Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

André e. Teodósio (2015)

André e. Teodósio é encenador, dramaturgo, actor. Faz parte da tropa fandanga do Teatro Praga. Estudou música. Tanto lê Walter Benjamin como ouve Gisela João. Vive em Lisboa numa bairro popular.

  

Vamos aos gregos: diz o guerreiro Aquiles ao rei Agamémnon, na “Ilíada”: “Ah, como te vestes de vergonha, zeloso do teu proveito”. Os portugueses não confiam nas instituições? Que parte ocupa neste divórcio a acusação ou suspeição de que os políticos são corruptos (demasiado zelosos do seu proveito…)?

Nunca devemos ser positivos e afirmar que “agora é que batemos no fundo!”. Porque temos aprendido com a História que tudo pode ser ainda pior. A política, em conjunto com a economia, tornou-se numa das disciplinas dominante. Mas existem muitas outras ferramentas para além das escolhas-à-força que os cidadãos utilizam para a redefinição das suas vidas na esfera pública. E também elas se tornarão um dia ditaduras invisíveis…

  

Oficialmente saímos da crise. À esquerda e sobretudo à direita, disse-se que Portugal tinha vivido acima das suas possibilidades e que era preciso aprender a viver de outra maneira. Aprendeu?

Não há respostas definitivas. Só há processo. Neste sentido, os espíritos críticos tanto estão sempre a aprender como a entrar em crise com o espartilho gramatical. 

“Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo” – Fernando Pessoa. Pode falar-me de alguns dos sonhos do seu mundo?

O meu sonho consiste em deixar em paz, actividade que implica um trabalho constante e que não me deixa em paz! Eis alguns exemplos: não pisar flores, não atropelar pombos nem conversas, não produzir lixo como luxo ou contribuir para poluição sonora, não submeter o mundo a categorias, não deixar a luz acesa (ainda que as dos iluminados!), não implicar e travar o real que aparece sob todas as formas e modos. 

 

Outro verso de Pessoa: “Navegar é preciso, viver não é preciso”. O problema é que viver é preciso. Quais são as dificuldades concretas do viver que acha mais preocupantes em Portugal?

“Não se nasce português, fica-se português” – eis uma frase que aprendi com o João César Monteiro e que descreve na perfeição a dificuldade que encontra quem deseja ultrapassar todas as barreiras. A mim interessa-me o esforço conjunto em busca de outros modos de agir fora da esfera correlacionista e antropocêntrica. 

 

Atravessamos um deserto em que todos sabemos o nome do ministro das Finanças alemão ou grego. Antes de mais: considera que é um deserto? Ou seja, um tempo esvaziado de ideologias, onde a política foi engolida pela finança. Onde fica o oásis?

Pequena parábola: “no deserto do real”, o oásis estará sempre tapado por um camelo. Se conseguires chegar ao oásis, dando a volta ao camelo, das duas uma: ou te cai um coco na cabeça da palmeira ou o azul que tomavas por água é afinal um saco. Não tenho visto terceira hipótese. Convém mesmo mudar de ambiente…

 

Demasiada conversa e negociação? Selvajaria e domínio dos mais fortes sobre os mais fracos? É tempo de quê?

Alterofilismo [em vez de halterofilismo]: fortalecer alterando a filiação.

 

O que se aprende nos livros, no cinema, na arte é muito diferente do que se aprende na vida? Pode exemplificar?

Aprendi muito a pensar com obras de arte, mas ensinei-as a viver. As obras de arte são espelhos… quanto mais investimento de sentido lhes dermos mais intensificada será a sua experiência. Eis, em suma, a definição de verdade: o ideal tornado real.  

 

Há 40 anos tivemos um Verão Quente, com o país a rasgar-se. Que sequelas temos dessa fractura ideológica?

Neto e filho de realidades díspares resultantes dos acontecimentos desses dias, cresci a conviver com múltiplas narrativas. O que mais me interessa é que sou filho varão desses Verões e tento honrar o que me coube em sorte. 

 

O que é que não fizemos nestes quatro anos e devíamos ter feito? Refiro-me às grandes reformas falhadas.

Acabar com a ideia de nação. Acabar com a ideia de nacionalidade. 

 

Quando José Saramago recebeu o prémio Nobel da literatura, isso coincidiu com os 50 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. O discurso do escritor português reflectiu essa coincidência. Que direito lhe parece mais ameaçado, posto em causa, que urge fazer cumprir?

O da liberdade de género, raça, etnia, espécie. 

 

Se pudesse escrever uma carta a alguém, gritar alguma coisa (um insulto, uma advertência, um conselho, uma declaração) seria o quê e a quem? Pode ser a um político. Pode ser ao mundo. Pode ser mesmo a quem quiser.

Escrevo uma carta aos meus pais e ao meu amor. Aos primeiros, a pedir desculpa por ainda não ter conseguido mudar o mundo (fazendo justiça aos sacrifícios por que passaram para partilhar comigo alguns dos seus ideais éticos). E ao segundo, a oferecer os meus serviços de alienação temporária. 

 

Discute política?

Dada a minha formação bélica, estou sempre a discutir a cada segundo. Mas há uma altura em que tenho de o materializar para além da minha biopolítica: Livre, livre estou e quero estar. 

 

Como é que explicaria a um jovem, que quer perceber o essencial, as diferenças entre a esquerda e a direita?

Esquerda: Penso logo existo.

Direita: Existo logo penso.

Eu: O eu que pensa e o eu que existem não são o mesmo. 

  

Matilde Campilho disse que a poesia não salva a vida, mas que pode salvar o instante. O que é que salva o seu instante?

Eu acho que a poesia pode salvar vidas, nem que seja quando vamos comprar um livro e o edifício de onde saímos explode. (Fiz um espectáculo com a Monica Calle que claramente salvou a vida de uma pessoa que por acidente ali foi parar.) O meu instante também é constantemente salvo por todas as guinadas, derrapagens e acidentes que vão acontecendo na condução da minha vida. Os meus segundos estão sempre ocupados porque sou um condutor instável.

 

Férias de Verão: dê-me uma recordação das férias de quando era criança. São um dos seus maiores tesouros?

Beira Baixa com os avós entre tanques de água fria e livros do Emílio Salgari. Cacela com os pais mais maravilhosos e loucos e todas as coisas do mundo (não tenho adjectivos suficientes para os descrever). Um irmão entalado numa cama dobrável e eu feito super-homem a lançar-me de uma tripla escadaria daquele que era o palácio da minha infância. As nossas férias foram sempre de abrir cabeças. 

 

Pode fazer um curto auto-retrato?       

Nariz grande, dentes tortos, caixa-de-óculos, hipocondríaco, mobilidade desconexa, paramenta anacrónica, cabeça de vento. Em suma: uma abstracção. 

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios no Verão de 2015

 

Em destaque

Entradas recentes