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