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André Freire e Marina Costa Lobo

“Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo/ golpe até ao osso, fome sem entretém”, escreveu Alexandre O’Neill. Portugal, questão que temos connosco próprios. Com quem somos, no osso, sem entretém. Dois politólogos dissecam a questão – o país, a actual situação política, os cenários que se traçam, os candidatos principais. Portugal e as suas idiossincrasias.

Marina Costa Lobo é investigadora do ICS. André Freire é professor no ISCTE-IUL e integra a comissão de honra e da comissão política de Manuel Alegre.

Entrevista quarta-feira de manhã, com jornais e sondagens sobre a mesa. Num lugar neutro. Como a conversa. [As eleições presidenciais de 2011 seriam daí a dias.]

 

Começo por uma citação de Raymond Aron: “A escolha em política não é entre o bem e o mal, mas entre o preferível e o detestável”. É inevitável que seja assim?

André Freire – Em política é sempre preciso fazer compromissos. As orientações políticas que uma sociedade complexa e bastante diferenciada pode produzir são sempre sínteses, agregações e articulações de diferentes posições. Os programas, os próprios partidos, são sempre coligações de interesses, de preferências. Talvez o Raymond Aron quisesse reportar-se a isso.

 

É um modo de dizer que não há escolhas puras?

AF – Ninguém vai rever-se integralmente numa posição. Mas há escolhas que estão mais próximas de si do que outras.

Marina Costa Lobo – Faz lembrar a citação do Churchill – “A democracia é o pior de todos os regimes, exceptuando todos os outros” – no sentido em que a democracia é a política do possível. Portugal é um caso interessante. Havia enormes expectativas em Portugal depois do 25 de Abril em relação ao que era possível fazer; gradualmente há uma tomada de consciência de que a democracia e o conjunto das instituições são radicalmente diferentes do que havia, mas não são uma garantia de bem estar absoluto.    

 

É esse bem-estar absoluto que se idealiza quando o sistema anterior colapsa e se tem a ilusão de que é possível construir tudo, tijolo a tijolo, desde o princípio, depois do desmoronamento?

MCL – Os três D’s eram Democracia, Desenvolvimento, Descolonização. A democratização não significou a convergência económica e social com a Europa que se esperava. Se observarmos a evolução económica e social dos países com mudanças de regime não conseguimos ver uma correlação directa entre democratização e desenvolvimento. O que acontece é que a redistribuição de riqueza dentro do país pode mudar – muda, normalmente. Parte da desilusão que se vive em Portugal tem que ver com o que o Raymond Aron dizia.

AF – É preciso fazer uma grande pedagogia, porque estamos muito melhor do que estávamos. Recordo apenas que do ponto de vista dos níveis educacionais tínhamos 30% de analfabetos nos anos 70. É claro que tínhamos imenso ouro no banco, mas era uma sociedade incapaz de produzir riqueza. O falhanço tem que ver com a incapacidade de alterar o padrão de especialização da economia portuguesa.

Outra coisa que gostaria de sublinhar, voltando ao Raymond Aron: o falhanço da ideia do compromisso, e de que não é possível soluções óptimas. A democracia é negociar, é o entendimento das várias forças, é chegarmos ao middle term. As elites políticas dos partidos à esquerda nunca foram capazes de construir compromisso. Por isso é um sistema que funciona de modo desequilibrado, à revelia da maior parte dos sistemas equivalentes da Europa ocidental no pós-Guerra Fria.

 

Porque é que as elites não se entendem?

MCL – A força dessas elites, do Bloco de Esquerda ou do PCP, deriva da sua não-cooperação com o PS. Eles estão em representação de um eleitorado que está em protesto com o PS. Por outro lado, o próprio PS não vê grande interesse em cooperar com estes partidos, porque já conseguiu uma maioria absoluta à custa destes partidos. Não é que as elites portuguesas sejam especialmente avessas à cooperação. A cooperação é qualquer coisa que se aprende pela necessidade. As democracias do norte da Europa têm elites que cooperam muito porque eram representativas de grupos sociais minoritários. Assim aconteceria em Portugal se o PS tivesse a noção de que nunca seria um partido maioritário [sem o compromisso com as forças minoritárias]; e se as elites BE e PCP acreditassem que mesmo indo para um Governo com o PS não perderiam grande parte do seu eleitorado – coisa em que não acreditam.

 

Há também uma divergência ideológica de fundo?

MCL – Há. Não há grandes diferenças ideológicas entre CDS e PSD – basicamente, quando se pede os eleitores que percepcionem estes dois partidos, eles ficam muito próximos. Isso não acontece à esquerda.

 

Que questões de fundo separam a esquerda?

MCL – Toda a questão do posicionamento de Portugal face à União Europeia. A UE, como sabemos, determina hoje grande parte das políticas públicas.

 

Essa divergência penaliza o candidato Manuel Alegre, apoiado pelo PS e pelo BE?

MCL – Com certeza.

AF – Há factores significativos que pesam na falta de entendimento, mas eles não são insuperáveis. O problema maior é o da falta de actualização ideológica dos partidos à esquerda, sobretudo do PC, a partir do fim do novo impulso e da ascensão de Jerónimo de Sousa ao poder, e do BE, menos. Se os partidos não cooperam, radicalizam-se. Um dos benefícios da cooperação e da entrada destes partidos no arco governativo seria a perda de uma certa radicalização, e implicaria uma moderação do discurso. Isso aconteceu com Os Verdes alemães. Na Escandinávia foi feita essa actualização ideológica na esquerda radical.

 

Se esse entendimento se faz na Alemanha, na Escandinávia, porque é que não se faz em Portugal?

AF – O que conheço de sondagens revela que os eleitorados destes partidos são maioritariamente propensos a cooperar. Mas há a percepção de que a cooperação tem custos e que pode levar a penalizações. Isso é verdade. Também conheço estudos que demonstram que noutros países em que isso aconteceu o grau de penalização, em média, não é muito elevado. Portanto, não acho que isto seja uma inevitabilidade. O problema é a distância que existe entre eleitores e eleitos.

MCL – Concordo que as soluções de cooperação são a norma na Europa. Voltemos ao caso português. Quando o PSD teve maioria absoluta, o CDS tornou-se no partido do táxi. Realmente perderam muito eleitorado. O que aconteceu posteriormente foi uma disponibilização do CDS para ser parceiro de coligação, sem muitas exigências.

 

E era se queria estar.

MCL – O CDS rendeu-se à evidência de que [se disponibilizava sem muitas exigências] e era se queria estar, ou então estava condenado. A maioria absoluta de Sócrates não teve o mesmo resultado à esquerda. Só teve um mandato e acabou num fortalecimento em 20% da esquerda radical, sobretudo do BE. No meu entender isto é resultado directo da deterioração económica dos últimos dez anos.

Sobre a possibilidade de fazer acordos parlamentares: ontem [terça-feira], um caso mostrou que esta esquerda radical não é um parceiro de confiança do PS. Houve uma manifestação à porta do primeiro-ministro, alguns desacatos, duas pessoas foram presas. Quem foram os primeiros a reagir? Políticos do BE. Isto é uma coisa que embaraça o Governo.

 

Ou seja, os dois partidos digladiam-se em público, às portas das eleições, apesar de apoiarem o mesmo candidato. Voltamos a qualquer coisa que já aflorámos: a penalização de Manuel Alegre.

MCL – O PCP e o BE estão a lutar pelo lugar principal à esquerda do PS. Querem ter o protagonismo do anti-PS. Disputam lugar e proeminência. Há enorme acrimónia entre estes dois partidos. Isto é mais importante para eles do que portarem-se como parceiros. As presidenciais seriam um momento ideal para ensaiar uma coligação… Impossível. Sócrates e Louçã nem sequer fazem comícios juntos, não aparecem juntos. O BE esteve toda a campanha a criticar Sócrates. Isso ajuda Manuel Alegre?

AF – Nisso estamos de acordo. Mas há, apesar de tudo, uma distinção entre a dimensão presidencial e a dimensão governativa/legislativa. São 20% dos eleitores. Podemos deitá-los fora? Concordo que o que aconteceu em 2009 se deveu à deterioração sócio-económica; mas não foi só isso. Várias sondagens demonstravam que as pessoas estavam cansadas da maioria absoluta e do exercício autoritário (não no sentido fascista), da abordagem musculada de Sócrates. Foi uma desinteligência do PS. Não tenho dúvidas que, tal como estão, seja do ponto de vista ideológico, seja do ponto de vista do seu pragmatismo e oportunismo eleitoral, estes partidos não são parceiros fiáveis. Mas podiam ser. Para que isso aconteça é preciso ir dando passos.

 

São sobretudo os eleitores à esquerda os que ficaram defraudados com o que se fez nos anos pós-25 de Abril? Os resultados ficaram aquém do esperado, dessa infinita promessa original.  

AF – Há uma enorme diferença entre o PCP e o BE.

MCL – Quando o PS passar para a oposição vamos ver qual a durabilidade destes 20% nestes partidos. A partir do momento em que o PSD e o CDS forem Governo pode funcionar o voto útil em direcção ao PS.

AF – O que estás a dizer, provavelmente, vai acontecer já nas próximas eleições. Eles são esmagados se não cooperarem.

 

O voto transfere-se facilmente?

MCL – Os eleitores, com excepção dos do PCP, não são fiéis. Vamos ver se alguns tanto votam PS como Bloco. Eu acredito que sim. Muitos deles são eleitores novos. Há uma enorme volatibilidade em Portugal. Não directamente para outro partido, mas passando primeiro pela abstenção, por exemplo, por um período de nojo, e depois para outro partido. Isto é recorrente, e faz com que as elites sejam conservadoras, não arrisquem muito.

AF – Se os eleitores da esquerda radical são uma espécie de perdedores ou desiludidos com o que se passou desde o 25 de Abril para cá? Isso pode ser verdade para o PC, que é um eleitorado a encolher, geracionalmente condenado. Aí sim, há uns deserdados, os vencidos da globalização (como algumas teorias apontam); são pessoas de baixo estatuto sócio-económico, agarradas a determinadas convicções e que são uma parte dos mais penalizados e desiludidos com a performance económica e com os resultados desde o 25 de Abril. O eleitorado do BE é diferente. São eleitores jovens, altamente escolarizados. Podem não ser os grandes vencedores, mas não são propriamente os perdedores. É verdade o que a Marina diz: os partidos jogam à defesa porque o eleitorado é volátil. Mas o eleitorado também é volátil porque os partidos dizem uma coisa quando estão no Governo e dizem outra quando estão na Oposição. Se os partidos mudam de posição overnight (para caricaturar), isso não ajuda a fidelizar.

 

Como olha para os resultados das legislativas de 2009? Que importância têm ainda no quadro que vivemos?

MCL – Houve uma componente importante de funcionários da administração pública que se sentiram alvo das reformas de Sócrates, nomeadamente os professores, e eventualmente na área da Saúde. Houve divisões entre o PS e algum do seu eleitorado de base, de que os professores fazem parte. Estiveram 200 mil pessoas na Avenida da Liberdade.

AF – 150 mil. Mas sim, é significativo.

MCL – Isto não é despiciendo. Tem que ver com as políticas públicas que Sócrates quis implementar, a forma como ele o fez, os resultados que teve. Também não me parece despiciendo ter havido uma greve geral na qual a UGT participou com a CGTP pela primeira vez em 18 anos. É o retrato da evolução da relação do PS com o mundo laboral, que é uma coisa que não começou agora. Fazer reformas a seco é muito difícil. Vai gerar imenso conflito. As reformas têm de ser feito no momento em que há alguma folga económica. O que está a acontecer com este Governo é que é obrigado a fazer reformas ou a tomar medidas de austeridade sem condições para aplicar contra-medidas que suavizem um pouco a dureza destas reformas. Esta é a história dos mandatos de Sócrates.

AF – O problema é também processual. No fundo, houve uma certa vertigem política. “Nós agora temos maioria absoluta, vamos desenhar umas políticas cientificamente perfeitas e implementá-las. Não interessa as pessoas, vai tudo à nossa frente.” Esse foi o drama. Penso que há uma grande diferença entre o que se passou até 2009 (com a UGT a fazer acordos de cooperação) e o que se passou nesta greve geral.

 

Estamos a dias de eleições, mas o que está sobre a mesa transcende largamente o fenómeno das presidenciais. Muito mais está em jogo. Contudo, o fim-de-semana passado, opinion makers como Clara Ferreira Alves ou Miguel Sousa Tavares, falavam de indigência política a propósito destas eleições. Quer dizer, estas são umas eleições pelas quais não estamos a dar muito, e concomitantemente tem-se a impressão de isto ser o preâmbulo de qualquer coisa fracturante que vai acontecer a seguir.

AF – Estas eleições podem abrir um novo ciclo, mas as pessoas não estão mobilizadas para isso. Nem há sondagens. Não sei se é pela falta de dinheiro se é um misto de falta de dinheiro e dar o vencedor por adquirido. A campanha tem sido pobre, mas os actores políticos jogam nas suas posições. Quem está numa posição mais favorável tenta-se proteger, joga à defesa. Não esperávamos que o Prof. Cavaco Silva fosse mostrar o jogo todo, não é? E os outros atacam. O debate não é sobre a governação, é sobre a influência que o presidente pode ter no curso da governação.

MCL – Concordo com o André. Estamos a fazer uma campanha eleitoral para um cargo que não é o de chefe de Governo, é o de chefe de Estado. Essas funções são muito dependentes das condições que existem. Se é um Governo maioritário ou minoritário, se é um Governo da sua cor política ou não. É uma incógnita a situação que vamos ter nos cinco anos de mandato. Não se pode discutir políticas públicas porque o presidente não é responsável por elas. Pode-se discutir carácter, mas é preciso ver quais são os temas que são legítimos ou não legítimos.

 

É legítimo discutir a questão do BPN?

MCL – A questão do BPN é absolutamente legítima, porque tem a ver com a idoneidade das decisões financeiras e com as ligações políticas de Cavaco Silva. Há uma bipolarização do eleitorado para escolher o candidato que vai ser presidente. Nessa bipolarização os dois partidos, PS e PSD, estão no centro do debate. Acontece que esses dois partidos, neste momento, estão muito enfraquecidos. A pobreza e a falta de interesse e a falta de intenção de voto (segundo esta última sondagem [publicada quarta-feira]), estão relacionadas com esta crise do bipartidarismo. Em 2009 estes dois partidos juntos tiveram 65% dos votos. É o valor mais baixo desde 1987, quando começaram as maiorias absolutas.

Vamos escolher um chefe de Estado que não é responsável pelas políticas públicas quando o que as pessoas querem saber é se o FMI vai entrar, se vamos perder o 13º, o 14º mês, se vamos perder 50% do nosso rendimento devido a necessidade de deflação para ficarmos no Euro.

 

Então, nas próximas legislativas vai haver uma maior mobilização porque as pessoas entendem que aquilo tem implicações na sua vida de todos os dias?

MCL – Temos que ver quais são as alternativas, quais são os programas. Tendo em conta a crise económica, diria que sim, que as legislativas vão ver muito importantes. A não ser que o FMI já tenha entrado, as pessoas se tenham convencido de que o Governo não tem autonomia para determinar as políticas públicas, que há uma euro-dependência total… Isto é muito grave.

AF – A situação económica do país e a preocupação das pessoas retira alguma importância e visibilidade a estas eleições. Importância essa que os portugueses já entendem, em termos relativos, uns furos abaixo em relação às legislativas. Ainda mais quando há um presidente recandidato, que geralmente parte em vantagem.

O presidente da República tem um papel no sistema político. Pode ser um guardião da Constituição, impor moderação a um Governo, qualquer que ele seja, no sentido de o fiscalizar, através dos vetos, de o fazer inflectir a legislação. Isso não passou na campanha. Não é verdade que o presidente não tenha poderes nenhuns.

 

Mas é verdade que não temos um sistema presidencial, e que os poderes do presidente são, nessa medida, limitados.

AF – Temos o que temos. O papel do presidente da República não é negligenciável.  

 

Esta desmobilização revela também uma saturação em relação a esta classe política, cujos nomes são basicamente os mesmos há 20 anos? As pessoas estão fartas destes actores políticos? Introduzo já uma outra questão: porque é que se tem a ideia de que as pessoas não gostam de se submeter ao escrutínio dos eleitores?

MCL – É como as pessoas não gostarem de exames. É um momento de teste.

 

Cavaco: a primeira vez que perdeu as eleições para Jorge Sampaio só se recandidatou passados dez anos. Com excepção de Soares e Santana, são poucos os políticos que vão a votos, ganham, perdem, voltam a candidatar-se, ganham, perdem, e isso não é fim do mundo.

AF – A questão da cultura política é muito importante. É raro haver uma valorização do conflito e da negociação. O conflito são insultos, são maldades… Também a cooperação, que é a sua contraparte, é lida como uma forma de vender a alma. O Ferro Rodrigues foi o primeiro líder de um partido que, após perder as eleições, foi para o Parlamento. Em geral, um primeiro-ministro, um líder de um partido vai para uma espécie de exílio dourado. Não volta para cargos mixurucas. Mas o Helmut Kohl foi líder do CDU/CSU e primeiro-ministro durante três mandatos, e depois voltou para o Parlamento. Porque [na Alemanha] ser deputado, exercer actividade política é um valor.

 

Justamente, em Portugal, existe um grande desligamento em relação à política. Ser deputado não é considerado um valor.

AF – O que ouço dos Medinas Carreiras, da vertigem tecnocrática, é que estes tipos dos partidos são uns malandros. E depois dependem dos eleitores. E como dependem dos eleitores, não podem fazer o que precisa de ser feito. Mas em democracia o que tem de ser feito não tem de ter um ajustamento face às preferências dos eleitores? Então a democracia não é o Governo em representação do povo? Isto é o cerne da democracia. Quando ouço colunistas defenderem que as eleições são um escolho para a governação… Isto é a teoria da ditadura encapotada.

 

Voltemos à questão dos líderes que gostam ou não gostam de ir a votos.

MCL – No caso de Cavaco Silva, sabemos que é muito difícil ganhar a um presidente que está em busca da reeleição (que era o caso de Sampaio). Cavaco preferiu retirar-se e ir a votos apenas no mandato seguinte em que havia uma disputa aberta. É compreensível do ponto de vista da estratégia política e pessoal.

 

Porque é que acha que o nosso parlamento não é uma instituição valorizada?

MCL – É uma instituição parlamentar num quadro semi-presidencial. Este regime não é um regime parlamentar. Os membros do Governo não emanam do Parlamento, e têm de abdicar do seu mandato parlamentar. Penso que isso é nocivo para a credibilidade do Parlamento. Os ministros, que muitas vezes são cabeça de lista nas legislativas e são porta-bandeira do partido neste ou naquele distrito, uma vez ganha a eleição desaparecem do Parlamento. E no Parlamento aparecem caras desconhecidas, de uma lista que nunca ninguém viu. Há outra tendência, que é a de haver independentes. São pessoas que não são verdadeiros independentes, porque são compagnons de route de um ou de outro partido. Simplesmente não militam no partido. Essa falta de militância não é prejudicial – pelo contrário – à ascensão aos cargos mais altos do Governo, que é onde, verdadeiramente, as decisões políticas são tomadas. É uma idiossincrasia portuguesa haver tantos independentes. Resulta um pouco do anti-partidarismo latente que se sente em toda a sociedade. Cerca de 50% dos ministros de Sócrates não são do PS.

 

Exploremos esse aspecto – o de um candidato ser valorizado pelo simples facto de não pertencer a um partido político. Não é por aí, também, que se explica o sucesso da candidatura de Alegre nas eleições anteriores, nas quais, sendo desde sempre um insider dos partidos, estava ali como independente? Esta campanha, comparativamente mais frouxa, tem o apoio de dois partidos.

MCL – Alegre é claramente um político partidário, dos históricos do PS. Isso dá-lhe credibilidade em relação a outros. A carreira política dá previsibilidade ao comportamento que um actor político possa ter se for eleito para um cargo. As pessoas conhecem Manuel Alegre, e essa foi uma grande vantagem na eleição anterior. Tinha uma independência que não era anónima, tinha um passado, com provas dadas. Depois de ter assumido posições bastante contrárias às de Sócrates, e tendo em conta que a liderança não mudou, e que as políticas não mudaram assim tanto, o seu re-alinhamento com Sócrates não terá sido bem entendido. Terá sido entendido como uma táctica para ser candidato a presidente. Ele é o candidato do Governo. Esse é o principal problema. O Governo está a perder popularidade.

AF – Tenho uma visão distinta da da Marina acerca das razões pelas quais o Parlamento é tão pouco valorizado. Não acho que seja uma questão central a necessidade de os membros do Governo terem de ser deputados. O problema é a forma como os deputados são eleitos, que lhes retira autonomia e visibilidade. Temos deputados invisíveis perante os eleitores porque quem os escolhe, quem determina a sua posição na lista, é a direcção do partido. Isto mudava-se com uma abertura de listas ou com círculos uninominais. Em França, os deputados, acumulam mandatos (são presidentes de câmara, são deputados), fazem imenso trabalho de círculo, e isso é muito valorizado. Foi essa visibilidade e essa autonomia que Manuel Alegre teve quando foi deputado histórico do PS.

 

A sua dissidência com Sócrates pareceu irremediável.

AF – Ousa [enfrentar o líder] quem tem prestígio, quem não tem nada a perder. Foi isso que Alegre e outros deputados na legislatura passada fizeram. Isso granjeou-lhe prestígio.

 

É um pau de dois bicos. Por um lado, um candidato merece simpatia por não ter apoio dos partidos. Por outro, nenhum candidato é eleito sem ter o apoio dos partidos.

AF – Não vejo sinais de que isso possa acontecer. O problema de Alegre não é tanto o de ser apoiado pelo partido A ou B. É o de ser o partido A e B que estão sempre à nora. É o ser o partido que é Governo. É uma candidatura muito difícil. A própria forma como tem sido conduzida não está isenta de problemas.

 

Cavaco vai ganhar à primeira volta? Qual estimam que será o nível de abstenção?

MCL – As sondagens indicam que Cavaco vai ganhar à primeira. Esta última dá-lhe 61%. Mesmo que a margem de erro seja de 7 ou 8%, ele ganharia com uma margem até superior à que teve na eleição anterior. Cavaco corre contra si próprio. Isto é também um referendo ao seu primeiro mandato. Interessa-lhe ganhar, obviamente. Mas interessa-lhe também saber como é que ganha. A abstenção, penso que será extremamente elevada. É-o por razões estruturais. Este tipo de sondagem, que indica um vencedor claro à partida, é muito desmobilizador. A pessoa pensa: o meu voto não vai lá fazer nada. E há as razões conjunturais. Isto é uma oportunidade da esquerda para mostrar cartão amarelo a Sócrates. Eu diria cartão vermelho, mas não pode mostrar cartão vermelho.

AF – A esquerda? Mas Sócrates não é de esquerda?

MCL – Este redireccionamento da campanha de Cavaco no sentido de a tornar entre ele e Sócrates [parece surtir efeito]. Quanto mais o eleitorado de esquerda pensa em Sócrates mais desmobilizado fica.

 

Numa linha, esta eleição é entre Cavaco e Sócrates?

MCL – A campanha tornou-se numa disputa entre Cavaco e o Governo. Temos todos os dias os ministros a responder a Cavaco!

AF – Precisamos de mais sondagens para ver com mais segurança o que se perspectiva. A probabilidade maior é vitória à primeira volta. Pode haver algum volte-face; seria surpreendente, mas pode haver. Há muitas pessoas que estão indecisas; umas abstêm-se, outras não. Espera-se muita abstenção, e a dúvida é se ela atinge mais um campo do que outro. A verificar-se uma distância destas – em que não acredito – seria preocupante para o sistema político. Parece-me óbvio que se vai abrir um novo ciclo no próximo ano. Ter uma forte concentração de votos também em Cavaco e um enfraquecimento dos seus opositores à esquerda não seria saudável para a democracia.

 

Terça-feira veio a público o apoio do ex-ministro de Sócrates Correia de Campos a Cavaco. Este apoio pode passar pelo facto de lhe ter sucedido na pasta da Saúde uma alegrista, Ana Jorge?

AF – Pode sim. Também tem a ver com o facto de Correia de Campos, enquanto ministro da Saúde, ter sido alvo de críticas do deputado Manuel Alegre. Vieira da Silva está muito retraído – Alegre criticou o Código do Trabalho. A política portuguesa é muito pessoalizada. Eles eram ministros e foram beliscados. Sócrates é, desse ponto de vista, muito mais pragmático e político do que estas pessoas. Consigo perceber que Mário Soares se sinta pessoalmente machucado com o que se passou nas presidenciais de 2006. Mas o filho dele, João Soares, e Alfredo Barroso, ex-chefe da Casa Civil e sobrinho de Soares, estão a apoiar Alegre.

 

Do outro lado, Isabel Soares e Maria Barroso apoiam Fernando Nobre.

MCL – Há relações pessoas e elas são muito importantes. Mas há divergências ideológicas. Não podemos esquecer que Manuel Alegre foi candidato do BE antes de ser do PS. Tendo em conta as divergências de que falámos, isto não é irrelevante. Cavaco Silva nunca foi um liberal. É criticado por ter sido demasiado estatista. Há pessoas na esquerda, mais ao centro, que não se revêem na campanha de Alegre. Correia de Campos pode ser um representante desse eleitorado.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em Janeiro de 2011

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