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Anabela Moreira e Sónia Nunes

As pessoas normais não têm nada de especial? Têm. Simone de Beauvoir ficaria escandalizada com o machismo das Caxinas? Talvez. (A resposta não é categórica se olharmos para os seus amores com Jean Paul Sartre.) Que há nas Caxinas, microcosmos ao lado de Vila do Conde? Mulheres que fazem dos seus homens os reis da casa. Mestres e mestras.

A mestra Sónia Nunes é a heroína do novo filme de João Canijo, É o Amor, onde faz de si própria. A actriz Anabela Moreira faz de actriz que vai fazer um estágio nas Caxinas.

Não é provável que Sónia tenha lido Beauvoir. Nem é preciso. Ela sabe o que é ser mulher. E é feliz nessa coisa chamada amor.

O que há para saber sobre a Sónia? Que tem 38 anos, que casou aos 20 com o Zé, que tem três filhos, que é mestra. Que ama, que é feliz, que tem o brilho e a força vulcânica das pessoas genuínas.

João Canijo escolheu-a como protagonista do seu novo filme, É o Amor, e propôs a Anabela Moreira que fosse viver a vida de Sónia por um mês. Nas Caxinas. Com o mar ao fundo e a música do brasileiro Zezé di Camargo a tocar na carrinha. O filme é a versão longa da curta metragem Obrigação, apresentada o ano passado no Festival de Curtas Metragens de Vila do Conde.  

Quando nos lerem, a Sónia já terá vindo a Lisboa, para assistir à projecção do filme. Mas quando nos encontrámos para a entrevista, na sua casa, esse momento ainda não tinha acontecido e Lisboa era um nome. Não havia um especial entusiasmo pela vinda à capital. A excitação era o filme, o filme, o filme, a vida como ela é. Em É o Amor, pela primeira vez, pôde ver-se de fora. Viu-se a ser Sónia. Anabela foi a agente.

A actriz já foi “estupidamente romântica”, como Sónia. Se tivesse nascido nas Caxinas, provavelmente ainda seria assim. Vive em Lisboa.

 

 

 

 

Quem é que quer começar por falar do amor?

Anabela – A Sónia. Ela percebe mais do amor do que eu.

 

Diz no filme É o Amor: “A Sónia é mais interessante do que eu. Eu sou mais angustiada”. Isto resume, numa linha, o perfil destas mulheres? Uma mais esperançada em relação à vida, a outra mais fechada e pesada.

Anabela – A Sónia existe na vida real exactamente como está no filme. Eu, não. O João Canijo quis filmar a história de uma actriz que vai fazer um estágio. O estágio não se resume a aprender as rotinas. É um processo esquizofrénico: como é que é estar naquela vida?

 

Como é que é estar na cabeça da Sónia?

Anabela – Acabei por encontrar na Sónia a imagem de uma pessoa que já fui. Aquela que não analisava tanto. Como actriz, penso no processo. A Sónia não tem de pensar: ela está a viver. Uma das barreiras que tive, durante o estágio: conseguir acreditar, como a Sónia acredita, que o amor pode ser eterno. Deve ser como acreditar em Deus. É um refúgio maravilhoso. Mas ou se acredita ou não se acredita.

 

A Sónia fez o exercício ao contrário? Pensou como é que seria ter a vida da Anabela?

Sónia – Não conseguia. A Anabela é uma pessoa muito sofrida em relação ao amor. Eu sinto-me feliz. Ainda no outro dia me romperam as lágrimas ao pensar assim: “Meu Deus, não tenho mais nada que te pedir. Só que agradecer.”

Anabela – Era suposto que o meu personagem tivesse aqueles dilemas [amorosos e existenciais]. O João escreveu aquele guião. No filme, eu não sou completamente eu.

Sónia – Ela queria tudo igual. Os casaquinhos de malha [que eu usava], tudo.

Anabela – Há uma cena, na lota, em que estou super-séria. Como ela.

 

E usam ambas os casaquinhos de malha. A Sónia já se tinha visto de fora?

Sónia – No trabalho, mudo. Elas [as colegas de trabalho] dizem que sou muito boa pessoa. Mas regras são regras.

Anabela – Ficou chocada quando se viu.

Sónia – Quando vi o filme, disse: “Pá, sou tão mandona! Não é minha intenção ser assim, desculpai-me”. Na carrinha [no percurso entre Caxinas e Aveiro] já é outro ambiente.

 

Na carrinha há conversas sobre o amor. Falemos da história de amor da Sónia e do Zé, que domina o filme.

Anabela – As pessoas que viram o filme comentaram: “Ela ama daquela maneira?”. Na Sónia encontrei uma pessoa que corresponde às esperanças que eu tinha aos 12 anos. “Ele vai gostar de mim? Vai gostar de mim para sempre? Vou ser feliz?”.

 

Quando é que acreditou que podia ser feliz para sempre?

Sónia – Demorou muito. Conheci o meu marido quando tinha 16 anos.

 

Como é que ele era fisicamente?

Sónia – Muito bonito, mesmo. Nessa altura, o barco da família dele tinha ido ao fundo. Trabalhava no armazém. Eu ia para o peixe com o barco do meu pai. Ia fazer obrigação.

 

O que é “fazer obrigação”?

Sónia – Fazer obrigação é: os homens vão para o mar. E nós, [mulheres], vamos buscar o peixe ao cais, botamo-lo em lota. A nossa obrigação é fazer render o peixe, vender o peixe. 

Eu fazia obrigação. O Zé passava por lá.

Eu achava-o super-lindo. Babava-me quando passava. Via-o no cais, com as mangas arregaçadas, tipo Rambo, está a ver? E sentia-me feiinha. Pediu-me namoro, começámos a namorar.

 

Ainda é do tempo em que se pedia namoro? (Quantos anos tem?

Sónia – Tenho 38.

 

E a Anabela?

Anabela – Já não posso dizer. [riso])

 

Todos se conheciam, então. Os seus pais já faziam o que hoje faz. Com o seu marido, a mesma coisa.

Anabela – O pai dela era considerado o melhor mestre das Caxinas.

Sónia – O meu pai era muito bom pescador. O meu sogro, também. O meu marido também é. Pediu para namorar, à antiga. No dia 15 de Dezembro. Estava tudo muito bem até que houve uma interrupção. Porquê? Porque tive de lhe contar umas certas coisas. De..., do..., do meu ex-namorado. O meu marido não aceitava esse tipo de coisa.

Anabela – Dizes no filme: “Coisas de homens”.

Sónia – Coisas de macho man. “Namorei com tantas, fiz-me a tantas, e agora tenho uma mulher...”

Anabela – Que já teve outro namorado.

 

Estamos a falar de já não ser virgem?

Sónia – Exacto. Vamos ser completamente abertas: quando lhe contei que não era virgem...

Anabela – Ela não quis contar isto no filme! Vou matar-te!

Sónia – O Zé não me deixou contar isto abertamente no filme. Não queria ir ao cinema e ver tudo exposto. “Quem sabe, sabe, quem não sabe, não sabe.”     

 

Pode contar mais detalhadamente como é que foi educada? Qual era (é) o papel de uma mulher nas Caxinas?

Sónia – A minha mãe sempre me disse que a gente tinha de casar com um homem com quem perdesse a virgindade. Para começar direitinho: tive um namorado que trabalhava no barco do meu pai. Quando a mãe dele ficou viúva, quis que fosse para fora, para governar mais a vida, uma vez que era o ganha-pão da casa.

Pediu-me, para ficar seguro (senão, eu ia namorar com outros...), que lhe desse uma prova de amor. Foi com 15 anos que isto aconteceu. Como eu gostava dele, e achava que ia ser o meu marido, que ia ser o pai dos meus filhos, dei-lhe a prova. Entreguei-me a ele. Conclusão: passados três meses de isto [relação sexual] ter acontecido, recebi a notícia de que morreu afogado.

Entretanto conheci o Zé. “Eu devo estar parva! O outro morreu-me há três meses e eu já estou apaixonada por outro... Ai Senhor.”

 

Interessou-se logo por ele?

Sónia – Acho que foi amor à primeira vista. Quando o vi, adorei-o logo. O Zé atrás de mim. E eu não queria dar parte de fraca, queria fazer-me difícil. 

 

Interrompo o relato para perguntar à Anabela: acredita no amor à primeira vista? Alguma vez viveu uma coisa parecida com este sentimento fulminante?

Anabela – Não. Mas acredito que exista. Tenho um lado cínico em relação a mim própria. No caso da Sónia, se calhar [ela sente o que sente] porque o marido está constantemente a partir.

Há na relação deles, e nas Caxinas, uma coisa muito presente: a morte. Toda a gente aqui já perdeu alguém. O ir embora e o regressar... É um misto de sensações que permite esta intensidade.

 

O homem está sempre a  partir sob ameaça. Concorda que as relações são mais intensas por isto?

Sónia – Se vivesse com o meu marido todos os dias em casa, se calhar não era tão intenso. No domingo à noite ele vai para o mar. Chega à sexta-feira. Só estamos dois diinhas juntos. É tão pouco... Aproveitamos para nos mimarmos. Sou sincera: adoro o meu marido. Mas aqueles calafrios na barriga, os pés a tremer quando passava por ele, já não sinto. Agora é diferente. Sinto que é o meu braço direito, o meu apoio. Admiro-o.

Anabela – Eu sempre tive relações longas. [Volta-se para Sónia] Nunca te disse isto. Uma de quatro anos, outra de sete e outra de nove.  Só tive três pessoas. Quando se está todos os dias com uma pessoa, desleixamo-nos, estamos de qualquer forma e feitio. A Sónia, ao fim de semana..., devias contar. As mulheres das Caxinas preparam-se para eles.

 

Conte. Fale da preparação.

Sónia – Digo que vivo em função dele. Ao fim de semana, penso em limpar a casa toda, pôr tudo bonito, uns lençóis novos. Tenho necessidade de lhe dizer que sou uma mulher limpa, asseada. Para que, ao chegar a casa, se sinta bem. Que se sinta orgulhoso de mim, como eu me sinto dele. Os nossos filhos: sou mais eu que os educo. Quero que diga: “A minha mulher dá-lhes uma boa educação”. Não é dizer “sim, sim, sim” aos filhos – embora hoje seja difícil dizer não. Acabamos por lhes facilitar a vida.

As nossas coisinhas são devidas aos filhos. “Estás a deixar o Zé Pedro [filho mais velho, de 17 anos] sair muito. A Sofia [filha do meio, 14 anos] tirou muitas negas” – lá está, são os namoradinhos desta idade. “O Francisco [filho mais novo, de quase quatro anos] está um mimalho, um birrento.”

 

É uma mãe e uma mulher (uma esposa e amante...

Sónia – É mesmo assim que me sinto. Esposa quando se deve ser esposa. E no quarto, vale tudo. [riso])

 

É uma mãe e mulher diferente do que foi a sua mãe?

Sónia – Eu imito a minha mãe. Não vejo isso, mas as pessoas dizem-me: “És igualzinha à tua mãe”. Na maneira de falar, no peixe, na vida. Muito trabalhadeira. A minha mãe também teve três filhos.

 

A relação que tem o seu pai é muito diferente?

Sónia – É. O meu pai também andava no mar durante a semana e eu dava-me mais com a minha mãe. Dantes dizia-se assim: “De quem gostas mais? Do pai!” O pai nunca estava em casa. Quando vinha, era Deus. A nossa mãe cascava-nos [batia-nos]. Eu não casco, mas chamo à atenção. Eles até gostam mais do pai.

Nós, mulheres, chegamos a uma altura em que percebemos as mães e damos o devido valor à mãe – que não dávamos quando éramos crianças. Claro que amo muito o meu pai, mas a minha mãe é o meu ídolo.

 

Teve com a sua mãe uma relação de intimidade, contava-lhe as suas coisas?

Sónia – Não. Tanto é que namorei oito meses com o Zé e resolvi, antes de acontecer alguma coisa com ele, contar-lhe a verdade. A minha mãe não sabia.

Foi depois [dessa revelação] que a minha relação com o meu marido começou a ter altos e baixos. Estivemos quatro meses separados, muito sofridos. Reatámos e namorámos dois anos. Depois foi para a tropa e estivemos zangados oito meses. Quer dizer: ele queria ver se me esquecia, e não conseguia.

 

Não conseguia lidar com o ciúme?

Sónia – Não conseguia casar com uma mulher que não fosse virgem. Há 20 e tal anos, isto era muito importante. E era um segredo meu. Quando lhe contei, toda a gente ficou a saber. A minha mãe... Tive de dizer porque é que acabei – melhor: porque é que ele acabou comigo.

 

Sentia, e esse era o sentimento da comunidade, que uma mulher ficava desonrada, se não chegava virgem ao casamento?

Sónia – Nesse tempo, sim. Eu sentia que aquele era um problema muito grave. Quando veio da tropa fizemos as pazes. Disse-lhe que só acreditava que era para valer se casássemos. “Está bem. Vamos ao padre.” Estava a subir as escadas do padre e nem acreditava que íamos marcar o casamento! [riso]

 

Coincidência: toca a sino neste instante, na igreja ao lado da sua casa.

Sónia – Vou explicar como é que me pediu em casamento. Fomos para a senhora da Saúde, tirou um ramo de flores da mala do carro com um cartão a perguntar: “Queres casar comigo?”.

 

O que é que aprendeu sobre o amor olhando a sua mãe? Tendemos a esquecer que o primeiro exemplo que temos do que é o amor e um casamento é o que temos em casa, com os nossos pais ou com os cônjuges dos nossos pais.

Anabela – A minha mãe, que tem 63 anos, poderia ter este discurso que ouvimos na Sónia. Na aldeia dela, no interior de Portugal, em Serpins, perto de Coimbra, se uma mulher fosse vista a dar um beijo num rapaz pressupunha-se que tinham tido sexo. Portanto este é um discurso que eu reconheço. A minha mãe só teve um namorado, o meu pai. Estão juntos até hoje.

O meu pai é apaixonado pela minha mãe. Ainda hoje a abraça. Mais ele a ela do que ela a ele. Independentemente do que possa ter feito, tenho a certeza de que a ama. Tenho à minha beira (como se diz no norte) este exemplo. O meu primeiro namorado: andávamos de mão dada. (Nem o contabilizo. Foram três, tirando esse.) O meu pai sentou-se à mesa, muito sério, a perguntar se era para casar. Tinha 16 anos.

 

Onde? Qual era a geografia e o contexto?

Anabela – Em Lisboa. Nasci em Lisboa mas tive uma educação parecida com a da Sónia. Conservadora. Falar sobre sexo? [para Sónia] Tu, quando casaste, ias grávida. Casar de barriga... Toda a minha vida foi controlada para evitar [casar de barriga]. Isto é uma forma de controlar a sexualidade da mulher.

 

Usemos as palavras que se usavam: uma mulher era uma puta ou não era uma puta se tivesse sexo antes do casamento.

Anabela – E nenhum homem queria ter uma puta. Era a mulher que tinha uma capacidade de sacrifício e não se entregava a outro. Era a maior prova de que, no casamento, era ele o pai [dos filhos que viessem a ter]. (Estudar Psicologia deu-me um bocado cabo da cabeça.

 

Completou o curso?

Anabela – Cheguei ao quarto ano e desisti. Sempre quis ser actriz. Na minha família ninguém achou graça. Estudei Psicologia porque achei que podia perceber melhor quem eu era, quem é que os outros eram, e os personagens.) Eu tinha 21 anos e não podia sair de casa. Uma vez cheguei às nove e meia da noite e foi um drama. Tenho a capacidade de chegar às Caxinas e imprimir rapidamente o que a Sónia me está a transmitir porque vivi tão fechada dentro de mim...

 

Qual foi o seu primeiro grande gesto de rebeldia?

Anabela – Vivíamos numa vivenda. Abria o portão e ia ter com o meu vizinho, o Miguel. Não ia fazer nada de especial. Andávamos de bicicleta. A minha irmã gémea, que é também actriz, a Margarida, ficava na janela a olhar para mim e a abanar a cabeça. Com ar de censura. Nunca gostei de me sentir presa. Andei num colégio de freiras, [em regime de] externato. Estava fechada em casa e no colégio.

 

Nunca pensou fazer uma vida fora das Caxinas, do mar? As suas irmãs são, uma cabeleireira, a outra esteticista.

Sónia – Aparecem as duas no filme. A Livinha e a Vânia.

Anabela – Uma está a lavar-me a cabeça. (Posso fumar aqui?

Sónia – Podes. Traz o cinzeiro.) O meu mundo é este. O meu pai sempre teve barco. Chamava-se Três Sorrisos. Desde os 15 anos que ando no peixe com a minha mãe.

 

Porque é que quis ir para o peixe?

Sónia – Porque adorava o que a minha mãe fazia. Quando a minha mãe teve a Vânia, que faz dez anos de diferença da Livinha (o nome dela é Maria do Alívio), teve bronquite. Com a doença, fui eu para o peixe com a minha tia Isabel. Depois conheci o meu marido, que era pescador e trabalhava no barco do pai. O meu sonho era comprar a Marta Sofia...

 

De onde vem o nome?

Sónia – A minha sogra mandou três nomes para baixo [Lisboa, para registar]. A Direcção Geral das Pescas mandou dizer que tinha sido aprovado Marta Sofia (que é o nome da minha cunhada).

 

Porque é que perseguia o sonho de comprar o Marta Sofia?

Sónia – Gostava de ser mestra. Pelos cinco anos de casamento, ficámos sócios dos meus sogros. Trabalhávamos tanto, nós dois... Não gastávamos dinheirinho nenhum. Ao fim de semana lavava cabelos na minha irmã, botava tintas. Vendia ouro. Andava nestas coisas para angariar dinheiro.

 

E agora vive numa casa imensa. 

Sónia – Conseguimos, graças a Deus. Com muitos sacrifícios. De há dez aninhos para está, estou muito bem. 

 

Explique melhor porque é que gosta de ser mestra. É um trabalho duro. E representa lidar continuamente com a possibilidade da perda.

Sónia – De Inverno, só quando o barco está atracado ao cais é que a gente dorme em sossego. Vou para a cama a pensar: “Ai o meu menino está no mar. Ai Senhor, trazei-o sempre a salvamento.”

 

“Senhor, trazei-o sempre a salvamento” é um pedaço de uma oração?

Sónia – Sim. Quero ter pensamentos positivos, mas há sempre receios. O nosso barco, em dias de temporal, é uma casquinha de noz no mar. Rezo a Nossa Senhora, especialmente.      

 

Nossa Senhora de Fátima ou Nossa Senhora dos Navegantes?

Sónia – Nossa Senhora de Fátima. Foi a Nossa Senhora de Fátima que me deu o meu marido. Pedia: “Concedei-me a graça de casar com este homem. Se me concederes, vou a Fátima a pé.” No primeiro ano de casada, fui. Agradecer o marido. Custou muito, mas foi uma experiência lindíssima. Ele foi lá buscar-me..., nós dois amarrados...

Na Páscoa, o Senhor vem às casas. Disse ao meu filho [mais novo]: “Vem o Senhor a casa, temos de ter tudo limpinho”. Respondeu: “Pede antes para vir a Maria”. Vê-me sempre a rezar a Nossa Senhora... E tem a imagem de Jesus com o sangue [a escorrer]. Tem medo.

 

Nunca teve vergonha do avental? Há um momento no filme em que uma das mulheres que trabalham consigo fala disso. A mãe ia buscá-la à escola de avental e ela envergonhava-se. A mãe respondia: “É o avental que te dá de comer”.  

Sónia – A mãe da Cassilda era uma senhora mais de idade. Ia de avental à escola. A minha mãe nunca foi assim. Acho que as pessoas de Lisboa têm uma imagem [errada] da peixeira. Que falam mal [dizem palavrões], discutem alto, vivem mal. Se vir aqui nas Caxinas, há muitas mestras (o [João] Canijo escolheu-me a mim, mas há muitas) que não são assim.

Anabela – Elas cuidam-se mais do que nós. Os maridos vêm e estão impecáveis.

 

A Sónia tira as luvas e tem sempre as unhas impecáveis.

Anabela – Uma vez vi a Paula ou a Cassilda [que trabalham com Sónia] a trabalhar sem luvas e decidi experimentar. Fiquei com as mãos todas cortadas. 

Anabela – Depende do peixe. Se for polvo, não tem mal. Bem, o polvo suja as unhas...

Anabela – Elas, se não for o gelinho [aplicação de gel], não conseguem ter unhas de jeito.

Sónia – As minhas irmãs fazem questão que esteja sempre bem. Não era para mostrar para o filme. Aliás, eu não fiz um filme. Simplesmente mostrei quem sou. Só não gostava muito quando me diziam: “Conta aquela história...”. Contava dez vezes.

Anabela – Nunca repetiste dez vezes. Só foi preciso repetir [por razões técnicas]. Filmámos numa semana. O João viu as gravações que fiz durante um mês [com uma pequena câmara]. Pediu-me que, em determinadas cenas, levasse a Sónia a contar novamente uma coisa.

Sónia – Repetir-me duas ou três vezes..., não saía com o mesmo entusiasmo.

Anabela – Com uma câmara à frente, as pessoas ficam nervosas.

 

Havia muitas mestras, disse. Sentiu-se escolhida?

Sónia – Senti. Primeiro não queria. Depois o meu marido disse: “Faz. Vais ver que te sais bem”. Foi na Páscoa de há um ano. Estava tudo em arrumações.

Anabela – Fenómeno estranho no casting: a maioria das mestras, quando estavam com os maridos ao lado, não tinha hipótese de falar. Eles calcavam-nas. E elas estavam sobretudo preocupadas com a imagem que queriam dar de Caxinas. A Sónia, não.

Sónia – Ela disse: “Vou gravar a conversa, mas não te preocupes”. Disse que o segredo de ser esposa é ser compreensiva. É, quando ele chega do mar, acarinhá-lo (“’Mor, deixa lá, não apanhaste peixe hoje, apanhas amanhã”). Nada de estar com beiço.

Anabela – Esta a ver esta generosidade? Fala da vida dela como se fosse um livro aberto. Naturalmente teve dificuldade em fazê-lo para a câmara.

 

A Sónia faz do marido o centro da sua vida. Ela não fala das carências dela, das dificuldade. Conforta as dele.

Anabela – Todas as outras mulheres que entrevistei têm essa atitude. Se eu não tivesse feito um estágio de um mês, vivendo com a Sónia, o João Canijo faria um filme sobre Caxinas apanhando o cliché. 

 

No filme fazem uma caminhada junto à praia. A Anabela sugere que tomem um sumo de laranja na esplanada e a Sónia recusa, porque o marido está no mar.

Sónia – Disse-lhe: “Estás perdida? ´Tadinho, está no mar. Não vou estar eu feita baronesa a passear.” Posso ir ao Norte Shopping, dar uns passeios com os meus filhos, saio com as minhas irmãs à segunda feira, quando têm folga. Não é que não possa fazer coisas. Eu é que não me sinto bem comigo própria.

 

Porque é que não se sente bem?

Sónia – Imagino que o rapazinho está a trabalhar.

 

O rapazinho que idade tem, já agora?

Sónia – O rapazinho tem 40 anos. A minha obrigação é estar em casa com os nossos filhos. Disse à Anabela: “Já viste o que é, passam aqui os meus sogros e vêem-me de perna alçada a tomar um sumo de laranja?” Não fica bem a uma mulher.

Anabela – A minha mãe diz exactamente a mesma coisa.

 

Não se permite ter uma vida boa, confortável, quando ele está a passar por uma provação?

Sónia – Eu tenho uma vida muito boa. O meu marido, o que ganha, entrega-me. Eu é que faço a gestão da casa.

 

Outro cliché de Caxinas: que as mulheres é que controlam o dinheiro.

Sónia – Somos nós que comandamos a casa. Orgulho-me de vender bem o peixe. Ele liga-me, sei a pesca. Ligo para um comprador, para outro. Quem der mais 50 cêntimos, mais um euro... Em 500 quilos, são 500 euros. “Zé, fizemos tanto. Esta marézinha rendeu muito”.

Anabela – Elas permitem que eles sejam os machos de antigamente.

Sónia – Já não é tanto.

Anabela – Mas ela é que o serve. Também são só dois dias por semana, e não custa nada, não é?

Sónia – Se forem quatro ou cinco, são servidos da mesma forma. O tempo não tem deixado os pescadores andar toda a semana no mar. Desde Outubro. Dão duas ou três marés por semana e vêm embora. E tenho sempre uma sobremesinha, um bilhetinho, um elogio.

Anabela – São os reis da casa.

Sónia – Tínhamos uma casa, mudámos de casa. Ele só quis entrar nesta quando tinha tudo pronto. Não escolheu nada. Móveis, televisões. Sou um bocadinho gananciosa. Tenho uma coisa e quero ter outra.

 

Porque é que é assim?

Sónia – A minha mãe ensinou-me a ser assim. O meu marido quer ter o dinheiro todo para comprar uma casa. Acanha-se. Eu, tendo metade, já quero a casa. A minha mãe diz: “Anda, que a mãe ajuda. Bota-te.” 

 

Seria possível ter um rei em casa? Ter o motor da sua vida fora de si?

Anabela – Hum. Os maridos, antigamente, devolviam as mulheres à casa dos pais quando elas não sabiam cozinhar. “Ensine-a, que ela vem mal ensinada.” Tenho aversão a cozinhar, coser, a tudo o que é associado ao papel da mulher. Somos escravas disso! “Porque é que sou eu que tenho de cozinhar, coser? Não tens cinco dedos nas mãos?”

Sónia – Sabes porquê? Porque tu não amas. Quando tu amas, fazes isso tudo com gosto, com satisfação.

Anabela – Mas eu já amei. Ele é que cozinhava. Cozinhava muito melhor do que eu.

É isto que Caxinas tem de bonito e ela não percebe porque não se vê de fora.

(Sónia – Nunca saí das Caxinas. Só fui ao Algarve duas vezes. E a Benidorm. Quando estou de férias, estou cheia de saudades das Caxinas. Faz-me falta aquele sistema de vida: vou para o peixe, venho do peixe.)

Anabela – Caxinas é uma comunidade fechada sobre si própria, apesar de ter o porto perto. O chão onde põem os pés é consistente. A dúvida não se instala. A Sónia é feliz a vender peixe. Entrevistei uma que era muito deprimida, porque o marido não era bom mestre. A Sónia teve estas sortes todas.

Sónia – O meu marido entrega-me o peixe e confia em mim. Detesto quando diz: “Não rendeu nada, a maré, ‘nina”.

 

Em resumo, o barco vem todos os dias a terra, e todos os dias a Sónia tem de vender o que ele pescou.

Sónia – Vem se tiver peixe. Pelo menos quatro vezes [por semana] a Aveiro, vamos. Se as pesquinhas forem boas, vamos todos os dias. Ele telefona. Vem dar-me um beijinho à lota e bota-se a descansar, para sair outra vez às oito, nove da noite.

 

Descansa em casa?

Sónia – Não. Descansa no barco.

 

Tem medo que alguma coisa corra mal? Parece tão confiante...

Sónia – [voz muito séria] Tenho. O meu maior medo é perder o meu marido. [voz embargada] Nem quero pensar nisso. Pensamento sempre positivo! À entrada e à saída da barra, liga-me sempre. Benze-se. “Até amanhã se Deus quiser.” No mar não tem rede nem rádios. A gente já viu aqui grandes naufrágios. Aparece um corpo – tudo a correr para a praia. Passado um dia ou dois, aparece outro. O enterro: as mestras aos gritos. Nas capelas: os camaradas. A gente vive aquilo. Mesmo horrível.

Anabela – A morte está muito presente nas Caxinas. Nos cafés há sempre fotografias de pessoas que morreram.

Sónia – Caxinas é falada quando há naufrágios.

 

Outro tipo de medo: que ele se apaixone por outra. Tem? Que a Sónia se apaixone por outro?

Sónia – Eu, não. Acho que vou ser sempre feliz. Mas tenho medo que ele se apaixone por outra ou que me deixe. Na minha família houve um caso. A minha irmã era casada há 15 anos, eram super-felizes, e de repente ele arranjou outra, e deixou-a ficar. O meu maior desejo, neste momento, é ver a minha irmã feliz. Somos as três muito unidas, não somos, Anabela?

 

Não identificou, à cabeça, medos relacionados com os seus filhos.

Sónia – Drogas e isso: tenho medo.  

 

E da ruína?

Sónia – Não. Dantes vendíamos o polvo a cinco euros o quilo. Agora vendemos a dois euros. Em Espanha está tudo um caos. (Espanha, normalmente, é que nos levanta o peixe.) Tenho medo que ninguém nos levante o peixe. Mas o meu maior medo é o que possa acontecer ao meu marido.

 

Alguma vez foi ao mar com ele? Para ver como é.

Sónia – Nunca. As mulheres só vão de uma barra para a outra. Para andar um bocadinho de barco. Mesmo assim, nunca quis. O meu filho tem quase 18 anos e está a tirar a carta de mestre, mas não quero que vá para o mar. Pai chega! Os pés, lá, não são seguros. Ai.

Anabela – Tudo o que depende dela – não tem medo. O mar – não pode controlar. Do que tem medo é da morte.

 

Pressupõe uma grande confiança nela própria. Com quem é que aprendeu a ser assim?

Sónia – É de mim. A minha mãe sempre viu o lado positivo das coisas. Apesar dos acidentes. O nosso barco já foi à praia, já teve atrasos. Nem quero saber o que as outras pessoas dizem. Conto com o apoio do meu marido. Não me pode ver triste.

Este ano, nos meus anos, estava feita chorona. Não sei o que se passou comigo. Mandou-me flores. Nem achei as flores bonitas. Parecia mais uma coroa que se dá aos mortos. Se digo: “Estou gorda” – esse tipo de coisa da mulher – responde: “Estás tão linda!” Se ele morresse, não tinha ninguém que me quisesse. Ele bota-me sempre no auge.

 

Anabela, falemos dos seus medos. No filme, a olhar para uma pequena câmara, como quem anota num diário, fala das suas inseguranças. Mostra-se vulnerável.

Anabela – Aquilo não é exactamente o que sinto. Mas quisemos, [o João Canijo e eu], trabalhar a questão da segurança, da confiança em mim própria. No fundo, não somos tão diferentes assim, a Sónia e eu. O meu maior medo é a morte. Não minha, mas das pessoas que amo. Nem tenho grande medo de falhar como actriz – é inevitável que aconteça.

 

As questões resumem-se a: sou amada, não sou amada; sou competente, não sou competente; sou reconhecida, não sou reconhecida. No filme, vendo continuamente o valor da Sónia, interroga-se: “O que é que eu valho?”

Anabela – Para me tornar na Sónia, no filme, para me tornar numa “mulher de rasgo”, que era o nome que a Sónia propunha...

Sónia – É o Amor é por causa da música do Zezé di Camargo. Nas gravações das comunhões dos meus filhos, baptizados, uso o É o Amor. [canta] A Anabela achou isso tão fofinho que também quis pôr no filme.

Anabela – Esta é uma história amor. O amor do João Canijo que estava aqui sem ganhar um tostão. Por amor a nós, ao filme, à profissão. A história de uma actriz que tem trabalhado no duro, a tratar de vacas, porcos [Mal Nascida], a trabalhar numa casa de alterne [Noite Escura], a viver no bairro Padre Cruz, a trabalhar num cabeleireiro [Sangue do meu Sangue]. É o amor desta mulher pelo homem e pelos filhos, pela profissão.

Sónia – Eu achava mais bonito [o título] Mulheres de Rasgo. Nós de avental. Rasgo quer dizer habilidade. Sem medo. Mas em inglês não dava.

 

Falaram sobre o amor de maneira aberta. Não falaram de sexo. E pouco de tristeza.

Anabela – Não estava à espera que ela fosse contar o que sofre com a separação da irmã. É uma anormalidade, aqui. De sexo, fala abertamente. As mulheres, em Caxinas, deitam-se com os maridos domingo à tarde. Para que eles vão de barriga cheia.

Sónia – Ao domingo não passeamos. Ao domingo, o meu dia é: levantamo-nos, vamos tomar o pequeno-almoço à padaria, depois vamos à missa (às vezes com filhos, outras vezes sem); almoçamos fora. Três horas, três e meia, cama! Sinto-me na obrigação de o satisfazer. E ele a mim!, pelo amor de Deus. Mas mesmo que não me apeteça...  Às vezes não apetece. Nem gosto muito dessas coisas.

Anabela – Ela não é muito sexual.

Sónia – Tenho de ser. Isso é muito importante no casal.

 

Está a dizer isso porque uma mulher honesta não gosta “dessas coisas”?

Sónia – Não é por aí. Mas às vezes não me apetece. Ele vai para o mar, coitadinho. Tenho de fazer o meu papel.

 

Nunca falou de sexo com a sua mãe?

Anabela – Não.

 

E do amor, fala com ela?

Anabela – Também não. Falamos de todas as banalidades possíveis e imaginárias. Não forço conversas que sei que vão mexer com ela. Se calhar sou um bocado solitária.

 

Dêem-me uma definição de amor. A primeira que vos ocorrer.

Anabela – Não consigo encontrar. Na poesia é quase sempre sofrimento. Na vida, não tem de ser sofrimento, não é? Ela sabe explicar porque é mais resolvida do que eu.

Sónia – Amor é respeito mútuo. Coração a palpitar. Corar quando se vê a pessoa que se ama. Sacrifícios, sem dúvida. Agradar-lhe em tudo, ou em quase tudo. É fazer o melhor possível.

Anabela – Gostava que alguém me dissesse o que é.

 

 

Publicado originalmente no Público em 2013

 

 

 

 

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