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António Capucho

António Capucho não quer parecer ressabiado. Tem uma zanga que não é muda. É feroz com Passos, a austeridade, o neo-liberalismo. Elogia um traço, vários traços de opositores políticos. Porquê? Mais do que não querer parecer ressabiado, Capucho goza da distância de quem olha da plateia. De quem está razoavelmente – ou melhor, momentaneamente – fora de cena. É sofisticado. Sabe que pode sentar-se na beira do rio e que vai ver passar um ou outro dos seus inimigos. Sem ressentimentos. Anda nisto há 40 anos. Já viu muita coisa. Já se enganou. Já despediu amigos. Já sabe que esta cepa não é a mesma da Europa onde esteve (onde os nomes eram Mitterrand ou Kohl). Nem o PSD é o mesmo. O seu é o de Sá Carneiro. Foi expulso há pouco desse partido, é sabido. Agora é avô a tempo parcial. Recusou umas coisas.

Esperem um pouco. Ele não está arrumado. Entretanto olha para um teatro político e um país.  Olha com distância e lucidez. A análise faz-se a frio.   

 

Impressionou-me, numa sondagem recentemente publicada no Expresso, não que o Governo tivesse uma popularidade de -29,3%, mas que o Ministério Público tivesse uma popularidade de -9,6; a dos juízes era de -11,2. Que o sector da justiça tenha uma visibilidade tão grande e uma reputação tão negativa, é espantoso.

Não encontro outra explicação que não seja a que resulta de duas especificidades da nossa justiça. Primeiro, a morosidade. Há uma lentidão assustadora que não é responsabilidade da justiça, é da legislação com que lidam. Em segundo lugar, a convicção, que grassa na população, de que há uma certa impunidade para crimes de corrupção ou colaterais.

 

Grassa a convicção de que nada tem consequência e que se pode passar entre os pingos da chuva.

Vou trazer a questão dos submarinos. Como é possível as coisas terem corrido como correram na Alemanha, com celeridade e com resultados práticos, e nada ter acontecido em Portugal? Certamente porque não foi produzida prova bastante, não ponho isso em causa.

 

A justiça é o cancro de Portugal?

É um dos grandes problemas que temos, nomeadamente para a economia. Investidores e potenciais investidores têm graves reservas em relação a instalarem-se em Portugal por força da morosidade da justiça e da burocracia.

 

Não estou a vê-lo concordar com António José Seguro quando o líder do PS advoga um tribunal especial para investimento estrangeiro.

Venho de antes do 25 de Abril. Estive na luta contra o regime anterior. Tudo o que são tribunais especiais faz-me confusão. É um disparate. O que tem é de se fazer uma reforma da justiça a sério, e não às pinguinhas, como esta parece estar a ser feita. Como, aliás, todas as reformas que deviam estar a ser feitas e que continuam no papel ou às pinguinhas.

Fazendo um diagnóstico do país, além da justiça, que problemas centrais afectam seriamente o nosso desenvolvimento?

A reforma das leis eleitorais e do sistema político em geral. E a política neo-liberal que este governo está a imprimir e que está a matar a economia (embora não negue a absoluta necessidade de austeridade). Os cidadãos não se revêem no sistema partidário. Nas últimas eleições autárquicas, a proliferação de listas independentes, muitas delas com enorme sucesso, [espelha isso].  Na Assembleia da República vemos uma assembleia gigantesca para as necessidades do país. E o cinzentismo dos deputados..., a maioria dos quais, anónimos, se limita a levantar e a sentar. A diminuição do número de deputados não prejudica a representatividade, a proporcionalidade.

 

Fala da alteração da lei eleitoral numa altura em que a classe política merece grande descrédito. Como se exercer cargos públicos fosse uma nódoa no currículo. Como é que chegámos a esta descrença na política?

Porque o sistema eleitoral actual favorece a baixa qualidade. É indiferente aos dirigentes partidários porem uma pessoa de grande ou de pequena categoria em número três, quatro, seis ou sete por Lisboa. Com círculos uninominais, não. Têm que pôr os melhores. Ou, pelo menos, os que tenham maior apelo eleitoral (o que também conflitua com uma certa tendência para o populismo).

 

Não é exclusivo de Portugal, a falta de qualidade dos políticos.

Os tempos que vivi na Europa com o Delors como presidente da Comissão, o Kohl na Alemanha, a Thatcher em Inglaterra, o Mitterrand na França, eram tempos de muito maior qualidade. Em Portugal as pessoas não se preocupam com a qualidade porque é irrelevante em termos eleitorais. E as pessoas não gostam de ser vasculhadas. E as pessoas com maior qualidade não estão disponíveis para ganhar aquilo que a carreira política pode proporcionar. Basta comparar o que António Pires de Lima, de quem sou amigo, ganhava no [emprego] antecedente e o que ganha agora. Faz isto porque é jovem, porque tem possibilidade de o fazer e porque está a prestar um serviço ao país e ao Paulo Portas e ao governo e ao Passos Coelho.

 

E porque ser ministro dá uma certa patine.

Também dá. Ele não precisa. No mundo empresarial chegou ao top numa grande empresa. Mas reconheço que é impensável rever o estatuto salarial da classe política. São privilegiados em relação a um conjunto de cidadãos que têm sido fustigado pela crise, nomeadamente os reformados e os funcionários públicos.

Outro problema é o da lei dos partidos. (Aquele a que pertenci até há poucos dias, onde ainda tenho o coração e a expectativa de voltar, se um dia aquilo se regenerar... O que é pouco provável.

 

É pouco provável?

Por dentro? É muito pouco provável. Enfim, não sei, com uma derrota eleitoral pesada…) Nos partidos, a lei actual permite que se consiga estabelecer colégios eleitorais fidelíssimos através da distribuição de lugares no seio do poder. Estou a falar dos partidos do arco governativo. Há este sistema fantástico em que, para ser militante do PSD, se paga um euro por mês.

 

Está a falar do financiamento dos partidos.

Isto é assim porque o Estado resolveu – e eu sou co-responsável – financiar os partidos de uma forma generosa. Os partidos são financiados para a sua actividade política ordinária, para a sua actividade no Parlamento e ainda nas campanhas eleitorais. Os militantes não financiam os seus próprios partidos. E os militantes podem ter as suas quotas pagas por interpostas pessoas. É fácil, para quem não tem escrúpulos, arregimentar rebanhos de votantes e perpetuar-se no poder.

 

O que é preciso é ter o partido na mão?

Sim.

 

Isso leva-nos a Miguel Relvas, considerado o homem que controla o aparelho partidário. Viu com surpresa o seu regresso no congresso do PSD?

Sabia que o primeiro-ministro era teimoso, determinado. E que alguma coisa insondável o ligava a Miguel Relvas. Só essa razão insondável permitiu a presença de Miguel Relvas no governo durante tanto tempo apesar das trapalhadas todas em que estava metido. Não estou a acusar Miguel Relvas, estou a constatar a situação em que ele se deixou envolver. Isto deixou-me perplexo. É de tal maneira prejudicial à imagem do partido e do primeiro-ministro a presença de Miguel Relvas (como cabeça de lista, ainda por cima, do Conselho Nacional), que não é a mera teimosia que a pode justificar.

 

Pode ser uma fidelidade de Passos Coelho a Relvas? Outra possibilidade: perpassou no congresso a ideia de que “há ainda um ano e meio para dar a volta a isto”. É preciso atenção às bases. Passos bem pode engolir o sapo que o nome de Relvas desencadeia se este começar a trabalhar nas autárquicas de 2015.

Pedro Passos Coelho pretendia ser líder do partido e teve nas trincheiras Relvas a cavar os apoios necessários a esse desiderato – no qual teve manifesto êxito. Agora, que ele é insubstituível nessa matéria ou que é melhor que outros, nomeadamente que Marco António Costa, não tem qualquer cabimento. Não é isso que vai levar o partido a ganhar eleições. Isto pode dar lastro à liderança, mas junto da opinião pública não tem qualquer relevância. Basta ver o Facebook: é arrepiante a reacção a essa matéria.

 

Então é um tiro no pé?

É um monumental tiro no pé. Estragou um congresso que não lhe ia correr nem bem nem mal. Estragou tudo perante a base, mas, fundamentalmente, perante os eleitores com este gesto gratuito de chamar outra vez Miguel Relvas.

 

Foi uma espécie de bomba. Estava à espera?

Não, de todo. Pensei que as tais motivações insondáveis já tivessem sido ultrapassadas. Todos temos no decurso da vida política – levo 40 anos disto – que afastar pessoas de quem somos amigos. Disse isto, apelando a Miguel Relvas: “Se são amigos, faça-lhe o favor de sair do barco temporariamente”. Se ele regressasse ao parlamento, a historieta da licenciatura podia passar.

 

Acha que é uma historieta?

Não quero atirar com mais pazadas para cima de uma pessoa que também sofreu.

 

Disse isso a Miguel Relvas?

Não disse a Miguel Relvas, disse-o publicamente. Tive uma última conversa com Miguel Relvas a convite dele enquanto ministro, para almoçar, e a partir daí percebi que era persona non grata. Não dele, mas do primeiro-ministro (por força daquela situação do [Fernando] Nobre). E suspendi a militância no partido.

 

É por apego ao poder que as pessoas não saem facilmente de cena? Noutros países há sinais de crise que fazem com que as pessoas se demitam imediatamente.

Não há uma tradição de assumpção da responsabilidade política. A pessoa pode não ser culpada de um incidente ou de uma situação, mas deve assumir a responsabilidade política. O Jorge Coelho, tiro-lhe o chapéu, não tinha culpa nenhuma da queda da ponte. Assumiu a responsabilidade política e afastou-se. Isso em nada prejudicou a carreira política dele (futura), nem a carreira profissional.

 

Não é comum.

Não. Repare no que aconteceu nas eleições autárquicas, em Lisboa e no país. O partido [PSD] perdeu os três maiores municípios a seguir a Lisboa: Porto, Gaia e Sintra. Por erro flagrante na escolha dos candidatos. A área metropolitana de Lisboa foi uma desgraça completa. Quais foram as consequências políticas? O Marco António Costa acha que ganhou. O Sr. Engº Miguel Pinto Luz? Na maior. Como se nada tivesse acontecido. Nem sequer confessam a derrota.

 

Já nos habituámos a ver, nas noites eleitorais, que são todos vencedores.

Há limites. Que os pequenos partidos venham com essa história nas noites eleitorais, pode-se compreender. Dentro do PSD, a derrota nas eleições legislativas conduz à demissão do líder. Se ele não se demite, é demitido no congresso porque os militantes do PSD exigem que o partido esteja no poder.

 

Usei uma expressão e passou por cima dela: “apego ao poder”. E por apego ao poder queria dizer que é preciso ter o poder na mão para fazer e para distribuir benesses pelas tropas. Lugares políticos, negócios. É assim.

Nunca foi tanto como agora.

 

“Casa em que não há pão todos ralham e ninguém tem razão”? Houve um tempo em que o dinheiro chegou a rodos da Europa, e chegava para tudo e para todos. Era por isso que os conflitos não eclodiam desta maneira?

Neste momento há mais pressão da base militante para o acesso a lugares remunerados na máquina do Estado (nos gabinetes ministeriais, nas câmaras municipais), porque o emprego rareia. Há menos pudor e a legislação está a favorecer isto. Tenho preconizado que se acabe com esta possibilidade de assessores de gabinetes ministeriais, que têm seis meses de estágio, 24 anos e uma licenciatura ganhem mais do que…

 

Um médico.

Muito mais. As câmaras foram obrigadas a diminuir dois ou três por cento o número de funcionários. Soube que não houve necessidade de despedir. As pessoas reformaram-se ou chegaram a acordo e saíram. Mas nas empresas municipais não é assim. Em Sintra, o Dr. Basílio Horta foi obrigado a eliminar (salvo um médico e um enfermeiro) todas as pessoas contratadas para além do quadro que tinha nas empresas municipais e na própria câmara. E colocou o dinheiro – estou a fazer um elogio ao meu adversário político – a favor dos problemas de assistência social.

É possível exigir-se, numa câmara com 1500 funcionários, que o presidente tenha que escolher metade do seu gabinete de entre os funcionários da câmara. Quando fui presidente da câmara, a minha chefe de gabinete era funcionária da câmara. Não faço a mínima ideia de qual é a sua inclinação política ou partidária, por muito difícil que seja de acreditar.

 

Está a distinguir confiança pessoal e confiança partidária.

Sim. O mesmo se diga de um primeiro-ministro ou de um ministro do Ambiente. Pode ter essa capacidade e só terá vantagem nisso.

 

Ainda é possível este PSD, apesar da austeridade, apesar desta terrível nota, -29,3, ganhar as legislativas?

É extremamente difícil porque tudo indica que a austeridade se vai reforçar.

 

Tem essa convicção, apesar da saída que se deseja limpa?

Tenho porque estão anunciados mais dois ou três mil milhões de cortes durante este ano. [Vai] passar a definitivo o que é temporário e agravar-se ainda mais [a situação]. E para atingirmos a meta do défice em 2014 já não há receitas extraordinárias que possam ajudar a esse objectivo. O eleitorado vai ser penalizado. Especialmente um eleitorado nada despiciente como os pensionistas e os funcionários públicos. É certo que isso pode afastá-los das urnas, em vez de votarem contra o Governo. Por outro lado, a questão põe-se em saber se a alternativa é credível ou não, e a alternativa é o Partido Socialista.

 

O Partido Socialista ou António José Seguro?

António José Seguro. Há uma campanha muito curiosa em termos de marketing político para tentar denegrir e achincalhar a capacidade dele. Tem tido algum êxito. O Partido Socialista não sai da cepa torta. Tem havido erros, como agora a designação de Francisco Assis para cabeça de lista ao Parlamento Europeu. O PS tem tido dificuldade em afirmar-se como alternativa, e com políticas alternativas credíveis, assimiláveis. Mas daqui até às eleições ainda vai um caminho.

 

Um volte-face dentro do Partido Socialista, com mudança de líder, mudaria as coisas?

Isso só seria possível se houvesse uma debacle completa do Partido Socialista nas eleições para o Parlamento Europeu. O que não creio. Vão ser umas eleições complicadas em termos eleitorais dada a abstenção.

 

É sempre muito forte nas europeias.

Desta vez vai ser mais, e vai condicionar e influenciar o resultado eleitoral. O aparecimento de falsas listas independentes, com as barrigas de aluguer, como acontece com a lista do ex-bastonário [Marinho Pinto], e o aparecimento de mais partidos à esquerda, podem captar nichos de mercado e influenciar o resultado eleitoral.

 

Estávamos à espera de o ver numa lista. Criou-se a expectativa de que depois da expulsão pudesse ser sugado por um desses movimentos e ser candidato ao Parlamento Europeu.

Não. Jamais iria numa barriga de aluguer por uma questão de ética e de princípio. Fui sondado por um movimento pelo qual tenho simpatias, pelas suas orientações políticas, por muitas pessoas que lá estão dentro. Não vou revelar qual é porque está iminente o seu aparecimento. Expliquei que não estava disponível. Ia como independente, com alguém com quem simpatizo.

 

Porque é que recusou?

Porque agora tenho actividades de natureza pessoal muito mais importantes. Sou baby-sitter da minha neta Mariana e do meu neto Francisco. Estou em standby. Já dei para esse peditório. Estive nove anos no Parlamento Europeu e não tinha paciência para, aos 70 anos, andar itinerante entre São João do Estoril, Lisboa, Bruxelas e Estrasburgo.

 

É mesmo a fase da vida em que está?

E por já ter lá estado. Quando estive lá, gostei. Não percebia nada dos dossiers europeus e foi uma experiência riquíssima. Entrei numa época áurea do Parlamento Europeu.

 

Não está a dizer que arrumou as botas só porque vai fazer 70 anos.

Não. Continuo com o bicho da política. Os meus netos preenchem as segundas, quartas e sextas. Mas estou disponível e sinto-me com vontade de fazer política.

 

Quando disse que ainda há muito caminho até às eleições de 2015 lembrei-me de Matteo Renzi, novo primeiro ministro italiano, e da rapidez com que tudo foi feito. Em Portugal não é assim. Não temos um Renzi e as coisas não se fazem no espaço de uma semana ou de um mês.

Porque a lei eleitoral e a legislação italiana permitem isso. Na generalidade dos países, em Inglaterra é a mesma coisa, cai um Governo e outro daí a bocado está pronto. O caso belga: as negociações eternizam-se, mas não há problema nenhum, aquilo funciona sem governo. A máquina da administração pública resolve o essencial, e a defesa e a política externa estão garantidas.

 

Em Maio vamos ter eleições europeias e, supostamente, a saída da Troika. O primeiro-ministro já disse que será uma saída suja se estivermos obrigados a um segundo resgate. Sérgio Godinho disse que nunca será uma saída limpa porque ficaram alguns anéis mas cortaram-se os dedos.

Ele tem razão. A generalidade dos economistas em quem confio escreveram nos jornais que a saída limpa era um risco desnecessário e perigoso. Entendiam que devia haver um programa de apoio a essa saída. O primeiro-ministro fez bem, nunca se comprometeu com uma nem com a outra. Elogio-o porque isto na Europa dá muitas voltas e a situação interna do país também, no sentido da macroeconomia.

 

Qual é o papel da Europa nisto?

Percebeu-se que a Sra. Merkel não quer cá quaisquer apoios. Quer que a gente se desenrasque sozinhos e não mace. Saída limpa… “limpa” sempre entre aspas, por causa do que disse o Sérgio Godinho, mas também porque vamos continuar a ter uma supervisão, que é a tal “terceira via”. Não é nada a terceira via. É a saída supostamente limpa que sempre esteve prevista. Vamos ser acompanhados à lupa pelas instâncias europeias competentes, pelo Banco Central e pela Comissão Europeia. Limpos do FMI, talvez, mas dos outros dois, não. Não temos visita da Troika, mas continuaremos a ter uma supervisão. A célebre frase de Paulo Portas, de que nos vamos ver livres [dessa tutela], é uma patetice.

 

É Merkel que manda mais e que, por isso, decide como será a nossa saída? Ou decide como será o acompanhamento findo o programa da Troika.

A minha tese é que são os funcionários europeus quem tem um peso enorme na determinação dos caminhos da Europa. É o funcionalismo público.

 

Explique isso.

É simples. Quando estive na Europa percebi que os papéis que chegam para decisão são fabricados nos corredores das instâncias europeias pelos altos funcionários – [sobretudo] alemães, ingleses, franceses e italianos. Os alemães tinham uma preponderância porque eram eles que pagavam as facturas. A influência dos directores gerais da Comissão Europeia e dos altos funcionários, seja na Comissão seja no Parlamento Europeu, era determinante. Os papéis vinham feitos e havia muito poucos desvios aos papéis.

Mesmo assim o Delors ainda mandava, o Kohl, a Thatcher, o Mitterrand mandavam. Agora, tenho as maiores dúvidas que mandem. A política foi substituída, de forma perigosíssima, pela tecnocracia. Quando vejo uma senhora do FMI a reconhecer erros crassos e vejo os funcionários cá a dizer o contrário, e a borrifar-se para o que os superiores hierárquicos dizem, ou para o que a senhora Merkel pensa, isto alimenta a minha tese de que não é a Merkel.

 

É a máquina?

A máquina dominada por alemães.

 

O que isso quer dizer, também, é que não há líderes. Se Christine Lagarde diz o que diz e não acontece nada, se Merkel diz o que diz e é engolida pela tecnocracia…

É ao contrário. A Merkel diz o que a tecnocracia indicia que ela deve dizer. E isto é válido na administração pública alemã e não só; veja o que acontece no Banco Central Alemão. Vemos muitas vezes o seu ministro da Economia, que parece todo poderoso, seguir as pisadas daquilo que o Banco Central diz.

 

Então temos líderes pífios.

A média dos líderes na Europa é bastante pífia. Digo-o sem sobranceria. Qualquer observador comum, comparando os nomes que referi com os nomes que neste momento estão à frente dos governos…

 

A Europa, que começou por ser um oásis, nos anos 80, transformou-se num dos maiores problemas de Portugal?

A Europa ainda é a nossa tábua de salvação. Apesar de tudo, continua a ser generosa. É o maior financiador do Terceiro Mundo e dos países da periferia no seu seio, na União Europeia. Vamos ter agora mais um maná de dinheiro de fundos estruturais. Deixou de ser uma Europa política. A partir do momento em que alargaram sem aprofundar as instituições, deu asneira.

 

O politólogo Pedro Magalhães dizia há umas semanas no Negócios que a Europa deixou de ser olhada como uma coisa benigna (indicavam estudos recentes). Apesar do maná que aí vem.

O cidadão comum entende que a Europa é igual a Merkel, é igual a austeridade. Os males de que estão a padecer resultam de um Governo incompetente, que os trata mal, discriminatoriamente, porque está a seguir subservientemente as pegadas da Merkel, da Europa. Responsabiliza a Europa pela austeridade.

 

O PSD de Pedro Passos Coelho e da austeridade não é o seu. Não foi o partido em cuja fundação participou. Gostava que sumariasse este PSD e os pontos em que ele é mais distante da matriz original do partido.

Tem a ver com a orientação política e ideológica que ele assume. Fê-lo de uma forma coerente e que merece registo, em livro, quando se candidatou. Mas a social-democracia que eu ambicionava em 74, a social-democracia à sueca, não era aplicável hoje em dia ipsis verbis. Em segundo lugar [é diferente] pela forma como [Passos] lida com o partido. Com o favorecimento da criação indiscriminada de oligarquias que dominam, através de processos menos claros, os colégios eleitorais em cada uma das secções, em cada uma das distritais. Distritais que se perpetuam, não servem para nada a não ser dar favores na escolha dos presidentes de câmara e das listas de deputados. A organização interna [do partido] morreu. O partido não existe.

 

Em que sentido?

As sedes estão fechadas, não há debate. Não há vida partidária como existiu no início. As despesas estão asseguradas pelos contribuintes, que financiam o partido, não há preocupações dessa natureza. E [é diferente] a nível governamental devido a esta política que classifico – porque não tenho melhor termo – de neo-liberal e que errou na dose e na distribuição dos sacrifícios que era necessário impor ao povo português.

 

Foi pela ameaça, ou quase morte, do estado-social que este governo mais se distanciou da social-democracia à sueca?

Foi. Embora muita coisa houvesse para fazer, e que já tinha começado a ser feita pelo Partido Socialista. A reforma da Segurança Social foi feita pelo ministro Vieira da Silva, e bem feita. E entretanto desmantelada e desvirtuada. Há uma enorme insensibilidade. Dizem-me que o Sr. Provedor da Misericórdia de Lisboa fez um discurso em que explicou que era preciso tomar atenção. Não apenas a pobreza aumentou e o país empobreceu, mas ainda, para agravar essa situação, o fosso entre ricos e pobres acentuou-se.

 

Foi a classe média que foi engolida?

É isso. Este mês há um número arrepiante, o aumento de dois por cento dos casais desempregados. Apesar dos números [indicarem] alguma inversão no número global de desempregados, mais por força da emigração do que por méritos do governo ou do crescimento da economia, a situação de desemprego e de pobreza extrema começa a grassar.

 

No fundo é aquela frase de Luís Montenegro: “o país está melhor, as pessoas é que ainda não”?

São frases infelizes. São sound bites que tentam emitir, como o Sr. primeiro-ministro com a história das “próximas pancadas”, as medidas de austeridade. São expressões infelizes que vêm reconhecer que vai continuar a austeridade, e sobre os mesmos.

 

Quando ouvi essa frase pensei no sentido da política. A política faz-se para quê? Faz-se para um país ter as contas certas?

Compreendo que para se fazer uma política social séria é imprescindível ter as contas certas. Mas fez-se de uma forma brutal, cega, com uma dose em que se mata o doente da cura. E aí estou sintonizado com o António José Seguro quando falava, de forma genérica, da questão da dívida. Era fundamental fazê-lo devagar. Com mais tempo e melhor distribuído.

 

Passando para o assunto da sua expulsão. O que é que emocionalmente isso lhe provocou?

Muito pouco e por pouco tempo. Há dois anos que estava afastado, em rota de colisão com o Governo, com o partido a nível local e nacional. Apesar de tudo, não deixa de acorrer à minha memória – enquanto estou acordado, porque continuo a dormir bem – aqueles tempos passados, gloriosos, desde 74 até há pouco tempo. Enquanto fui presidente da câmara, não tive uma actividade partidária intensa, mas sentia-me a representar os interesses do partido e dos meus eleitores em Cascais.

 

Dê-me uma história feliz de 74 relacionada com o partido. Um desses momentos que evoca.

A história que guardo com maior emoção é o convite que o Francisco Sá Carneiro me fez, no carro, para abraçar a vida partidária. Eu já era casado e pai de duas crianças muito miúdas, tinham nascido em 68 e 70. Disse que sim. Primeiro em part-time, durante um bocadinho ao fim da tarde, depois meio dia. Em Fevereiro de 75 já era secretário-geral adjunto do secretário-geral Sá Carneiro. Estive até 83. Foi esse contacto com Francisco Sá Carneiro que me motivou e me moldou politicamente.

 

De que é que gostou nesses anos? Os anos 70 foram um tempo em que esquerda e direita se comprometeram com a construção de um país.

Houve um destapar da panela de pressão. Às vezes transbordou do realismo, e no próprio PSD. O Marcelo outro dia contava o que foi o primeiro congresso do PSD, as propostas que apareciam eram revolucionárias. Desde a auto-gestão a outras coisas miríficas. Sá Carneiro percebeu que tínhamos que chegar rapidamente a todo o país, rejeitando infiltrações. Especialmente à direita, havia uma tendência para que pessoas comprometidas com o regime fascista pudessem aderir ao PSD. Foi um trabalho que durou anos, com o apoio dos vários dirigentes nacionais. O Marcelo era especializado em todo o Alentejo, onde teve uma coragem... A Helena Roseta [cunhada de Capucho], também. Levámos muita pancada no Alentejo e no Algarve.

 

Pancada, como?

Pancada, pancada [risos].

 

Apanharam?

Várias vezes tivemos que fugir. O Marcelo andou pelos telhados em Beja. Vi o Francisco Sá Carneiro em Beja a desviar-se de pedradas. Vi a Helena Roseta a ter atitudes de uma enorme coragem física. Isso deixa marcas.

 

Animava-os uma ideia de serviço público?

A construção de um país novo. E tínhamos um modelo. Olof Palm tinha conseguido construir um estado-social assombroso em que os pobres tenderiam a desaparecer. Era tudo classe média e ricos. Tínhamos esse objectivo idealista.

 

A sua cara muda quando fala disso.

São muitos anos.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2014

 

 

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