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Bruno Nogueira (2012)

Qual é o lado mais cómico disto?, perguntava o escritor Dinis Machado num dos seus títulos mais famosos. Bruno Nogueira considera que mesmo num cenário trágico é possível rodar o caleidoscópio e ver a realidade a partir de outro prisma. O da comédia.

O seu humor é rude. Está prestes a estrear um novo programa na RTP (de que levanta a ponta do véu).

Nesta entrevista disseca os grandes tipos da sociedade portuguesa, o sentido de humor de Cavaco, a vaidade de Passos, o chico-espertismo de Relvas, diferentes formas de burrice, fala da diferença entre ser pobre e pobrezinho.

A brincar, a brincar, o Portugalito está aqui todo.

  

É fácil fazer humor em tempos como o que vivemos? A situação não é de pagodaça, mas, para um humorista, parece que não é preciso fazer nada. Basta olhar à volta.

Está a falar da situação do país? O que faço enquanto humorista nunca se sobrepõe à realidade. A situação já funciona, não é preciso fazer nada.

 

Comecemos por falar de um cromo que parece saído da galeria d’”Os Contemporâneos”, programa que teve na RTP. Vítor Gaspar. Começaria por outro?

Não. Gaspar dá-me mais pena que outra coisa. Sente-se que está com uma bigorna presa às pernas. Foi muito caricaturado. Só o ar... É um professor que me está a falar, e sinto sempre que estou a incumprir.

 

Gaspar não é especialmente odiado, como outros políticos são. Apesar de ser a face da austeridade. Isso deve-se ao ar alienígena que tem?

Não consigo ver na figura de Vítor Gaspar alguém que quer necessariamente mal às pessoas. Acho que é por isso que os ataques mais cerrados não lhe são dirigidos. Pessoalmente não ganharia muito com o país a afundar-se... Acredita de facto no que está a fazer. Isto vai ter com outra coisa, que Passos Coelho tem: a vaidade.

 

Vaidade?

A vaidade de não perceber que, se calhar, está errado. “O barco já está neste estado, e agora não posso dizer que a rota é errada. Seria o fim.”

 

A humildade que atribuíam a Passos quando chegou ao poder, e que contrastava com o arrogância e autoritarismo que imputavam a Sócrates, dissipou-se? Ou nunca chegou a existir?

Essa humildade existiu. Mas a situação mudou. E não tem como voltar atrás.

 

Não?

Acho que tem. Mas por uma questão de orgulho e vaidade, e de levar a palavra até ao fim, não o fará. Quando um país inteiro diz que não é o caminho, e você, mesmo assim, acha que é o caminho, ou enlouqueceu, ou [aquele] é um ponto de honra e de vaidade. Acho que é o segundo.  

 

Gaspar, Passos, Sócrates, Cavaco, os políticos no activo são alguns dos personagens incontornáveis do trabalho humorístico. (“Incontornável” é a palavra que os humoristas usam para gozar com os intelectuais.

Incontornável é bem.)

 

Voltaremos aos políticos. Para já, quando tenta espelhar a sociedade portuguesa quais são os grandes tipos que encontra?

É raro (aconteceu n’”Os Contemporâneos”, mas eu não estava envolvido na criação) sublinhar os tipões, caricaturar os tipões. É um tipo de humor de que gosto, mas não é aquele que faço melhor. Gosto de falar sobre. Representá-los, não.

 

Diz tipões?

Sim. Se calhar nem existe tipões. Há vários. Os intelectuais que dizem palavras como incontornável.

 

Já caricaturou o intelectual que usa termos como “incontornável”. O peralta. O pomposo.

Não vejo a palavra intelectual como uma coisa depreciativa. Quem me dera a mim ter uma costela disso. Só acho mal quando sabem mais de livros do que de vida. Na prática os livros não lhes servem de muito.

Faz-me sempre confusão quando temos de mostrar o que somos. A Margaret Thatcher (uma citação fica sempre bem...) uma vez disse que se tiver de provar que é uma dama é porque alguma coisa está mal. Não só com os intelectuais, mas com o talento em geral. Se tiver de provar, e sublinhar muitas vezes, é menos interessante. Nesse caso, disparo em todas as direcções.

 

Quais são os outros tipões principais que identifica e que retrata nos seus programas?

(Tipões: a tal palavra de que não gosta e que vai pôr entre aspas.) O novo-rico. O novo-pobre, infelizmente, e com menos piada.

 

Porque é que o novo-rico é apetecível? Alguns, provavelmente, estão a ler-nos.

[riso] É apetecível quando está a apontar para si próprio a explicar que agora é rico. Não há mal nenhum em ganhar dinheiro. Quando é preciso fazer exposições públicas do que conseguiu adquirir cai no pequenino, no poucochinho. E, logo, no risível. A desgraça alheia tem um lado cómico, por muito cruel que possa parecer. Ver alguém assim não é uma desgraça. É só ver alguém a fazer uma figura triste.

 

O que é risível é aquilo que refulge? Os brilhantes, as marcas muito visíveis, os símbolos de poder e de riqueza?

Há pessoas em que vemos claramente que “aquilo” faz parte de uma educação. E há pessoas para quem “aquilo” entrou à pressão. Que foi de repente. E que não sabem lidar bem com o que lhes está a acontecer. O dinheiro é então mais para mostrar do que para uso próprio. O Herman contou a história de uma senhora que estava com um Swatch. Uma senhora da alta sociedade. “Tem esse dinheiro todo e está com um Swatch?”. Ela respondeu: “Estou. Porque eu posso”. Acho que é isto. Quando uma pessoa pode, não tem de usar um Rolex. Para esbanjar e mostrar a toda a gente que tem um Rolex.

 

Mostre-me se usa um relógio caro.

Não posso mostrar. [riso] Não posso mostrar. Que é para seguir a conversa com alguma dignidade.

 

Uma vez entrevistei um banqueiro, amável, que não precisava de usar sapatos por medida para se sentir importante (como outro com quem falei na mesma semana, CEO de uma grande empresa). Em resumo: o nouveau riche precisa de uma peça feita por medida para se sentir importante.

Sim, é isso. Quando a pessoa se maquilha de alto a baixo com coisas com as quais não sabe lidar bem... É um alvo fácil porque toda a gente percebe quando está à vontade na sua pele – ou não.

Atenção: não quero ser a nova Jonet. Mas há sempre mínimos que uma pessoa pode garantir para se sentir bem. Que não passam necessariamente pelo dinheiro. Passam por uma atitude. Coisa extraordinária que vi em espectáculos pelo país. Apesar do estado em que as famílias estão, há salas cheias.

 

Fez uma digressão o ano passado com Miguel Guilherme, com o espectáculo “É como diz o outro”. Refere-se à percepção que teve nesse período?

Sim. Como é que numa altura em que as pessoas têm de deixar de comer carne de vaca ainda conseguem guardar dinheiro para ir ao teatro? É comovente. Antes da crise achava, com alguma arrogância – reconheço-o agora –, que uma sala cheia era uma coisa, não banal, mas fácil de ser possível.

 

Abramos uma parêntesis para falar da digressão. Mesmo que a situação do país se tenha degradado muito no último ano. O que é que aprendeu na ronda pelo chamado país real?

Andámos seis meses em tournée. Fizemos quatro dias no Coliseu do Porto; parecia um disparate..., o Coliseu leva 3000 pessoas. Encheu as quatro noites. No país real percebi que as pessoas têm muitas dificuldades. Para as que foram, aquilo era uma espécie de consulta de psicólogo sem ter que ir lá todas as semanas (e sem ter de gastar o triplo, ou mais...).

 

Quanto custava o bilhete?

Variava. 15, 20 euros. Em todos os sítios tivemos casa cheia. O país é muito diferente entre si.

 

A diferença está entre ricos e pobres? Litoral e interior? Norte e sul? Quais são as divisões mais nítidas?

De norte para sul. Isto não quer dizer que o público seja melhor num sítio ou noutro. Mas o público expressa-se mais no norte, é mais caloroso. O Algarve, que está mais talhado para receber, não é tanto assim. No Alentejo era perceptível que algumas pessoas estavam a fazer um esforço financeiro para estar ali. Em Lisboa somos uns privilegiados. Porque temos muita oferta, meios, informação.

 

Tomou contacto com o país real depois de se ter transformado num fenómeno televisivo, de fazer programas que supostamente se dirigem a todos, e não apenas ao público de Porto e Lisboa, que é aquele que conhece melhor. É fácil ficar umbiguista?

É. Quando vivemos com os nossos pais, é muito fácil não ter que romper a bolha. Resume-se a isto: chegamos a casa, temos a comida na mesa, a roupa lavada. Não é preciso lidar com a vida prática. Depois começamos a sair da esfera umbilical e percebemos que há lacunas enormes. Também é preciso dizer que, se não nos convidarem para ir a Beja, não vamos a Beja. Não é porque não queiramos. É porque não nos convidaram. Não podemos chegar lá e dizer: “Então Beja?”, e não ter sala para fazer o espectáculo nem nada marcado.

 

Voltemos à questão base, ao como são os portugueses.

Outro tipão?

 

Também há arquétipo. Uma palavra fina.

Chiquíssima. Adoro. Arquetípico? Ouça, o mais possível! [tom trocista e queque]) Há uma coisa recente, que veio com os telemóveis: pessoas que, pura e simplesmente, perderam o filtro. No outro dia, num restaurante, uma senhora estava a esta distância [um metro], com o telemóvel a apontar para mim. Era irrelevante ser eu ou ser um chiuaua.

 

A escala é muito parecida entre si e um chiuaua.

[riso] Disse à senhora: “Não pode fazer isso. Se quiser tiro uma fotografia consigo, sem problema.” Ela ficou ofendida: “E se quer saber, vou apagar porque a fotografia nem ficou boa.” Ficou ofendida porque lhe chamei a atenção. Disse-lhe que não estava no zoo.

Esse comportamento não tem a ver com mais nada a não ser estupidez. Toda a gente tem telemóveis, por alguma razão só alguns se comportam assim.

 

É a geração youtube? Que escreve com k.

Sim. E escreve LOL. São pessoas que acham que é tudo à vontade. É tudo de todos. É tudo do domínio público.

 

Não falou de um personagem muito visível na televisão. O jovem com corpo tatuado, depilado, musculado, que recorre à cirurgia plástica. Tudo com um ar barato. Como os que estão na “Casa dos Segredos”. Ou a Luciana Abreu no seu programa “O Último a Sair”. É um tipo crescente?

É. O que a “Casa dos Segredos” e a maior parte dos reality shows fazem é pôr uma lupa sobre esse tipo de pessoas. Também integram o grupo das pessoas que já não têm filtro. Como estão rodeadas de pessoas do mesmo género, não fazem ideia do que estão a fazer. Na “Casa dos Segredos” é toda a gente assim. Não há ninguém ali que não estivesse disposto a qualquer coisa para ganhar dinheiro.

 

É ganhar dinheiro ou ganhar 15 minutos de fama?

As duas coisas. São esses 15 minutos de fama e o que esses 15 minutos de fama vão dar. Para eles, basta. Não têm um sonho além disto. Saírem à rua e serem reconhecidos. Se outras pessoas vingaram e fizeram dinheiro, eles também podem vingar e fazer dinheiro.

Vive-se numa época de fast food mental. O que as pessoas querem é uma coisa que resulte rápido e que não as obrigue a pensar. Há uma enorme vantagem nas pessoas burras: sofrem menos. Não estou a dizer que são todas. Há pessoas que vão ao ginásio e fazem cirurgia plástica e têm os princípios bem definidos.

 

Gente burra é um alvo fácil?

Depende. Gente burra academicamente falando, não acho interessante. A religião é um género de burrice muito fácil.

 

Finalmente aparece o Bruno Nogueira. Que causa estragos e diz coisas inconvenientes. Que parte tudo com uma bastonada. (Nota: o primeiro personagem de Bruno Nogueira, nas Manobras de Diversão, no Teatro S. Luiz, aparecia com um bastão de baseball.)

É mais fácil resolver tudo com uma entidade que não conhecemos e que podemos responsabilizar e que nos permite não pensar porque toma conta. A maior parte das pessoas que acreditam em Deus não sabem porque é que acreditam. Ou é de família – e é das poucas coisas que vão herdando. “O meu pai era, a minha mãe era, eu não me quero informar, e sou.” Porquê?, o que é a leva a acreditar? “Não sei.” Uma grande percentagem das guerras e mortes no mundo inteiro prendem-se com o facto de cada nação dizer: “O meus Deus é que prevalece sobre o teu. Vai uma bomba só para tu perceberes isso”. A outra responde da mesma maneira.

 

Alguma vez gozou com a Opus Dei?

Sim, no “Tubo de Ensaio” [na TSF] já falámos sobre isso.

 

Toda a irracionalidade é potencialmente burra?

Sim. Sim. Sim. Sim. Generalizar também é uma coisa que corre mal. Conheço católicos inteligentíssimos e conheço ateus burros. Uma criança de três anos morre – foi Deus que quis levá-la para junto d’Ele. A pior pessoa do mundo morre aos 104 anos – foi Deus que quis levá-lo para junto d’Ele. É muito fácil. Não implica raciocínio. É como a Bíblia: uma história muito bem contada. Um romance maravilhoso. Tirar uma ilação, que é o que fazem nas igrejas, pode ser perigoso e pode cair na burrice.

 

O português fura-vidas. Mais ou menos burgesso. Outro grande tipo?

O chico-esperto? Esse sempre existiu. Conheço vários (não posso dizer o nome, infelizmente) cuja capa é toda polida e depois... Um chico-esperto em três linhas? O objectivo será sempre subir. Subir à custa de alguém (usando alguém como trampolim). Subir juntamente com alguém (para, com essa pessoa, subir). No Governo é fácil encontrar vários. Quem? O óbvio: Miguel Relvas. Está na cara. Ele próprio já não tenta disfarçar muito.

 

Já não disfarça, como diz, porque considera que nada lhe acontece? Sobreviveu ao terramoto do Verão, quando toda a gente dava por garantida a sua saída na sequência do caso da licenciatura.

Da licenciatura, do [jornal] Público, tudo. Quando percebeu que goza de uma certa imunidade – de uma certa, não: de uma total imunidade – pouco importa justificar o que fez, as polémicas em que esteve envolvido. Ele saberá que a maior parte das pessoas não acredita no que apregoa. Mas é-lhe indiferente. É uma via verde.

 

Como assim?

Na via verde, mesmo que não pague, passa. Depois aparece uma factura. Paga ou não paga. Com sorte aquilo prescreve. Em Portugal há vários exemplos disto. António Lobo Antunes disse numa entrevista que as pessoas continuam a ir à ópera porque acreditam que é possível morrer a cantar. Compram essa premissa. Foi a premissa que Miguel Relvas comprou para ele próprio. Sozinho. É a única pessoa do público desse espectáculo.

 

Passos Coelho está com ele na plateia?

Sim.

 

É o PM que o mantém.

Sim. Não sei quais os interesses. Entra num campo que não domino. E não quero ser treinador de bancada. Mas porque é que Relvas continua, porque é que, quando houve uma remodelação do Governo, se manteve? Parecem-me aqueles barcos... [tosse seca] Quando vamos rebocar um barco, encalhado, enorme – de cruzeiro – há um barco, à frente, que o leva. Como estão ancorados um ao outro, se o de trás cai, o da frente, se não dinamitar a tempo, vai atrás e afunda também. Passa por aqui. Ainda não havia o dinamite suficiente e vamos andando em maré desconhecida a ver no que é que dá. Não sei se se prende com a tal vaidade... “A sério que ali é uma parede. Não é estrada.” “Está bem, mas eu vou.”

 

Cavaco poderia dizer: “Ali é uma parede”?

Não diria. Demoraria cerca de seis meses para dizer. Quando dissesse, já não era uma parede. Era um arbusto.

Na última entrevista que vi de Passos Coelho [na TVI] – se bem que preferi, de longe, o cabelo da Judite de Sousa... Era como se tivesse ido para o estúdio num Punto GT com a cabeça de fora. Era uma espécie de algodão doce epiléptico. Fiz uma crónica sobre isso na TSF. O cabelo da Judite de Sousa superou tudo. Foi mais interessante do que qualquer coisa que Passos tivesse dito. Falta de noção.

 

Porquê?

Frente a um Primeiro Ministro, não se pode ter o primeiro plano. Não se pode estar em destaque.

Mas ia falar de Cavaco e de Passos. O que fez com que Obama, e não outros, parecesse um salvador (para além da inteligência e das medidas) foi o facto de falar com as pessoas. Não me sinto atrasado mental a ouvi-lo. Sinto que é uma pessoa normal que fala como as pessoas normais. Uma coisa raríssima na política. E tão simples. Tudo bem que tem o marketing por trás, e tem o sorriso...

 

E tem um ar gingão quando anda.

Mas isso é o que as pessoas fazem. De repente há uma pessoa que faz o mesmo que eu faço quando saio de casa. Que sobe as escadas do Air Force One a correr. Simplesmente não está com uma capa. Ou está com outra. A descontraída. O que transmite ao espectador inocente é que aquela pessoa é normal. Com Obama, não me sinto um aluno da quarta classe com uma professora de 50 anos a dar-me um raspanete. É o que difere. E não há disso em Portugal.

 

Cavaco, por contraste, é estático. É bizarro compará-los. Estava a falar de Cavaco e passou para Obama.

Estava a falar da comunicação dos vários políticos. Cavaco tem o grande problema da falta de timing.

 

Se fosse um sketch humorístico, como é que o representaria?

Quando ele chegasse, o sketch já tinha acabado. Acontecia o sketch todo e ele chegava depois do genérico. Ainda a dizer uma frase do sketch. O stand up de Cavaco [na entrega] dos prémios Gazeta... Não se pode tentar ser aquilo que não se é. Cavaco tem o sentido de humor de uma pedra pomes. Foi constrangedor. Foi como o Clint Eastwood a falar para uma cadeira. Disseram-lhe: “Senhor Cavaco, era muito engraçado se brincasse com o facto de nunca falar”. Devia ter dito: “Mas eu não tenho piada”. Foi um silêncio de morte, com Cavaco a debitar um texto que alguém lhe deve ter soprado ao ouvido.

 

O que é que sopraria ao ouvido de Passos?

Nada! Se nada do que foi soprado, nesta fase do campeonato, deu resultado...

 

Resta-nos esperar pelo afundamento?

Resta-nos lutar todos os dias contra isso. Se caísse o Governo (algumas pessoas dizem que seria mais apocalíptico do que continuar assim)... Infelizmente não vejo que vá haver alguma mudança. Pelo menos até 2014. Até lá, para além de poder manifestar publicamente o que sentimos, não há nada que façamos ou digamos [que surta efeito]. É um estado de autismo. Podem fazer exercícios para tentar comunicar com a realidade. Mas não deixam de ser autistas.

 

Uma parte disto, pelo menos, está no seu novo programa?

Não. Gosto muito de ver coisas sobre actualidade, mas não é o meu tipo de humor preferido. No “Tubo de Ensaio”, o João Quadros e eu falamos sobre a actualidade política; é um programa diário, que fazemos há cinco anos. (O Quadros é genial. Tem uma cabeça poético-cómica extraordinária.) Temos de abordar vários temas, entre os quais a política. O novo programa é intemporal. Nada o liga com a realidade. Era o que se pretendia.

 

O que é que pode contar?

Vamos para o ar no meio de Janeiro, na RTP. Basicamente sou eu e o Gonçalo Waddington a andar à volta do país. Numa autocaravana. A série foi escrita por mim, pelo Gonçalo e pelo Tiago Guedes e foi feita com uma coisa rara: tempo. Tempo para pensar, para escrever. Foi dado às pessoas espaço para fazerem aquilo que fazem melhor. A equipa técnica é quase toda de cinema. A imagem é uma mais-valia.

 

Vai fazer de Bruno Nogueira a andar pelo país?

Sim, somos nós a fazer de nós. Nós a fazer de nós enquanto argumentistas que escrevem aquilo, fazem aquilo. Passa-se em várias camadas.

Pediram-me para fazer um segundo “O Último a Sair”, agora que estava a acontecer a “Casa dos Segredos”. Se calhar foi teimosia. Mas se tanta gente queria e se correu tão bem, não havia nada a acrescentar. Acho mais estimulante tentar uma coisa nova. Onde arrisco a espetar-me ao comprido.

 

O Futre foi um personagem eventual de “O Último a Sair”. Para voltar atrás e aos arquétipos: os futeboleiros.

O Futre foi lá dar uma palestra. É muito engraçado. E não varia: o que se vê é aquilo que ele é. Há muitos Cristianos Ronaldos da vida.

 

Para já, todos querem ter a Irina.

Eu não queria ter a Irina. Queria ter a [Sara] Carbonero. Gosto da Carbonero porque ela não come com os cotovelos em cima da mesa. Uma coisa é dizerem-me: “É a Irina ou não é nada”. Outra coisa é dizerem-me: “É a Irina ou outro produto muito bom, a Carbonero”. Também nunca vi a Carbonero à mesa. Pode parecer snob. Não é snob. É uma coisa básica. Não se come com os cotovelos em cima da mesa! De que serve o dinheiro? Entre as pessoas mais bem educadas e inteligentes que conheço estão pessoas com pouquíssimas posses. São mais ricas de outra maneira.

 

Mais um bocadinho e fala da Madre Teresa de Calcutá.

Não! E acho ridícula a teoria de que o dinheiro não traz felicidade. Traz imensa. Não traz é toda.

 

Peguemos na frase de Dinis Machado: qual é o lado mais cómico disto? Partamos desta premissa – palavra fina que usou repetidamente...

Usei? Meu Deus. E aquelas pessoas que dizem “noite”? Já não têm paciência para dizer o “boa”.

 

É a partir desta premissa que trabalha? Olhar para a realidade, qualquer que ela seja – trágica, como esta – e perguntar pelo seu lado cómico. Como é que encontra o lado cómico disto?

Há sempre um lado risível em tudo. Até no mais trágico. As boas notícias não vendem. (As pessoas acham que os humoristas não têm tragédias pessoais. Que se brincam com doenças é porque não têm doenças na família. Ou não têm uma pessoa católica. Há isso tudo. A diferença é que o humorista opta por não se acomodar. Tenta desconstruir a situação.)

Não sei explicar o mecanismo. É agarrar numa notícia e transformá-la numa notícia paralela. Não deixa de ser realidade. Não é preciso entrar num campo fantasioso. Vejo de outro prisma. Ainda é das melhores maneiras de fazer passar mensagens. É mais propagado do que a notícia em si. Através do humor é possível apontar para coisas que não se vêem. Ou que não interessa, a quem deu a notícia, que se vejam.

Outra forma de burrice: não questionar. Aceitar já mastigado, e ponto final.

 

O seu tipo de humor é à bastonada. Nada auto-condescendente. Brinca com tudo?

Sim.

 

Nesta conjuntura, é mais fácil estarmos com pena uns dos outros? Isso diminui a sua rudeza?

Não acho que tenha de ser mais macio... Quando a Isabel Jonet vem falar do Banco Alimentar e diz as coisas que diz, critico. Mas não estou a criticar o trabalho todo que foi feito pelo BA. Não deixei de fazer o que sempre fiz no supermercado [nos fins de semana de recolha de alimentos]. Se a realidade não está mais macia, eu não tenho de estar.

 

A pergunta que se impõe na última sexta feira do ano... Desejos para 2013. Pode ser uma coisa cómica, para fechar o sketch.

A punchline? Retomo a ideia do barco que reboca outro barco. A melhor coisa que podia acontecer em 2013 era haver uma separação entre uma coisa e outra. O que tem de ir ao fundo, vai. O que tem de ficar a flutuar, fica. Outra coisa (vai cair no cliché, mas é verdade): uma coisa é a crise financeira, outra é a crise de valores. Seria bons que as pessoas – as que os perderam – começassem a recuperar os princípios que fazem com que um país, sendo pobre, não seja pobrezinho. (Isto vai roçar o privilegiado a falar dos desfavorecidos... É complicado falar disto sem aparecer um tom arrogante.) É muito difícil atravessar esta fase, mas há mínimos olímpicos dentro de cada um de nós. Os mínimos de que, por uma questão de orgulho e auto-estima, não se pode abdicar.

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2012

 

 

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