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André Carrilho

Começamos por onde? Por Peter O’Toole, esguio, fleumático, de beleza imaculada? Por Diana, a princesa de olhos marejados de azul que o povo amou na vida e na morte? Por Picasso, de mãos sobre a nuca, poderosas, e os olhos, como faróis, magnéticos? Ou pela Rainha Vitória, de perfil adunco e vestido de seda ondulante? É claro que também podemos começar por Sócrates, atlético, de maxilar proeminente e corte de cabelo irrepreensível. Começamos pelo actor inglês, com que se estreou nas páginas do Independent on Sunday, ou pelo primeiro ministro português, recentemente publicado no Diário de Notícias?

Comecemos pelo seu retrato, traçado em palavras simples. «Sou ilustrador. Em pequeno vivia na angústia de saber o que podia ser... Porque quando dizia que queria desenhar, respondiam-me que isso não era profissão». Se a preferência eram as artes visuais, ele podia sair à família e enveredar pela arquitectura, ou ser pintor, ou ser artista. Mas ser caricaturista, prometia uma vida incerta. De qualquer modo, era já isso que ele fazia nos dias longínquos da infância, e na adolescência, num ano determinante, em Macau.

Tinha dezassete anos e era «o gajo que desenha». Estudava à noite e passava os dias a olhar, a experimentar, a captar influências. A definir a sua identidade.

«Começa-se sempre por copiar os mestres. O António desenhava com lápis, o Vasco com tinta, o Cid com aguarela. E agora, como é que eu faço? Os cabelos, de textura mais fluída, comecei a fazê-los a lápis, a cara, a tinta. O computador ajudou-me a desenvolver um estilo próprio. Não sou imediatista. Tenho de estar sozinho em casa e saber que posso falhar. O computador acelera esse processo e permite combinar coisas improváveis».

Falhar, falhar sempre, falhar cada vez melhor – escrevia Samuel Becket. André Carrilho interpreta literalmente a sentença do escritor irlandês e confessa, humilde, que o erro é fundamental. Falamos a meio da manhã, sob a luz da Primavera. Ele é jovem e está seguro de não poder prescindir do erro; e isto parece augurar o melhor dos futuros. Sobretudo porque esta humildade não surge como exercício retórico. «Falo de espalhanços à séria... Quando estou muito nervoso, cometo os maiores erros!». Peço exemplos, mais ou menos incrédula.

«O “Independente” pediu-me um portfolio de alguns políticos, entre eles o Guterres. Apliquei-me, fi-los com afinco. Era o meu primeiro trabalho profissional para um jornal de referência. E o Jorge Silva (designer) disse que estava tudo uma porcaria! Foi um balde de água fria. Mas só assim é que se aprende. Nao se pode estar num ambiente muito seguro».

Foi pela mão do mesmo Jorge Silva, ainda que inviesadamente, que transitou do Independente para o Independent, um dos maiores jornais ingleses. Recapitulando, André Carrilho já trabalhava para o Público quando Jorge Silva mandou o seu portfolio para a Society for News Design – era um conjunto de ilustrações de figuras do jazz, entre elas uma inesquecível Billie Holiday, de expressão dolorosa e gardénia no cabelo. O prémio neste prestigiado concurso abriu-lhe portas extraordinárias. Mesmo assim, quando se tratou de ir à América receber o galardão, não pôde ir _ «Era preciso pagar 400 dólares para participar nas conferências, mesmo sendo um dos premiados...». O amigo-tutor-designer-Silva depositou, então, uma amostra do seu trabalho numa fila imensa que conduzia ao New York Times. Três meses depois, este jornal americano, que é, também, uma das maiores referênciais no mundo da ilustração, mandou-lhe um email a requisitar os seus serviços. Foi ainda com base nesta amostra que o Independent o contratou para fazer as capas da sua edição de domingo. A estreia deu-se com Peter O’Toole. Fê-lo durante dois anos, todas as semanas. André Carrilho tinha 27 anos.  

Uma caricatura começa por onde? «Se alguém pergunta, “quem é este gajo?”, significa que não está bem feita. É claro que me baseio na semelhança física. Mas depois extrapolo para expressões faciais, maneiras de estar, gestos, informo-me sobre vida e obra. Uma fotografia de passe não me diz nada sobre a pessoa.».

Tudo entra, então. E ainda que o seu estilo, aquilo a que podemos chamar identidade criativa, seja vincada e imediatamente reconhecível, ele fala em elasticidade. Teve de aprender a fazer as perguntas certas, interpretar ou mesmo descodificar as pretensões do cliente, perceber se se quer um tom de homenagem ou uma abordagem corrosiva, se os traços devem ser exagerados ou mais próximos do retrato. O estímulo é a encomenda, e esta obedece a critérios rigorosos: é para uma publicação específica, para um público alvo específico, a pedido de um editor específico, para um texto e uma página de design específicos. Os aspectos técnicos, como ser a cores ou as dimensões, não podem ser descurados e desfasados do processo criativo.

Tem uma vida plácida, em Lisboa. Em Portugal, trabalha em exclusivo para o Diário de Notícias. Experimentou viver alguns meses em Londres e em Nova Iorque. «O mito de Nova Iorque... Num país tão grande, é normal trabalhar por email sem chegar a conhecer a pessoa... Então, prefiro viver no meu país. A qualidade de vida é muito melhor».

É verdade que não foi preciso viver na América dos sonhos para ser publicado na Vanity Fair... Foi a ele que pediram uma caricatura do Proust a propósito, justamente, do Proust Questionnaire. Mas André Carrilho tem apenas 31 anos!, o que pode desejar? Novamente a resposta simples, rente às coisas de todos os dias: «Farto-me de fazer a mesma coisa, de fazer desenhos da mesma maneira! A caricatura é meu ganha-pão. Mas agora que tenho algum crédito, espero voltar à BD, trabalhar numa curta metragem de animação e fazer um livro para crianças para a Random House». Nada mau.

 

Publicado originalmente na revista das Selecções do Reader's Digest em 2006

 

 

  

 

 

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