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Carlos Moreira da Silva

Estamos sentados numa mesa exígua e surpreende-me que os seus olhos sejam azuis. Ele diz que são acinzentados. Quando eu o conheci, ele passava por figura possante, vagamente abrutalhada, capaz da maior carnificina. E essas figuras, na cabeça de uma menina que não tinha nem 20 anos, nunca têm olhos azuis.

Conheci Carlos Moreira da Silva quando integrei os quadros da Rádio Nova, da qual ele se despedia como administrador. Coincidimos num jantar de Natal e, mesmo fora, a sua fama perdurou pelos corredores durante muito tempo. O facto só é relevante por indicar que há 15 anos ele já era tudo o que é hoje. Ainda os olhos: “Os meus pais deram-me uma vez no natal um álbum de fotografias que dizia respeito às várias fases da minha vida”. O que não mudou? “Os olhos são muito estáveis. Os olhos e a boca”. Como se perceberá no fim da entrevista, ele já era o que é hoje quando era um menino. Sanguíneo, vaidoso, determinado. E, estranhamente, ou talvez não, tímido, inseguro, conhecedor dos seus medos e limites.

É um corredor. No sentido literal e no sentido metafórico do termo. É um corredor que gosta de correr e que precisa de correr. Como se a vida, e a fúria, e o ímpeto, arrisco eu, não lhe coubessem no corpo e ele precisasse de os expelir junto com o suor. Corre de madrugada e invento que delineia os dias nessas horas solitárias. Evita os caminhos cujos riscos não pode controlar, cujas regras desconhece.

Corre desde sempre. Atrás do dinheiro, do dinheiro, do dinheiro. E também atrás do frémito da vitória. Trabalhador infatigável, Carlos Moreira da Silva é um gestor de sucesso. Fez carreira na Sonae, discípulo de Belmiro de Azevedo. Antes, estudou engenharia mecânica, deu aulas na faculdade, trabalhou com Valente de Oliveira numa comissão regional formada no pós-Revolução. Mas foi o doutoramento em Inglaterra e a entrada no mundo das empresas (primeira na EDP, em 86, depois na Sonae, em 88) que mudaram a sua vida. Mudaram-na de um modo tão determinante que parece que o que aconteceu antes não conta, ou não existe mesmo. Aposto em como não se lembra de uma matéria estudada na faculdade..., de tal modo está longínquo o tempo em que escolheu o curso por gostar de corridas de automóveis.

Este homem nasceu para ser o mais velho dos irmãos, cioso dos seus privilégios. Vive entre o desejo de liberdade e o pânico de a ter e não saber o que fazer com ela. 

Revitalizou a Barbosa & Almeida, da qual é presidente e na qual investiu o trabalho de uma vida. É casado pela terceira vez, tem três filhos. Vive entre o Porto e Lisboa e continua a ser, em muitos aspectos, um homem do Porto. Nas expressões que usa, no ligeiro sotaque, no modo como se ri. Há coisas que não mudam mesmo quando se resolve grandemente o problema do dinheiro. Daqui a dias vai fazer 54 anos. Má sorte: estará em Madrid, e nem o filho, que aí vive, poderá estar com ele. Quando lhe pergunto que presente gostaria de receber... não revela!

Na entrevista, revela mais do que eu poderia supor, depois de uma boa hora em que se esperneou na cadeira e se escapuliu como pôde. Por fim, gostámos de nos rever. Passaram mais de dez anos, entretanto...

 

Estava a dizer que nem por fora é o mesmo? O que é que mudou na sua vida desde a última vez que nos vimos?

Tenho pela mudança um fascínio. Às vezes pergunto-me se não estou a mudar só por mudar... É um estímulo de aperfeiçoamento permanente, e não me causa ansiedade. Para mim é um grande desafio. Capacidade de aprender, ainda tenho.

 

Parece mais apaziguado. Sente-se bem consigo?

Sinto. Mas sentia-me bem antes, também. Vou dizer-lhe uma frase feita, (e que peca por isso mesmo...), que reflecte a minha atitude perante a vida: “Eu gosto do que como”.

 

É tão nortenha, essa frase! Não imagino um lisboeta a dizer uma coisa dessas.

Há pessoas que têm o privilégio de comer só do que gostam.

 

Vamos, então, às suas raízes. Nasceu no Porto e é o mais velho de uma família de muitos irmãos.

Dez. Garante uma grande diversidade em casa... A juventude foi marcada por alguma agressividade em relação aos pais: dificuldade em sintonizar. Chumbei por faltas no terceiro ano do liceu, fui para um colégio interno, fui trabalhar...

 

Conte-me isso devagar, que parece suculento...

Eu era um aluno medíocre. Nas férias da Páscoa, chumbei por faltas. Por jogar ao bilhar e futebol - coisas bem mais interessantes [do que estudar]... E tive sete negativas em nove disciplinas. O meu pai pôs-me a trabalhar numa fábrica de um tio meu, de curtumes. Trabalhei desde a Páscoa até ao dia 30 de Setembro. Não houve terceiro período nem férias. Tinha 12 anos.

 

O seu pai estava disposto a levar o castigo até onde fosse preciso.

Como se viu. Ao sábado, trabalhava-se até ao meio-dia, nas fábricas, e eu pegava no dinheiro que recebia, 13 escudos, chegava a casa e dava-o ao meu pai. Ele devolveu-mo, um tempo mais tarde. Quando achei que tinha acabado o castigo é que foi violento: fui para um colégio interno, em Oliveira de Azeméis.

 

O que é que fazia o seu pai?
Arquitecto. Tive uma educação muito rígida, que não funcionou mal. Já com 13, 14 anos, eu queria ter autorização para sair todos os dias do colégio, dar uma voltinha..., e comecei a ter boas notas.

 

O que é que o fez zangar-se tanto com os seus pais e com mundo? Essa zanga manifestou-se sob a forma de más notas. Este não é um daqueles quadros de famílias numerosas e carenciadas, em que é comum o desaproveitamento escolar.

Não é assim. Uma família de dez filhos é sempre uma família com dificuldades. Há restrições que eu, se calhar por egoísmo, dificilmente aceitava. Gostava de ter mais dinheiro, que não tinha... O ter más notas, não é de revolta. O ser madraço, não foi uma atitude deliberada. Foi facilitismo e pouco trabalho. Os meus pais são muito católicos...

 

Facto que parece indissociável de ter tantos filhos... Exactamente. Fui educado catolicamente e comecei a divergir cedo, aos 15 anos; até que assumi a ruptura e uma tensão grande com os meus pais. Fiz exercícios de introspecção de modo muito obcecado. Quando rompi com o catolicismo, aos 18, 19, 20 anos, fi-los à procura de referências.

 

Isto é psicanálise de trazer por casa, mas estava a pensar na relação forte e tensa e longa que teve com a Sonae e com o engenheiro Belmiro de Azevedo. É possível estabelecer um paralelismo entre esta e aquela que manteve com o seu pai?

Acho que não. Até porque o meu pai é um artista. Nunca tive com o meu pai uma relação de aconselhamento [em relação à vida]. Rompi com a religião e tínhamos ali uma barreira de comunicação. E a vida dele nunca teve nada a ver com a minha. Antes do Engenheiro Belmiro: há uma outra pessoa, em calendários diferentes e com profundidades diferentes, que me influenciou muitíssimo, o engenheiro Valente de Oliveira. Foi a primeira pessoa com quem trabalhei, na Comissão de Planeamento da Região Norte. Eu era um dos rouba-lápis que por lá andavam, recém-formado, 23 anos.

 

O seu pai e o Engenheiro Belmiro têm em comum uma austeridade e um grau de exigência acima da média. E são inflexíveis. Isso surte bom efeito em si. Esta metodologia destaca o melhor que tem.

O que me faz destacar-me é o desafio e a dificuldade. Eu sou melhor do que eu quando as coisas são impossíveis. Ultrapasso-me quando a tensão é muita, quando a dificuldade é muita. Transcendo-me. Faço-o com muito gozo.

 

Está bem, guarda-se a relação com o Engenheiro Belmiro para mais tarde. Há pouco, quando falou das boas notas, disse que as perseguiu porque queria coisas tão prosaicas quanto sair do colégio às sete e meia da tarde. Mas não falou de brio.

Nunca pensei muito nisso, mas não tenho a certeza que sejam totalmente coincidentes os meus valores pessoais e os profissionais. Mas há duas coisas que são essenciais: transparência e rigor. [pausa] Estamos às voltas...

 

É normal. As boas conversas são sempre circulares, elípticas.

Eu costumo preparar-me [para as entrevistas] e para esta tentei e não sabia...

 

Ainda bem. Ou confia em mim...

Eu isso... nem em mim [confio], às vezes.

 

Isto é muito claro nestas entrevistas: ou tem vontade de se dar a conhecer, e isto passa a ser um jogo de entrega e confiança, ou então resulta num retrato profissional, igual a todos os outros.

Eu não gosto muito de abrir a porta toda.

 

É sempre o entrevistado que diz até onde é que quer a porta entreaberta. O meu propósito não é devassar o outro, mas conhecê-lo. Saber porque é que é o presidente da Barbosa&Almeida e não é, por exemplo, padeiro.

Não podia ser... Já lhe disse que gosto do que como. As oportunidades aparecem e eu agarro-as. Em 1998, não tinha ideia nenhuma que o centro da minha vida profissional pudesse ser aquele que é hoje. Foi uma oportunidade.


Ainda lá trás: qual é a memória mais antiga que tem de si?

Lembro-me de gatinhar. Mas às tantas uma pessoa não sabe se foi das fotografias que viu, se é uma memória induzida. Lembro-me vagamente da casa, uma casa grande.

 

Quando eu era pequena, vivia perto de mim uma família que tinha dez filhas, só raparigas. Uma delas contava que não havia sapatos da Lígia ou da Albertina. Os sapatos eram de todas as que calçavam aquele número. E a primeira que acordasse, escolhia entre sapatos disponíveis.

Isso dá uma capacidade competitiva... Nunca tive esse sofrimento, porque era o mais velho.

 

Era temido pelos mais novos?

Ah, pois.

 

Diz isso vangloriando-se!

Sempre tive algum ascendente, mas foi de curta duração. Hoje não existe nenhum. Admito que o mais velho tem privilégios que os outros não têm. A minha mãe é que tinha o comando da casa. Dez dentro de casa? Quem chega ao fim do dia, racha lenha. Ela tinha pulso, era mais empreendedora, mais criativa.

 

Tem memórias dela a afagá-lo, a mimá-lo?

Sim, sim. Ainda hoje. Mas sou um bocadinho arisco...

 

Nota-se. Não é só por se esquivar. Essa é a imagem imediata que se tem: masculino, impositivo, suficientemente seguro de si para ser como é, sem se preocupar muito com a impressão que causa.

Sim, não me preocupa muito. O ser arisco é uma autodefesa. De timidez.

 

Explique-me isso.

Não tenho muito para explicar, é o que sinto. Sou muito mais tímido do que pareço. Em ambientes com muitos graus de liberdade, não estou peixe na água.

 

Precisa de conhecer as balizas, de outro modo sente-se perdido. É o que isso quer dizer?

Se tiver a oportunidade, sou capaz de dizer como é que se joga o jogo. Mas tenho que fazer um esforço para conseguir entrar num jogo jogado por outros.

 

Quando não domina as regras...

Não é quando não domino: é quando não conheço as regras, ou elas são menos rígidas.

Isso revela uma inesperada insegurança, que é o oposto do que se espera de si.

Mas todos nós temos essas coisas.

 

Olhamos para si e é mais fácil pensar que é vaidoso do que é inseguro.

Inseguro talvez não seja. Há situações em que sou inseguro. Dois exemplos: quando saí do tribunal de Sintra, com um mandato para tomar conta da TVI, telefonei a dizer que ia. Não conhecia uma pessoa lá dentro, era um ambiente hostil e não tive insegurança nenhuma. A mesma coisa quando fizemos uma OPA hostil em Espanha.

 

É incrível: fala nesses casos e fica com um olhar de lince...

As coisas são para fazer, fazem-se. Não se fica a meio.  


Do que é que pode ter medo? O que é que o pode intimidar?

Coisas tão ridículas como cães. Gosto muito de correr. E corro porque tenho que correr. Além de gostar, tenho que.

 

Isso também se comentava nos meus tempos de Rádio Nova, quando era administrador da empresa: que se levantava às cinco da manhã para correr.

Cinco e meia. Continua igual. Mas só corro em sítios onde sei que não há cães. Sítios com cães fico descompensado. E nunca fui mordido...

 

Uma fobia é um medo simbólico. Esconde outros medos.

Admito que sim. Nunca estive na guerra. Se estivesse numa guerra em que não acreditasse, não sei se o dever seria suficiente para me estimular a ultrapassar o medo. Se calhar não.

 

Devo aplaudir esta confissão. Está a dizer que não tem uma grande coragem física, que é uma coisa que muitos homens evitariam dizer.

Não tenho grande coragem física.


Estudou Engenharia Mecânica. Que vida apontava para si?

Comecei a trabalhar com 16 anos por uma coisa que é muito nobre e que não fica mal a ninguém: a minha semanada não era suficiente. Tinha que dar das botas e arranjar o que fazer. Comecei a trabalhar numa editora, a Civilização, das duas às sete da tarde, e ganhava 30 vezes a minha semanada. Escrevia cartas à máquina.

 

Foi acidentalmente que estudou Engenharia Mecânica?

Tive grandes indecisões entre o Direito, a Economia e a Engenharia. Escolhi Engenharia Mecânica porque gostava muito dos automóveis, das corridas... E a Engenharia Mecânica, em Portugal, de automóveis não tem nada. Foi logo a seguir que comecei a escrever no Jornal de Notícias sobre automóveis. Permitia-me escrever sobre uma coisa de que gostava e permitia-me viajar.

 

Viajou pela primeira vez?

Não, viajei ainda com os meus pais, aos 14 anos. Foi nessa altura que o meu pai me deu o dinheiro que eu tinha ganho.

 

E viajaram quantos filhos?
Só eu. O meu pai foi para um congresso de arquitectura, uma coisa qualquer, em Itália. Do que me lembro é de Bolonha e Florença. Antes disso, fiz uma semana na Serra da Estrela, sem os meus pais, com o colégio; e fui ao sul de Espanha, também numa viagem dessas.

 

Nunca exerceu engenharia mecânica. O seu propósito era mandar? É evidente que não nasceu para ser submisso...

Não. Mas isso não quer dizer que tenha que mandar.

 

O que é que procurava? Dinheiro, poder, influência?

Dinheiro, seguramente. O dinheiro não dá felicidade, mas a falta dele dá infelicidade. Nunca tive muito dinheiro. Fui assistente da faculdade muito tempo, doutorei-me com uma bolsa miserável.

 

Miserável? Normalmente as bolsas eram confortáveis. Permitiam levar mulher e filho.

Eu não levei nem mulher nem filho. Nessa altura já tinha dois filhos. Tinha o ordenado e a bolsa, ficava o ordenado cá e levava a bolsa – 152 libras.

 

Doutorou-se em Inglaterra, em 82. O âmbito da sua tese é o da gestão empresarial. O mestrado, fê-lo em 78.

Aí tem uma grande influência o engenheiro Valente Oliveira, que foi para mim um grande mestre. Quando me formei fui convidado para [professor] assistente em Investigação Operacional; são métodos quantitativos, de análise. Foi com base nesses conhecimentos que fui trabalhar para a Comissão de Planeamento. Imediatamente após o 25 de Abril eram os centros de saúde, as estradas, o conjunto de infra-estruturas que se estavam a desenhar. Eu tinha 23 e achei que era o máximo!

 

Era o máximo Valente de Oliveira achar-lhe graça?

Ele tinha uma capacidade inacreditável de nos motivar. Era uma coboiada, tudo gente muito nova. Muitos foram ministros e secretários de estado, daquele grupo inicial. Aprendi que não é só o dinheiro que motiva os quadros – ele não tinha dinheiro para nos pagar, aquilo era função pública.

 

Então, com o que é que ele acenava?

Acenava com o gozo de fazer coisas bem feitas, coisas que ninguém fazia ainda, e que iam contribuir para melhorar [o país].

 

Pertencer a um grupo de elite é muito instigante. Mencionou o facto de muitos desse grupo terem sido ministros e secretários de Estado. É um modo de dizer que todos se saíram bem. Não se perdoaria se não tivesse evoluído como os outros, se tivesse ficado um pé rapado. Verdade ou não?
Sim. Mas eu, para ministro, não. Não tenho esse espírito.

 

Porquê? Não é suficientemente diplomático?

Não sei. Pode ser insuficiência minha... Mas volto às situações em que a timidez se nota mais: se o quadro é pior definido, tenho dificuldade em manobrar-me.

 

O doutoramento mudou a sua vida. Mas presumo que tenha sido a entrada na administração da EDP, em 86, que pôs fim a uma vida remediada.

Sim. Mas oiça: sempre tive uma vontade empreendedora muito grande. Mesmo na faculdade, com dois colegas, criámos o primeiro instituto interface da universidade, que nos remunerava melhor do que a faculdade, fazendo projectos de investigação, consultoria, etc. Nunca fiquei satisfeito com o meu ordenado da faculdade. Para aquilo que eu precisava, não dava.

 

O dinheiro foi mesmo um motor...

Sabe quando é que senti isso mais? Em 1983, regressado do doutoramento, fui chamado para a Marinha. Tinha 31 anos e já tinha casado duas vezes, a minha terceira filha nasceu estava eu na Marinha. Estive dois anos. Foi a altura em que me senti mais roubado. Achei que todo o investimento que o país tinha feito em mim estava a ser desperdiçado. Fui para a Marinha como Técnico Especialista de ar condicionado! Foram seis meses de revolta, e depois houve uma pessoa que me ouviu e que me pôs a dar aulas na escola naval. Ganhava uma coisa ridícula, que não dava para os comboios Porto-Lisboa. E deixei de ganhar da faculdade. Portanto, as reservas exauriram-se em dois anos. Só para lhe dizer: o dinheiro é para mim muito importante.

 

Quando é que deixou de ser importante?

É sempre.

 

Mesmo agora?

Por que é que não havia de ser?

 

Imagino que seja rico... Tem 39% da Barbosa & Almeida?

Tenho mais. A grande alteração deu-se quando em Julho de 98 disse: “Gosto muito da Sonae, aprendi muito, tive muito gozo, mas quero fazer outra vida. Em Setembro vou-me embora”.

 

Por que é queria outra vida?

O Engenheiro Belmiro tem a grande capacidade de nos pôr a ser empresários por conta de outrem...

 

O outrem é ele.

É.

 

A verdade é que na Sonae tinha um horizonte limitado. O máximo a que poderia aspirar era ser presidente de uma qualquer holding, e isso já era. No cimo da pirâmide está o Engenheiro Belmiro, a seguir estão os filhos do Engenheiro Belmiro, e só depois estão os discípulos dilectos.

Uma pessoa pode ter uma carreira profissional bem remunerada e muito gratificante numa empresa de que não é dono.

 

Mas quando se é tão ambicioso...

Não tem a ver com a ambição, tem a ver com o risco. Tive a sorte de trabalhar com o Engenheiro Belmiro, que nos incentiva a assumir riscos. E há um dia em que você se pergunta: e se eu arriscar para mim em vez de arriscar para outro? E decidi sair. No último dia, num domingo de manhã, o Engenheiro Belmiro, chamou-me: “Tenho aqui um dossiê de uma empresa que me entregaram na sexta-feira. Se você quiser ir para lá...”. Mas eu queria ia à minha vida, estava farto daquela vida corporativa...

 

Farto de famílias de dez irmãos, na verdade...

Ali são menos irmãos. Ele dizia-me: “Se aceitar, estou disposto a experimentar um novo sistema de relacionamento: você integra-se na holding, não se integra na Sonae, o report é directo”.

 

Foi um mimo irrecusável. Estava a dizer-lhe que não o queria perder, a ponto de experimentar um novo sistema de relacionamento.

É evidente que as pernas tremem perante uma situação destas...

 

Mas tremem porquê? Estou a falar de consideração pessoal.

Exactamente, fica-se muito sensibilizado. Por alma de quem é que ele está a fazer isto?

 

Sentiu-se um delfim dilecto, um filho predilecto?

Ele tem muito cuidado nessa gestão. Tem uma preocupação muito grande de não criar precedentes internos, e de não desvalorizar o valor dos accionistas. Mas consegue em cada caso encontrar soluções interessantes; e as pessoas ficam-lhe agradecidas.

 

Foi então que decidiu ficar na Sonae por mais dois anos e adiar o projecto a solo na Barbosa & Almeida.

Tinha acesso a um banco, apesar de ser domingo, e das onze da manhã às dez da noite, estive a estudar o dossiê. Quando aterrei em Lisboa, ainda no aeroporto, telefonei-lhe: “Sim senhor, aceito”. E assim começou uma vida. Disse-lhe que gostava de utilizar toda a minha remuneração variável, todo o meu bónus, para comprar acções Barbosa & Almeida. E comprei.

 

Quando rompeu definitivamente, em Abril do ano passado, quando cortou este laço umbilical, temeu as consequências dessa emancipação? O Engenheiro Belmiro não gosta nada de ser abandonado.

Era a crónica de uma saída anunciada. Havia uma valorização da empresa. A BA estava em negociações para uma fusão que não foram até ao fim. Fui ter com o Engenheiro Belmiro e disse-lhe: “Pelo preço que tínhamos fixado para esta fusão, não tenho dinheiro. Mas acho que consigo arranjar e estou disposto a comprar”. Foi uma conversa que durou meses, mas se achatar, fica isto. “Muito bem, você compra mais caro do que esse preço, (não foi mais caro), vem dois anos para a Sonae Indústria e depois volta”. Quando saí em Abril de 2005, isto não era público, mas ele e eu sabíamos.

 

Sentiu-se leve quando saiu? Está agora completamente por sua conta, não é?

Nem mais leve, nem mais pesado. Senti que foi uma mudança muito boa na minha vida. Passei a ter uma responsabilidade de empresário, portanto, a ter a preocupação de criação de valor não restrito ao negócio em que estou. De Abril a Setembro fiz um sabático: queria estudar, fazer uma lavagem, um “reset”. Quando voltei, tinha ideias, coisas novas, arranquei.

 

Tem pesadelos? Acontece-lhe sonhar com a bancarrota?

Não.

 

A vida toda perseguiu dinheiro. Imagine que corre mal... É certo que também pode ficar muito rico....

Eu não sinto nada essa riqueza, sabe? Não tenho mais dinheiro para gastar, se calhar até tenho menos. Se correr bem, e se vender daqui a dez anos, tenho mais. Mas não me dá nenhuma ansiedade pelo facto de ter um património que está ali, e que é o património da minha vida.

 

Aí não entram inseguranças?

Não. Enfim, há riscos... Mas tenho autoconfiança suficiente para perceber que ali se cria valor todos os dias. Felizmente desde Abril de 2005 as coisas têm corrido bem. A BA tem sido um exemplo. Lembro-me de lá entrar e comparar com a concorrência: eles estão lá em cima e eu estou cá em baixo. Agora estou lá em cima e olho para baixo. Com humildade, porque estas coisas mudam muito depressa. É preciso estar muito atento.

 

O que o faz correr é o dinheiro. Mas, à luz disso que diz, também é o desafio e o desejo de ser o melhor.

O dinheiro faz-me correr no sentido de eu ter comodidade de vida, fazer aquilo que gosto de fazer, etc., mas não o dinheiro pelo dinheiro.

 

Em que é que isso se traduz? Ter uma casa confortável, um carro potente, um fato Hermenegildo Zegna, férias em Panarea? Traduz-se em coisas tão simples quanto ir ao restaurante e não ter de olhar para o lado direito para ver quanto é que custam os pratos?

Mas olho. O dinheiro custa muito a ganhar. Tenho uma grande dificuldade em perceber como é que uma pessoa gasta dinheiro sem critério.

 

Não se trata de gastar sem critério. Estou a falar de lhe apetecer camarões e de escolher lulas porque é mais barato.

Não é para isso que olho. Olho para o “value for money”. Não estou a dizer que não como caviar porque é caro.

 

Se estiver entre Moet & Chandon e Murganheira é capaz de pensar que o Murganheira serve porque é mais baratinho?

Não, porque o Moet & Chando é melhor “value for money”. Não sou fona nesse sentido, não gosto é de ser explorado.  

 

Ia contar-me dos seus pesadelos...

Já não tenho pesadelos há muito tempo. É uma coisa que muda com o passar de executivo a não-executivo. Os pesadelos num executivo são muitos. O ter que fazer acontecer, o não poder falhar..., causa muita ansiedade. Durmo pouco, mas durmo bem.

 

Para quem é que faz tudo o que faz? O gozo de dar a volta a uma empresa moribunda, fá-lo a pensar em quem?

Isso é para mim. O gozo é brutal, não há nada que pague.


Estou a vê-lo ao espelho, a fazer “ya, consegui!”.

É o maior estímulo. É melhor do que um bom bónus.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2006

 

 

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