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Bernardo Pires de Lima

Bernardo Pires de Lima tem 36 anos, é investigador (Instituto Português de Relações Internacionais/Universidade Nova de Lisboa e Transatlantic Center/Universidade Johns Hopkins), analista de política internacional (Diário de Notícias, RTP e Antena 1). A esquerda acha que é de direita e a direita acha que é de esquerda.

 

“Carta a Meus Filhos sobre os Fuzilamentos de Goya”, de Jorge de Sena: “Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso. É possível, porque tudo é possível, que ele seja aquele que eu desejo para vós”. O que deseja para os seus filhos, para o país, no novo ciclo que se anuncia?

Tenho um filho com dois anos e uma filha que irá nascer nos próximos dias. São o mais importante para mim, mas não consigo projectar os seus futuros. Quero que cresçam a respeitar a diferença. Não os quero demasiado expostos ao mundo dos adultos, às nossas angustias e ansiedades. Por ter vivido fora (Itália e EUA) dou muito valor à cidade onde vivemos (Lisboa) e à sua imbatível qualidade de vida. Nunca fiz planos megalómanos nem cultivei sonhos desmedidos para mim ou para o país. Se conseguirmos manter as coisas boas, evitar destrui-las por capricho político e melhorar a nossa vida quotidiana, os nossos filhos serão os primeiros a agradecer.

 

Acredita deveras que será um novo ciclo? Parecemos exauridos. Como encontrar/alimentar a garra dos dias inaugurais? Estamos atados no “a gente vai levando”, de uma canção brasileira?

Sou um optimista na vida e um pessimista na política. Talvez por estar profissionalmente absorvido, há muitos anos, por sucessivas crises internacionais, dramas humanitários, conflitos e eleições que só acabam por criar falsas esperanças, tenha-me deixado enredar numa certa frieza analítica. Confesso que estou um pouco cansado destas temáticas e procuro não pensar nelas para lá do tempo que me ocupam profissionalmente. Quanto ao “novo ciclo”, não embarco em nenhuma melodia esperançosa.

 

Porquê?

Novos ciclos políticos precisam de políticos novos e políticas públicas credíveis precisam de líderes políticos credíveis. As três áreas onde Portugal é menos competitivo – educação, fiscalidade e justiça – estiveram gritantemente ausentes desta campanha e das prioridades dos governos nos últimos anos. São áreas estruturais a qualquer democracia consolidada e todas elas de usufruto a longo prazo. Talvez por isso nenhum político queria assumir as suas reformas.

 

Assistimos à erupção de casos violência no país. Vizinhos desavindos, maridos a matar mulheres, pessoas a perder a paciência. No fio - como se dizia de um tecido puído. Vai rebentar?

Tirando a visibilidade que a pobreza atingiu nos últimos anos, não vejo que os portugueses sejam agora mais violentos do que no passado. Fomos sempre um povo de falsos brandos costumes. Se isto vai rebentar? Acho que não. Apesar de tudo somos um povo ligado, sem fracturas identitárias como em Espanha, por exemplo, sem partidos extremistas que regam a gasolina o descontentamento. Estou mais preocupado com as pessoas a quem o mercado de trabalho não dá segundas oportunidades, pela idade ou pela rigidez cultural dos empregadores, com os mais velhos que sobrevivem com pensões miseráveis, com os jovens cujo mercado de trabalho não absorve. Temos um problema grave de competitividade laboral e salarial.

   

Quais são os grandes desafios da próxima legislatura? Pagar a dívida, resolver o problema da justiça, dar alento ao quotidiano das pessoas? Outras prioridades?

Fiscalidade amiga dos cidadãos, das famílias e do investimento. Justiça aliada das empresas e do investimento. Economia assente em maior risco individual e colectivo mas também num sistema fiscal menos oneroso e num sistema de justiça bloqueador da captação de investimento estrangeiro.

 

Quer apostar em cenários?, vitórias, derrotas, coligações, protagonistas?

Qualquer cenário vai obrigar a compromissos para se cumprir a legislatura. A falta deles implica um governo de curto-prazo sem retaguarda para reformar as áreas essenciais. Não tenho nenhuma ilusão quanto a compromissos com estas lideranças partidárias, nem sobre uma súbita visão estratégica da dupla Lisboa/Bruxelas que coloque a economia à frente das finanças, as pessoas à frente dos números, a coesão social à frente da narrativa do choque geracional.

 

As palavras “empobrecimento” e “pobres” podem ser reconduzidas a uma disputa político-partidária. Mas a questão foi concreta na vida de muitas pessoas. Pessoalmente, aprendeu a viver com menos?

Fui atingido como toda a gente. Nestes piores anos perdi quase metade dos meus rendimentos. Felizmente temos uma boa gestão financeira em casa, nunca fui de grandes luxos, e não fui educado a queixar-me de barriga cheia. Sempre achei ofensivo para quem mais perdeu e ainda sofre. Como não sou de me resignar e acredito muito no meu trabalho, fui dando a volta por cima. Mantenho ligações profissionais cá e lá fora (impossível não ser assim nas Relações Internacionais), fui agarrando oportunidades, trabalhei o triplo, li mais, estudei mais, encerrei etapas e parti para outras.

 

O afastamento da população em relação à política não é novidade. Como fazer a renovação e reaproximar o cidadão da res publica?

Não tenho nenhuma receita milagrosa. O recrutamento político tem estado um pouco nivelado por baixo, o exercício da política não encontra os estímulos do passado e, honestamente, há coisas muito mais interessantes na vida do que a política. O facto de quase tudo ser decidido em Bruxelas ou Berlim contribui para esse espírito de resignação.

 

O mundo não é o que era. Veja-se o que aconteceu na China, com a bolsa a provocar tremores de terra. Nos EUA há o aparente entretém Trump enquanto Obama faz grandes mexidas. Mais grave que tudo, a Europa a desmoronar-se? A crise de refugiados é um sintoma disso? 

Tenho escrito e analisado com algum detalhe esta crise europeia. Temos burocratas a mais e políticos a menos. Finanças a mais e geopolítica a menos. A UE demitiu-se de pensar a política internacional de forma clássica, na ilusão de que protagonizava uma viragem pós-moderna do poder. Enganou-se. A história nunca terminou e os exemplos estão aí. Não pensámos, não estudámos e não nos preparámos para a entrada da China na OMC, para o grande alargamento a Leste, o revisionismo russo ou o tribalismo do Médio Oriente e Norte de África. Vivemos numa bolha que entretanto rebentou. O mundo continuou lá fora.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em Setembro de 2015  

 

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