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Carla Hilário Quevedo

Carla Hilário Quevedo nasceu em Lisboa. É colunista do semanário SOL e do jornal i. É mestre em Estudos Clássicos pela Faculdade de Letras de Lisboa. Publicou recentemente o seu primeiro livro, “As Mulheres que Fizeram Roma”. É autora do blogue Bomba Inteligente.

  

Foram quatro anos em que as pessoas e o país empobreceram, a dívida aumentou, o número de emigrantes chegou quase ao meio milhão, o tecido social se alterou. Mas o impensável não há muitos meses aconteceu e Passos Coelho e Paulo Portas obtiveram mais votos do que Costa. Estes resultados são uma legitimação das políticas dos últimos quatro anos? 

O preço que a coligação pagou pelos anos de governo foi a perda da maioria absoluta. Porém, com a votação conseguida também ficou provado que muita gente aceitou a austeridade como medida inevitável e até necessária. Nunca saberemos se tínhamos alternativas a essa política, mas por outro lado a penúria que vivemos pode ter evitado um mal maior. O caso da Grécia foi um exemplo de como uma proposta disfarçada de alternativa pode levar ao desastre.

 

Foi a coligação que ganhou ou foi o PS que perdeu? Quem ganhou? O Bloco?

Ninguém ganhou nem perdeu completamente. As eleições mostraram que os extremismos tiram proveito das dificuldades vividas em tempos de crise. O Bloco de Esquerda duplicou o número de deputados. E mesmo que não tenha conseguido eleger nenhum deputado, o PNR duplicou o número de votos.

 

Faz sentido o que se ouviu, sobretudo nas redes sociais, vindo da esquerda: que o povo acordou com síndrome de Estocolmo (em que a vítima passa a ter simpatia pelo agressor) ou isto quer dizer que o PS não se renovou e continua a ser lido como o partido de Sócrates e da bancarrota? 

Dizer que o povo padece de Síndrome de Estocolmo é uma estupidez típica das redes sociais e daqueles que pensam que têm toda a razão a toda a hora e não têm dúvidas. O PS vive o mesmo momento difícil que é neste momento vivido por todos os partidos socialistas europeus. Não é o PS que tem de se renovar; é o conceito de socialismo que tem de se actualizar. O que significa um PS mais à esquerda ou mais à direita? Eu não sei. E acho que eles também não.

 

O PS foi o mais fragilizado da noite eleitoral? Dizer o PS é o mesmo que dizer António Costa? O problema principal do PS foi qual?, a campanha, o não se afirmar como alternativa, as fracturas internas, o peso do passado?

O PS não foi capaz de se mostrar aos eleitores como alternativa e as propostas que apresentou na campanha ou o aproximavam de uma esquerda radical ou pouco o distinguiam das propostas da coligação. António Costa acaba por ser a personificação das contradições do PS. Costa, para ganhar à esquerda, inventou-se a si próprio como um líder intransigente, quando afinal o que o levou à liderança foi ser um negociador sensato. Esta confusão teve um preço.  

 

Quais são as grandes qualidades de Passos? E de Portas?

Pedro Passos Coelho e Paulo Portas, depois da famosa crise política de 2013, provaram que podiam partilhar uma governação coerente, com objectivos claros, sem medo da impopularidade. Como candidatos nestas eleições tinham um guião eleitoral do qual nunca se desviaram: “Fizemos o que tínhamos a fazer, a troika foi-se embora, o FMI fechou o escritório e agora vamos abrandar a austeridade, sem deixar de cumprir os compromissos”. Não há ninguém que não perceba isto.  

 

O PS tem a possibilidade de fazer uma maioria estável com a esquerda? Ou instável? E pode fazer um compromisso eventual com a direita sem trair o seu eleitorado?

Trair o eleitorado seria o PS fazer uma coligação com o PCP e o Bloco. O PS prepara-se agora para viver o melhor dos mundos: pode aprovar leis com as quais concorda politicamente e abster-se daquelas que o prejudicam.

 

Qual é o cenário mais provável? Um acordo possível (solução a prazo) até à próxima hecatombe? Novas eleições para quando?

Haver novas eleições não vai depender só da vontade do Partido Socialista, mas da conjuntura económica europeia. Não estou a imaginar o PS a ter de gerir um país no meio de uma crise financeira europeia ou mundial. Por isso digo que está a viver o melhor dos mundos. Pode aproveitar o momento para encontrar uma identidade que o distinga do Bloco e do PCP e da coligação.

 

Este pode ser o começo de uma nova maneira de fazer política?

Pode. Não só para o PS, mas também para a coligação. Os governos minoritários não estão condenados a não cumprir mandatos. Têm é de trabalhar mais.

 

Como é que este novo quadro político vai contaminar as presidenciais?

Penso que não contamina mas clarifica a situação. Pode haver um candidato de esquerda com hipótese de ganhar e também pode haver um candidato à direita com as mesmas hipóteses.

 

A verdade é que a maior parte do eleitorado votou à esquerda. Sinal de quê? A Europa há muito virou à direita, como se sabe. É tempo de redefinição ideológica?

Em qualquer parte do mundo a esquerda e a direita estão em constante redefinição. Portugal é um dos poucos países onde ainda existe um Partido Comunista ortodoxo. Por outro lado, também é um dos poucos países na Europa em que a extrema-direita não está representada no Parlamento. Acho bem que continue assim. Para extremismo, o Bloco de Esquerda é suficiente. Os partidos do chamado “arco da governação” quase só se distinguem pela maneira como pagam as contas e não por conceitos fundamentais, como a liberdade, a democracia ou a propriedade privada. Mais do que uma “redefinição ideológica” tem de haver uma maior preocupação social e sentido de responsabilidade, não só pelos mais desfavorecidos, como pelos sectores mais frágeis da sociedade, como a maioria dos pensionistas, os doentes, velhos e jovens.

 

Quais são os grandes desafios da próxima legislatura? Pagar a dívida, resolver o problema da justiça, dar alento ao quotidiano das pessoas? Outras prioridades?

O mais importante na próxima legislatura será o entendimento e o compromisso entre o PS e a coligação para que, em conjunto, consigam pôr as coisas no seu lugar: reparar os danos sociais provocados pela crise; reforçar a independência da justiça; humanizar a carga fiscal; criar condições para haver emprego, dando prioridade à situação gravíssima das pessoas que estão em situações de desemprego há anos, e não perder tempo a discutir o sexo dos anjos.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em Outubro de 2015

 

 

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