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As Casas de Pablo Neruda

Quando se fala das casas de Pablo Neruda, fala-se de Isla Negra, La Chascona, da casa de Valparaíso. São casas-barco de onde se vê o mar, porto seguro do poeta chileno. Parecem-se umas às outras e não se parecem às outras casas. Em todas há objectos recolhidos entre os sete mares, mercados, antiquários. São uma ode às coisas simples.

“En mi tierra desierta, eres la última rosa.” A última flor de Pablo Neruda e Matilde Urrutia não foi uma rosa. A campa onde estão sepultados, com a dimensão e o formato de um leito conjugal, está coberta de bromélias. Não especialmente coloridas ou raras. Bromélias simples, não muito diferentes das alcachofras que se vêem nos mercados. Em qualquer caso, bonitas como rosas.

Primeiro há uma camada espessa de relva, e depois flores a despontar. Na cabeceira estão os nomes dos amantes. Ao lado, um caminho de pedras rugosas, degraus, um jardim que Neruda quis que fosse selvagem. (Alguém imagina o poeta Neruda a preferir um jardim de buxo?) Em frente, o mar. A casa fica na parte mais alta do jardim, tem vários módulos, objectos inesperados (como uma pequena locomotiva – como terá ido ali parar?), e chama-se Isla Negra. Não é uma ilha, apesar do nome, mas fica numa costa bravia, junto a um mar insubmisso, e de certa maneira forma uma ilha.

Isla Negra é uma das três casas de Pablo Neruda no Chile. As outras ficam em Valparaíso e em Santiago. A primeira está empoleirada num morro altíssimo e dela vê-se a baía de Viña del Mar, um mosaico de casas coloridas, a chegada e partida de navios, passageiros e mercadorias. Há eléctricos como o elevador da Glória que sobem na vertical, e unem o centro histórico de Valparaíso e as colinas. Há também escadas, íngremes de cortar a respiração, para os mais afoitos. Trespassa-se um pequeno jardim e cremos que estamos na proa de um barco, reis do mundo, de braços abertos.

A outra casa tem um nome poético. La Chascona. A tradução literal pode ser: a despenteada. É uma homenagem ao cabelo emaranhado de Matilde, a terceira mulher de Pablo, o seu amor. É um nome carícia, uma casa ninho que acolheu durante anos o amor adúltero de Pablo e Matilde e que depois ganhou a forma do casal.

É difícil imaginá-la pilhada, incendiada, os vidros destruídos, as páginas rasgadas. É difícil imaginar um carro da DINA, a polícia política de Pinochet, a guardar os passos de Matilde depois da morte de Pablo, noite e dia, quem a via, o que falariam. A DINA à porta era uma maneira de a manter presa, dentro de casa, fechando-a por fora.

Foi nessa casa, que tem um muro azul cobalto e o ambiente de amigos numa noite de Verão, que Neruda foi velado. Isto ainda é mais difícil de imaginar. Pablo Neruda morreu no hospital no dia 23 de Setembro de 1973. Exactamente 12 dias depois do golpe que incendiou La Moneda e depôs Salvador Allende.

O presidente suicidar-se-ia, cercado pelos militares, e despediu-se dos chilenos pela rádio: “Eles têm a força. Poderão submeter-nos. Porém, não se detêm os processos sociais nem com crimes nem com a força. Fiquem sabendo que muito mais cedo do que tarde se abrirão as grandes avenidas por onde passe o homem livre, para construir uma sociedade melhor. Viva o Chile! Viva o povo! Viva os trabalhadores! Estas são as minhas últimas palavras e tenho a certeza de que o meu sacrifício não será vão. Tenho a certeza de que, pelo menos, será uma lição moral que castigará a cobardia e a traição.”

Neruda e Matilde souberam pela rádio da morte do presidente, um amigo. O poeta, escreve Matilde no livro Mi Vida Junto a Pablo Neruda, repetia, atordoado: “Esto es el final”. O fim. O fim de um sonho. “Todo o júbilo do povo, a esperança de uma vida com igualdade, com justiça, desvaneceu-se; esta grande esperança de Pablo, pela qual trabalhou toda a vida, veio abaixo bruscamente, como um castelo de cartas. (...) Sempre o vi animado, falando com o povo, tratando de despertar a consciência adormecida e fatalista dos pobres que se contentam com quase nada”.

Estavam na Isla Negra quando souberam da derrocada de um mundo no qual estavam empenhados. Não havia muito, em 1970, Pablo e Matilde eram embaixadores do Chile em Paris, nomeados por Allende. Esse era o Chile que eles queriam representar, de que eram representantes.

Durante anos, muitos anos, não se creu que Neruda morresse devido ao cancro na próstata. A doença comia-o por dentro, o estado de saúde era frágil, mas era um daqueles seres imortais, de onde irradiava o sol. E nessa manhã de 11 de Setembro, antes das bombas caírem sobre o palácio presidencial, o dia tinha amanhecido tranquilo. Nada pressagiava o fim próximo, o começo do fim que estava nesse dia 11 e que fez Pablo “quebrar-se por dentro”. Haviam-se levantado com um sorriso. Esperavam um grande amigo que era ministro da Justiça e que trazia os estatutos da Fundação Pablo Neruda, o testamento de Pablo... Tanta vida para viver.

A suspeita de que tinha sido assassinado só foi dissipada este ano, depois de exumado o cadáver e atestada como falsa a possibilidade de ter sido envenenado com uma injecção letal. Quarenta anos depois da sua morte. Não foram os militares que mataram Neruda, ainda que tenham sido os militares e Pinochet que mataram o mundo de Neruda. O corpo foi velado em La Chascona, La Chascona foi refeita por Matilde, a memória de Neruda que Pinochet tentava apagar foi mantida viva por Matilde. Mas os murais em frente a La Chascona, onde se dava as boas vindas a Neruda, depois de o poeta ter recebido o Nobel em 72, foram apagados. Só em 1992 o seu corpo foi transladado para a Isla Negra. É lá que está, ao lado de Matilde, que morreu em 85, vítima de cancro.

A Isla Negra fica 120 quilómetros a norte de Santiago. No livro de memórias Confesso que Vivi, Neruda refere-se a essa casa de pedra em frente ao Pacífico como um lugar de trabalho. “A costa selvagem da Isla Negra, com o tumultuoso movimento oceânico, permitia-me entregar-me com paixão à empresa do meu novo canto [Canto General]”. Esta era a intenção quando o comprou, em 1939.

Mas os movimentos tumultuosos da sua vida foram muitos e a casa foi um projecto adiado.

De resto, no fim dos anos 30, Matilde não fazia parte da sua vida. Esta mulher de boca rasgada começou por ser um amor clandestino. Viveram um casamento que era só deles em Capri, em 52. Casaram no papel em 1966. Foi para ela que ele escreveu Os Versos do Capitão e Cem Sonetos de Amor. Tinham uma cadela chamada La Panda, uma vida onde era sempre Primavera, madressilva a trepar pelas escadas. Compunham um cenário de felicidade em que é difícil acreditar por ser tão evidente, e de que não é possível duvidar por ser tão evidente. Talvez fosse mais correcto dizer que a Isla Negra é a casa de Pablo e Matilde, e não apenas “a casa de Pablo Neruda”. Porém, é ao encontro de Pablo Neruda e dos seus passos que milhares de pessoas vão, todos os dias, todos os anos. (É bom saber que deve reservar a sua visita. É difícil conseguir um bilhete para o próprio dia.)

“Na minha casa reuni brinquedos grandes e pequenos, sem os quais não poderia viver. Um menino que não brinca não é menino, mas o homem que não brinca perdeu para sempre o menino que vivia nele. Edifiquei a minha casa como um brinquedo e brinco com ela de manhã à noite. Juntei os brinquedos a minha vida toda com o propósito científico de me entreter sozinho. Vou descrevê-los para os mais pequenos e para os de todas as idades.” Portanto, a Isla Negra é um brinquedo onde estão reunidos todos os brinquedos. Representa uma regressão constante a esse tempo em que Neruda era um menino e se espantava com o mundo, e o descobria com amor.

É preciso visitar a casa para perceber que isto não é uma figura de estilo. Na casa está, por exemplo, um cavalo de madeira, de tamanho médio, que era um cavalo que o menino Pablo via todos os dias, numa loja a caminho da escola. E acariciava-lhe o focinho, como quem acaricia um animal de verdade, e se afeiçoa ao bicho naquele encontro diário.

Demorou tempo a que estivesse entre os seus brinquedos. Foi cobiçado, de novo cobiçado, recusado pelo proprietário, terminantemente recusado pelo proprietário – “É inútil” – e por fim resgatado do fogo por amigos de Pablo quando um incêndio consumiu a loja onde se encontrava.

É o cavalo de Temuco, localidade a dois passos da aldeia onde Neruda nasceu, no sul do Chile. Para ele, foi construído na Isla Negra um compartimento “muy lindo”, “la pieza del caballo”. Ah, sim, a casa ia crescendo à medida dos objectos, como uma peça que se desdobra consoante as necessidades, e desenhada por Neruda para dar forma à sua fantasia. A casa estava sempre em obras, “foi crescendo como as pessoas e as árvores”, dizia.

Na descrição que faz da casa no livro de memórias, a que voltamos mais tarde, Neruda não fala do telhado de zinco. Mas Matilde, sim. “Tudo tinha zinco, para ouvir o canto da chuva. A mim espantou-me a ideia de pôr zinco numa casa tão próxima do mar. Arquitectos e amigos asseguravam-me que não duraria mais de três anos.” Não podiam dar-se ao luxo de mudar o telhado cada três anos, argumentou Matilde, armada de bom senso. “Muito calmo, fez-me notar que nada sabia de números, que esse era um assunto meu. Ele só sabia que na contabilidade há um deve e um haver. E que na casa “devia haver” um telhado de zinco”, conta em Mi Vida Junto a Pablo Neruda.

O canto da chuva, os objectos erodidos, a infância por perto compunham a atmosfera de que Neruda precisava para criar. Talvez criar e criança estivessem ligadas na sua etimologia sentimental. Um objecto não é só um objecto. Matilde põe bem a questão quando escreve: “Como fazer o inventário de tudo o que está nesta gaveta? Que nome pode ter cada coisa? Sinto que cada objecto me grita as suas recordações. Estas garrafas antigas de whisky e de cognac foram compradas em Paris, em antiquários e no Mercado das Pulgas. Durante semanas tivemos que comer em restaurantes de estudantes por causa destas garrafas que nos arruinaram...”.

Neruda confessa. Começa pelas garrafas quando fala dos brinquedos. “Tenho um veleiro dentro de uma garrafa. Para dizer a verdade tenho mais do que um. Tenho uma verdadeira frota. Um dos mais bonitos foi mandado de Espanha, para pagar os direitos de autor do meu livro de odes”. Um veleiro numa garrafa em troca de um maço de poemas...

Depois fala dos mascarones de proa, as figuras talhadas a madeira que cruzaram mares e que Neruda coleccionava como se fossem objectos portáveis. A mais pequena tem o corpo de uma mulher franzina e chama-se Maria Celeste. Pertencia a um barco francês e provavelmente não conheceu mais do que as águas do Sena. “Ainda que pareça estranho, os seus olhos choram durante o Inverno, todos os anos. Ninguém consegue explicá-lo. A madeira escura tem talvez alguma impregnação de humidade...”

O mistério é tanto como o carinho, e Maria Celeste, a mais melancólica das figuras, transforma-se numa pessoa de todos os dias. No livro Uma Casa na Areia Neruda descreve também o fenómeno: “Durante o largo Inverno da Isla Negra algumas lágrimas misteriosas caem dos seus olhos de cristal (...) E depois passam os meses frios, chega o sol, e o rosto doce de Maria Celeste sorri como a Primavera. Mas, porque chora?”          

Porque chora?

mascarones que ficam na diagonal, como nos navios de onde provêm. Há uma de nome Micaela, que foi a última a chegar. Há a Medusa. Há aquelas que olham simplesmente para o mar, como nós olhamos. Há a de cara impenetrável: “Por aquele rosto não passou nada. Nem a guerra do mar, nem o naufrágio, nem a solidão tempestuosa de Magalhães. (...) Ficou-se com o seu rosto inabalado, as suas feições de boneca, vazia de coração”, escreve em Uma Casa na Areia.

Falta falar de tantos objectos da casa... Mapas antigos, bússolas, objectos de navegação. Esculturas da Ilha da Páscoa. Máscaras, sapatos, uma ovelhinha que estava aos pés da cama como um animal de estimação, uma colcha de renda que cobre a cama e que lembra a espuma do mar. Os livros que amou e cuidou com esmero. De Quevedo, Cervantes, Rimbaud (tinha manuscritos de Rimbaud oferecidos por Paul Éluard). Uma mesa onde trabalhava e que tinha “patas” rugosas e velhas. O seu quadrúpede. “A mesa fiel sustém o sonho e a vida, titânico quadrúpede”, pode ler-se em Navegaciones y regresos.

Qual seria o objecto preferido e indispensável a Neruda? Matilde pensava que as pessoas que visitavam a casa não viam as coisas mais amadas. “Porque essas eram sempre as mais simples, as de menor valor material. Pablo amava e procurava as pedras suavizadas pela acção do tempo; as raízes fascinavam-no, tinha muitos pedaços de madeira que encontrava nos bosques e que dizia que eram pequenas esculturas. Esta casa era para ele o seu universo alucinado.”

Mas há uma colecção de que é obrigatório falar e que é apontada por Neruda em Confesso que Vivi como sendo a maior que construiu. É a colecção de conchas e búzios. “Deram-me o prazer da sua prodigiosa estrutura, a pureza lunar de uma porcelana misteriosa.” No poema “No me hagan caso” fala da sua presença singular num universo pejado de objectos. “Os búzios são os mais silenciosos habitantes da minha casa. Todos os anos passados no oceano endureceram o seu silêncio. Agora, têm agregado o tempo e o pó.”

Conchas, barcos em garrafas, mascarones... Tudo nas casas de Pablo Neruda, e não apenas na Isla Negra, nos remete para o mar. Era um marinheiro de coração. “O mar era-lhe tão necessário como o ar, e amava-o sobre todas as coisas”, precisa Matilde. “Rodeia-me o mar, invade-me o mar”, acrescenta ele. Um mar cor de lápis-lazuli, que golpeava os rochedos e mantinha intacta a casa, porto seguro. Era aí que os amigos discutiam o amanhã, que Matilde lhe estendia a mão, que ouvia o seu canto de poeta. Era assim na Isla Negra, em Valparaíso, em La Chascona. Todas casas-barco. “Não saberíamos o que fazer nas ruas, entre gente apressada, nas lojas, nos bailes. As nossas mercadorias foram algas reluzentes...”.

Na campa da Isla Negra não chegam as ondas. Mesmo se o mar está revolto. Mas cobre as bromélias um ar de maresia.  

 

 

Guia prático:

Das três casas, só La Chascona fica em Santiago, no bairro Bellavista. É um bairro boémio, com muitos bares e restaurantes. A casa de Neruda, onde funciona a fundação com o nome do poeta, tem um pequeníssimo bar. As visitas são feitas por um guia que explica, passo a passo, o que há em cada compartimento.

Pode ajudar a fundação comprando ímanes, canecas, livros e outros objectos que se vendem na loja. Atenção: no Chile os livros são absurdamente caros. Podem facilmente custar três a cinco vezes o preço de um livro em Portugal. Reserve entrada. Este conselho é válido para todas as casas, frequentemente inundadas por grupos escolares, estrangeiros e locais.

A Isla Negra e Valparaíso ficam a norte de Santiago. Não é mais do que uma hora, uma hora e meia de viagem para cada uma das casas. O melhor é alugar um carro, comer uma empanada ou o delicioso milho assado que se vende na berma da estrada e acompanhar a estrada da costa. Chegado a El Quisco, avista-se a Isla Negra depois de um pequeno pinhal.

Supostamente é aqui que se passa o filme O Carteiro de Pablo Neruda, uma adaptação do livro de Antonio Skármeta que ficciona a relação do poeta com o seu carteiro, Mário. Na verdade, Il Postino foi filmado em Itália.

Se for directamente para Valparaíso, passa pela zona das vinhas e pode visitar facilmente uma quinta. Pode também ir de Valparaíso para a Isla Negra. A ideia de seguir os passos do poeta, além de tentadora, compensa.

 

 

Publicado originalmente no Público em 2013

 

 

 

      

 

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