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Bruno Vieira Amaral

Bruno Vieira Amaral, 37 anos, é escritor. Publicou Guia Para 50 Personagens da Ficção Portuguesa, Aleluia! e o romance As Primeiras Coisas, pelo qual recebeu o Prémio Literário Fernando Namora e o Prémio Narrativa do P.E.N. Clube.

 

“Meu canto se renova/ E recomeço a busca/ De um país liberto/ De uma vida limpa/ E de um tempo justo”. Sophia de Mello Breyner. Quer comentar?

“Eu quero uma casa no campo / onde eu possa plantar meus amigos / meus discos, meus livros e nada mais” [canção “Casa no Campo”, interpretada por Elis Regina].

 

Acredita deveras que será um novo ciclo, o que aí vem? Como inventar a disposição da folha branca, do dia inaugural, inteiro e limpo (para continuar com Sophia)? Parecemos esgotados, desmobilizados. Ou não, e isto é uma visão pessimista?

Vamos continuar a viver no ciclo iniciado em 1986, com a adesão à então CEE. Esse é o ciclo que importa. Uma democracia deve assentar em regras e pilares que são continuamente verificados e aperfeiçoados e não em folhas brancas e dias irrepetíveis. É um conceito pouco exaltante e poético, mas mais estável e duradouro. Parecemos esgotados porque uma democracia madura (ou a caminho disso) é como um casamento longo: às vezes parece que as pessoas estão desiludidas, mas depois, na hora de decidir, optam pela estabilidade, valor que nunca inspirou poetas e amantes.

 

Quais são os grandes desafios da próxima legislatura? Pagar a dívida, resolver o problema da justiça, dar alento ao quotidiano das pessoas? Outras prioridades?

A prioridade deverá ser a de explicar aos portugueses, com pedagogia, paciência e alguma compaixão, que isto não vai mudar muito.

 

Não tarda, vamos ter eleições presidenciais. Só então ficará completa a transformação iniciada no fim de semana passado? É claro para si quem vão ser os protagonistas políticos dos próximos tempos?

Os protagonistas serão os mesmos dos últimos quarenta anos com ligeiras renovações. O próximo Presidente da República será Marcelo Rebelo de Sousa, nosso conhecido desde os tempos da Patuleia. Ainda assim, prevejo o aparecimento de uma outra figura extravagante que implorará para que a arranquem da sociedade civil e se apresentará ao país como flor vicejante, ainda não manchada pelos partidos e pela política rasteira. Incompreendida pelos compatriotas, depressa regressará à estufa de uma qualquer faculdade.

 

Para além dos números, o que mudou na sociedade portuguesa nos últimos anos? Mais medo, mais contenção, mais apatia?

Estes anos reforçaram características como a prudência, a desconfiança e o conservadorismo. A crise tornou-nos ainda mais cautelosos.

 

Foram quatro anos em que as pessoas e o país empobreceram, a dívida aumentou, o número de emigrantes chegou quase ao meio milhão, o tecido social se alterou. Mas o impensável não há muitos meses aconteceu e Passos Coelho e Paulo Portas obtiveram mais votos do que Costa. Estes resultados são uma legitimação das políticas dos últimos quatro anos?

Significa que os portugueses, mesmo desconfiando de alguns métodos e discordando de certas receitas do governo, perceberam que o país tinha de apresentar resultados aos credores para mais rapidamente se livrar deles. Como não lhe atribuíram maioria absoluta, a leitura que faço é que, para os portugueses, a coligação cumpriu os mínimos e agora querem ver como se comporta sem o guião da troika: terá o papel decorado ou irá improvisar?

 

Faz o sentido que se ouviu, sobretudo nas redes sociais, vindo da esquerda: que o povo acordou com síndrome de Estocolmo (em que a vítima passa a ter simpatia pelo agressor) ou isto quer dizer que o PS não se renovou e continua a ser lido como o partido de Sócrates e da bancarrota? 

Isso da síndrome de Estocolmo é conversa de quem convive mal com as escolhas legítimas e democráticas dos outros. O erro básico do PS foi pensar que, para ganhar as eleições, bastava trocar um líder pouco carismático por outro envolto numa aura messiânica. E, enquanto a realidade não atrapalhou esta narrativa, correu tudo bem. A melhoria ligeira dos indicadores económicos, o caso Sócrates e o desfecho da crise grega empataram o jogo. A campanha desastrosa do PS desempatou-o.

 

O PS foi o mais fragilizado da noite eleitoral? Dizer o PS é o mesmo que dizer António Costa? O problema principal do PS foi qual?, a campanha, o não se afirmar como alternativa, as fracturas internas, o peso do passado?

Costa lançou-se numa caça ao tesouro mas esqueceu-se de levar o mapa. Os ajudantes inflamáveis de que se rodeou, e que gostam tanto de malhar na direita que às vezes distraem-se e acabam por bater neles próprios, devem ter-lhe dito que só precisaria do seu festejado instinto político. O resultado foi um discurso cambaleante em que tanto aparecia com a camisola do Syriza como a seguir se apresentava de gravata europeísta. Para culminar o trajecto, veio a campanha e com ela alguns episódios tão caricatos que a coligação devia reservar uma secretaria de Estado para os assessores de Costa.

 

Passos Coelho foi subestimado? Fez um bom trabalho nestes quatro anos? Teremos passistão (depois do percurso como primeiro-ministro, a presidência)? Quais são as grandes qualidades de Passos? E de Portas?

O melhor que aconteceu a Passos Coelho foi ter de seguir um plano que não requeria muita imaginação. É como naqueles filmes em que alguém pede um resgate e tem de se arranjar o dinheiro de qualquer maneira e deixá-lo debaixo de um viaduto. Passos conseguiu entregar o dinheiro e regressar com a vítima (cheia de hematomas e contusões mas ainda a respirar). Parece-me um político com consciência das suas limitações, o que, num país em que os políticos normalmente sobrestimam as suas qualidades, é uma virtude rara. Começou a ganhar as eleições quando disse que não abandonava o país. Depois de Guterres e Durão Barroso, um líder que, em situação de crise, opte por ficar no país, arrisca-se a ser considerado um génio político, um abnegado patriota ou ambos. Quanto a Portas, revelou admirável presença de espírito ao não impedir que Passos Coelho lhe salvasse a carreira política.

 

O PS tem a possibilidade de fazer uma maioria estável com a esquerda? Ou instável? E pode fazer um compromisso eventual com a direita sem trair o seu eleitorado? Qual é o cenário mais provável? Um acordo possível (solução a prazo) até à próxima hecatombe? Novas eleições para quando?

A única maneira que o PS tem de fazer uma maioria estável com os partidos à sua esquerda é submetendo-se aos seus programas espirituosos. Se me parece uma solução desastrosa para o país também não me parece vantajosa para os socialistas porque, na prática, teríamos uma união em que os partidos minoritários entrariam com as políticas e o PS com os votos.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em Outubro de 2015

 

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