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Camané

«O amor quando se revela, não se sabe revelar,

sabe bem olhar para ela, mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente, não sabe o que há-de dizer (...)

Ah, mas se ela adivinhasse, se pudesse ouvir o olhar,

e se o olhar lhe bastasse, p’ra saber que a estão a amar...»

Fado Alfacinha, Quadras (poema de Fernando Pessoa)

 

«Eu estava a passear em Ipanema e de repente vi o Chico Buarque. Foi tudo muito rápido. Ele mergulhou e saiu da praia. Tive a certeza de que era ele. E senti uma vontade enorme de lhe dizer o quanto adorava a sua música. Mas não fui capaz de falar. Não fui capaz de me apresentar: «Olá, sou o Carlos».

Quando foi para a escola, já o pai e a mãe e as pessoas à volta tinham convertido o Carlos Manuel em Camané. Uma forma abreviada de lhe situarem o espaço, a identidade. O Carlos Manuel é alguém que não existe a cantar, que talvez não exista, deveras. O que Camané é exprime-se a cantar, numa entrega sofrida e redentora. Trata-se, afinal, de espaço. De um mundo por amansar, de uma corda tensa, de reverberação dolorosa, mágica.

«Nunca poderia dirigir-me ao Chico e apresentar-me como cantor...». Porque o admira demasiado. Mas se a timidez lho permitisse, confessar-lhe-ia que o modo como canta, que as coisas que diz no cantar lhe mudaram a vida e o transportam para um sítio qualquer que não é o seu.

Encontrámo-nos para jantar no café dos teatros do S.Luiz. Eu convoco o Chico do «Meu Caro Amigo», que rima «Franças» com «Lembranças»; Camané canta de si para si, repetidamente, «Ela Desatinou» e «Olhos nos «Olhos», crónicas do quotidiano, métrica amorosa.

Andava de colectividade em colectividade. As fotografias mostram-no, aos oito anos, rodeado de fadistas, de fato de comunhão, cabelo alinhado. Ele surge estranhamente esticado, a romper os limites do seu corpo, a não caber em si. E os outros, à volta, incentivavam o tom compenetrado, a emoção que transborda linha a linha.

Como podia ele, menino, sentir cada uma daquelas palavras? Como sobrevivia à imagem grotesca das crianças disfarçadas de adultos?

Mas, ontem como hoje, dizia cada palavra com uma precisão assombrosa. Descortinava algures o seu íntimo significado. Cantava umas quadras, quintilhas, sextilhas dadas pelos poetas populares que encaixava nos fados tradicionais. Fadinhos a falar da escola, a falar do pai, a falar da mãe.  

«Eu comecei a ouvir fado muito novo, tinha aí uns sete anos. Compulsivamente. Fiquei em casa com hepatite e durante 15 dias ouvi os vinis do Marceneiro, Carlos do Carmo, Lucília do Carmo, Maria Teresa de Noronha, Carlos Ramos, Hermínia Silva... Um dia fui à Cesária, uma casa de fados que já não existe, jantar com os meus pais. De repente, deu-me um clique. Cantei o Fado Isabel, que não era nada para criança. Era uma letra a falar do fado. Quem cantava o Fado Isabel era o Fernando Maurício. E senti-me muito bem, muito confortável. Ouvi-me, as coisas soavam. Nessa altura até soavam com um prazer enorme, porque não havia aquela consciência..., o ter de fazer muito bem feito. As pessoas acharam imensa graça e comecei a ir todos os fins-de-semana pelas colectividades».

Era uma casa de fado. O bisavô, o avô cantavam fado. O pai cantava sem viola e sem guitarra, num jeito tímido. A mãe cirandava pelo fado, entregue à lida doméstica. Viviam em Oeiras, engrossavam uma classe remediada. Os rapazes ainda hoje permanecem ligados ao fado; Pedro, o mais novo, editou o primeiro disco; Hélder é agente de alguns músicos.

O fado, circunscrito à boémia, gozava de má fama. Camané transita para uma juventude inquieta. A voz, em mutação, desampara-o. Não a reconhece. Tem imensa vergonha de dizer que é o fado, essa música imprópria para miúdos, que ele sente inteiramente. Leva uma vida dupla, para que se não saiba que gosta de fado. Depois dos catorze anos, o ar trocista dos amigos, a estranheza que os faz dizer: «Eh pá, parece que estás a cantar fado!» levam a melhor.

Estanca, interrompe, procura-se, perde-se.

«Eu queria ser tudo e não queria ser nada. Andava a fugir daquilo que queria fazer, que era cantar fado. Andava a fugir um bocado. Mas era isso que me motivava a sério. Que me motivava a ler, que me motivava a ouvir música, que me motivava a viver. Foi um processo solitário. Foi sempre um processo solitário. Sempre fiz muito as coisas à minha maneira. Nunca ouvi nada nem ninguém. Os meus pais nunca perceberam bem... Eles queriam o melhor para mim. Que eu fosse uma pessoa feliz, que estivesse bem na vida, essas coisas todas. Mas verdadeiramente a vontade dos meus pais era que eu estudasse e tirasse um curso superior, e depois cantasse.

Então aos 17, 18 anos decidi mesmo cantar. Fui trabalhar para as casas de fado à noite. Foi preciso enfrentar as pessoas, cantar para diferentes pessoas todas as noites, em condições adversas. Por exemplo, cantar para um grupo de cem estrangeiros que fazem barulho... Às vezes conseguia calá-los a cantar, outras vezes não. Nunca tive uma estratégia definida. Aos poucos fui percebendo que podia ambicionar. Mas eu aceito as coisas como elas são. Nunca fui a uma editora pedir para gravar um disco. Admiro imenso as pessoas que fazem isso, mas eu não seria capaz, porque tinha vergonha.

Tive sorte. Tive imensa sorte. Quando estava no Faia, houve um convite para participar em peças de teatro do Filipe La Féria... Eu sabia que não era aquilo que eu queria para a minha vida, mas ajudou-me a perceber como é que podia estar num palco, se era capaz ou não.

E nessa altura conheci a Aldina Duarte. Ela só me ouviu cantar aí uns três meses depois de termos iniciado uma relação. Foi giro! A Aldina ajudou-me bastante a gerir a carreira, a encontrar o caminho. Organizou umas noites de fado na Comuna, onde apareceu o Zé Mário [Branco]. Começámos a falar de um disco que eu gostava que ele produzisse». 

Às vezes, num concerto, ouve a respiração das pessoas. É uma coisa estranhíssima, a que sente, quando ouve o silêncio. Será como ouvir-se na sua cabeça? Fica muito envolvido com as palavras, até que as entenda e as canta como se fossem suas, como se as tivesse escrito. É engraçado, porque tudo parece passar-se dentro da sua cabeça. Nunca canta em casa, nunca canta na rua, nunca canta alto a não ser em cima do palco. 

Pergunto-lhe se tem a consciência de que é bom. E ele responde que quer ser, mas que nunca vai ser... Nunca vai ser o quê?, insisto. O Sinatra? O Marceneiro? Em que é que pensa quando diz que nunca vai ser?

«Nunca vou ser perfeito.»

 

 

Publicado originalmente no DNa em 2003

 

 

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