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Beatriz Batarda (2000)

Beatriz Batarda tem 26 anos e é a mais talentosa das actrizes da sua geração. É filha do pintor Eduardo Batarda e prima da actriz de Oliveira Leonor Silveira. Esta associação é-lhe inconfortável. E é injusta, consensualmente injusta. Abandonou o conforto da vida burguesa e instalou-se em Londres vai para quatro anos. Ganhou a medalha de ouro da prestigiada Guildhall School of Music and Drama. Há uns meses irradiou pelos ecrãs portugueses no filme «Peixe Lua» de José Álvaro Morais. Antes disso, e antes mesmo do curso em Inglaterra, fez teatro na Cornucópia e cinema com Manoel de Oliveira. E fez algumas outras coisas.

Veio matar saudades pelas Festas. A entrevista teve lugar no sofá da sala desta que vos escreve; e logo depois deslizou para o chão forrado a almofadas. Ficou prometido que seguiria para Londres aquando da sua saída.

Para o caso de não saberem, ela é uma flor.  

 

Porque é que preferiu que a entrevista não fosse em sua casa?

Fico intimidada. Pela casa. Por. Estou fora há quatro anos. Descobri-me mulher em Inglaterra. Aqui sinto-me muito infantilizada. Ainda não descobri o direito de ser mulher em Portugal, ainda não encontrei esse espaço.

 

O que é que aquela casa representa para si?

Foi onde cresci. Fui para lá viver aos sete anos quando a minha mãe voltou a casar. A minha mãe foi casada com o meu pai, Batarda, e com um homem extraordinário chamado João Vilalobos. É uma casa lindíssima, cheia de memórias, sombras, cheiros, no Marquês de Pombal. Fico muito vulnerável, e ligeiramente intimidada. Não concebo ocupar aquele espaço como profissional, dar uma entrevista...

 

A intimidação resultava também do facto de não ser essa pessoa para a sua mãe?

Espero que nunca olhe para mim assim, que me olhe sempre como a sua filhinha pequenina. É um desgosto quando se deixa de poder ser pequenina, meter o dedo na boca, fazer birra e dizer «Dêem-me mimo, pelo amor de Deus»! Só se pode fazer isto com a nossa mãe. Se a nossa mãe passa de repente a achar que temos de ser mulheres de armas, que temos uma carreira a preservar, essas coisas todas..., pronto, perde-se a incondicionalidade do amor de mãe.

 

Quando foi para Londres, pediu opinião à sua mãe? Tratava-se, afinal, de decidir um rumo para a sua vida.

Tive apoio de toda a família, mas decidi sozinha. Quando surgiu a ideia de ir para Londres, a minha mãe tinha enviuvado e era difícil não ficar junto dela. Quando começou a recompor-se, apercebi-me que não tinha a responsabilidade de ficar em Portugal ou de mudar os meus sonhos em função de. Na verdade, não era só por ela. Era também por mim, sofri muito com a morte do meu padrasto. Dois anos depois fui a Londres ver escolas. Fui embora com 23 anos. E tive uma sorte, não fui sozinha. O meu namorado também quis ir, foi uma aventura a dois. [sorriso] Ainda estamos juntos!, com muitas alegrias e muitas porradas.

 

Então, encontrado o sonho, comunicou-o à sua mãe?

Sabe que não me lembro? Provavelmente a minha mãe terá sido a primeira pessoa a quem contei, é sempre a primeira pessoa a quem telefono, falo ou pergunto. Ela dá-me apoio, com certeza, mas dá-me sobretudo coragem – a não ser que seja uma coisa completamente disparatada e infantiloide. Quem foi uma revelação para mim nestes últimos anos, por me encorajar imenso para ser actriz e levar isto a sério, foi o meu pai.

 

Porque é que constituiu uma surpresa?

Quando acabei o Liceu fui fazer Design para o IADE. Não gostava de mais nada senão das artes, e acabei por ir para a área E. Mas também não tinha coragem, (era realmente insegura!), para me meter numa coisa como pintura. Tinha o terror da imagem do pai, o Batarda. Que horror, ainda bem que não fui, poupei muita desgraça! E arquitectura não dava porque matemática sempre foi o meu tendão, o meu calcanhar de Aquiles. Então fui para Design. Rapidamente se percebeu que não tinha jeito nenhum. Não tinha nascido numa área completamente diferente, portanto havia coisas que eram dados adquiridos, em termos de informação, percepção visual e assim; mas não tinha nada de muito criativo para dizer ou fazer. Era uma aluna medíocre. O meu pai volta e meia punha as mãos à cabeça e perguntava «Mas o que é que te deu para fazeres Design?»

 

Mostrava-lhe os seus trabalhos?

Levei muito tempo. Um dia pensei que tinha de mostrar, que tinha de me confrontar com a realidade. Mas, sabe, não tive um desgosto muito grande por chegar à conclusão que..., que era uma merda. E depois, foi tudo um encaminhamento, uma evolução natural. O Design não está assim tão desligado do teatro; tem muito a ver com imagem, com composição, com espaço, com movimento, com vida.

 

No primeiro ano do IADE, protagonizou «A Caixa» de Manoel de Oliveira.

Já tinha feito dois filmes. Nos «Tempos Difíceis» era miúda, tinha 11 anos; o «Vale Abraão» fiz por acaso. «A Caixa» foi o primeiro filme que fiz com alguma seriedade e empenho. Tinha 20 anos. Logo depois, o Luís Miguel Cintra convidou-me para fazer o «Conto de Inverno», e as coisas foram aparecendo, umas a seguir às outras. A culpa toda disto é do Luís Miguel Cintra! Foram anos atribulados: aulas de manhã no IADE, ensaios à tarde na Cornucópia, espectáculos à noite, e a seguir fazia os trabalhos da escola para o dia seguinte. Vivi dois anos a dormir quatro horas por noite! Às tantas não dá. Ainda por cima em luto, (o meu padrasto tinha morrido entretanto), e a tentar fazer uma vida normal: ter namorados, ver a família, ter uma relação saudável com a minha mãe. Tinha de tomar uma resolução. Mas as coisas foram tão encadeadas umas nas outras, que não senti qualquer violência. A escolha não foi uma violência. O que foi uma violência, foi ter arrastado o momento da decisão.

 

Não especificou porque é que o apoio do seu pai à sua carreira constituiu uma surpresa.

Ah! Não há nenhum actor na nossa família na geração anterior à minha, não há qualquer tradição. A aparição desta profissão na família veio romper com uma série de ideias que havia em relação ao teatro e ao cinema. As profissões da família são médicos, (a minha mãe é psicóloga), pilotos, hotelaria. Bem, o meu tio-avó materno era cenógrafo do Teatro Nacional até 1900 e troca o passo; mas era uma ligação diferente.

 

Há a sua prima Leonor Silveira.

Há a Leonor. Mas esse é um assunto de que não gosto nada de falar.

 

A Leonor é a actriz fetiche de Oliveira, mas, ao mesmo tempo, tem uma outra vida, uma outra profissão. Nesse sentido, não parece que ela tenha estruturado a sua vida para ser actriz.

Eu nunca quis ser actriz.

 

Até perceber que já era.

Pois. Se quiser, foi por vergonha. A vida pode ser ridícula!, eu acabei por ser actriz por vergonha. Estava a trabalhar na Cornucópia, já tinha feito um Shakespeare com o Teatro Nacional, e pensei: «O que é que estou a fazer? Não sei usar a voz, não sei estar em cima de um palco, e estou a roubar trabalho a pessoas que dedicam a sua vida e se esfolam a trabalhar, que davam tudo para estar no meu lugar... Quem sou eu?»

 

Disse numa entrevista que não é hoje melhor actriz; o que tem é uma série de ferramentas que lhe foram ensinadas na escola. Sentia a falta dessa dimensão técnica ou era apenas uma questão de injustiça?

O que sentia na altura e o que sinto agora não é o mesmo. Precisava de um curso para me sentir legitimizada; porque fui educada assim, porque o português pensa assim. [pausa] Isto é para mim um assunto tão delicado... Como falávamos há pouco, é muito difícil viver à imagem de outras pessoas: ser filha de alguém que, pelo menos no meio, conhecem; ser prima de alguém que, pelo menos no meio, conhecem. Eu sou a mais nova: vim mais tarde. Foi muito difícil encaixar-me na minha pele, sentir que não devo nada a ninguém. Tive uma sorte incrível, deram-me oportunidades incríveis que aproveitei e que tentei usar com a maior honestidade e o maior trabalho possível. Agora, isso nunca chegou para me sentir bem. Achei sempre que estava a roubar alguma coisa a alguém. Senti sempre a pressão do meio do teatro, do cinema, das artes..., isto pode ser paranoia!..., a dizer «És filha de, és não sei o quê».

 

De um lado é filha de, do outro é prima de.

Pronto. Eu não podia ter ido para o Conservatório em Lisboa. Não tem puto a ver com a minha opinião sobre o Conservatório. Teve só a ver com o meu crescimento pessoal. Um actor é quem é: é a Beatriz Batarda, é o meu corpo, a minha voz, o meu passado e a minha história, os meus medos e emoções. Isso é que faz de nós os actores que somos, isso e a nossa capacidade de trazer isso connosco. Não podia descobrir se queria ser ou não actriz num sítio onde me sentia privada de encontrar a minha pele.

 

Isto tudo porque falávamos do empenho do seu pai na sua carreira de actriz.

O meu pai, quando era pequena, ficava impressionado porque eu aprendia os jingles dos anúncios muito rapidamente, passava a vida a cantarolar os slogans. Portanto, tinha talento para ser papagaio! Há quem tenha talentos mais interessantes, o meu ficava-se mesmo pelo papagaio! Depois, com os anos, o meu pai tinha a teoria de que devia trabalhar com línguas, com pessoas. Ficou desgostoso, penso eu, quando fui parar ao IADE.

 

Nunca lhe perguntou isso?

Não, há coisas que..., é melhor não arriscar! E depois quando me viu no teatro, no «Conto de Inverno», («A Caixa» ainda não tinha estreado), achou que devia levar aquilo a sério. Que era por aí. O meu pai é um instigador. Ele e a minha mãe viveram em Inglaterra muitos anos. Nasci lá.

 

Porque é que voltaram?

Uma das razões foi porque se deu o 25 de Abril, a outra terei sido eu (por motivos de saúde), e houve outras entre eles em relação às quais não tenho nada a ver. Mas penso que o meu pai não se perdoa, enquanto artista, de ter voltado para Portugal. Não posso pôr palavras na sua boca, nunca o ouvi dizer que estava arrependido; mas sinto que é capaz de ter havido uma precipitação. Então, o meu pai acha importante que eu não perca a ligação com este país, que é onde está a minha família, é onde estão os cheiros que reconheço; mas que mantenha sempre uma ligação com o estrangeiro, no sentido de ser uma porta, uma janela.

 

Um espaço de liberdade.

Ele sabe..., já estou a imaginar, a romantizar, mas ele sabe que lá fora me encontrei, que agora sou mais eu.

 

Nota diferenças no país desde a sua partida?

Noto. A estrutura está a mudar, os espaços começam a existir (a banalização da net, os teatros que estão a ser recuperadas), mas as pessoas não estão a acompanhar. Há uma resistência pelos habitantes do espaço em acompanhar o crescimento natural do que os rodeia.

 

A mudança no país tem que ver com a europeização?

Provavelmente. Há um lado bonito nessa resistência que passa pelo desejo de manter uma identidade, uma tradição. O problema é que não se sabe ao certo o que é o ser português, o que é a tradição.

 

Neste último ano o Ministério da Cultura concedeu-lhe uma bolsa sob a condição de regressar a Portugal e trazer o que tinha aprendido. Para além da necessidade financeira que a fez aceitar a bolsa, era também um desejo seu melhorar o país com o seu contributo?

Nestes últimos anos, muitas coisas mudaram na minha cabeça, e agora estou outra vez em transição. Quando quis sair, tinha a séria pretensão de sair para voltar. Seria um acto de generosidade: ir absorver o melhor e trazê-lo para Portugal.

 

Seria o seu lado cívico?

Tem mais a ver com amor e gratidão pelo que me ofereceram aqui. Pedi apoio à Gulbenkian e ao Ministério da Cultura desde o momento em que apresentei a minha candidatura à escola. Viver no estrangeiro, para qualquer português, por muito que se tenha o apoio dos pais, é muito complicado. Não tive durante dois anos. No meu discurso (no pedido de apoio) falava do meu sonho de criar uma companhia a partir de um grupo de pessoas que admiro em Portugal. Neste momento não sei. Posso dar tudo o que tenho para dar. Essa é também a minha profissão. Manter-me generosa. Mas apercebi-me da minha insignificância.

 

Falou de amor e gratidão pelo país.

Pelas pessoas, pelas pessoas com quem trabalhei. Por acaso nem tenho muito vincada a ideia do país, da bandeira. Até porque andei numa escola francesa, a minha família do lado da minha mãe é francesa, nasci em Inglaterra. Sinto-me enraizada aqui, com certeza. Mas dizer que estou grata ao país...

 

O seu discurso do pedido de bolsa era, na senda dos estrangeirados, aprender para trazer. Insisto, sente-se um investimento de Portugal? Vai trazer o que aprendeu pelo compromisso que assumiu ou mantém intacto o seu sonho e o desejo de mudar?

A criação da companhia é a mais longo prazo do que imaginava. Não tenho ainda a solidez necessária. Mas, para responder, o que quer o país de mim: que traga ou que divulgue? Como é que posso pagar a minha dívida pelo apoio que o Ministério me deu? Divulgar o país no estrangeiro? Trazer o que aprendi no estrangeiro? Porque não as duas? Fiz o «Peixe Lua», que é um filme português, depois voltei para Inglaterra e acabei o curso... (em surdina) Ganhei a medalha.

 

A medalha. Onde é que a tem?

Ah, não existe! Para ser sincera, não fui à cerimónia. Estava a trabalhar. Essa é outra coisa que tenho de indagar. E saber se dá para derreter para fazer um dente de ouro! (risos) Fiz uma peça em Inglaterra, vou agora fazer outra, e em 2001, em princípio, há três coisas em Portugal.

 

Quer dizer que acabou o curso, está de medalha de ouro ao peito, e vai acorrendo aos trabalhos que aparecerem, sejam eles onde forem.

Nunca me tinha visto tão Maria vai com as outras!, mas essa arrumação parece-me justa. Digo que estou em transição porque ainda não sei qual é o meu papel.

 

O que significa ganhar a medalha de ouro numa escola tão reputada?

Fiquei super perturbada. Foi muito inesperado.

 

Como é que foi?, chamaram-na ao gabinete e disseram-lhe que tinha sido a escolhida?

Foi no último dia do curso, já por si muito comovente. Cinco pessoas apresentaram ao resto da escola monólogos da sua autoria; eu também apresentei.

 

Abro um parêntesis para saber sobre o que era o seu monólogo.

Era sobre uma rapariga judia que se perguntava sobre os direitos, ética e moral da engenharia genética (a sua profissão), e a influência da sua religião nesta crise; quando se chega ao xis da questão, é sobre ela e a mãe dela. O monólogo começa com uma coisa divertida, muitas graças pelo meio, e de repente percebe-se que ela está deprimida, fechada num quarto há três semanas pela mãe, uma judia ortodoxa que se recusa a trazer um psiquiatra – porque estas questões são tabu e escondem-se da comunidade. No fundo, é sobre viver, é sobre crescer. E é sobre mim. Fui buscar um contexto diferente para poder exaltar a extremos perguntas que me fiz e me faço.

 

E agora o dia da medalha.

Foi a apresentação do monólogo, e a seguir uma festinha com os professores todos. Depois o director do curso fez um discurso sobre o nosso ano, «Como vocês sabem, é tradição da escola, tal e tal». Fiquei um bocadinho histérica de choro, nervoseira, aquelas coisas.

 

O director explicou porque é que o prémio lhe tinha sido atribuído?

Não. Pelo que percebi dos ingleses até agora, dão muito valor à honestidade e ao empenho; dão menos valor às ligações e aos conhecimentos. Valorizam o tutano. E pronto, foi mais por aí, pelo esforço.

 

Conviver com as mesmas pessoas três anos num registo tão à flor da pele como o da representação, onde o capital é justamente o que têm de mais sensível, mais doloroso, mais íntimo, é um desafio extraordinário. Não é penoso quebrar essa membrana de pudor?

É a primeira etapa do curso, que se prolonga pelo curso todo. Para chegar aí, as outras pessoas assistem aos momentos mais embaraçantes que alguma vez podemos experimentar! Fazemos as figuras tristes todas, as asneiras todas, mas também as melhores coisas. Eu acho que as melhores coisas que as pessoas fazem, fazem-nas nas escolas de teatro. Porque estão tão disponíveis, tão desresponsabilizadas de fazerem bem... Quando se trabalha profissionalmente obrigamo-nos à ideia de fazer sempre bem, e isso é um inimigo terrível, porque se perde a liberdade de se ser genial de vez em quando.

 

Já conseguiu romper essa membrana em cima do palco?

Não sei, não sei mesmo. O crescimento pessoal influencia de maneira dramática a forma como o actor trabalha. E há coisas que ainda não aprendi. Como por exemplo, a exigência do público e dos encenadores ou realizadores de se ser bonito.

 

Fala de que beleza?

De entrar no palco e irradiar. É fantástico quando se descobre essa arma. É um pau de dois bicos. É muito positivo para um actor permitir-se ser monstruoso. Mas agradar ao lado de lá, a quem vê, é uma tentação quase impossível de resistir. Representar também é isso, um jogo de sedução. Pôr o lado de lá a odiar-nos, a achar-nos nojentos, é muito assustador.

 

Representar é também uma forma de catarse?

Não acho que ser actor seja uma terapia, um exorcismo. Pode ser um acto de amor. Por dinheiro não é, com certeza!, ninguém se mete nisto por dinheiro; só pode ser por amor ou por burrice.

 

Até onde o dinheiro é importante para si? A sua vida foi sempre confortavelmente burguesa.

A minha relação com o dinheiro tem mudado muito, e ainda vai mudar muito. Eu sou uma menina de classe média. Andei numa escola privada, nunca passei fome. Quando fui para Inglaterra isso mudou radicalmente. É claro que é tudo relativo, há pessoas que vivem pior que eu em Inglaterra. Mas eu vivo mal, e comparado com cá... Em Portugal há coisas que quase me ofendem.

 

Por exemplo.

Toda a gente tem carro novo. Não percebo porque é que as pessoas não andam a pé numa cidade que é um cochicho, porque é que a classe média não anda de metro. Para ir comprar cigarros à esquina, senta a bunda num carro!

 

Se vivesse aqui, romperia com essa convenção social de classe média tão facilmente como rompeu lá fora?

Claro que não. Cá é como se tivesse de responder por. Gostaria muito de ter coragem para isso, mas infelizmente não tenho, e já não olho para mim como a heroína que vai fazer e acontecer e mudar. Já não tenho problema em dizer «Eu sou classe média». Sou quem sou e vou parar de pedir desculpa. No meio (do teatro) não vou pedir desculpa.

 

Como é a sua vida em Londres, quais são os seus luxos?

Fazer ginástica num ginásio. Faço por prazer e por ser um luxo, um mimo que me faço para apaziguar o meu corpo da agressão a que diariamente o submeto. Depois há coisas que parecem luxos mas não são, são também trabalho, como ir ao teatro. Mas basicamente os meus luxos são a ginástica e uma garrafinha de vinho bom assim uma vez por mês. E ter um quarto confortável, com as coisas de que gosto.

 

Continua a partilhar a casa com seis pessoas?

Sim. O meu quarto é impecável, limpinho: pintei-o, e o chão é de madeira. Comprei os móveis na Ikea, que é mais barato, mas são giros, e tenho os meus discos e os meus livros. Compro mais livros do que leio. Ando sempre num histerismo, sem tempo para ler; só leio em metros e coisas assim.

 

O universo do cinema e da televisão é transversalmente cotado com uma existência glamorizada. Como é que lida com isso? Deve ter sido sempre olhada como uma menina bonita.

Não! (risos), contesto. Já passei por muitas fases, umas mais engraçadas, outras menos. Vivo mal com isso, muito indecisa. Por um lado, o mercado precisa de um star-system; a relação perversa da adoração e da idealização que ele cria potencia o apetite e o investimento das empresas privadas, e pode até significar a sua independentização. Por outro lado, pergunto-me porque é que o teatro e o cinema têm alguma vez de se independentizar, uma vez que alimentar a cultura é do interesse do país e da humanidade. Mas, e ainda por outro lado, atribuir essa responsabilidade ao Estado é uma atitude salazarista, transforma o Estado no pai da nação. Ando nesta confusão, não sei o que pensar.

 

Esse seu dilema é tremendamente europeu.

A Europa vive muito mal com isto. Vai à atribuição dos European Academy Film Awards, grande orgulho, a Europa está unida e faz cinema diferente do americano. Tem um fascínio pelo star system americano, mas depois não é capaz de fazer igual porque tem vergonha e é blasé: «Ai, estou a fazer-vos um favor porque venho por acaso ler quem é que vou nomear...» Está a ver? É de uma falta de generosidade, de uma mediocridade!

 

As actrizes europeias desta vaga que vingaram no star system americano são a Juliette Binoche e a Penélope Cruz. A exaltação da beleza foi fundamental para o interesse que Hollywood manifestou por elas. Tem vontade, à semelhança destas actrizes, de ser uma estrela de cinema?

Metida nesse saco, estrela de cinema em Hollywood?

 

Elas começaram por ser estrelas de cinema na Europa, e continuam a fazer filmes europeus.

Não penso assim, e não me apetece pensar nisso sequer. As duas são diferentes. A Juliette Binoche propõe-se a um programa diferente, até porque foi parar a Hollywood noutra idade. A Penélope Cruz esteve sempre mais ligada pelo lado plástico, e não estou a dizer que seja má actriz. A Penélope Cruz foi construída para chegar a Hollywood; à Juliette Binoche aconteceu. Se me acontecer alguma vez, espero que aconteça como à Binoche, ou seja, por acaso.

 

O que é desagradável ou intimidatório nesse universo?

Aquilo de que há pouco falávamos. Perder o direito de ser feia e monstruosa. Principalmente as mulheres.

 

Não tem medo de desfear-se se isso servir o personagem?

O meu corpo, que forma um conjunto com a minha voz e o meu passado, é a minha arma mais preciosa, mas frágil e mais forte. Quando o corpo se entrega, conquista-se mais. Se lhe der um abraço sentido, é quase inevitável que dê na volta, por muito tímida que seja. Se lhe der um abraço tenso e reprimido, a resposta vai ser nula. A relação com o público é assim. Para poder receber o abraço de volta, tenho de dar o corpo todo. «Eu estou aqui, usem-me, sou vossa». Foi o que aprendi este ano.

 

O domínio da voz é essencial para os actores. Teve uma professora de voz extraordinária que ensinou pessoas como a Cate Blanchet ou o Ralph Fiennes.

A voz representa um trabalho constante. Toda a profissão é um trabalho constante, uma procura constante. Não domino a voz como um actor experiente de 50 anos. Mas fumei menos cigarros que a maior parte dos actores de 50 anos.

 

Fuma?

Infelizmente.

 

Ainda não fumou, pode fazê-lo, se quiser.

Não, obrigada, estou a tentar cortar. É o meu projecto para o próximo ano.

 

A representação passa pela forma que é dada às palavras. Percebo quando diz que é diferente dizer Mother ou dizer Mãe. Daí a importância de representar em português, e da voz, o filtro que faz transparecer a emoção.

Num conjunto corpo-voz lemos tudo da pessoa. O corpo é mais dissimulado. A voz é qualquer coisa à qual instintivamente somos sensíveis.

Talvez porque, quando estamos na barriga da nossa mãe, a primeira coisa do mundo exterior com que temos contacto, antes mesmo de abrirmos os olhos, é o som.

 

Como é a voz da sua mãe?

Igual à minha. Ou a minha é igual à dela. É nova, autoritária, é muito quente. Criei um mimetismo total da voz dela. A minha voz mudou ligeiramente nestes últimos anos. Além de que a voz é diferente nas diferentes línguas.

 

São parecidas?

Sim. A minha mãe é mais morena, mais alentejana. É uma mulher bonita. Nunca a viu?

 

Não, só o seu pai e a obra do seu pai.

Também é bonito... (risos) A voz do meu pai... Esta coisa parece uma análise!, defina as vozes dos seus pais por palavras!

 

A sua mãe, porque é psicóloga, fez esse exercício consigo?

Espero que não tenha feito exercícios nenhuns. Mas tenho a certeza de que os experimentou a todos em mim, qual cobaia! Não, acho que me poupou o mais que se conseguiu conter.

 

Fiz a pergunta porque o seu caminho é o da procura de equilíbrio, o do apaziguamento com o que está para trás. Esse é também o propósito de uma psicoterapia.

Hum. A terapia só existe para ensinar as pessoas a crescer, não é? Todas as pessoas que não querem estagnar nos 12 ou nos 17 anos, fazem isso, não é?

 

Deve ficar uma mulher extraordinária aos 40 anos.

Estou à espera! (risos).

 

Quando crescer, quando ficar madura...

Ai, antes disso penso nos meus filhos. Desejo absolutamente ter filhos. A imagem do futuro que consigo visualizar vai até aí. Seria capaz de os ter em qualquer momento. Vivo dividida entre o impulso e a racionalização; se for pela racionalização não é a altura. Mas se vierem, eu já estou preparada.

 

 

Publicado originalmente no DNa do Diário de Notícias em 2000

 

 

 

 

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