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Ana Luísa Amaral

Publicou o primeiro livro com 33 anos. Minha Senhora de Quê. “Não estou nada arrependida de não ter publicado aos 18, 19 anos, coisa muito comum”. Tem 55 anos, acaba de publicar dois livros. Próspero Morreu, uma peça de teatro em verso e o livro de poesia Vozes. Ana Luísa Amaral é uma poeta que pode dizer ao mesmo tempo: “Não quero mudar de país. Portugal precisa das pessoas aqui, para tentarmos resistir. (Não incomoda o cigarro?)”; e no instante a seguir falar de cebolas e de Emily Dickinson.

Marcou encontro no Círculo Universitário do Porto. Palácio belíssimo na rua do Campo Alegre, a dois passos da casa que foi a da infância de Sophia. O Círculo tem um jardim e um espaço que deve ter sido uma estufa e onde agora se almoça. Cá dentro, além das madeiras e dos móveis de bom gosto, pode-se fumar. Fuma muito. Como denota a voz espessa que tem. Pelo meio acabou-se a pilha, e ela ocupou esse interregno para saber se a filha, em viagem, estava bem. A filha é constante no discurso e também aparece na poesia. 

Ana Luísa Amaral é professora associada no departamento de estudos anglo-americanos da Faculdade de Letras do Porto. Tem um doutoramento em Emily Dickinson. As suas áreas de interesse são a literatura inglesa e norte-americana, a literatura comparada e os estudos feministas. Traduziu diversos poetas. É autora de vários livros de poesia e infantis.

 

Na autobiografia curtíssima do livro Vozes fala de beijos e cebolas. Assim de repente, parece uma combinação esdrúxula.

Pois. Posso pensar? Não é uma pergunta simples. Sempre achei que o texto tem a ver com a vida. O que existe é uma espécie de deflexão. Como com um lápis dentro de água: não é reflectido, é deflectido. O que fica da vida, do mundo, é um rasto. Mas esse traço está lá mais ou menos fingido. A mão que escreve tem um braço, esse braço tem um corpo, esse corpo pertence a alguém. Esse alguém vive, ama, odeia, tem sentimentos, e é do seu tempo. Desse poema, não posso escamotear a minha própria vida. Estou a arranjar uma maneira inteligente de evitar entrar pela minha vida, falando de beijos e cebolas… 

 

Já no primeiro livro fala de cebolas.

“… armários e cebolas perturbantes” – é a imagem. [Diz o poema de cor] Sei quase todos os meus poemas de cor. Decoro os meus e os dos outros, não sei bem como. Em contrapartida não sei números.

 

Porque é que tem dificuldade em falar dos beijos e das cebolas?

Porque os beijos são reais, e encaminham-me para uma dimensão pessoal, de relação amorosa, de que não queria falar. Que não interessa muito, ou não interessa nada.

 

As cebolas: são as várias camadas?

Sim. As várias camadas de que o mundo é feito, as várias camadas de que uma pessoa se compõe, os diferentes sentidos de que um poema se pode revestir.

Esse poema elabora sobre esta ideia: quanto menos vida mais poesia. “Ah, quando eu escrevia de beijos que não tinha, e cebolas em quase perfeição!”. 

 

Mais adiante, diz: “… se não fossem os beijos que não tinha, não havia poema”. O que quer dizer que sem vida, não há poema.

Pode querer dizer, também, que com muita vida amorosa não há poema. 

 

Em felicidade amorosa não se produz, é isso?

É. Creio que é o Maiakovski que diz que a literatura e a felicidade não se coadunam. Quando se está num estado de paixão assolapada, devastadora, a poesia surge como um excesso, uma excrescência. Não é talvez tão necessária. Acho que a poesia preenche falhas. Não significa que escreva em profunda tristeza, angústia, desânimo.

 

Alguns poemas são profundamente tristes.

Alguns. Outros, profundamente irónicos. Outros, eufóricos. Essa relação entre poema e vida realmente faz-se, mas em certa medida a poesia pode funcionar como um substituto para a vida. Embora isto pareça uma contradição em termos – se a pessoa estiver morta, não escreve. Mas pode funcionar como um catalisador.

 

Indo às cebolas: foi educada para ser uma menina bem comportada? As cebolas remetem-nos para a cozinha, para o universo feminino. A pessoa com quem estou a falar é uma feminista.

Sou filha única e fui educada para cumprir determinadas expectativas. Uma das coisas que mais chocaram o meu pai foi a caderneta do colégio de freiras, que dizia: “A menina é inteligente, mas muito indisciplinada”. O meu pai queria que eu fosse engenheira química. Letras, jamais! A minha vida – posso começar por aí? Nasci em Lisboa. Vivi até aos nove anos em Sintra. Gosto desse pormenor da minha vida: Sintra não é tão central quanto Lisboa. Vivia num prédio onde, de manhã, na sala, se via o nevoeiro a levantar. Pequenos pormenores: o meu pai, de braços abertos, na varanda, eu a dizer: “Voa, voa”, e o meu pai: “Não, parece que hoje não”. Eu acreditava que ele podia voar. Fui sempre crédula.

Aos nove anos mudámo-nos, não para o Porto, mas para Leça da Palmeira.

 

Mais uma vez, para uma localidade que não é o grande centro.

Mudámo-nos com os meus avós e padrinhos, com quase 80 anos.

Em 1965, fazer Porto-Lisboa demorava oito horas. O meu pai conhecia pessoas que faziam a viagem em dois dias, que pernoitavam em Coimbra. Mudei a meio da quarta classe. Era a lisboeta. Não me senti menorizada, senti-me não amada. Os jogos eram diferentes.

Mas tinha com o meu pai todas as conversas. Ainda hoje me faz uma falta imensa. Falávamos sobre o universo, sobre música, sobre filosofia. O meu pai era o meu grande companheiro.

 

O que é que ele fazia?

Era gerente de uma firma. O que fazia não tinha nada a ver com a pessoa que ele era. Não gosto de usar a palavra falhado, porque a acho triste, e porque ele não o era; mas o meu pai tinha um dom, o do piano. A minha avó tocava piano, o meu pai tocava piano. Não sei tocar uma nota. O meu pai era muito mais permissivo do que a minha mãe. Embora tenha ficado zangado com o “indisciplinado”. A minha mãe é que disciplinava.

Fui seguindo o meu pai. Que era um homem conservador. Um conservador que me ensinou valores de solidariedade que eu, que sou de esquerda, muitas vezes não encontro em pessoas que se dizem de esquerda (e que têm gestos que contrariam a ideologia que dizem professar). Era uma pessoa contraditória. Gosto da contradição. Nunca vi no meu pai jactância pelo facto de ser conservador. Nunca disse: “Eu sou melhor”. 

 

Jactância era uma palavra que o seu pai usaria?

Era. É uma palavra estranha, mas que dá jeito. Nunca pensei nisso, nas palavras que ele usaria, engraçado…

 

Estou no fundo a perguntar da relação dele com as palavras. Das palavras que ele escolhia para traduzir o que via e vivia.

As palavras tinham muita importância para ele. Nunca me chamou outra coisa que não “minha querida filha”. A minha relação com as palavras faz-se muito cedo. A minha mãe ensinou-me, enquanto cozinhava, poemas. Entrei numa escola privada, mista, aos quatro anos. A minha mãe conta que eu olhava para as imagens e dizia os nomes das coisas; fingia que sabia ler. Olhava e via o desenho de uma pata de um animal, dizia “pata”. Uma vez enganei-me. Vi uma pipa e disse “barril”. Aconteceu no dia em que foi à escola um inspector e a professora queria mostrar este portento que já sabia ler… [riso] Lembro-me muito bem de a minha mãe dizer ao telefone: “Não se preocupe, que eu vou fazer o impossível”. Fazer o impossível? Coisa extraordinária. Ou de usar palavras como “outrora”. A minha mãe conta que eu dizia: “Está a chegar, está a chegar… Escreve, mamã”. 

 

A chegar a inspiração? Como quem recebe a visita da musa.

A minha mãe anotava. “Chegou o Outono. As folhas que outrora foram verdes…”. Tinha acabado de aprender a palavra outrora.

 

Quem é que lhe incutia a impressão de que aquilo tinha importância?

O meu pai sempre me dissuadiu de escrever poesia. Gostava de biografia. Ou História. Ou livros científicos. Não lia romances, não lia poesia. A minha mãe dizia-me poemas. A minha tia, Manuela Amaral, escrevia poesia. Quando aparecia, trazia coisas diferentes. Livros, jogos, roupa diferente. Tinha feito os Alpes de motorizada. Era considerada excêntrica.

 

Atravessa a sua poesia um veio nostálgico. Como se houvesse um outrora que foi um tempo de felicidade, um tempo onde tudo estava intacto, e a que só assistimos através da sua memória reconstitutiva. Muito do seu trabalho poético é feito sobre a memória.

É verdade. Foi uma coisa que passou a acontecer a partir de determinados livros. Deve ter a ver com a idade. Não sei se os primeiros têm isso… E talvez sim. Estou a pensar em poemas como Passado, sobre a escola. Sintra tem no meu imaginário um poder quase mágico. Que se liga às próprias histórias da minha mãe (que não queria vir para o norte). Recordo-me do espaço que era dado às mulheres. A minha mãe ia à pastelaria com as amigas, passeava. No norte não tinha amigas, e Leça tinha um único café, frequentado por homens.

 

O mar de Leça é agreste. O mar do sul é mais suave.

O caminho que conduz à Praia das Maçãs é a minha infância. As férias grandes eram três meses, e ia de eléctrico todas as manhãs com a minha mãe, uma amiga, a filha dela. Tenho um poema que fala de uma doçura que não existe no norte: “Era de noite, a chuva sem doçura…”. É a chegada a outro rio, ao Douro, ao norte.

 

Alguma vez ficou uma pessoa agreste?

Acho que não. Detesto que mandem em mim, detesto. E detesto mandar nos outros.

 

Essa natureza indómita, que a faz detestar que mandem em si, vem de onde?

Acho que é o meu lado indisciplinado. Esse lado de que as freiras se queixavam, que pratico de modo pouco visível.

Tenho muito medo da montanha russa. Andei uma vez nos EUA e fui ao engano, com a minha filha. Mas adoro filmes de terror. É algo abertamente menos perigoso do que a montanha russa. É como a subversão, que é, para mim, mais interessante do que a transgressão. Trabalhei sobre esses conceitos quando escrevi a minha tese de doutoramento sobre Emily Dickinson. No meu tempo, os doutoramentos eram relações de sete anos. Um casamento.

 

Há a crise dos sete anos, nos casamentos, nas relações, que Billy Wilder filmou em O Pecado Mora ao Lado. Não foi o seu caso com Dickinson.

Há o poema: “Sete anos de pastor/Jacob servia/ Labão, pai de Raquel, serrana bela, mas não servia o pai, servia-a a ela”. Ao fim dos sete anos… Isto era por causa do quê? Ah, o doutoramento. Continuo profundamente fascinada com Dickinson. As suas indisciplinas, e são muitas, não são feitas via transgressão. Não rompe, não fractura abertamente. Subverte. A subversão é construir uma versão sob a versão existente e fazer com que essa versão existente se esboroe. É a implosão, é a explosão dentro. Essa ideia de corrosão faz-se sentido. Depois, há um lado no qual não reparo muito, mas para que as pessoas à minha volta me chamam a atenção, e que interpreto como distracção. Uma falta de atenção a pormenores que passam pela aparência. Não sei se isto se interessa…

 

Estamos nas camadas da cebola. Nem todas importam da mesma maneira. Falou de Dickinson como quem fala de uma pessoa que se encontra e que muda a nossa vida.

Ah, sim, sim. O meu pai considerava românicas um curso subversivo. Se não era possível a engenharia química, que estudasse germânicas.  

 

Que estudasse alguma coisa relacionada com o poder? Germânicas correspondia a isso na cabeça de um homem conservador como o seu pai?

Pois. Obedeci ao meu pai, de alguma forma. Estudei apenas inglês nos três primeiros anos, depois apanhei uma reforma do Sottomayor Cardia. Se não tivesse estudado essa variante, que escolhi sem querer, não teria encontrado Emily Dickinson. Acabei o curso e comecei a dar aulas na faculdade. Romantismo inglês, poesia inglesa contemporânea. Entretanto fiz provas – o equivalente ao mestrado – em King Lear. Acho Shakespeare talvez o maior génio da literatura. Quem me orientou foi a Maria Irene Ramalho, da Universidade de Coimbra, que muito admiro. Foi ela que um dia me disse, de uma forma aparentemente inócua: “Conhece?”. Como quem: “Conhece esta pessoa?”. E deu-me um livro de Emily Dickinson. O meu projecto inicial era fazer uma tese sobre Sylvia Plath, Anne Sexton, Elizabeth Jennings. Confesso que me foi difícil aderir. Mas depois li um poema que dizia assim: “Quando sob uma dor titânica, as feições ficam no seu lugar”.

 

Porque é que a deslumbrou?

Joga com as questões do ser e do parecer. A minha filha era pequenina , estava sozinha na sala, à noite, e lembro-me de ter sido uma coisa epifânica. Como se se tivesse desterrado uma cortina e eu tivesse visto para lá daquilo. Comecei a entender os poemas, a sentir uma grande, grande afinidade com aquela pessoa.

 

Fale mais dessa dor… tectónica?

Titânica.

 

Uma dor titânica pode ser uma falha tectónica.

Podia bem ser tectónica. A questão dos vulcões, dos tremores internos, muito mais do que externos… Os nossos temas de doutoramento, o que escolhemos para trabalhar, diz muito de quem somos. Falámos há pouco de subversão. O subterrâneo é fundamental na poesia de Dickinson.

 

Esse encontro, com uma poetisa, foi um cataclismo em relação à pessoa que era? Claro que isso acaba por ter uma tradução na poesia que escreve…

Em relação à pessoa Ana Luísa Amaral? Sim, absolutamente. O que é que muda em mim? Acho que me descobri, me revelei a mim mesma. Dickinson obrigou-me a pensar e a percepcionar-me de uma outra forma. Quando lhe falei de um momento epifânico, não o tive só em relação à poesia. Tive-o em relação ao que estava por detrás dos poemas, e que eu mal conhecia. Não sabemos muito dela. Sabemos pelas cartas. Mas as cartas são poesia, tudo se cruza, enfim. A subversão começou a assumir uma importância cada vez maior em mim.

 

O que é que pode ser um gesto subversivo?

Um polícia nunca diz a um motorista que estaciona mal: “O senhor subverteu”. É uma transgressão automobilística. Subverter seria estacionar num lugar onde fosse permitido, mas depois… pôr uma bomba. Os rastilhos e as bombas podem estar sob a aparência menos ameaçadora. Os vulcões de Dickinson não são vulcões a explodir. São vulcões que estão sempre num estado latente de ameaça. Isso é algo que me leva para outro caminho, e depois disso nunca mais fui a mesma.

Ao mesmo tempo, começo uma outra área: a dos estudos feministas. Outra revelação. O que eu não queria: ser uma menina bem comportada.

 

A transgressão é mais fácil do que a subversão. Mas primeiro é preciso identificar contra o que quer transgredir. Pode identificar a raiz do mal estar? Aquilo com que não lidava bem.

Mas continuo a não lidar bem. Tenho 55 anos. Não me considero infeliz, não é isso. Mas não me considero uma pessoa em bem estar. Não sei se a palavra sobressalto se me aplica… Mas quem é que pode estar em bem estar? Vemos à nossa volta tudo a tombar, a desabar. Fui sempre muito insatisfeita, sobressaltada. Não sou deprimida, nunca fui.

 

A poesia deu-lhe uma iluminação para essas zonas de angústia?

Talvez. E uma forma diferente de ver o mundo. Quando passei a identificar determinados pontos críticos onde o poder se exercia – estou a pensar nas mulheres – não lhe posso dizer que passei a ser mais feliz. Passei a ser ainda mais angustiada. Mas pelo menos mais lúcida. Isso é muito importante.

 

Aprende-se tudo nos livros?

“Não me chega o saber de experiência feito, e o outro, o dos livros, sobra-me.” Um livro pode ser… Creio que era o Napoleão que dizia: “Tenho mais medo de um jornal do que de cem baionetas”. Um livro pode levar-nos a sítios desconhecidos e pode ser uma bomba. Pode ser um rastilho para as coisas certas e estáveis do mundo.

 

Há um rastilho que tem um efeito detonador, para a maior parte das pessoas, mais poderoso do que o dos livros: o amor. Num dos poemas cita em epígrafe Bocage: “… que assim desarranjaste a minha vida”.

A ideia de desarranjo está em todos os meus livros. 

 

Desarranjo, caos, imperfeição. Palavras constantes. Imperfeição está também no poema autobiográfico do Vozes.

O desarranjo pode ser a força motriz. Essa espécie de revolta por dentro, essa rebeldia… O desafiar. O recusar o dominante. Dickinson e o feminismo deram-me isso. Quando falo de feminismo, não falo de homens contra mulheres, não digo que os homens são uns algozes e as mulheres umas desgraçadas. Não tem nada a ver com isto. É uma questão de direitos humanos. Não há nenhuma razão científica ou de bom senso pela qual um ser humano deva ser discriminado pelo facto de ter nascido com uma determinada configuração anatómica. Que a discriminação existe, existe. Estas problemáticas levaram-me a outras e foram-me radicalizando. Se fizer uma retrospectiva, percebo que estou cada vez mais radical. Mais intolerante. Mais impaciente.

 

Porquê essa rebeldia e radicalização? Normalmente essa incapacidade para condescender corresponde aos verdes anos.

É verdade. Depois a gente aburguesa-se. Comigo foi ao contrário. Porque tudo me chegou um pouco tarde. Mesmo a minha rebeldia política. Chegou-me quando os meus colegas de faculdade estavam mais calmos.

 

Quando é que passou a ser de esquerda?

Começo a ter simpatias pela UDP no meu quarto ano de faculdade, em 1978. Escrevi um poema péssimo então, que nunca publiquei: “Sacrifique-se a vida ou mate-se um burguês”. De um primarismo atroz! [riso] No 25 de Abril não fui extremamente activa e empenhada.

 

Há nos poemas alusão a criaturas mitológicas e a animais. Harpias, dragões, panteras.

Gosto de tigres. Gosto mais dos tigres do que dos leões. Os leões são criaturas mais sérias. Pertencem à categoria dominante. O tigre é mais selvagem, está em extinção. Sou uma pescadora, adoro pescar. Pescava trutas enormes quando vivia nos Estados Unidos. Há um poema lindo da Elizabeth Bishop que se chama The Fish. Uma vez apanhei uma insolação porque estava à espera de uma truta. A minha filha, pequenina, dizia: “Ó mãe, vamos embora”. Quase morri,

 

Em alguns poemas fala da sua filha. É praticamente a única pessoa concreta que traz para os seus poemas.

Há um poema sobre o meu pai, Que escada de Jacob, que escrevi depois da morte dele. Depois da morte dele. 

 

No poema Testamento diz que, se morrer, quer que a sua filha se lembre de si.

Que não se esqueça de mim. Esse poema acaba a falar de batatas íntegras. Não há batatas íntegras, há pessoas íntegras. Há dois conceitos que vemos desbaratados ou espezinhados: a integridade e a bondade. A palavra bondade é uma palavra que já não se usa. Parece que é uma palavra antiga, demodé. Fala-se de pessoas muito inteligentes, valoriza-se a inteligência. Mas uma pessoa boa é rara. A bondade é também a solidariedade para com o outro. É a “com-paixão”. É a simpatia no sentido “sentir com”. Dos nossos políticos, está muito arredada. A integridade também parece um valor esquecido.

 

Como é que faz a justaposição das batatas e de um valor como a integridade?

“… as batatas no saco esquecidas e íntegras”. No resto do poema escrevo: “… em vez de lhe ensinarem contas de somar e a descascar batatas”. E as horas, “o horário certo”. Trata-se de uma filha, e não de um filho. Ou seja, estamos a falar de papéis.

 

Está a falar de competência para a vida? Competência de género (a que sabe descascar batatas) e competência social (a que cumpre as horas).

Dessas duas competências. Em vez dessas duas competências, tentei passar à minha filha a importância do íntegro. A minha filha aparece na minha poesia porque é a pessoa mais importante da minha vida.

Eu não ia falar da relação mãe-filha. Pode haver homens tão ou mais cuidadores do que as mulheres, e quando um juiz dá a custódia de uma criança a uma mãe partindo do princípio de que ela é uma melhor cuidadora do que o pai, isto significa um peso social enorme, para um homem como para uma mulher. A relação com os filhos é uma relação para a vida.

Mas nem tudo o que está nos poemas é verdade. Num poema digo que a minha filha partiu uma tigela na cozinha, e ela nunca partiu uma tigela na cozinha. E cumpria horários certos, não jantava uma vez às seis da tarde e outra à meia-noite.

 

Que palavras é que a sua filha apontaria como sendo as suas palavras nucleares? Assim como lhe perguntei se jactância seria uma palavra do seu pai.

Quer lhe que telefone a perguntar? [riso] Indignação, talvez. Inquietação, outra. E espero que amor.

 

E cebolas?

Ah, eu adoro cozinhar. Há agora uns refogados que se compram feitos. Sim, sim, a cebola picada que se despeja para a panela, e já está o estrugido – como se diz no norte – feito. Um disparate.

 

A cozinha não apouca as mulheres, como diziam algumas feministas?

Ah, não!, credo. A cozinha apoucava-as porque significava o espaço doméstico e a exclusão de outros espaços, do espaço público, do espaço político. O que apoucava as mulheres não era serem chefes de cozinha (normalmente, esses eram os homens); era serem as que proviam o bem estar da família através do cozinhado.

 

O seu pai gostaria desta mulher em que se transformou? Sendo ele um conservador e tendo-a educado para outro destino.

Acho que sim, acho que teria muito orgulho. Discutíamos brutalmente. Não podíamos falar de política. Em relação à política, era irredutível. E em relação às minhas posições políticas tenho a certeza que se distanciaria, e criticava-as. Mas depois, no essencial… O essencial são as pessoas. Sabe o que acho? Este tempo que vivemos, é tão curto… E não temos outro sítio para onde ir, só temos este planeta. Porque não tentar viver o melhor possível? O que conta, de facto, são os laços que nos aproximam. Se soubéssemos cuidar da nossa espécie já era bem bom. Faz-me impressão a ambição desmedida, o querer possuir muita coisa. Outra palavra que a minha filha me ouve dizer muitas vezes: impunidade. Como é possível? A violência é uma coisa contra a qual me revolto. E já não subverto, mas transgrido. Devemos falar, falar sem medo.

 

O livro Próspero Morreu não tem nem um mês. O seu fascínio pel’ A Tempestade de Shakespeare fê-la, por exemplo, escrever um livro infantil que parte da peça.

Próspero já estava noutros poemas, e Caliban [personagens d’ A Tempestade]. É uma peça de teatro em verso em que estava a trabalhar há anos. Já foi feita uma leitura encenada. Era para ser o Paulo Eduardo Carvalho – outra pessoa que estruturou a minha vida, uma perda – [a fazê-la]. A Tempestade é para mim a peça mais poética de Shakespeare. As figuras de Próspero e Caliban vão ser usadas para interpretar as relações de poder que estruturam o chamado mundo desenvolvido e o mundo subdesenvolvido. Boaventura de Sousa Santos faz isso. Próspero é o colonizador, Caliban é o colonizado; é dissimulado, mas a sua subserviência é uma estratégia para a sobrevivência.

No meu texto, há personagens que não são d’ A Tempestade. Penélope e Ariadne. Bárbara, a Escrava, e Camões, e Teseu. Ariadne tem de casar com Teseu, mas a grande paixão dela é Caliban.

 

Lê-se na contracapa: “Mas sabe, minha filha do risco que é amar (…) E a vida é o assombro que assombra e amedronta”. 

Há um outro verso de que gosto: “Sem liberdade, é o poder um monstro de braços bifurcados, onde se aloja lei sem pensamento e se torna viscoso o coração”. Portanto, é também uma peça sobre como podem liberdade e amor conviver. 

 

Quis ser mais Ulisses do que Penélope?

Jamais. Porquê?

 

Porque Ulisses é o que empreende a viagem. E Penélope fica a fazer e refazer a sua teia, à espera.

Mas Penélope escolheu isso. Esperar e fazer a teia é a sua opção. A possibilidade de escolha nunca pode ser uma coisa negativa. A liberdade não pode nunca ser uma coisa negativa. O que me assusta é um discurso que privilegia a escolha e uma prática que a desmente e onde impera o medo, o receio. O discurso da cautela faz-me impressão. Não sei ser cautelosa. Não sei ter cuidado com o que se deve dizer. Mas se não me sei defender muito bem, ainda bem. As pessoas que se sabem defender muito…

 

As das horas certas de que fala no seu verso.

Exactamente. São pessoas que não arriscam. E é sempre um risco tudo aquilo que fazemos.

 

 

Publicado originalmente no Público em 2011

 

 

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