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Atravessar o Canal da Mancha de Comboio

Gare du Nord. Eu nunca tinha chegado à Gare du Nord. Mas conhecia-a de me sentar com Kees Popinga a ver passar os comboios. Kees Popinga, genial invenção de Simenon. O exemplar pai de família, (do tipo que garante um bom fogão de sala à mulher e aos filhos), e que é também assassino. Não estou certa de que o personagem desembarcasse na Gare du Nord, mesmo que o veja a deambular nas imediações de Saint-Denis. Mas isso não afecta a minha devoção pela Gare du Nord como espaço mítico.

Kees Popinga (digo-o ainda de cor, a anos luz da leitura do livro) partia da Holanda em fuga. E em busca de um fragmento de felicidade. Eu vinha de Londres. Podia seguir para a Holanda. Mas fiquei em Paris. Por mais felizes que sejam os dias na Holanda, Paris é Paris; ou, como dizia o Bogart à Ingrid ou a Ingrid ao Bogart, we’ll always have Paris.

Quando Simenon escreveu o romance, estava-se em 1938. Não podia então imaginar que um dia se atravessaria a Mancha de comboio e que a viagem demoraria duas horas e quinze minutos. Repito: duas horas e quinze minutos. Do centro de Londres ao centro de Paris. O tempo de tomar dois cafés com um pingo de leite, ler o Daily Telegraph e assistir ao dia nascer.

Ainda não eram dez quando cheguei a Paris – hora local, mais uma do que em Londres. Manhã demasiado fria para ser verdade. A viagem era substancialmente mais barata às seis e meia da manhã. E permitia-me chegar a Paris a tempo de comer uma omolette meia crua e tomar um café au lait como deve ser. Vários, aliás. Não me ocorre nada melhor que sair de casa de madrugada para estar em Paris daí a pouco a tomar o pequeno almoço… Mas se posso dedicar-me a estes delírios românticos, desorbitar-me da esfera da realidade e pensar nas páginas do Inspector Maigret, os que viajavam comigo pareciam compenetrados nas suas tarefas. Tinham a expressão de quem exige da vida prontidão, eficiência, velocidade. “Porque é que usou o comboio”, perguntei a uma mulher bonita? “Porque estava com pressa”, respondeu ela.

A rapidez talvez seja a razão principal que leva milhares de viajantes a preferir o Eurostar. A empresa apresentou recentemente um novo pacote de destinos, encurtou a duração das viagens e transferiu-se para a estação de St. Pancras. Goodbye Waterloo, Hello St. Pancras – lia-se por toda a cidade, em cartazes afixados nos metros, em páginas inteiras de jornal. Em Paris, um anúncio deitava Napoleão no divã e incentivava-o a esquecer a batalha fatale

A viagem tem zero de glamour. Se estiver inspirada, posso fazer de conta que estou com o Cary Grant e a Eva Marie Saint no North by Nothrwest, do Hitchcock. Mas a verdade é que um bilhete standard dá direito a uns lugares pindéricos. As carruagens de segunda classe da CP são melhores… Mas não tem o mesmo sainete ir de Lisboa ao Porto. Além de que demora mais tempo.

É certo que a viagem já se faz há algum tempo. Mas não em duas horas e um quarto. Para Bruxelas, é uma hora e 51 minutos. Antuérpia, Bruges, Marselha ou Estrasburgo estão também disponíveis – faz-se escala em Paris ou em Bruxelas. Por causa das paranóias de segurança, e da distância a que ficam os aeroportos, viajar de avião passou a consumir demasiado tempo. E o velho e querido comboio, anacronismo do século XIX, voltou a afirmar-se como meio de transporte preferencial.

Um exemplo: sempre que apanho um avião para Lisboa, saio de casa três horas antes de o voo levantar. Apesar de morar numa zona central, preciso de 30 minutos de metro para chegar à estação de Victoria. Aí, apanho o Gatwick Express que me leva em meia hora para o aeroporto. Parte de 15 em 15 minutos. Custa 25 euros.

Houve um tempo em que chegar com uma hora de antecedência era mais do que suficiente para qualquer companhia. Hoje, passar no controle de passaporte, provar que não somos perigosos terroristas, descalçar as botas ou as Birkenstock (aconteceu-me no Verão…), radiografar malas, separar computador, chaves, moedas, despir casaco, olhar para as meias puídas do vizinho…, além de demorar um tempo infinito, exaspera a paciência de um santo. Uma hora e meia passa a correr.

Se o aeroporto for Heathrow, o processo é encurtado – o chegar lá, entendamo-nos. O Heathrow Express demora metade do tempo, e se o trânsito não estiver caótico e a carteira não conhecer restrições, o táxi é uma opção. Pode poupar-se meia hora!, nada mau. (Nem sequer me refiro a Luton ou Stansted, aeroportos que servem sobretudo as companhias low cost: ficam no fim do mundo e só o comboio que dá acesso a cada um deles demora, na prática, uma hora. Mais os 40 minutos de metro para chegar a Liverpool Street, mais a hora e meia no aeroporto…).

Ou seja, posso demorar mais tempo de minha casa até ao avião do que de minha casa a Paris. Do escritório, do hotel, mais a sul ou mais a norte, a variação não é expressiva.

Falta falar dos custos: o bilhete mais barato custa 59 libras. À volta de 90 euros. Ida e volta. As classes “intermédia” e executiva custam o mesmo que um vulgar bilhete de avião. Mas, como nos aviões, comprar em cima da hora representa um acréscimo significativo na factura. Em todo o caso, se somarmos as várias parcelas, o comboio parece sempre uma opção mais razoável. Como me dizia Aldina, uma cabeleireira portuguesa, da segunda geração, com o namorado em Londres, “fica mais fácil de comboio: cada 15 dias vou eu vê-lo a Londres ou vem ele ver-me a Paris”.

Aldina já usava o Eurostar antes da mudança de Waterloo para St. Pancras. Quando chega a Londres, a estação parece-lhe prodigiosa. Imensa, elegante. O maior champagne bar do mundo. O tijolo que confere singularidade. A ideia de que 20 000 pessoas passam por ali diariamente. O apito que anuncia a partida.

São seis da manhã quando chego a St Pancras para fazer o check in. A equipa que acolhe é maioritariamente francesa e é bom ouvi-los em inglês e antecipar os ohh-lala dos próximos dias. Bonjour, aqui está o meu bilhete de identidade, merci e pode passar. Está mais frio do que devia estar, não é verdade? A sala cheira a novo, como se as obras tivessem acabado na véspera. Mas a Rainha já ali fizera um discurso uma semana antes. St. Pancras precisa apenas de ser vivida. E que escritores e cineastas e pessoas a encham com as suas tramas. Penso nos encontros e desencontros que se desenham a partir daquele cais de embarque… Um dia, eu hei-de sentar-me em St. Pancras a ver passar os comboios.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2007

 

 

 

 

 

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