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Budapeste

Budapeste tem uma identidade múltipla, que não coincide com a imagem antiga de uma cidade dividida pelo rio. O Danúbio não é azul, mas cor de chumbo. De um lado Buda, do outro Peste, duas identidades. No lado Buda há colinas e o palácio real, em Peste uma planura sem fim. Por toda a cidade há marcas do comunismo nos edifícios desmesurados, que esmagam o cidadão e a individualidade. E há marcas do império austro-húngaro, um certo tom operático nas ruas, uma sombra do que foram nas muitas lojas de antiguidades (não propriamente baratas). Quando procurar uma rua, não esqueça que se inverte a ordem: em vez de Béla Bartók, procure Bartók Béla.  

 

Os banhos são um ritual obrigatório para os habitantes da cidade. Vai ficar de fora?. São dezenas de piscinas termais que denotam a influência turca. As águas têm temperaturas na casa dos 36, 38 graus (dois graus fazem uma enorme diferença), o cheiro é levemente sulfuroso, instala-se uma nuvem de vapor sobre as cabeças. As pessoas conversam entre si, lêem jornal, jogam xadrez, parecem meditar, deixam-se invadir pelo torpor, baixam para zero a ansiedade. Ficam até engelhar a pele.

Os mais famosos são os Gellért (hotel contíguo). O chão de mosaicos, o ar fin de siècle, com ferro forjado e vitrais, agradou a Mathew Barney (o marido de Bjork), que filmou aqui “Cremaster 5”.

Outras possibilidades: Széchenyi Spa, um dos maiores complexos de piscinas da Europa (quinze, reconstruídas em 1999). E o Lukács Spa, com água a quarenta graus. São mais frequentados por velhos, de manhã cedo.

 

Gundel é o mais reputado restaurante da cidade. Em subtítulo, no cartão-de-visita, consta que serve o melhor foie gras de ganso do mundo. Vendem uma aguardente deliciosa, numa garrafa esguia, de rótulo elegante. Preço exorbitante. Os empregados têm um movimento coreográfico de filme. Cantam “parabéns a você” em húngaro ou inglês a todos os aniversariantes da sala.

www.gundel.hu

 

A língua magiar é impenetrável. “Nem odiabo fala húngaro” ou é a únicalíngua que o diaborespeita” são frases que traduzem esta dificuldade. É tão agreste que se torna difícil dizer “obrigada” ou “bom dia”. Sem exagero.   

 

“Budapeste?, e o que tem para fazer em Budapeste? Era difícil responder. Olhar o Danúbio?, tomar licores?, ouvir poetas?”. O livro de Chico Buarque é um maravilhoso jogo de espelhos, com uma ideia base: é possível aprender uma língua ao mesmo tempo que se aprende a amar uma pessoa, e desaprender a língua quando o amor chega ao fim. Budapeste é um caleidoscópio que dá para dentro de uma cidade, uma língua, um escritor e a sua namorada húngara (além da brasileira…). Quando o escritor e músico brasileiro escreveu o livro, não conhecia a cidade. Só depois a visitou. Ler o livro é uma maravilhosa aproximação a Budapeste.

 

10 coisas para fazer em Budapeste:

1- Beber Tokaj com foie gras de ganso. É um vinho licoroso, dulcíssimo, um néctar.

 

2- Ver The Shop Around the Corner, filme do mestre Lubitsch, supostamente passado na Hungria, e inspirado numa peça húngara de 1937. James Stewart é magistral. Hollywood fez uma adaptação muito, muito livre anos mais tarde com Meg Ryan e Tom Hanks: You’ve Got Mail! Descubra o original.

 

3- É normal ver um par atracado contra uma árvore, dois corpos a rebolarem na relva da Ilha Margit. O autor do guia Lonely Planet fala da fama que precede os húngaros: de serem especialmente descontraídos na manifestação da libido. Embaraçoso?

 

4- No mercado central, um imenso e irresistível edifício, compra-se salame, cebolas, alhos, toalhas de uma renda fina como a da espuma do mar, túnicas folclóricas com bordados, matrioskas (cada vez mais pequenas, até serem pouco mais do que um ponto). O cheiro a paprika invade a atmosfera.

 

5- O Le Monde descreveu o escritor húngaro Sándor Márai como um “cronista perspicaz de um mundo em colapso”. Uma certa Hungria, as contradições do amor, os desencontros da vida são centrais nos seus romances. As Velas Ardem até ao Fim, de 1942, é de leitura obrigatória.

 

6- O café Gerbeaud, jóia da coroa, fundado em 1858, é forrado a veludos e revestido a dourados. O serviço é tão lento que chega a exasperar. As empregadas são para lá de mal encaradas. Mas os bolos são soberbos, o ambiente transporta-nos para outra dimensão. Compensa a espera e a antipatia. 

 

7- A corte austríaca deixou marcas visíveis (na pastelaria, por exemplo). Os edifícios, de estilo imperial ou da transição para o século XX, denotam também essa ligação. Os secessionistas (movimento do começo do século XX liderado por Klimt e arquitectos como Otto Wagner) são preciosidades, de grande modernidade. Não perca as fachadas e os balcões art nouveau.

 

8- Visitar o quarteirão judeu, imensamente livre, a sinagoga (uma das maiores da Europa).

 

9- Comer goulash num restaurante de esquina. É o prato base da cozinha húngara. Um guisado com carne cortada aos cubos, pimentão e farinha.

 

10- Há ciganos da Europa central nas ruas da cidade. Tocam “Lili Marlene” ou “Dr. Jivago” pelas esplanadas, com o violino e chapéu estendido.

 

 

Publicado originalmente na revista Máxima 

  

 

 

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