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Anna Netrebko

«Aqui está uma cantora que tem tudo: uma voz de uma pureza espantosa, precisão e alcance, tonalidade dinâmica e extensa, e imaginação. Tudo isto combinado com um carisma que faz com que não se tirem os olhos dela quando está em palco». Um crítico do San Francisco Chronicle definiu assim a soprano russa Anna Netrebko. O mesmo crítico não disse, mas podia dizer, que Anna é belíssima e que o mundo do canto lírico está apaixonado por ela.  Dizem que é a nova Maria Callas, dizem que tem a graciosidade de Audrey Hepburn – «Uma Audrey com voz».

A sua história é uma história de gata borralheira. Nasceu na então União Soviética, filha de um geólogo. Orgulhosamente escreve no seu website que o seu primeiro trabalho foi lavar o chão no Mariinsky Theatre. Lavou-o durante anos. E ouviu, ouviu, ouviu. Paralelamente, recebeu aulas de canto – pagas, justamente, como o dinheiro ganho no soalho do teatro.

Foi o encontro com o maestro Valery Gergiev, que reparou nela, que mudou a sua vida. Tinha 22 anos quando se estreou nos palcos da Ópera de Kirov. Hoje tem 30 e poucos – a informação biográfica não especifica… Mas parece uma menina – mignonne, impetuosa, passional. Uma heroína operática, portanto. A Deutsche Grammophon assinou com ela há anos um contrato de exclusividade, e recentemente os seus críticos e ouvintes apontaram-na como cantora lírica do ano.

A discografia de Netrebko é voluptuosa: uma nova e muito celebrada versão da «Traviata», de Verdi, um disco com árias da sua Rússia natal, outro disco com árias das óperas mais famosas de Mozart (de «Così fan Tutte» a «Don Giovanni»), um disco de árias românticas com aquele que tem sido o seu “par” mais constante, Rolando Villazón – todos de 2006 e 2007 – e, lá mais para trás, dois discos a solo, um deles, «Sempe Libera» conduzido pelo muito reputado Claudio Abbado.

Mas Anna Netrebko é também uma mulher do seu tempo, que adora compras e ouve música pop! Que detesta longas viagens de avião e que viaja o tempo todo. A sua vida é cantar pelo mundo fora, nas salas mais exclusivas. 

 

 

Disse numa entrevista: «Quero ser diferente. Quero que as pessoas se lembrem de mim. Quero que gostem de mim. É pedir muito?». Não, não é! Mas consegue fazer um retrato de si própria, destacando aquilo que tem de diferente?

Tento dar o meu melhor, dar mesmo 100% em cada apresentação. E espero que as pessoas saiam do espectáculo a lembrar-se dele durante muito tempo.

 

Existe uma coincidência entre a imagem que tem de si mesma e aquela que os outros têm de si?

Depende de que imagem está a falar. Eu vejo todas as falhas, todos os dias, e tento resolvê-las. Os que me vêem no palco, felizmente, têm uma melhor imagem do que sou, porque só vêem o meu melhor! Aqueles que me conhecem, apenas, através dos media, realmente não me conhecem.

 

As pessoas falam sempre sobre o seu carisma. Este carisma deriva de que raíz? Foi uma criança amada? Concorda que a infância é fundamental para a confiança que uma pessoa tem nela mesma?

Absolutamente. As experiências que vivemos na infância são decisivas para a auto-estima. Tive uma infância maravilhosa. Os meus pais foram sempre muito encorajadores e mimaram-me muito. E fui sempre muito determinada – mesmo em pequena. Quando meto uma coisa na cabeça, faço tudo para que se concretize.

 

Tem a impressão de que toda a gente confirmar o seu talento e o seu mérito? Um “não” é tão importante quanto um “sim”? Uma ária especialmente difícil torna-se uma grande desafio?

Tenho muitos críticos, e o criticismo construtivo é extremamente importante para mim, como é para a maior parte dos artistas. Também sou crítica de mim mesma e sinto constantemente que tenho de trabalhar a minha voz e desenvolver as minhas capacidades. E, claro, uma ária difícil torna-se num belo desafio... Preciso de ter desafios, novas etapas nas quais invisto, para melhorar.

 

Há uma relação entre a sua felicidade e o modo como canta? (Não, não estou a compará-la com Maria Callas. Mas, sim, penso nela quando pergunto isto, porque Callas perdeu a voz quando ficou infeliz...)

Penso que há uma relação entre o estado emocional e a performance. Mas pode funcionar para os dois lados, não acha? Alguém que viveu um momento triste ou doloroso pode ter uma intensidade e uma dramaticidade na interpretação que não teria de outro modo. Mas concordo que é mais fácil cantar quando se está feliz da vida!

 

Os seus horários são incríveis! Olhar para a sua agenda de concertos permite perceber que viaja o tempo todo. Mesmo assim, a sua base continua a ser em São Petersburgo. O que é que é essencial na sua mala? Que objectos, sentimentos e pessoas lhe dão a impressão de estar em casa?

É verdade, viajo o tempo todo, e devo dizer que a coisa mais importante na minha mala de mão é o meu telemóvel. Através dele posso estar em contacto com a minha família e amigos. Isso é realmente “casa” para mim: estar perto daqueles que amo.

 

A sua editora trata-a como se fosse uma pop star, imensamente glamorosa. Sente-se confortável nesse papel?

Eu sou uma cantora de ópera, não sou uma pop star. Posso ter a popularidade e a imagem de pop star nalguns sítios, o que é também muito lisonjeador. Mas eu trabalho muito para manter o perfil de artista rigorosa. Há uma seriedade que não quero afastar daquilo que faço.

 

Em todo o caso, insiste em dizer que ouve música pop em casa – Robbie Williams é sempre citado. Fá-lo para aproximar públicos? Para dar uma ideia mais moderna do mundo da música clássica?

Não, é só porque é a música que ouço quando não estou a trabalhar. Relaxa-me. Não acho que seja necessariamente boa ideia misturar os dois géneros...

 

Quando era pequena, praticava ginástica. Isto deu-lhe uma especial consciência do seu corpo? O corpo é também uma importante ferramenta do seu trabalho...

A voz e o corpo são as ferramentas mais importantes de que disponho, e estou sempre muito activa em palco. Sim, penso que ter feito ginástica em criança ajudou-me a desenvolver uma consciência do meu corpo.

 

Acontece-lhe ter pesadelos que envolvam a sua voz?

Como todos os cantores, às vezes sonho que estou exposta, em cima do palco, e impreparada para um papel. Mas em geral durmo bastante bem! Quando eu era uma cantora desconhecida, era muito pouco ansiosa. Agora que as pessoas vêm a uma sala de espectáculos especificamente para me ver e ouvir, posso ficar muito ansiosa e stressada por causa disso!

 

A sua voz é o seu tesouro, certo? Quais são os outros?

A minha saúde. E a saúde da minha família e amigos. A minha felicidade é o meu tesouro.

 

A voz revela a sua personalidade? O que é que revela?

A voz de um artista é evidentemente muito “pessoal”, no sentido em que é parte ou reflecte a sua personalidade. Contudo, nas minhas interpretações, espero que o meu canto revele a personalidade e os sentimentos dos personagens que estou a retratar.

 

E agora, falemos de compras! Porque é que o Marc Jacobs é o seu designer preferido?

Marc Jacobs é fantástico! Ele põe as mulheres tão bonitas... Mas também aprecio outros, em especial Escada; são espantosos na alta costura.

 

«E tudo o vento levou» é o seu filme. Sente uma especial identificação com a Vivien Leigh?

É um filme tão extraordinário, tão romântico... E não querem todas as mulheres ser, por vezes, a Scarlet O’Hara?

 

Sente a falta de aspectos da vida de todos os dias, como ir ao supermercado ou cozinhar para a família?

Continuo a fazer essas coisas normais sempre que posso. É muito importante para mim cozinhar e ter qualidade de vida em casa. Estive em Nova Iorque o mês passado e cozinhei todos os dias. Mas também adoro ir jantar fora!

 

Salman Rushdie disse que a maior vantagem de ser uma figura pública era ter sempre mesa no restaurante! Qual é a sua resposta?

Bem, o Salman Rushdie é um homem com sorte... Eu não sou tão famosa assim que consiga sempre arranjar mesa no restaurante – acredite em mim…

 

Se cantasse para a sua mãe ou o seu pai, como se fosse um presente, o que é que cantaria?

Eles pediriam com certeza «Oh, never sing to me again», de Rachmaninoff. O meu pai adora assistir às minhas apresentações, mas para eles eu sou simplesmente a sua filha.

  

 

Publicado originalmente na Máxima em 2009

   

 

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