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Carlos Amaral Dias (sobre BES)

Portanto, há um ano o BES era um banco sólido, o único a prescindir dos CoCos disponibilizados pela Troika. Ricardo Salgado era o Dono Disto Tudo, (DDT em versão resumida), eleito repetidamente como o mais poderoso da economia portuguesa nas páginas deste jornal. Eram comentadas em voz baixa as dificuldades no grupo, eram relegados para um plano de tensão familiar os nomes de José Maria Ricciardi ou Pedro Queiroz Pereira. Mesmo Álvaro Sobrinho, e Angola era toda outra peça de teatro, era um antigo delfim.

Como foi possível que tudo isto acontecesse? Ante os nossos olhos, sem que o pudéssemos antecipar? Isto: o fim de um império que parecia tão lustroso quanto o romano. E que ruiu, como aquele. Sem safa.

Fernando Ulrich disse que era bom que um psiquiatra explicasse o que não tem explicação. Talvez quisesse dizer: o que é do domínio do inconsciente, do simbólico, que está do lado do que não se vê. O resto, vemos todos: milhões a irem ao ar, uma fúria incontida, um terramoto que não deixou um pedra no lugar. O psicanalista Carlos Amaral Dias põe-nos outros óculos para compreender este cataclismo.

 

A incredulidade é o sentimento dominante que há em relação ao caso BES (e ao caso PT). Esta sensação deriva sobretudo do poder desmesurado que aquelas pessoas tinham? De a fortuna parecer sólida?

O Banco Privado, o BPN e o BES parece que fazem parte da mesma coisa, mas não fazem. Os Espírito Santo são uma família de banqueiros há muito tempo. Não se pode comparar os parvenu, os chegados há pouco tempo, com aqueles que sempre estiveram lá.

 

É uma diferença tão substancial assim, entre os parvenu e aqueles que estão no negócios há 100 anos?

É uma diferença que reenvia para a graça narcísica. São famílias que foram abençoadas. Receberam, como as famílias aristocráticas, a graça narcísica de serem assim. E de repente estas pessoas…

 

São tão mortais como nós.

De repente as pessoas caem. E quando caem do cavalo, não caem como os outros, caem de outra maneira. Aliás, caem da mesma maneira, mas no nosso imaginário não é assim. Eles correspondem às nossas imagens idealizadas. Se há sítio dentro de nós onde essas figuras estão colocadas, é o do romance familiar. O romance familiar é uma coisa de que Freud falava. Em algum momento da nossa infância, todos imaginamos que os nossos pais não são os nossos pais. São outras pessoas quaisquer, que habitualmente imaginamos com posses, nobres. Os nossos pais são uma espécie de sobreviventes a uma ideia de pais idealizados. Essa fantasia povoa muito a cabeça dos seres humanos. Daqueles que vão aos cabeleireiros e não só.

 

Dos que vão aos cabeleireiros?

As revistas dos cabeleireiros dão vazão a isto. Aquelas páginas, aquelas vidas correspondem a qualquer coisa, a esta idealização.

 

No caso do Banco Português de Negócios, são pessoas que não tinham este passado, e não tendo este passado são mais próximas da realidade. As pessoas da família Espírito Santo, que há bocado localizei no romance familiar, não são desta realidade. Na nossa fantasia são famílias nobres.

 

O facto de os Espírito Santo serem uma família com uma tradição longa, faz com que tudo isto seja mais incrível para nós. Mais incrível do que a gravidade dos eventuais crimes que ali foram praticados?, dos montantes perdidos? É sobretudo a destruição de um conceito, de um mito.

Exactamente. Há quem pense que o que se passa com o BES é mais grave do que aquilo que se passou com o BPN. Não sei se é verdade. Há uma coisa que sei: ninguém dedicou tantas páginas de jornais a descrever os arguidos no caso BPN [como aquelas que se dedicam aos envolvidos no caso BES].

 

Começamos também a fantasiar como é que serão os ricos em casa? Não há a mesma curiosidade em relação a Oliveira e Costa que há em relação a Ricardo Salgado.

É o que estou a dizer.

 

Conseguimos imaginar como será uma discussão de Oliveira e Costa com o seu contabilista. Mas como é que será uma discussão de Ricardo Salgado com o seu contabilista?

É mais fácil imaginar a de Oliveira e Costa. Oliveira e Costa é um produto, dizem, (todas as generalizações podem ser perigosas), um filho do cavaquismo. Era uma figura que conhecíamos como secretário de Estado. Depois montou um banco. Vi uma fotografia dele, publicada num jornal sério, um jornal que faz opinião, em que estava com o filho a comprar peixe no Algarve. Isto era uma notícia de jornal, porquê? Não imaginamos ninguém a pôr Ricardo Salgado a comprar peixe.

 

Seria uma coisa exótica.

Sim. No caso de Oliveira e Costa era uma coisa banal.

 

Vamos voltar ao momento em que as pessoas caem do cavalo. O estardalhaço que provocam é diferente. Além do crime, em termos de percepção pública, o que é que faz as pessoas cair?

Em primeiro lugar é o lugar onde a ferida narcísica está colocada. O nível, o tamanho, o que é que foi apanhado. No caso dos Espírito Santo não é uma pessoa, no caso do Oliveira e Costa é uma pessoa. No caso Espírito Santo é uma pessoa e toda a família nos seus vários ramos. Não quero ser cáustico, e não quero que seja mal entendido o que vou dizer, mas é como o desaparecimento da família real depois da tomada da Bastilha. Quando cai uma família não cai apenas uma pessoa, cai uma pessoa e caem os possíveis herdeiros do nome dessa pessoa.

 

É preciso mais do que uma geração para recuperar a honra de um nome?

Não sei se não pode ficar um nome maldito... (Um amigo meu, psicanalista francês, disse-me: “Só mesmo vocês para terem um banco chamado Espírito Santo” [risos].

 

Dinheiro abençoado.

Era um nome fantástico para um banco. Também em termos da nossa visão do nome e da família, tudo isto é uma coisa já abençoada.)

 

Como é que não tinha eclodido ainda este ódio entre ricos e pobres? Nós, os pobres, a olhar para os então ricos, Espírito Santo... A zanga, a cobiça, a inveja. Todos esses sentimentos foram calcados. Até que agora, assim como um génio que sai da lâmpada, vem tudo ao mesmo tempo.

Como é que pensa que foi com Luís XVI? Os franceses, durante muito tempo, deram-se bem com o sistema. O caminho [da revolução] é feito devagar.

[No caso do BES], diz-se que havia sinais que seriam fáceis de detectar para algumas pessoas. Diz-se que o próprio Banco de Portugal tinha dados. Uma situação como esta pode despertar uma figura de recusa. Recusamo-nos a admitir que aquilo pode mesmo ser verdade. Repare, quando foi da zanga entre o Ricardo e o Ricciardi, nunca imaginámos que fosse por questões deste tipo [financeiras]. Eram questões de poder.

 

Uma coisa é o drama familiar e a disputa pelo poder, outra coisa é a ruptura financeira e os eventuais crimes praticados. Se estamos todos incrédulos com isto, e também com a rapidez com que esta deflagração aconteceu, consegue imaginar como é que o próprio Ricardo Salgado está? Ele imaginava que isto lhe podia acontecer?

Não. Aquela ideia que se tinha sobre ele, de ser o “dono disto tudo”…

 

Ou o Papa. Eram os dois cognomes.

Ora, o que é que se acha do Papa?

 

Que é infalível, e mais poderoso que tudo.

Exactamente. Ao mesmo tempo não se pensa que o Papa, excepto no filme O Padrinho, possa ser devasso e corrupto. Havia os Bórgia, mas foi lá para trás.

 

O Ricardo Salgado achava de si próprio que era o “dono disto tudo”?

Sim, e que por isso mesmo estava a coberto de qualquer coisa. E nós criámos em relação a este caso uma figura de recusa. Esta relação entre o meio [financeiro/a sociedade] e ele é da ordem do imaginário. A imagem reflectida no espelho é aquela que as pessoas lhe devolvem.

 

E a ideia que temos de nós está completamente investida da imagem que aparece reflectida no espelho.

Sim. Nós começamos por saber que somos nós a partir do olhar que nos deitam os pais. Essa é a primeira identificação.

Nós, a comunidade, éramos também o espelho do Ricardo.

Já revi tudo para trás e para a frente, e não temos mais nenhuma família com esta dimensão. Nem a família real portuguesa. A queda de Salgado, a queda dos Espírito Santo, foi, em termos de realeza, o acontecimento mais importante em Portugal depois da morte do D. Carlos.

 

As características físicas de Salgado, dos Espírito Santo importam? Aquele olho azul, a pinta aristocrática cultivada há várias gerações, parece superficial mas…

Ajuda.

 

Não têm ar de pobre, não há vestígios de mãos calejadas.

Não. Veja os nossos ricos, os Amorim: não têm esse lado [aristocrático]. O Amorim pode ser o nosso vizinho. Mesmo agora, que é o homem mais rico de Portugal, não lhe atribuímos essa aura. Esta atribuição é do imaginário [colectivo]. O imaginário devolve à pessoa essa imagem. Sendo que é uma identificação alienada, é o outro/o espelho que está a dizer: “Isto sou eu”. Então, como libertar-me daquilo que a imagem me devolve? Criou-se uma situação em que a verdade sobre ele próprio ficou completamente alienada. Ela só veio agora ao de cima porque o espelho partiu.

 

Partiu deveras?

Não penso que o Ricardo tenha ficado destruído só pela situação [de ruína financeira]. É também pela perda [da imagem], pelo espelho partido.

 

Pelo dano reputacional. Por deixar de se poder rever nessa imagem de “dono disto tudo” que durante anos apareceu reflectida no espelho?

Sim. O espelho partido é a pior coisa que pode acontecer. O Ricardo deve ter esse sentimento neste momento.

 

Ninguém ousaria há uns meses dizer mal de Ricardo Salgado, e pouco depois, quem é que poderia dizer bem de Ricardo Salgado? A volatilidade deste poder é uma coisa surpreendente para Salgado?

É. Este lugar é um lugar que o prendeu no pior sentido do termo. “Estive neste lugar, posso tudo, nada me é estranho em termos de poder”. Quando vemos a quantidade enorme de coisas em que aquela família estava metida, é mesmo caso para dizer que podiam tudo.

 

Quando as pessoas estão habituadas a ter poder, e têm mais e mais poder, é muito difícil manter uma relação com a realidade, manter os pés no chão, e perceber que há coisas que não se pode ter.

Há coisas que as pessoas não perceberão. Em Marrocos, na Tunísia, até há pouco tempo perguntava-se: “Quantos camelos custa uma noiva?, quantos camelos queres pela tua filha?”. Por que é que essas perguntas nos chocam? Porque sabemos que há coisas que não têm preço. Mas há pessoas que pensam que não é assim. Quantos camelos vale uma noiva, quantos camelos vale uma filha? Há pessoas que pensam que há uma resposta para isto.

 

Mas não é normal que as pessoas pensem assim se a vida toda acreditaram que tudo lhes era permitido, que podiam ter tudo?

Com certeza. Essa é uma dimensão mais omnipotente, que tem a ver com a maneira como fomos educados, mas também com a maneira como fomos mal educados. Não no sentido de ter modos. Mal educados porque não fomos criados nem crescemos com algum suporte da realidade.

 

Ocorreu-me agora o que a família viveu há 40 anos, no pós-revolução. Foi um grande abalo, mas não teve nada que ver com isto.

Foram postos, sem poder, fora Portugal. Mas não perderem nunca a imagem, nem sequer as relações ligadas à imagem. Mesmo lá fora mantiveram toda uma rede de contactos com pessoas ligadas às finanças. Nunca deixaram de fazer parte da família, estes contactos.

 

Outra diferença: o contexto do país. Não eram a única família a passar pelo que passaram.

Sim.

 

O que não havia em 75 era a vergonha, é isso?

Sim. E acha isso assim tão pouco?

 

Não. Estou apenas a marcar de uma forma nítida o contraste entre uma situação e outra.

Isso é importante. Há algum afecto mais narcísico do que a vergonha? Não há. Freud diz que há três sonhos, cada um de nós tem pelo menos um, e pelo menos uma vez. O sonho dos exames, em que voltaria a um estado em que estava a ser examinado, e tinha medo de não corresponder àquilo que pediam. O sonho de “o rei vai nu”.

 

Quer dizer, alguém ver que não valemos o que achamos que valemos?

Exactamente. E o sonho de voar. Ora, o sonho de “o rei vai nu” é aquele que nos envia para o narcisismo. Agora, despido, quem sou eu? Enquanto que o primeiro sonho é o sonho do super-eu, da autoridade, que dentro de nós nos continua a julgar, neste sonho estamos nus. E quando dizemos que ficou posto a nu, estamos a dizer que qualquer coisa que não poderia ser vista, foi vista. Tem sempre a ver com o narcisismo. Quando fala da vergonha está a falar do afecto mais primário (em conjunto com a humilhação).

 

A vergonha, a humilhação: vão logo dar à rejeição.

Há dois tipos de vergonha, a primária e a secundária. A vergonha mais secundária é as pessoas saberem qualquer coisa da nossa vida íntima, que só a nós diz respeito. A vergonha primária está muito naquela frase portuguesa: “Se houvesse um buraco no chão, metia-me lá”.

 

Onde é que entra um sentimento de ter sido injustiçado, ter sido traído? Estou a pensar em Ricardo Salgado. As traições, as perseguições, as injustiças. A noção de ter feito o que outros fizeram, mas ter sido apanhado. Como é que isto ajuda a pessoa a viver com ela própria e com uma situação tão desmesurada quanto esta?

É muito difícil. Vamos imaginar que eu era banqueiro, que me tinha acontecido isto: eu não pintava a minha cara de preto, eu ia-me embora. “Ia-me embora” não é assim tão distante do suicídio. Se agarrar em mim e for viver para a Guatemala, onde ninguém sabe quem é o Ricardo, eu morri. Morri no espelho, não está lá ninguém. Era o que eu faria. Apesar de tudo ainda tenho algum amor à vida.

 

Surpreende-o que não haja sangue?

Por enquanto.

 

Apesar de serem coisas diferentes, dois filhos de Madoff suicidaram-se. No Japão acontece com alguma frequência o suicídio entre líderes de empresas caídos em desgraça.

O suicídio poderá acontecer. Aquilo que estou a propor é até uma medida de prevenção do suicídio. “Não pense em suicidar-se, pense em ir-se embora”.

 

Neste caso, há ainda um ingrediente adicional: tudo isto se passa dentro de uma família, onde as coisas têm uma dimensão mais dramática.

Ser uma família complica muito. É uma família como eram os Stuarts em Inglaterra. Quando morre desta maneira um rei, ou uma rainha, a família desaparece.

 

José Maria Ricciardi imaginava que ia também na enxurrada?

Não.

 

E Salgado?

Pelo que ouvi dizer, o Ricardo pensou até ao último minuto que ainda podia salvar as coisas. E aí, mais uma vez, há uma recusa. Há uma recusa nossa de imaginar que isto pode acontecer. E há uma recusa dele. Depois de ficarmos estupefactos, voltamos à realidade e começamos a destruir dentro de nós, camada a camada, todas as camadas da família. Hoje já não estamos no período da negação, estamos no período em que sabemos que isto é assim. Penso que o Ricardo deve ter convencido os “contabilistas” que o rodeavam de que ia resolver a situação.

 

Há uma pessoa de que não falámos ainda, Pedro Queiroz Pereira. Tanto quanto se sabe, entregou no Banco de Portugal, um ano antes, um dossier com informação detalhada das irregularidades que estariam sendo praticadas no grupo. Não acha extraordinário que estas disputas (via Pedro Queiroz Pereira, via José Maria Ricciardi) sejam intra-grupo, intra-família?

Não. Isso é o mais normal nas famílias com o tal poder narcísico. A pergunta de César: “Também tu, Brutus?”. O amor que apesar de tudo está presente aqui...

 

Do Brutus para o César?

Sim. “Eu quero o teu poder, isto não é nada contra ti”. Como na Máfia. As pessoas faziam parte da mesma família. Puxam da pistola e dizem: “Isto não é pessoal, são negócios”. O Brutus amava César quando o matou.

 

Portanto, aquela imagem do traidor hediondo…

Não é o traidor... É o que quer estar no lugar do outro.

 

Isso não é traição?, essa usurpação do poder do outro?

Não é o outro que se quer destruir. O que se quer é ficar com o poder do outro. Aquelas pessoas são capazes de fazer uma clivagem entre o outro e o poder do outro. Este outro é morto por causa do poder. Mas não é ele. É ele como sítio onde eu não posso chegar ao poder.

 

Ricciardi queria o poder. Mais do que tudo, era uma disputa pelo poder e pela sucessão?

Sim. Se fosse só um problema de dinheiro... É um problema de poder. Será que Brutus teria uma vida miserável enquanto protegido de César?

 

É uma forma de dizer: “Eu tenho mais poder do que tu”. Ou então, no exercício infantil masculino: “A minha pilinha é maior do que a tua”.

Exacto. Que não é só masculino. A representação grega do phallus é muito engraçada, tem duas asas na parte final.

 

Vi isso nos despojos de Pompeia (frescos, esculturas, objectos). Era como se fosse um super phallus, em pose priápica, e muitos deles com asas e guizos.

Acho muito engraçado. O poder dá-nos asas? Se calhar dá-nos asas para fora do território onde devemos ter os pés assentes, na terra. Não há coisa que mais cure as pessoas do que o poder.

 

Como assim?

Vamos imaginar uma pessoa que tem uma estrutura obsessiva. Esta pessoa que acredita nas virtudes sem as contestar, que acredita na honestidade, no método, não percebeu que isso são apenas aspectos reactivos da sua personalidade. Se consegue fazer isso tudo e se o espelho devolve isso tudo, pensa que é perfeito. Nunca procuraria um analista. Se tenho tudo aquilo que penso que são as virtudes, para que é que preciso de ser tratado? Estas pessoas são curadas no seu imaginário. O poder cura no imaginário.

 

Na prática, chegaram lá.

No espelho (que são os outros) somos vistos de uma maneira que nunca nos põe nenhum defeito.

 

Então o poder cura. Também se pode dizer que o poder cega. As pessoas perdem a noção.

O poder cega precisamente porque cura. Cega-nos perante o espelho. Quer coisa onde haja mais cegueira do que perante o espelho?

 

Há um ofuscamento.

Se não houvesse a Branca de Neve, a Rainha continuava presa no espelho a dizer: “Espelho meu, espelho meu, há alguém mais bonita do que eu?”. E o espelho diria: “Não”. Qual era a forma que ela tinha de continuar a ser a mais bonita? Era fazer desaparecer aquilo que lhe tirava esse lugar de mais bonita. A partir de um certo momento da história do narcisismo é preciso algumas mortes – para podermos chegar lá. E aí entendo que essas mortes podem ter várias formas. Como “mato-te entregando-te”. Entregando-te por um crime que cometeste mas que eu e tu sabemos que cometeste em nome de qualquer coisa que eu e tu acreditamos que vale a pena.

A Branca de Neve nunca podia deixar de ser aquela que ganha. A Branca de Neve é aquela que, apesar da bruxa, tem acesso ao espelho. Para isso é preciso que não se coma a maçã, que o espelho já não devolva a imagem. É o que se passa com esta família. De repente, o espelho deixou de os ver assim. Eles, de certa maneira, morreram como imagem.

 

Simbolicamente, isso aconteceu quando foram buscar Ricardo Salgado a casa para prestas declarações? Foi uma espécie de humilhação pública, de machadada final?

Esse foi um momento que nos deixou a todos atónitos.

 

E a perguntar: “Era preciso aquilo, porquê aquilo?”.

Exacto.

 

Tanto quanto se sabe Ricardo Salgado dispôs-se a ir, voluntariamente, prestar declarações. Era um exercício de poder? Neste caso, o judicial.

O poder judicial implica uma lei. E implica que eu possa ser preso, ou julgado, em nome de uma lei. Podemos estar fora da lei porque estamos abaixo da lei ou porque estamos acima da lei, mas não estamos na lei. O sítio onde a lei existe já é um princípio de qualquer coisa. No totalitarismo, o espelho dos ditadores, e da ditadura, é quebrado no momento em que as pessoas passam a ser sujeitas a um tribunal comum. Os tribunais foram feitos para nós e para aqueles que têm que ser julgados. Alguma vez Luís XVI imaginou que o sol dele acabava dentro de umas prisões? Alguma vez essas pessoas se imaginaram a ser julgadas?

 

Do ponto de vista simbólico, em Portugal, aquela detenção para interrogatório quis dizer qualquer coisa. Alguém que julgávamos acima da lei passou a caber naquela porta.

Sim.

 

E se é aquele, podem ser todos.

Exacto. Será que de facto conseguimos que os ideais da democracia sejam cumpridos?

 

Entre Ricardo Salgado e Ricciardi, quem é que acha que, aos olhos da opinião pública, é mais vilipendiado?

Na aparência, o Ricardo. Não acha interessante, em termos de fenómeno mediático, a fixação da imagem do Ricardo como uma esfinge? De jornal para jornal, de notícia para notícia, é sempre aquela cara invisível, e ao mesmo tempo com aquela imagem do banqueiro.

 

É como se fosse uma imagem de uma moeda, distante, com um recorte fixado.

É isso.

 

Não falámos ainda de duas pessoas que tinham um poder imenso e que caíram também, Henrique Granadeiro e Zeinal Bava. A queda da PT, tão rápida, é outra surpresa, subsidiária da queda do BES. Granadeiro tem relação com a família Espírito Santo desde que era um jovem estudante universitário. Recentemente, no jornal Público, dizia-se que nos anos mais recentes as grandes decisões eram tomadas pelo Banco Espírito Santo. Sabia-se que a palavra de Ricardo Salgado era determinante, por exemplo, para a nomeação da administração da PT. À luz disto, e contando com o muito que não sabemos, a que o próprio Granadeiro aludiu na sua carta de demissão, parece-lhe que o presidente da PT podia ter feito outra coisa que não o investimento dos 900 milhões?

São figuras que não podem pôr no mesmo firmamento. A Ursa Menor é a Ursa Menor, a Ursa Maior é a Ursa Maior. E depois ainda há aquelas estrelas que não brilham. O Granadeiro, as relações de Granadeiro com a família vêm de quando era novo. Ele dependeu um bocadinho da magnanimidade dos Espírito Santo.

 

Mas Granadeiro não é um peão menor. A sua vida profissional foi muito estimada. Sobretudo depois da vitória sobre a OPA da Sonae, foi olhado como um grande gestor, alguém com existência própria, e não como uma criatura subsidiária do BES. Se assumirmos como boa, – e não sabemos se as coisas foram exactamente assim – a ideia de que foi o principal responsável por um empréstimo avultado à Rio Forte, isto diz-nos das características psicológicas de Granadeiro, da sua gratidão?

E indo por esse lado, com o qual estou de acordo, não acha que isto prova que há uma gratidão que nunca se paga? Até que ponto há uma espécie de cegueira que tem a ver com uma dívida de gratidão? De que maneira é que isto funciona? O grande problema da nossa vida é que Chronos devora-nos o tempo, mas nunca vi escrito em lado nenhum que Kairós [filho de Chronos, deus do tempo], conseguisse comer as recordações.

 

A memória está sempre lá.

Sim. E numa área que não é cronológica, que é uma área kairológica (isto é, de tempo inconsciente), o que Henrique Granadeiro “devia” à família, dentro dele, é num tempo de ontem. Se não fosse desse tempo de ontem, será que emprestaria dinheiro à Rio Forte?

 

Como é que vê o governador do Banco de Portugal no meio disto tudo?

Faz parte daquelas figuras de recusa que não quiseram saber. Ele não quis assumir a posição interior de que isto é mesmo assim. Se foi difícil para nós… porque foi. Ainda estou para conhecer alguém que me diga: “Eu contava com isto”. Quando conhecer essa pessoa gostava de lhe dar os parabéns: está num lugar em que mais ninguém está.

 

Não esqueçamos que numa primeira fase, e foi um processo voraz, era uma luta familiar pelo poder. Depois começou a haver notícia de irregularidades e problemas relacionados com Angola.

A primeira vez que [a crise do grupo] apareceu com alguma intensidade foi aquando do buraco em Angola. Para onde é que tinham ido aqueles milhões? Parecia que as notas tinham asas. Uma pessoa chegava ao fim da notícia e não percebia para onde tinham ido as notas. Isto correspondia à parte final da vida do Ricardo, quando o Ricardo tenta resolver as coisas. Um bocadinho como o fim dos impérios.

 

Então começaram a circular narrativas, ficções (umas mais ficcionadas que outras), de que havia medidas de segurança severas envolvendo alguns dos protagonistas da história. Que tinham guarda-costas treinados pela Mossad, escritórios duplicados, viagens triplicadas, coisas que parecem de um filme de espionagem. Coisas que não estamos à espera que aconteçam em Lisboa.

Claro. Acha que essas histórias sobre a presença de uma polícia quase igual à polícia secreta israelita faz algum sentido? Não faz sentido.

 

Fernando Ulrich disse no começo deste terramoto que era bom que viesse um psiquiatra explicar isto, porque era tão inimaginável que não se entendia.

Li e ele tinha razão, como se prova [risos]. Coisas tão básicas da humanidade..., de repente elas assaltam-nos quando menos esperamos.

 

Essas coisas básicas têm que ver com narcisismo, com a imagem reflectida no espelho, a fractura desse espelho?

Com a posição fálica, que é a posição do poder. O phallus não é masculino nem é feminino, é uma ideia de poder. O phallus também é o deus menor que protegia as pessoas do roubo. Não é uma coisa fantástica? Na Grécia, quando se ia de férias, – não sei se seria como agora vamos, os 30 dias – punha-se um falo à porta e os ladrões não se sentiam muito à vontade para entrar.

Quando se tem um phallus tão grande, tão grande, com 100 anos de existência, e sempre priápico, acha que se esperaria que o phallus nos deixasse de proteger? É difícil. Mas há sempre um momento em que já não há phallus. E a história é outra.

 

 Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2014

 

 

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