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Curso de Cultura Geral (29 Jan 2017)

Para recorrer a uma imagem poética de Ana Luísa Amaral, podemos dizer que o mundo e as pessoas, como as cebolas, são feitos de camadas. Que se complementam, contradizem, enriquecem. O que fica, da vida que vamos fazendo, dos encontros, das descobertas, é um rasto, um caminho de pontos para ligar. Neste programa, seguimos o rasto, os caminhos de uma professora e poeta, de um antropólogo, de uma artista plástica. E se apresentá-los assim é só mostrar uma das camadas, a que está mais à superfície, isso dá um primeiro mapa do mundo cultural destas pessoas. Ser culto é ter lido Shakespeare? Como é que o encontro com uma família judia, americana, pode ampliar o mundo e as possibilidades? E como é que os filmes de Truffaut podem constituir uma experiência tão singular e produzir um estado febril? 

 

A lista de Adriana Molder, artista plástica

1- A retrospectiva do Edvard Munch no MoMA, por causa do meio do caminho;

2- Ouvir o "Rio Line" dos Pop Dell'Arte (1987) na Rádio Universidade Tejo aos 12 ou 13 e entrar na adolescência;

3- Ver documentários sobre o Richard Serra e ouvir o Richard Serra a falar na Gulbenkian;

4- Ler A Paixão de Jane Eyre (de Charlotte Bronte, 1847) a ouvir os Durutti Column, estando doente com febre;

5- Todos o anos rever o The Ghost and Mrs. Muir (de 1947) do Mankiewicz;

6- Ver e rever a pintura de Carpaccio (1465/ 1525), em Veneza (Scuola di San Giorgio degli Schiavoni), em Madrid (Museu Thyssen-Bornemisza) e em Berlim (Gemaelde Galerie);

7- Acho que já vi o Shining do Kubrick (1980) para aí umas 50 vezes...;

8- Ficar doente depois de ver certos filmes do Truffaut;

9- Retrospectiva do (Odilon) Redon (1840-1916, o mais importante pintor do Simbolismo) no Grand Palais (2011);

10- Andar a pé sem destino e não fazer nada durante dias seguidos.

 

A lista de Ana Luísa Amaral, poeta e professora universitária

1- O cavaleiro da Dinamarca, de Sophia de Mello Breyner (1964);

2- Toda a poesia de Emily Dickinson;

3- Sétimo Céu, peça da dramaturga britânica Caryl Churchill (1979);

4- As peças (quase todas) e os sonetos de William Shakespeare;

5- Viagem a Manaus;

6- A poesia toda de William Blake;

7- Novas Cartas Portuguesas (1972), de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa;

8- O acto “O coro dos escravos hebreus”, da ópera Nabucco (1842), de Verdi;

9- A tapeçaria A Dama e o Unicórnio;

10- O filme Tempos Modernos, de Charlie Chaplin (1936).

 

A lista-texto de Miguel Vale de Almeida, antropólogo

1- Talvez por ser antropólogo, não consigo levar muito a sério a distinção entre cultura 1, no sentido letrado e erudito, e cultura 2, no sentido antropológico. Nem a distinção entre cultura 1 e o que hoje se designa por cultura popular (“pop culture”), uma cultura 3;

2- O prazer puro de usar a semanada para ir à papelaria da esquina comprar a revista Tintim da semana. E, nas férias de Verão, aos nove anos, montava uma biblioteca com todos os livros da casa de férias, atrás duma tábua de engomar. Alugava-os à família, excepto “Os Cinco”, que devorava eu próprio;

3- Acho que a experiência cultural por excelência talvez tenha sido o 25 de Abril. Aos 15 anos estava na UEC, namorava a filha de um conhecido pintor do PCP, um ambiente que me expôs a uma noção de beleza e cultura como algo simultaneamente democrático e engajado em mudar o mundo. Com o meu grupo de amigos, pedimos ao José Gomes Ferreira para irmos a casa dele e bebemos as suas palavras como iniciandos perante um mestre. Escrevíamos e desenhávamos, entusiasmávamo-nos com livros e, ao mesmo tempo, fazíamos campanhas de alfabetização. O resto, o estritamente político-partidário, pouco interessava, tanto que acabou depressa;

4- Os ciclos de cinema da Gulbenkian – ver todo o Hitchcock e todo o Visconti;

5- Em 1977-78 fui fazer o 12º ano nos EUA e a minha vida lá, com uma família judia praticante, foi decisiva para a minha (re)formação/formulação cultural: aprendi que poderia ter sido outra pessoa, de outra cultura, ganhei distância saudável em relação a Portugal (nunca a perdi), o meu mundo passou a falar-se também em Inglês, e foi decisivo para depois encontrar a antropologia como gosto e vocação: descobri na biblioteca da minha família americana Letters from the field de Margaret Mead; 

6- Viajar. Interail. Descobrir tudo o que não havia em Portugal – museus decentes, pintura, flanar. Beber Picasso em Barcelona, correr o Prado e deixar-me parar quando alguma coisa me interpelava. O mesmo em Washington, em Londres, em Paris;

7- O curso de formação artística da SNBA – as aulas de História da Arte do Rui Mário Gonçalves. O curso do AR.CO. Perceber arte era praticá-la, incorporá-la;

8- Retiros na zona saloia, em Porto Covo, etc., com o meu melhor amigo (hoje escritor consagrado) em que simplesmente “íamos escrever”. Contos, novelas, o que fosse. Era uma actividade lúdica. Nem me passava pela cabeça publicar (ou expor, no caso da pintura);

9- Quem me ajudou [no coming out], e a politizar a coisa desde o início, foi a banda The Communards. Isto é, foi a dançar e a sentir a batida, o lamento, a revolta, a esperança. Felizmente também apanhei os anos 80 lisboetas, o Bairro Alto, a revolta pela criatividade pop. Não queria uma identidade homossexual baseada em sofrimento ou em exemplos literários de classe alta e alta cultura;

10- As primeiras experiências de trabalho de campo, ainda na licenciatura: festas dos rapazes e de Santo Estêvão no Inverno nevado duma aldeia transmontana, e os últimos caçadores de baleia nos Açores.

 

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